Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

500_9789722062701_o_pianista_de_hotel.jpgAdeus Princesa.jpgHotel Lusitano.jpg

 

Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


6 comentários

Sem imagem de perfil

De Edie Falco a 09.05.2017 às 00:43

Então andamos todos aqui a tentar apagar a Clara Pinto Correio e a Sra. escreve um post desses? CPC estava tão sossegada, no esquecimento. Subverter esta ordem para quê?

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D