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A missão do jornalismo

por Pedro Correia, em 16.08.17

Há dias, na primeira página de um jornal, li o seguinte título: "Dona da MEO convida mais de 50 trabalhadores a rescindir contratos".

Adoro estes doces eufemismos dos tempos modernos. Eufemismos como o dos recentes "furtos" de Tancos, pondo de lado a rude palavra "roubo", que ainda há pouco ouvíamos proferir a torto e a direito a propósito das mais diversas situações. Ou até a despropósito.

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores. Tão simples como isto. E tão incómodo, compreendo. Nada que um jornal deva ocultar. Porque a missão do jornalismo é relatar a verdade, não silenciar ou camuflar factos incómodos.

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36 comentários

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De Teresa Ribeiro a 16.08.2017 às 11:57

Provavelmente a maioria dos "colaboradores" dos jornais nem estranha esta novilíngua que tão bem reflecte a nova cultura do trabalho.
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 12:12

Despedir é "dispensar", na hipótese pior. Ou "reestruturar", na versão mais corrente do jornalismo fofinho agora tão em voga.
Um jornalismo que não perturba, não incomoda, não belisca. Um jornalismo que tudo suaviza, tudo adocica.
E que se comporta assim por opção deliberada dos próprios responsáveis editoriais, que recomendam aos jornalistas para não fazerem ondas nem incomodarem os responsáveis dos diversos poderes públicos.
Ondas, só as da praia e dos campeonatos de 'surf'.
O que está a dar é isto.
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De Justiniano a 16.08.2017 às 16:00

Vem a propósito a reportagem de hoje do público. Antigamente dizia-se o patrão! Neste tempo, não há patrões. Há gestores, sem responsabilidade para, sequer, gerir uma venda de aldeia!
Era tudo gente respeitável, do melhor que se podia encontrar em Portugal. No fundo diziam-se, de si próprios, colaboradores. Uns dos outros, claro está!
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 16:33

Os trabalhadores deixaram de ser denominados desta forma. Como se o trabalho envergonhasse alguém. Tornaram-se "colaboradores". Como se trabalhar e colaborar fossem sinónimos.
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De Justiniano a 16.08.2017 às 17:43

Agora é tudo anónimo e impessoal. O patrão é anónimo e os colaboradores são circunstantes, também, anónimos!!
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 18:27

Os patrões também acabaram: tornaram-se todos empresários, com ou sem aspas. E chefes, só na cozinha.
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De Bailarina Da Lua a 16.08.2017 às 12:21

Olá,
Convidam delicadamente a sair, esqueceram-se de referir que quem não está disposto a rescindir , delicadamente são "vencidos pelo cansaço".

Não estou a falar por falar , porque embora não trabalhe na MEO , trabalho directamente com a MEO.
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 12:44

A tal notícia, lamentavelmente, omitiu se o gentil "convite" incluía também chá e biscoitos...
A MEO, neste caso, funciona como exemplo. A actual tendência jornalística de limpar arestas e optar por um vocabulário fofinho verifica-se a propósito de outra empresa qualquer.
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De Bailarina Da Lua a 16.08.2017 às 12:46

Garanto que não há bolinhos ... Enfim ...
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 13:22

Pois, faço ideia. Nada a ver com o que aquele amável título sugere.
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De sampy a 16.08.2017 às 12:38

Enquanto o despedimento for tido por crime neste nosso país proto-comunista, o eufemismo continuará a ser uma necessidade.

A título de curiosidade, a excepção à regra: os jornalistas desportivos não costumam ter grandes pruridos com a dita palavra. Um mundo à parte...
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 12:41

O chamado jornalismo desportivo também cultiva uns eufemismos muito específicos. O seu comentário estimula-me a trazê-los aqui um dia destes.
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De Luís Lavoura a 16.08.2017 às 13:08

O despedimento não é crime em Portugal. Aliás, um despedimento de 50 trabalhadores configura um despedimento coletivo, que, em Portugal, não somente não é crime como também, ao que já li, tem regras bem mais laxas do que noutros países europeus. (O despedimento individual é que tem regras deveras apertadas em Portugal.)
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De Costa a 16.08.2017 às 16:26

Um coletivo de laxas, aliás.

Deve ser uma substância que cola laxas. Não sei o que são laxas, todavia.

Costa
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 16:33

Laxas será abreviatura de lagartixas?
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De Costa a 16.08.2017 às 17:11

Ou será que uma regra bem laxa é um preceito que, se seguido, provoca uma notável purga do aparelho digestivo? Mas em tal caso como se enquadra no raciocínio uma substância que cola?

E eu que pensava num tranquilo final de dia, lendo ociosamente umas páginas. E vem o Lavoura lançar um desafio deste calibre!

Costa
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 17:25

Funciona de algum modo como laxante.
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De Luís Lavoura a 17.08.2017 às 09:24

la·xo
(latim laxus, -a, -um)
adjectivo

1. Que tem folga ou não está esticado.

2. Que não tem força ou energia.


Sinónimo Geral: BAMBO, FROUXO, LASSO

em https://www.priberam.pt/dlpo/laxo
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De sampy a 16.08.2017 às 17:48

Ai, Lavourinha, quantas vezes vai ser preciso fazer-te um desenho?...
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De glu glu a 17.08.2017 às 04:50

penso ter sido utilizado o imperativo.

Portugal, laxa lá mais as regras, pá!
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De Pedro Correia a 17.08.2017 às 08:03

Laxo que sim.
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De Maria Dulce Fernandes a 16.08.2017 às 12:51

É um tanto paradoxal o jornalismo que se faz.
Se por um lado se empenham em impressionar , afrontar e comover o público com toda a sorte de desgraças, exploradas até à exaustão, porque a desgraça vende (o shock and awe tornou-se doutrina de todos os media), por outro lado e perante outras desgraças também de grande impacto, limam as arestas e douram as pílulas. Porque não convém divergir atenções para realidades "alternativas" à realidade com que nos modorram ?

