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A epifania

por João Campos, em 27.09.17

No Público, a propósito da muito oportuna reedição de The Dispossessed de Ursula K. Le Guin pela Saída de Emergência (com o título Os Despojados), escreve o crítico Luís Miguel Queirós:

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído. 

 

Só neste primeiro parágrafo teríamos pano para muitas mangas. Poderíamos, se quiséssemos, falar do desconhecimento que o crítico demonstra quando à ficção científica contemporânea (os três autores citados já morreram, e, polémicas à parte, uma leitura na diagonal dos títulos nomeados aos prémios Hugo e Nébula dos últimos seis ou sete anos seria talvez esclarecedora quanto a questões sobre o género de quem escreve o género). Ou mesmo da sua ignorância quanto à ficção científica dita "clássica" - Le Guin será um dos maiores vultos do género, sem dúvida, mas nunca terá ouvido falar de Alice Sheldon (mais conhecida por James Tiptree Jr.), de C.J. Cherryh, ou de Octavia Butler? Ou até, caso nos quiséssemos aventurar noutros territórios, demonstrar como a "chamada ficção fantástica" [sic] não se resume a Tolkien e aos seus discípulos, e de caminho recomendar, sei lá, Neil Gaiman ou Terry Pratchett. Enfim, o tempo é escasso, pelo que me vou ficar pela frase que destaquei a negrito.

 

Imagino que quando o crítico literário médio se vê obrigado a ler um bom livro de ficção científica, seja um texto contemporâneo ou a reedição de um clássico, a epifania seja inevitável: afinal, isto não tem nada que ver com Star Wars ou Star Trek ou aquelas merdas comerciais e vagamente infantis de que os nerds parecem gostar! Afinal há aqui um questionar da natureza da realidade, uma exploração das questões de género, um olhar crítico ao sistema capitalista / comunista / anarquista! E, logo de seguida, chega o orgasmo, o clímax do pretensiosismo: afinal, aquele outro livro desta senhora até vem n' O Cânone Ocidental do Harold Bloom! Como é evidente, ao crítico literário médio nunca irá ocorrer que talvez as suas premissas estivessem erradas, e que talvez a ficção científica enquanto género literário não se resuma apenas às talking squids in outer space com que Margaret Atwood enfureceu meio mundo há trinta anos, Ursula K. Le Guin incluída, a propósito de The Handmaid's Tale (excelente, já agora) ter ganho o prémio Arthur C. Clarke. Nada disso. Se a realidade não se ajusta aos preconceitos, é mais fácil negar a realidade e manter os preconceitos (uma atitude muito em voga, admita-se). Dito de outra forma: se aqueles livros são bons, então não podem ser ficção científica - serão "fábulas", talvez, porventura "parábolas", quiçá "metáforas" (as definições não são muito criativas). Ou então até são ficção científica, sim, mas são tão bons que "transcendem o género". Ou, como diz o crítico, "não são catalogáveis", podendo até - pasme-se! - "ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica". É de ir às lágrimas ou ao vómito, conforme a disposição.

 

A crítica acaba por ser positiva - spoiler alert, o livro levou "quatro estrelas" -, mas em 2017 já não há paciência para o snobismo literário para com a ficção dita "de género" (já escrevi longamente sobre o tema aqui). No cinema, pelo menos, alguns críticos já perceberam (não todos, mas o caminho faz-se caminhando) e são capazes de apreciar um filme de ficção científica sem vergonha e sem necessidade de recorrer à referência highbrow, aos clichés corriqueiros e às desculpas esfarrapadas. Mas na crítica literária publicada pelos vistos ainda há um longo caminho a percorrer. O que não surpreenderá quando reparamos que esses críticos parecem ter parado no tempo em 1994. Ou, se as referências que Luís Miguel Queirós tem da ficção científica literária servem de exemplo, algures entre as décadas de 50 e 60. Alguém se compadeça e lhes envie um DeLorean. 

 

(Aos leitores, recomendo  pouco a crítica e muito The Dispossessed. É um livro notável.)

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29 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 27.09.2017 às 08:07

Os bons livros de ficção científica são lembranças do futuro. São memórias esquecidas
Relembro Asimov e a sua Magnus opus, A Fundação, ou Frank Herbert e o seu Duna.

No futuro que há -de chegar surgem os Estados totalitários, e a Eugenia. A liberdade foi abdicada em nome da segurança, e da ciência. Para quem quer imaginar um mundo governado por cientistas basta pegar num bom livro de ficção científica. Já agora foram também mulheres que inventaram o Romane Gótico que em certo sentido é uma forma de ficção científica como por exemplo Frankenstein - vislumbre dos perigos engenharia genética. ...
A democracia não entra nos planos da (ficção ) científica
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De João Campos a 27.09.2017 às 11:04

"Frankenstein" é considerado por muitos académicos como o romance fundador da ficção científica.

