Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A força dos micropoderes

por Rui Herbon, em 06.10.14

Há um quarto de século caíam muitas fronteiras, acabava a guerra fria, começava o desmantelamento da União Soviética e o mundo parecia entrar num estado de perpétua paz kantiana, depois do triunfo inquestionável das democracias liberais. Há dias segui com interesse a entrevista que Stephen Sackur fazia a Francis Fukuyama no espaço Hard Talk da BBC, pelo qual passam líderes políticos, sociais e académicos do mundo inteiro. Fukuyama foi há 25 anos o autor do controverso livro O fim da história e o último homem (Gradiva, 1999), no qual estabelecia que após a queda do bloco comunista a história havia dado o seu veredicto definitivo já que as democracias liberais tinham derrotado os seus rivais ideológicos. Fukuyama argumentava que as teses do seu trabalho haviam sido mal interpretadas. Possivelmente. Mas a euforia de muitos académicos com um mundo sem conflitos após a vitória das democracias baseadas na economia de mercado foi destruída pela realidade.

 

A instabilidade é hoje a grande inquietude num mundo submetido às transformações que agitam o começo de um milénio no qual os conflitos tentam apagar fronteiras estabelecidas (na Ucrânia, Síria ou Iraque) ou onde o Ocidente é desafiado por um Estado Islâmico que nos oferece o perverso espectáculo da degolação de reféns, difundido globalmente através das redes sociais.

 

O crescimento espectacular da China, um país oficialmente comunista, não dá razão a Fukuyama, que acaba de publicar outro ensaio, Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy (Farrar, Straus and Giroux, 2014), muito mais realista mas tão ou mais desconcertante que o que escreveu no termo da guerra fria, uma espécie de revisionismo pela mão dos matizes e das fragilidades humana e colectiva ao longo dos séculos.

 

A natureza e o exercício do poder estão a transformar-se. Ser melhor ou mais poderoso já não garante impor a ordem nas grandes burocracias estatais. Nem a ordem mundial a partir destas. Exemplifica-o muito bem Moisés Naím no seu livro O fim do poder (Gradiva, 2014) quando diz que o que está a transformar o mundo é a ascensão dos micropoderes e a sua capacidade para desafiar com êxito as grandes potências políticas, económicas ou militares. O grande também é vulnerável.

 

Obama pode bombardear posições do Estado Islâmico destruindo bases e matando umas centenas de jihadistas. Inclusive pode fazê-lo com a cooperação de estados árabes, mais as intervenções da França e de outros aliados. O problema coloca-se quando esses párias decapitam em directo reféns ocidentais. Se o futuro do poder está na perturbação e na interferência, e não na gestão nem na consolidação, diz Naím, não podemos confiar que volte a haver estabilidade. Entrámos num novo mundo sem saber quais são as regras do jogo.

Autoria e outros dados (tags, etc)


11 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 06.10.2014 às 10:20

A instabilidade é hoje a grande inquietude

Em português diz-se "inquietação". "Inquietude" é francês.

as democracias liberais tinham derrotado os seus rivais

Em Berlim, há muitos anos, vi escrito: Der Westen hat nicht gesiegt, er ist einfach uebriggeblieben, ou seja, "o Ocidente não venceu, apenas ficou (ou restou)". É a verdade.

um Estado Islâmico que nos oferece o perverso espectáculo da degolação de reféns

Como foi há dias salientado pelo Economist, a degolação de pessoas é prática corrente na Arábia Saudita, um bom aliado do "Ocidente". É verdade que não nos é oferecida como espetáculo no YouTube, mas nem por isso deixa de ser uma realidade quase quotidiana.
Imagem de perfil

De Rui Herbon a 06.10.2014 às 12:32

Em português diz-se a que se preferir, porque são sinónimos.

No resto tem razão.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 07.10.2014 às 13:20

Não percebo a obsessão pelo Estado Islâmico e do corte de cabeças. Não é diferente da Al-Nusra, da Al Qaeda, do Heezbollah, da Irmandade Muçulmana, da Republica Islâmica Iraniana, da Arábia Saudita etc, do AKP Turco, do Hamas a matar palestinanos e a arrastá-los pelas ruas. Todos eles querem as expansão do Islão. Também combatem entre si Sunitas contra Xiitas mas a ideologia é a mesma, como Estalinistas contra Trotskystas.

É claro. que não pode haver estabilidade. Os jornais dedicaram-se a recompensar sempre a instabilidade excepto na Europa. Aí fecham.
Na Europa o fait accompli é a regra.
Hoje continuamos em plena censura de uma guerra na Europa, na Ucrânia. Todos os jornalistas Ocidentais e Russos continuam a censurar activamente o que se passa na Ucrânia.
Sem imagem de perfil

De Vento a 06.10.2014 às 11:56

Pois é, Rui. Na realidade, o que hoje assistimos revela que não pode existir uma globalização, isto é, uma união dos povos sem respeito por cada indivíduo e por cada matiz cultural.
O mundo ocidental, em particular o das sete irmãs, e especificamente os EUA, para poderem fugir à imposição dos credores na indexação do dólar ao padrão ouro (foi nesta altura que emergiram os petrodólares), inicia nos anos 70 a sua revolução "cultural" apadrinhando regimes de toda a espécie nos locais onde o ouro negro corria.
Também assistimos que as empresas indexadas a estes negócios apresentavam valores de cotação em bolsa muito superiores aos stocks que efectivamente tinham.
E porquê? Porque eram considerados como stocks o crude que não lhes pertencia e que se encontrava nas jazidas de outros territórios um pouco por todo o mundo.
E quando algum antigo ditador apadrinhado se opunha em uma qualquer medida desagradável às estratégicas políticas de consolidação de reservas energéticas e de hegemonia monetária, nada mais fácil que usar da forma e de estratagemas político-sociais, ditos ideológicos, para garantir efectivamente o controle de tudo quanto "afectivamente" consideravam seu.

