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A gestão do medo

por Rui Herbon, em 04.11.14

sem nome.pngA guerra fria foi construída sobre o medo. Cada vez que um presidente americano se reunia com um líder soviético era um acontecimento preparado durante meses, amplamente noticiado e durante o qual se assinavam acordos que serviam de bem pouco. Desde Nixon e Brejnev que o tema recorrente era como reduzir os arsenais nucleares, que se multiplicavam periodicamente para prevenir o ataque do adversário. Esgrimia-se a doutrina da mutual assured destruction (MAD, muito apropriadamente), que consistia em assegurar a completa aniquilação das duas potências caso uma delas disparasse o primeiro míssil. Havia que evitar o primeiro golpe, que, de facto, nenhuma das duas se atreveu a desferir. Havia medo, apesar dos arsenais militares (nucleares e convencionais) que ambos os impérios armazenavam no seu território e no dos seus aliados. 

 

O presidente Lyndon Johnson disse ironicamente que o único poder que lhe restava era o de apertar o botão vermelho, e que nem isso podia fazer. Em 1963 estabeleceu-se uma linha directa entre Washington e Moscovo, o célebre telefone vermelho, para prevenir as consequências de um acto de loucura unilateral. Não consta que tenha sido utilizado muitas vezes. Desmoronou-se a União Soviética e o regime que a sustentava, mas o medo continuou a dominar as relações internacionais. De facto, todos os conflitos partem do medo ao outro e da necessidade de dominá-lo ou destruí-lo para obter uma certa segurança.

 

O medo percorre agora o mundo porque alguns ocidentais foram infectados pelo ébola. Os governos tiveram que manifestar a sua preocupação sem saber exactamente o que deviam fazer. O pânico tem uma dimensão política, mas são os médicos e especialistas em saúde quem pode tranquilizar a população assustada. Há medo da deflação, do desemprego, do Estado Islâmico, da Rússia, da China e das demais potências emergentes. Medo da falência do Estado Social.

 

Cada indivíduo e cada país constrói os seus próprios medos. O desaparecido historiador e ensaísta Tony Judt afirma que «entrámos numa era de temor em que a insegurança volta a ser um ingrediente activo da vida política das democracias ocidentais». A insegurança causada pelo terrorismo é evidente. Mas há uma forma mais insidiosa, que é o medo à velocidade incontrolável da mudança, o medo de perder terreno face aos outros numa distribuição de recursos cada vez mais desigual, o medo de perder o controlo das circunstâncias e rotinas da nossa vida diária. E, talvez sobretudo, «o medo de não sermos apenas nós que não possamos dirigir as nossas vidas, mas que aqueles que exercem o poder também tenham perdido o controlo, que agora está nas mãos de forças que se encontram fora do seu alcance».

 

Temos medo também porque a confiança nos governantes diminuiu de forma alarmante. O medo tira-nos liberdade porque nos torna mais vulneráveis. Nos formidáveis tempos da socialização da informação e da opinião em que vivemos, é frequente inteirarmo-nos de que pessoas conhecidas, famosas e com grande autoridade no mundo da comunicação deixaram o Twitter porque não resistiam aos insultos, anónimos ou não, que recebiam por haver emitido uma opinião contrária aos cânones do momento.

 

O século XXI começou com a insegurança dos Estados Unidos que, apesar da sua superioridade militar, política e económica, eram atacados num dos símbolos mais emblemáticos do seu poderio com o resultado de mais de três mil mortos em Nova Iorque. Voltou a colocar-se o choque entre liberdade e segurança. George W. Bush optou pela segurança, causando uma deterioração nas liberdades individuais e colectivas em todo o mundo.

 

Os seus assessores não tiveram em contado o que Karl Popper escreveu sobre o assunto, dizendo que «não há liberdade se o Estado não a assegura, e só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes uma segurança razoável». Em nome da segurança não se dão explicações e os governos actuam pensando que protegem o bem dos cidadãos ainda que eles não o saibam. Um certo "despotismo democrático" desenha o que Zigmunt Bauman denomina de complot do medo, que consiste na possibilidade de uma pessoa se ver excluída ou marginalizada.

 

Sem a existência de indivíduos angustiados, diz Bauman, não poderíamos imaginar a necessidade da existência do Estado, que é um administrador do medo, uma fábrica de reciclagem do medo. Nestes momentos de uma certa confusão é preciso reivindicar a liberdade face ao temor que afecta muitos, desde os mais poderosos aos mais simples, porque só desde a liberdade poderemos avançar rumo ao progresso, à convivência e à preservação do contrato social. Liberdade para reivindicar uma sociedade mais justa e respeitadora daqueles que pensam de outra maneira sobre questões diversas.

