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Um editorial não é uma crónica. Convém que os membros da direcção de um jornal sejam os primeiros a não estabelecer confusões entre os dois géneros jornalísticos. Com clareza e rigor.

A crónica reflecte uma visão pessoal, necessariamente muito subjectiva e de preferência original sobre um tema qualquer à escolha do autor. Pode ser até sobre o bei de Tunes, para evocar o clássico exemplo de Eça de Queirós, quando era afectado por uma súbita crise de inspiração ou vogava num deserto de ideias. "Em Tunes há sempre um bei; arrasei-o", confessou o escritor, com óbvia ironia, em carta a Pinheiro Chagas.

O editorial, pelo contrário, reflecte a posição do próprio jornal. Não é escrito na primeira pessoa do singular e abarca uma gama mais reduzida de temas - debruçando-se de preferência sobre um dos assuntos dominantes da actualidade noticiosa do dia.

 

No editorial de hoje do El País podemos ler a posição do mais influente periódico espanhol sobre a rede de corrupção que afecta o PP madrileno. O editorial do Guardian pronuncia-se em termos críticos sobre a convocação de eleições legislativas antecipadas no Reino Unido, ontem anunciada por Theresa May. O editorial do Washington Post emite um forte juízo crítico sobre o recente referendo turco, ganho tangencialmente por Erdogan.

Por cá, nas direcções de jornais, há quem confunda editorial com crónica. Escrevendo sobre irrelevâncias na primeira pessoa do singular, confundindo opinião própria com opinião do jornal. Exemplo? Aqui vai um, também de hoje: «Como tantos outros portugueses, quando viajo numa estrada com três faixas tenho uma tendência quase irresistível para seguir pela do meio. Viajar na faixa central coaduna-se com a velocidade moderada a que conduzo e permite-me manter as opções em aberto.» Começa assim o editorial do i, assinado por José Cabrita Saraiva, "subdirector executivo" (passe a redundância).

Como se estivesse numa conversa de café, a cavaquear entre amigos.

 

Tanto se fala hoje na crise do jornalismo. Pois essa crise começa precisamente em pormenores como este: um membro da direcção de um jornal não fazer a mais remota ideia do que é um editorial. Num país que, noutros tempos, contou com uma Agustina Bessa-Luís, um Vitorino Nemésio, um David Mourão-Ferreira, um Francisco de Sousa Tavares, um Mário Mesquita ou um Vicente Jorge Silva entre os editorialistas da imprensa.

Vai um abismo entre uma época e outra.

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 19.04.2017 às 15:50

Bom post.
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De Costa a 19.04.2017 às 16:18

Um abismo que em lugar de ser reconhecido e combatido (ainda que o fosse com sucesso não mais que medíocre) é esmeradamente cultivado. Precisamente por quem deveria chamar a si a rejeição destes tempos de estupidificação e triunfo da banalidade. Mal de um jornal, de facto, quando chama à dignidade de editorial um tema de algazarra de facebook ou vacuidade afim.

Haja circo.

Costa
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De Pedro Correia a 19.04.2017 às 16:52

É também nisto um esclarecedor sinal dos tempos: enquanto se presta culto à irrelevância, evita-se abordar questões polémicas.
Quanto mais inócuo melhor.
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De Luís Lavoura a 19.04.2017 às 18:33

Neste post compara-se o editorial de um jornal português com editoriais de jornais espanhóis, ingleses e americanos.
Mas a comparação não colhe, porque as tradições são diferentes. Na Espanha, na Inglaterra e nos EUA há a tradição de os jornais serem partidários. As pessoas compram um determinado jornal para se sintonizarem com opiniões coincidentes com as delas. Os jornais espanhóis, ingleses e americanos são, em grande parte, assumidamente e descaradamente partidários, têm uma côr política bem vincada.
Em Portugal, desde o 25 de Abril, a tradição é distinta: os jornais são apartidários e independentes. Logo, não têm opinião. Logo, não tem cabimento, num jornal português, haver um "editorial" como os há nos jornais ingleses, pela simples razão de que os editores de um jornal português não são supostos tomar partido.
Portanto, num jornal português um editorial é fundamentalmente diferente de num jornal inglês. Neste último, o editorial é a opinião do jornal. No português, o editorial é a opinião pessoal de um dos editores do jornal.
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De Costa a 19.04.2017 às 23:58

Os jornais portugueses o quê?...

Costa
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De Pedro Correia a 20.04.2017 às 11:32

Deixe estar. Ele não faz a menor ideia.
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De por linhas tortas a 19.04.2017 às 23:10

A modos que: "tass bem!"

Portugal é meu.
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De Pedro Correia a 20.04.2017 às 11:30

Você também circula na faixa central?
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De Desconhecido Alfacinha a 20.04.2017 às 08:11


Caríssimo,

Bom Post, mas infelizmente nos dias de hoje tal abismo não se limita apenas a Editoriais e Jornalistas... Tentemos (todos) corrigir/melhorar o possivel !

Forte abraço
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De Pedro Correia a 20.04.2017 às 11:29

Sim, mas neste caso - a porta de entrada ou o cartão de visita de qualquer jornal - a diferença é gritante, meu caro.
A questão é que ninguém debate estes temas porque o jornalismo é uma das actividades menos escrutinadas em Portugal. Todos falam em surdina, todos se calam em público.
Pensemos num "editorial" destes - subscrito por alguém incapaz de descortinar diferença entre opinião própria e opinião do jornal onde assume um destacado cargo hierárquico - e comparemo-lo com os grandes textos do género da imprensa portuguesa das décadas passadas, sem sequer necessidade de recuar muito. Existe de facto um abismo: é o termo certo.

Um forte abraço.
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De JPT a 21.04.2017 às 15:30

Vamos lá ver: trata-se de um editorial de uma besta que declara que guia na faixa do meio. Cabe, por isso, dar o devido desconto.
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De Pedro Correia a 21.04.2017 às 15:41

Se a forma já é lamentável, o conteúdo não lhe fica atrás. Estas coisas andam sempre aos pares.

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