Vai daí, em confronto com os deuses mamons (os senhores do poder e do dinheiro) emergem as raízes religiosas, que são as únicas que criam laços de unidade naqueles que sentem estar a ser trucidados e esmagados por interesses que lhes são alheios.

Mais ainda, num mundo desenhado e espartilhado pela tecnologia de vigilância, os mamons e os escravos dos mamons começam a dar-se conta que acima de tudo isso pode o desejo de LIBERDADE que emerge do mais profundo do Ser.

Sem dúvida que aos exageros anteriores opõem-se outros exageros. Mas no fundo são semelhantes e revelam que a natureza humana em matéria de morte usa dos mesmos princípios, diverge somente nas subtilezas.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 07.10.2014 às 13:09

A esperada narrativa Marxista.

O que existe são Islamistas que tal como Marxistas Leninistas são Totalitários, para quem a Liberdade de um indíviduo é muito restrita.
Ideologia.
Sem imagem de perfil

De Vento a 07.10.2014 às 19:13

Solicito que não veja intenção minha a que se reveja no "personagem, mas se eu quisesse descrever a experiência de Pavlov e extrapolá-la para o universo humano não poderia usar melhor imagem que as suas interpretações/reacções aos meu comentários.
São sempre iguais.
Não é capaz de fazer melhor? Eu gostaria que fosse, porque tenho muita estima por si.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 08.10.2014 às 03:30

Se as suas intervenções são iguais as respostas são iguais. Como era esperado a sua conversa foi para o Grande Satã.
Quando o Grande Satã não conta muito no grande esquema das coisas. Num certo sentido você sofre de colonialismo auto imune. Continua a colocar o Ocidente no centro quando é o Islão -e a guerra intestina dentro- as tribos, as etnias, o falhanço do Nacional Socialismo, Pan Arabismo tão querido das esquerdas. Agora apoiam o Hamas.

Ora aqui está um Ayatollah http://en.wikipedia.org/wiki/Hossein_Kazemeyni_Boroujerdi que defende a separação entre Estado e religião.
Como era de esperar dos jornalistas ocidentais invariavelmente de extracção marxista enquanto a Republica Islâmica estiver contra o Ocidente não se espere nenhuma notícia que se confunda como apoio aos dissidentes do regime.
Nem teremos notícias da sua morte.
A fatwa contra Salman Rushdie foi depressa esquecida a bem do combate Marxista contra o Ocidente.


Sem imagem de perfil

De Vento a 08.10.2014 às 11:58

O caríssimo tem mesmo necessidade de desabafar. Veja lá bem se já disse tudo ou se falta alguma coisa.
O lucky escreva tudo o que tem para escrever acerca dos gajos e depois escreva acerca do meu comentário. Tem de se esvaziar primeiro de todos esses satãs que o incomodam para poder relacionar-se aqui com o marxista-leninista-maoista-contrabaixista-panarabista-hamasista-flautista e mais não sei quê.
Quero dizer-lhe que assumo tudo quanto quiser atribuir-me em matéria ideológica, mas faça o favor de fazer um esforço, logo após se exorcizar, para ir além disso.


Sem imagem de perfil

De wolfman a 06.10.2014 às 13:44

É óbvio para qualquer um com dois dedos de testa,que a história não termina ou faz um interludio,só porque alguem assim opina.
No entanto,não deixa de ser revelador,assistir ás opiniões de muitos adoradores dos falecidos regimes que compunham o extinto pacto de varsóvia.
Disfarçando pouco ou nada o seu(deles)júbilo pelo facto do mundo continuar,cheio de problemas e desafios a todos os niveis. Procurando com pouca subtileza igualizar os regimes onde com maior ou menor dificuldade as liberdades existem e são exercidas. Meu deus...tantos adoradores dos vários gulags!
Imagem de perfil

De cristof a 06.10.2014 às 16:11

Rebobinando podemos perceber que lendo as congeminações diversas anteriores dos teoricos iluminados,o fim dos blocos precipitado por um Gorbachov fora dos canones cantados como quase leis não foi acompanhado por outros intervenientes -nomeadamnete o anglosaxonico que continua/ou a intervir e invadir tudo o que tenha petroleo e riquezas, alem das teorias dos "inimigos" que temos que espiar para nossa defesa. os resultados são publicos e notorios; as narrativas é que desde hilariantes, fantasistas, mentiras, altamente cientificas temos para todos os gostos e ainda bem. Lamento que a UE não tenha sido mais firme e tenha, mesmo que a contragosto tomado a posição senim e alinhado com as armas de destruição massiva, os harens do Kadafi, o faz de conta de "apoio" aos palestianos que vai ser tudo destruido pelos sionistas dentro de momentos com o beneplacito tambem da UE.Milhoes por esse mundo tem a esperança que a UE faça a diferença e os pandegos por isto e por aquilo vão deixam o capital de esperança fluir sem honra ou gloria para agradar ao tio arrastados pelo primo do outro lado do canal.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 06.10.2014 às 16:33

Nunca se deve subestimar o rancor dos derrotados (económico, cultural...)!!

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D