No resto, e apesar de serem frequentemente mencionados, os três livros originais da trilogia da da Fundação (esqueçamos os restantes quatro livros que Asimov escreveu nesta série, que são medíocres) e o Duna não são o apogeu do género. O optimismo e a célebre crença no futuro da ficção científica duraram até ao final dos anos 60, e mesmo antes já havia quem se afastasse desse tom (Philip K. Dick, Alfred Bester, Walter Miller Jr, a própria Le Guin) para imaginar futuros bem mais sombrios. Mas se quiser ler um autor que acertou em cheio, leia John Brunner. Publicou os melhores livros entre 1968 e 1975, e do infodump electrónico ao retorno das tensões raciais, não falhou praticamente nada.
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De Vlad, o Emborcador a 27.09.2017 às 12:20

Vou ver Jonh Brunner. Obrigado João. Parece-me ser a ficção uma alegoria da realidade
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De João Campos a 27.09.2017 às 12:51

É muito bom. Recomendo sem reservas "Stand on Zanzibar" e "The Shockwave Rider". Infelizmente, não há traduções portuguesas.
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De Vlad, o Emborcador a 27.09.2017 às 12:59

João peço desculpa. Que me diz de Solaris, de Stanislaw Lem.....por hoje mais próximo da realidade segundo os Multiversos.... os escritores como profetas
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De João Campos a 27.09.2017 às 18:58

É curioso, ainda não li o "Solaris" - já comprei o livro, tenho-o em casa há meses, mas a pilha de ficção científica por ler é considerável. Já vi o filme do Tarkovsky (o Nimas passou a obra completa no ano passado, deu para rever "Solaris" e para descobrir "Stalker"), e considero-o formidável.

Conto pegar no livro ainda este ano. A ver se me lembro de deixar aqui algumas linhas sobre ele quando o fizer.
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De Pedro Correia a 27.09.2017 às 23:29

Ups... não li o livro nem vi o filme. Mea culpa.
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De João Campos a 28.09.2017 às 01:11

Vais sempre a tempo, Pedro.

Houve ainda um outro filme, mais recente (2002), com o George Clooney como protagonista.

Já quanto ao livro, não faço ideia se chegou a haver uma edição portuguesa nas colecções de bolso.
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De redonda a 02.10.2017 às 02:15

Chegou sim na Livros de bolso de FC da Europa América (li o livro, vi o filme)
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De redonda a 02.10.2017 às 02:22

Pelo menos um livro de John Brunner foi publicado em português na colecção Argonauta
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De João Campos a 02.10.2017 às 22:58

A minha experiência com a colecção de FC da Europa-América foi péssima; uma tradução horrível. Fugi dela a sete pés. Quanto à Argonauta, quando descobri a colecção já lia fluentemente em inglês, pelo que nunca me despertou especial atenção.
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De Anónimo a 27.09.2017 às 11:20

epifânia?
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De João Campos a 27.09.2017 às 12:59

Tem que ver com uma passagem do texto, mas admito desde logo que sou péssimo a escrever títulos.
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De Anónimo a 27.09.2017 às 14:04

E quem é a Epifânia? :)
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De João Campos a 27.09.2017 às 19:05

Certo. Corrigido. Sabe que nem toda a gente que escreve na Internet leva a mal correcções (da minha parte, eu agradeço), mas piadas nem sempre são didácticas.
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De Anónimo a 27.09.2017 às 19:52

Ok. Então aí vai, como gesto de boa vontade:

"In reading a novel, any novel, we have to know perfectly well that the whole thing is nonsense, and then, while reading, believe every word of it. Finally, when we're done with it, we may find - if it's a good novel - that we're a bit different from what we were before we read it, that we have been changed a little, as if by having met a new face, crossed a street we never crossed before. But it's very hard to say just what we learned, how we were changed." - Ursula Le Guin
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De João Campos a 27.09.2017 às 21:40

Agradeço, desconhecido. Já li alguns ensaios da Le Guin, sempre com muito gosto. Comprar alguns das edições recentes dela é um objectivo cá de casa.
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De V. a 27.09.2017 às 12:23

Sempre me pareceu que a distinção correcta para os géneros é:

— Literatura Fantástica: — que deriva do romantismo alemão/gótico. Tipos como Maupassant (o Horla — o real que contém revelações assombrosas), Poe (onde o extraordinário Gordon Pym é compulsão para contar uma história que contém um mistério ou uma revelação paradoxal ou de ontogénese, que aparece na Rima do marinheiro de Coleridge), Stevenson (Jekyll&Hyde), Oscar Wilde e até mesmo Henry James com "The Turn of the Screw" onde o próprio título e as primeiras palavras "The story had held us" são a explicação do género e de novo aparece a pulsão primária para contar uma história misteriosa (que seria a essência da grande literatura). Também Borges, que até fez a colecção com o universo de escritores mais ou menos "realistas" que abraçaram o género.

