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A estratégia para o Grexit.

por Luís Menezes Leitão, em 02.07.15

Ao contrário de alguns colegas deste blogue, não penso que haja errância ou incompetência neste jogo que o governo grego tem vindo a jogar. Como aqui escrevi, acho que há uma estratégia pensada desde o início para transformar a Grécia numa nova Cuba. Nessa estratégia inclui-se naturalmente o repúdio da dívida, imitando o que Rafael Correa fez no Equador em 2007, e uma aproximação à Rússia, que Tsipras tem vindo a demonstrar todos os dias. Da mesma forma que Otelo em 1975, Tsipras aspira a ser o Fidel Castro da Europa. Para esse efeito Varoufakis fez o papel de entertainer, fazendo propostas absurdas ou discursos inflamados no Eurogrupo, o que impediu qualquer negociação séria. Mas, na altura em que se perspectivava um acordo, é anunciado o referendo onde será fácil apelar ao não, invocando as constantes humilhações a que os gregos, um povo orgulhoso, têm vindo a ser sujeitos. O referendo foi visto como um balde de água fria para os credores, mas é evidente que era o passo necessário para a saída do euro. Em que outra coisa a coligação Syriza-Anel, a extrema-esquerda com a extrema-direita, poderiam estar de acordo? A saída do euro foi seguramente desde o início o traço de união desta coligação, não admirando por isso que ambos estejam a apelar ao não no referendo, como também o faz o Aurora Dourada.

 

É por isso que a frase de Cavaco Silva, de que se a Grécia sair ficam 18 no euro, é a antologia do disparate político. Apesar das suas evidentes fragilidades, o euro neste momento é o principal obstáculo à ascensão dos extremismos em toda a Europa, pelo que é naturalmente objecto de ataque feroz por parte dos mesmos. Marine Le Pen já se intitula Madame Frexit, e muitos outros extremistas se seguirão, a dar a machadada final nesta moeda, para o que diga-se de passagem a estupidez dos líderes europeus muito tem contribuído. Tivessem Papandreou e Simitis sido tratados de outra forma e hoje não estaria a Grécia nas mãos de Tsipras e Varoufakis.

 

Estou, no entanto, convencido de que a estratégia do Syriza vai falhar, pois o sim vai ganhar no domingo. Ao contrário do que o Syriza esperava, os gregos puderam ver nestes dias o que seria ter a Grécia como a Cuba da Europa: Bancos sem dinheiro, controlo dos levantamentos, corrida aos supermercados, e filas de pensionistas para receber as suas pensões. Não me parece que a retórica inflamada e a ameaça de demissão do governo do Syriza os faça querer prorrogar mais um único dia esta realidade.

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15 comentários

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De Tiro ao Alvo a 02.07.2015 às 08:10

Também estou convencido que a maioria dos gregos vai dar com os pés no Syriza. Mesmo assim, aquele povo vai passar uma mau bocado, mas penso que por culpa própria e não por culpa dos outros povos da Europa. Digo isto por que vejo nas suas palavras uma maneira de desculpabilizar os gregos, o que não me parece correcto - desde há muito que a Grécia vive acima das suas possibilidades e isso era notório.
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De Eles é que sabem a 02.07.2015 às 08:22

Basta irem fazer um referendo sobre algo que caducou para se constatar a sua enorme competência.
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De Diogo Moreira a 02.07.2015 às 09:19

Penso que o Luís está equivocado: os gregos estão, somente, a tentar tratar das suas vidas! Na sua análise, esquece-se facilmente das tentativas de ingerência nas eleições gregas, de modo a impedir o Syrisa de as ganhar, usando a estratégia de sempre: o medo.

Os estudos que estão em cima da mesa dizem todos a mesma coisa: a aplicação da austeridade nada resolveu; antes, piorou o que já estava mal (estudo do FMI) e que as medidas propostas pelas instituições fazem com que a Grécia se mantenha na corda-bamba até 2030 (segundo The Guardian, aqui citado no JN http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=4654580 ), altura de pedir novo 'resgate'. O que os gregos vão escolher no referendo é se aceitam pelo menos 15 anos sem esperança (votando Sim) ou se aceitam os graves riscos de não ter coisas básicas (alimentação, energia, medicamentos, etc. ao escolher o Não).

No fundo, o problema (que teve a sua origem no sector financeiro, o qual absorveu mais de metade da "ajuda financeira") não está a ser tratado. O que parece importar aos líderes europeus é o vergar dos gregos à sua ortodoxia, a começar pelos seus líderes 'acriançados'. Nem que, para isso, se ignore o que dizem os números...
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De Anónimo a 02.07.2015 às 09:20

Afinal neste blogue também há pessoas inteligentes.
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De Anónimo a 02.07.2015 às 09:30

Um deputado turco falou há dia em a Turquia dar ajuda à Grécia. Isto é mera conversa ou poderá ter algum significado?
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De Vento a 02.07.2015 às 10:59

Que havia uma estratégia lá isso havia. Era uma estratégia pensada, reflectida e tinha como propósito fazer com que a Grécia deixasse de ser o Biafra da Europa, pois a este estado foi conduzida quer pelos governos internos (PASOK e Nova Democracia) quer pelos governos europeus, em particular aqueles mais chegados aos ditos mercados.