 

Há um tipo de medo que pode invadir uma sociedade democrática, e é o pior dos medos: o que pode impedir-nos de pensar por conta própria, ter um critério pessoal sem necessidade de seguir a corrente, ainda que seja maioritária.

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7 comentários

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De L. Rodrigues a 04.11.2014 às 11:48

"Há um tipo de medo que pode invadir uma sociedade democrática, e é o pior dos medos:"

Discordo que estes seja o pior dos medos. Será um medo, se exercido sem sentido crítico. Mas o mito do herói individualista que pensa acima da manada (como celebrado por Ayn Rand) também é alibi de muito sociopata.
Tenho mais medo de uma sociedade que não desenvolve anticorpos contra os que a escolheriam destruir.
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De Vento a 04.11.2014 às 19:14

Hoje vive-se com medo de tudo: do colesterol, do avc, do cancro, da morte, da miséria, dos governantes, dos governados dos islamitas e dos cristão, dos judeus, hindus e todos os demais, de palhaços e de homens e de mulheres.
E destes medos eu tenho medo de não ter medo. E tenho medo porque sinto-me desconfortável em ser diferente.
E o ser diferente coloca-me perante duas forças: a de pensar que não quero ser diferente, e não cair na pantominice de cultivar o eu, e a de ser igual, mas continuar a cultivar os pensamentos e as descobertas que vou fazendo.
Neste sentido, o sentir que não partilho das preocupações comuns tem-me oferecido mais trabalhos que vaidades.

No entanto reconheço que é bom ter medo, porque o medo pode gerar equilíbrios.
Quando se iniciou esta questão no médio oriente, em torno do dito Estado Islâmico, encontrei pontos favoráveis para este caos. E afirmei que o mesmo ajudaria a reorganizar a ordem na região e também mundial. Disse também que os inimigos de outrora seriam os amigos no presente. E os sinais vão surgindo.
Não é por acaso que, por exemplo, começamos a ver aberturas onde elas não se vislumbravam:

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2014-11-03-Lider-do-Hezbollah-faz-rara-aparicao-em-publico-em-Beirute

http://www.sapo.pt/noticias/israel-reabre-na-terca-feira-passagens-para-a_5457fb2f368e78c454023050

Não tenham medo. Usem o medo que têm para ver as vantagens do medo.

Libertem-se da cultura do medo que promete saúde, vida, bem-estar, abundância e etc. e tal, pois por muito que façais não alterareis um só milímetro do que deve acontecer. E o que deve acontecer acontece mesmo fazendo, porque devemos fazer.
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De João André a 06.11.2014 às 09:22

Bela reflexão Rui.

Eu acrescento-lhe dois pontos:
1. O medo surge essencialmente devido à ignorância - ou, por outras palavras, devido a desconhecermos algo. É isso que causa insegurança e consequentemente o medo. Por exemplo, mesmo sabendo que iremos morrer, não temos medo disso em si, apenas não queremos deixar de viver. Todos os temas que referiste advêm dessa ignorância acerca de algo. Não é uma ignorância com responsáveis - não podemos saber tudo - mas é apesar de tudo uma ignorância que nos deixa receosos do que possa acontecer.
2. No mundo mais informado de sempre estamos apesar de tudo com mais medo que nunca. E sendo o medo (de acordo com o meu primeiro ponto) uma consequência da ignorância, isto torna-se contraditório. Isto sucede porque apesar de cada vez mais informação nos entrar pela casa adentro, essa informação é cada vez mais superficial. O tempo é limitado - não estica - e por isso sacrifica-se a explicação e a análise objectiva e crítica para se dar mais espaço a novo pedaço de informação. Isto é feito em noticiários, nas leituras na rede, em pesquisas de bibliografias, etc.
Como tal estamos mais conscientes que nunca da existência de factores de risco mas cada vez os conhecemos pior.

PS 1 - até pensei que fosses buscar o discurso de Kennedy: a única coisa de que devemos ter medo...
PS 2 - um pedido: escreve antes Brejnev em vez de Breyhnev. A segunda é a forma inglesa de escrever foneticamente o nome do líder soviético. Cometemos excessivamente esse erro.
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De Rui Herbon a 06.11.2014 às 12:22

Costumo escrever Brejnev, mas aqui fui atrás de algumas fontes que estava a consultar (em inglês, claro). Obrigado pelo reparo.
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De João André a 06.11.2014 às 12:39

E eu fiz uma outra asneira ao colocar um y onde queria um z. Coisas de usar outro teclado e não olhar para o que escrevo quando estou a carregar nas teclas.
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De Pedro Correia a 06.11.2014 às 18:27

Muito bem, Rui. Subscrevo.
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De Rui Herbon a 06.11.2014 às 21:54

Um abraço, Pedro.

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