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A independência da Escócia.

por Luís Menezes Leitão, em 17.09.14

 

Não acredito na vitória do Sim no referendo de amanhã, em virtude da artilharia pesada utilizada nos últimos dias pelos defensores do Não, sendo que até a Rainha, quebrando a sua tradicional neutralidade, decidiu fazer campanha nesse sentido. Tal não significa, no entanto, que não tenha simpatia pela proposta de independência escocesa, até pelo paralelo com a independência portuguesa. Na verdade, Portugal nunca perdeu a independência, uma vez que houve apenas uma união pessoal, com o Rei de Espanha a ser a partir de 1580 também Rei de Portugal. Na mesma altura, Jaime VI, Rei da Escócia desde 1567 adquire a coroa inglesa  em 1603, ocorrendo também uma união pessoal das duas coroas, mas com os reinos a manterem-se separados. A partir de 1707 Escócia e Inglaterra formaram o Reino da Grã-Bretanha, passando a união pessoal desses reinos a uma união real, com a formação do Reino Unido. É o que teria a sucedido a Portugal se em 1 de Dezembro de 1640 um grupo de patriotas não tivesse expulsado o monarca espanhol, data que este governo vergonhosamente proibiu que fosse celebrada. Se a Escócia se tornasse amanhã independente, só se estaria assim a corrigir uma injustiça histórica, que Portugal conseguiu a tempo evitar.

 

A Escócia tem todas as condições para ser independente. Tem recursos naturais, uma economia estável, um bom sistema de segurança social e uma população qualificada. A dissolução da Jugoslávia demonstra, por outro lado, que não são os opositores da independência que a conseguem travar quando os povos querem seguir o seu próprio destino. A Croácia e a Eslovénia foram envolvidas numa guerra civil e isso não foi motivo para prescindirem da sua independência. O argumento de que a União Europeia rejeitaria a entrada da Escócia é perfeitamente ridículo. A Escócia está na então CEE desde 1973 e é evidente que ninguém se atreverá a rejeitar a sua entrada quando se admitiu a Croácia e a Eslovénia. E mesmo que rejeitasse, só a União Europeia é que perderia com isso, dado que a Escócia ficaria em posição similar à da Noruega, que demonstrou que se pode viver perfeitamente fora da União.

 

É por isso que, embora me palpite que a artilharia dos últimos dias vai levar o Não a ganhar por larga margem, compreendo perfeitamente os apoiantes do Sim. Outro dia encontrei um escocês que me garantiu que ia votar Sim, pois achava que era uma oportunidade histórica, que só tinha surgido uma vez em 300 anos, e que por isso não poderia ser desperdiçada. Tive que concordar com ele.

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8 comentários

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De Quites a 18.09.2014 às 08:52

No outro dia encontrei um algarvio que acha a Ilha da Culatra deve ser independente.
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De Maria Dulce Fernandes a 18.09.2014 às 11:32

http://expresso.sapo.pt/nem-so-com-escoceses-se-faz-um-referendo=f889908?utm_source=newsletter&utm_medium=mail&utm_campaign=newsletter&utm_content=2014-09-18 :)
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De Luís Lavoura a 18.09.2014 às 12:02

Concordo plenamente com este post.
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De Mário Pereira a 18.09.2014 às 12:15

Os apoiantes do não, que em Portugal parecem largamente maioritários, pelo menos ao nível dos comentadores, vão logo à noite, inchados de satisfação, tecer loas ao Reino Unido, por ter sido possível realizar este referendo e tal e coisa.
Claro que o Reino Unido é digno de elogios, o que duvido é que os tais comentadores os fizessem se ganhasse o sim. Digo isto porque me faz sempre alguma impressão ouvir/ler comentários contra os referendos, porque não são oportunos, porque são terreno fértil para populismos, bla-blá-bá.
Por mim, o Reino Unido dá de facto uma lição de democracia a Madrid, que se refugia na Constituição para não fazer o mesmo, esquecendo que a união de povos diferentes é como a união de duas pessoas: tem que ser voluntária e igualmente boa para ambas as partes.
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De Rui Ramos, no Observador a 18.09.2014 às 16:54

As nações, os Estados, e os regimes não são assunto ao nível do governo ou da política económica. Mudar de governo é uma coisa, mudar de país é outra. Se uma separação escocesa reflectir simplesmente o desagrado com o actual primeiro-ministro, como Cameron receia, ou a ilusão welfarista inspirada pelo mar do Norte, isto significa que, no caso da Escócia, uma elite política dividida e confusa expôs o que era património da história e reservatório de princípios ao acaso dos humores e demagogias de um momento eleitoral. Não haverá talvez melhor exemplo do fracasso das actuais lideranças políticas no Ocidente.
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De lucklucky a 18.09.2014 às 19:18

"As nações, os Estados, e os regimes não são assunto ao nível do governo ou da política económica."

Claro que são. Basta olhar para a emigração quando muda a política económica.
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De AEfetivamente a 19.09.2014 às 09:41

Concordo totalmente com esta posição e análise. Acho mesmo que o medo venceu. E ouvi na rádio, há pouco, que "a Europa respira de alívio", o que me deixa ainda mais convencida disso mesmo. Enfim, uma oportunidade histórica que se foi.
Bom fim de semana.
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De João Sousa a 20.09.2014 às 12:32

O Governo não "proibiu" que o 1º de Dezembro fosse celebrado. Tanto quanto sei, nem a polícia me virá prender, nem o SIS me dedicará atenção especial se eu me entregar a essa "actividade subversiva"...

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