Neste sentido, dizer que os Gregos pretendiam transformar aquele país numa Cuba da Europa não só é incorrecto como pretende esquecer, por exemplo, que quem originou esta nova guerra fria foram precisamente aquelas potencias europeias que vêem os demais países da Europa não como membros efectivos e parceiros mas como um número que lhes garanta as estratégias por eles e só por eles cozinhadas.

Tsipras/Varoufakis são a dupla que ficará na história do povo grego, mas também na história contemporânea europeia. Pois constituíram-se o impulso regenerador e transformador desta falsa União.
E é tão verdade esta afirmação que são as ditas "instituições" que confirmam e reconfirmam agora toda a linha negocial apresentada pela referida dupla:
http://expresso.sapo.pt/economia/2015-07-01-FMI-puxa-as-orelhas-a-gregos-e-credores-europeus

A Grécia trará novas surpresas, e desengane-se quem pensa que qualquer que seja a votação neste referendo, e até mesmo o sim, marcará a capitulação da Grécia.

Por último, o que os europeus puderam ver nestes dias é que na realidade os mercados são só e somente o Bundesbank e seus congéneres internacionais. Como tal o mundo ficou a saber que seus governantes não passam de marionetas e que os povos são usados como alimento de uma máquina financeira.

Tudo o demais que foi produzido em torno desta questão em Portugal na sua maioria não passou de devaneios pseudo-políticos para preencher tempo, uma vez que ideias para preencher o vazio político, económico e social não existem quer da parte dos governantes quer da parte da sociedade.
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De Luís Lavoura a 02.07.2015 às 11:55

corrida aos supermercados e filas de pensionistas para receber as suas pensões

Tanto quanto as reportagens da Grécia nos afirmam, a vida corre por lá normalmente, em particular não há quaisquer corridas a quaisquer supermercados. Quanto às filas de pensionistas para receber pensões, essas também as há em Portugal, como o LML poderá constatar em qualquer estação dos correios nas datas apropriadas. (Eu bem sei que, como advogado, o LML tem quem vá à estação de correios por ele. Pois bem, pergunte a esse alguém se não é verdade que em certos dias do mês as estações estão cheias de velhinhos que lá vão receber a sua pensão.)
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De És sempre o mesmo a 02.07.2015 às 12:32

Ignorância deliberada devia pagar imposto e dar prisão domiciliária.
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De bloga-mos a 02.07.2015 às 13:18

Que comentário mais demagógico e imbecil...
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De da Maia a 02.07.2015 às 12:40

Concordo parcialmente com a análise, mas faço-lhe notar que escreveu antes isto:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sobre-o-joelho-7490477

onde concluía então: - "A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores."

Sim, parece-me que houve desde o início um objectivo em sair do Euro, ainda que o percurso tenha sido suficientemente errante, onde era fácil confundir incompetência com estratégia de ganhar tempo e maior apoio interno.

O Syriza não tinha mandato para sair do Euro, e poderia até nem ter apoio suficiente. Mas, se o "não" ganhar, terá.
A proposta da UE é de fácil recusa para uma boa parte dos gregos, mesmo que tenham passado uma semana sem bancos. Simplesmente porque o "sim" visa o prolongar de uma agonia com parceiros europeus que se esforçaram por se mostrar inflexíveis, e assim não prometerá nenhum futuro auspicioso. O "sim" remeterá para o caminho passado de austeridade sem futuro, que uma boa maioria dos gregos recusou nas últimas eleições.
Por isso, este plano de Tsipras estava provavelmente planeado desde quase o início, desde que os parceiros da UE zombaram da nova administração grega.

A Albânia está ali ao lado, e foi fácil ser isolada e ignorada durante décadas, mas será muito, muito mais difícil ignorar a Grécia. Por isso, há já um conjunto razoavelmente grande de países "maus alunos", que podem formar entre si acordos à margem do "mercado internacional".
É claro que podem ser classificados como "eixo do mal", como é sempre tão simples fazer, para génios como G.W. Bush, mas será muito mais difícil fazê-lo quando um deles é a Grécia.
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De Tiro ao Alvo a 02.07.2015 às 13:42

Vale a pena ler os comentários a este post perceber como é difícil alterar as mentalidades e como pesam os preconceitos. Repare-se nestes dois exemplos: o Vento sopra sempre para o mesmo lado e o Lavoura anda sempre de passo trocado.
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De Anónimo a 02.07.2015 às 19:11

Claro, em regra as pessoas não mudam de opinião todos os dias (salvo raras excepções como Freitas do Amaral)
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De Tiro ao Alvo a 02.07.2015 às 19:53

Eu sei que as pessoas não mudam de ideias todos os dias, mas parece-me que o Freitas do Amaral não é um bom exemplo de quem muda muitas vezes. Eu até acho que ele nunca mudou - a ideia dele é estar sempre à tona, nem que tenha de vender a alma ao diabo, como se tem visto.
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De Vento do Largo do Rato a 02.07.2015 às 21:32

Sobretudo os avençados.
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De Costa, EMBRULHA! a 02.07.2015 às 21:31

«O presidente do Parlamento Europeu defende que se o “sim” sair vencedor do referendo de domingo, o governo liderado por Alexis Tsipras terá de apresentar a demissão. Num cenário destes, o social-democrata alemão considera que seria necessário um governo tecnocrata de transição que assegurasse a continuação das negociações com os credores.»

(Jornal Negócios, de hoje)

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