— Fantasia: Tolkien e mundos medievalistas com dragões, etc, etc. Vejo muitas vezes colocar autores deste género como Eddings, Donaldson, etc no campo do fantástico mas Fantasia parece-me a classificação mais adequada (e palavra de honra: sem qualquer desprimor e sem querer implicar que é um género menor)

— Ficção científica — acho que este se explica bem a si próprio, sem confusões.
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De João Campos a 27.09.2017 às 12:57

Diria que o campo da Fantasia é um pouco mais vasto do que a ficção de cariz medievalista com toques de magia/sobrenatural, já que na definição seria difícil enquadrarmos as "fantasias urbanas" de Neil Gaiman, as sátiras de Terry Pratchett, e outros romances modernos.

Mas a categorização é ambígua. Há quem englobe tudo em "literatura fantástica"; há quem catalogue como "literatura fantástica" a fantasia e respectivos derivados, deixando as distopias, a história alternativa e a ficção científica dita "clássica" para o campo da "ficção especulativa". Enfim, dá para tudo. Em última análise, o crítico tem razão: as etiquetas interessam muito pouco, já que o que verdadeiramente importa é que se leia bons livros. Só que para os críticos essas etiquetas acabam por importar mais do que deviam.
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De V. a 27.09.2017 às 15:37

Sem dúvida, mas a minha ideia é que a distinção não deve ser feita do lado da ficção sobre mundos imaginados (Fantasia) que não define exactamente o que se imagina, mas daquilo que é a intrusão do insólito ou do fantástico na ficção que é passada num simile da nossa realidade. Neste caso o campo do Fantástico é mais restrito.. Sei lá. Vou mas é comer um croquete à Versailles.
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De João Campos a 27.09.2017 às 18:55

É uma possibilidade, nunca tinha pensado por esse ponto de vista. Pessoalmente, admito já ter dedicado mais tempo e mais neurónios às categorias e sub-categorias, sobretudo quando falamos de géneros um tanto ou quanto fragmentários.

O croquete é uma óptima ideia.
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De Vlad, o Emborcador a 27.09.2017 às 15:17

V;

https://literaturaargentina1unrn.files.wordpress.com/2012/04/borges-jorge-luis-obras-completas.pdf

http://www.helli.ir/portal/sites/default/files/kip_thorne_christopher_nolan-the_science_of_interstellar-norton_w._w._company_inc._2014.pdf

Quanto a Poe, Magistral!!!!! Quando o leio, não deixo, nunca, de perguntar: Será verdade?

Morreu numa sarjeta....morreram-lhe todas as mulheres que amou. Levou-lhas A Morte com Máscara Vermelha, a Tuberculose

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De V. a 28.09.2017 às 00:42

Boa—grandes links. Obrigado. Quanto ao Poe (e muitos outros)... aqueles tipos não tinham sorte nenhuma naquela altura: sífilis, tuberculose, era uma alegria. Só de imaginar um mundo sem dentistas um gajo fica doidinho.
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De Octávio dos Santos a 27.09.2017 às 12:45

Subscrevo integralmente. Com uma ressalva, porém: a edição em «Português» deve ser evitada porque está submetida ao «aborto pornortográfico» - é, pois, preferível uma original, em Inglês.
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De João Campos a 27.09.2017 às 12:59

Há pelo menos uma edição portuguesa mais antiga, julgo que anterior ao Acordo Ortográfico, para quem se preocupar com essa questão. Felizmente, e ao contrário de muitos outros autores de ficção científica, a Ursula K. Le Guin foi abundantemente traduzida por cá.
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De João Marques a 29.09.2017 às 11:41

Ficção especulativa. Parados no tempo estão todos.
E Gibson, Stephenson, Watts, Miéville?

A propósito, Blindsight e a trilogia Rifters de Watts estão disponíveis gratuitamente. Apreciando o portento que é Blindsight, sugeriria também Echopraxia.

O panteão tem novas divindades, meus caros.

P.S.: Stalker e os dois Solaris são filmes a não perder.
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De João Campos a 29.09.2017 às 12:17

Sobre Stalker, recomendo o livro que o inspirou: Roadside Picnic, de Boris e Arkady Strugatsky.
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De redonda a 02.10.2017 às 02:29

Em escritoras ocorreu-me logo Joan D. Vinge
A partir dos dez anos comecei a ler FC, todos os livros que conseguia apanhar
Além dos mencionados aqui lembrei-me de Robert A. Heinlein
e Clifford D. Simak
(parecia-me muitas vezes que os escritores de FC tinham três nomes, e do segundo às vezes aparecia apenas uma letra)

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De João Campos a 02.10.2017 às 23:03

"The Snow Queen", da Joan D. Vinge, foi o livro que me trouxe para a ficção científica. Continua a ser um dos meus preferidos.

O Robert A. Heinlein escreveu dois livros de que gosto muito, "The Moon Is a Harsh Mistress" e "Starship Troopers", e escreveu também aquele que será talvez o pior livro de ficção científica que já li: "I Will Fear No Evil". O aclamadíssimo "Stranger in a Strange Land" foi uma desilusão; um dia quero relê-lo para perceber se a primeira impressão se confirma.

Ainda não li nada do Simak, curiosamente. Mas lá chegarei.

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