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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 13:22

Em tudo quanto é realmente relevante, Dulce, a regra actual manda suavizar, limar, arredondar. Alguns directores chegam a dizer aos jornalistas para não lhes "arranjarem chatices" com notícias incómodas.
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De Maria Dulce Fernandes a 16.08.2017 às 13:38

Daqui, até pôr em cheque a credibilidade de toda e qualquer notícia e a integridade do jornalismo- porque achar uma agulha num palheiro viciado desmoraliza muito para além da dificuldade - a distancia é um número negativo.
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 14:06

O próprio acto de questionar é hoje posto em dúvida por responsáveis editoriais nas redacções. Entendem que os seus jornalistas fazem "demasiadas perguntas" e deste modo maçam os interlocutores e podem até (horror...) "afugentar potenciais anunciantes e patrocinadores".
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De Anónimo a 16.08.2017 às 15:03

Até agora as coisas incompreensíveis para mim que
aconteciam no nosso País pensava eu que se devia ao facto
de ser emigrante... esta classe tão estrondosamente inculta.
Por um lado lamento o que se passa e por outro verifico que afinal
não estou tão sozinha. Geringonça é sem dúvida o que melhor caracteriza
o meu País. Tristeza
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 15:27

Jornalismo fofinho é o que está a dar. Um diário de Lisboa hoje quase esconde a tragédia da Madeira na primeira página. Treze mortos e 49 feridos, muitos em estado grave, são uma irrelevância para este periódico.
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De Paulo a 16.08.2017 às 14:49

Desde há muito tempo que deixou de se dizer ou escrever burla e passou a ser desvio. Desta forma deixou de existir a figura do burlão. Esta alteração de termos e identificação, conforme é mencionado no post, é devido à comunicação social que, de social já nada possuí. A expressão de chamar os bois pelos nomes desapareceu. Na minha opinião, o motivo é simples: uma promiscuidade com o poder político. Este poder que alberga a classe de pessoas mais execrável de Portugal, desde falsos, mentirosos, aldrabões, incompetentes, corruptos, sacanas, interesseiros,...possuí uma influência enorme em diversos pontos estratégicos da nossa sociedade livre e democrática. Por tudo isto é que pagamos muito caro a liberdade e a democracia.
Os políticos não são gente séria. São gente oportunista que a lei, feita à medida dos mesmos, permite imunidade de tudo fazer e dizer. Não querendo fugir ao tema do post, mas apenas para dar um exemplo do que acabei de escrever, veja-se o caso dos deputados da assembleia da república que podem faltar ao trabalho referindo motivo de força maior. Onde é que en Portugal existe outro emprego onde se possa faltar com esse motivo? Esta gente que deveria dar o exemplo, foge da responsabilidade.
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 15:31

Morrer é "falecer".
Matar é "tirar a vida".
Assassinar alguém é "cometer um acto impensado".
E mil etcs.
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De glu glu a 16.08.2017 às 15:05

infelizmente aquilo que outrora se designava genericamente "variedades" designa-se agora "jornalismo". as "banalidades" passam por "notícias" e tudo continua a girar em grande paródia. tão rapidamente despacham um perito em saúde pública como perdem tempo com as selfies do CR7(tm).
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 15:28

Tudo ao molho e fé nos 'likes'.
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De Tiro ao Alvo a 16.08.2017 às 15:54

Tem razão, Pedro: generalizou-se o jornalismo "fofinho", "redondo".
Ao tentar entender este "fenómeno" tenho-me esbarrado com a ideia de que, também, o nosso sistema judicial tem algumas responsabilidades, tendo em conta o "garantirismo" que concede aos "ofendidos". Para mim, só esse medo da justiça justifica que raramente apareçam na comunicação social certas palavras, como assassino, ladrão, burlão, corrupto, etc., e, quando isso acontece venham sempre acompanhadas a repetida e, por vezes, despropositada da palavra "alegado/a". Acredito que as chefias das Redacções venham recomendando aos jornalistas para evitarem problemas com a justiça, problemas que, para além de roubarem tempo, custam sempre muito dinheiro, mesmo que sejam absorvidos em julgamento.
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De Pedro Correia a 16.08.2017 às 16:38

Esse receio levou por outro lado à proliferação - e consequente abuso - do vocábulo "alegado".
Tudo passou a ser alegado. O alegado prevaricador, o alegado pedófilo, o alegado burlão.
Já li notícias sobre assassinos confessos e condenados em que os visados eram tratados por "alegado homicida". Com suavidade e fofura.
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De Luís Lavoura a 16.08.2017 às 17:17

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores.

Não. O que a MEO quer é que 50 trabalhadores se vão embora, mas sem que ela tenha que os despedir. A MEO não os quer despedir; o que quer é que eles rescindam os contratos. São coisas diferentes: se a MEO os despedir, tem que os indemnizar, mas se eles rescindirem os contratos, não tem.

Portanto, a notícia é rigorosa, trata-se de um convite à rescisão de contratos, não se trata de um despedimento.

Onde pode haver eufemismo é na palavra "convite" - geralmente este tipo de "convites" vem acompanhado de ameaças ou de pressões.
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De Anónimo a 20.08.2017 às 21:22

> a missão do jornalismo

... é separar os anúncios uns dos outros.

Por vezes, arejar as zangas de comadres.

Tudo o resto é credulidade e boa-fé que vai ser esmifrada impiedosamente.

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