Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A dor da gente não sai no jornal

por Pedro Correia, em 19.06.17

mw-860[1].jpg

 Foto Miguel A. Lopes/Expresso

 

Há a impreparação, claro: muitos desses jornalistas atirados por caprichos da agenda "a cobrir o incêndio lá para as Beiras" numa redacção de Lisboa não fazem a menor ideia onde fica Pedrógão Grande. Os órgãos de informação para os quais trabalham - muitos com vínculos precários - também não fazem, nem querem saber: ao longo do ano o pobre Portugal do interior só surge na notícia quando lá ocorre uma desgraça.

Há o uso e abuso dos lugares-comuns, como é óbvio. "O ar é irrespirável"; "o cenário é indescritível"; "as chamas lavram" - não é possível encontrarem outro verbo sem recorrerem a esta pobre metáfora tão mal aplicada? Nada que admire: a exigência é cada vez menor também a este nível. Como podia ser de outra forma quando tantas chefias exercem o primado da incompetência?

Há o inevitável estrelato da profissão, que nesta fugaz incursão pelo País esquecido chega a ser obsceno ao fazer da tragédia um espectáculo para cativar audiências: ei-lo há dois dias a disparar redundâncias junto às cinzas ainda fumegantes com o mesmo alvoroço e a mesma incontinência verbal de quem cobre uma campanha política ou um "evento" social.

Mas o pior é a incapacidade revelada por tantos jornalistas de descolarem da agenda política. Muitos - felizmente não todos - estão ali mais preocupados com "a chegada a qualquer momento" do Presidente da República, do primeiro-ministro ou da ministra da Administração Interna. Indiferentes à desgraça alheia, como se deambulassem pelos Passos Perdidos do Palácio de São Bento. Oiço-os neste frenesim institucionalista e logo me vêm à memória aqueles versos da cantiga do Chico Buarque, que hoje faz 73 anos: "A dor da gente não sai no jornal".

Autoria e outros dados (tags, etc)


11 comentários

Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2017 às 18:09

Os grandes acontecimentos como a tragédia de Pedrógão lamentavelmente foi e continua a ser, podem tornar-se pelos piores motivos a rampa de lançamento do melhor pivô de todos os tempos, ou de um prémio Pulitzer, quem sabe?
Não houve um bom desempenho nem por parte dos mais novos, nem por parte dos veteranos, mas isso é normal, tão normal, que até já deixámos de prestar muita atenção.
A dor saí no jornal sim, em textos dramátcos onde o horror impera e em imagens comoventes e repetidas ad nauseam, mas é tão oca que sinceramente dói.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.06.2017 às 21:41

Se tiver tempo e paciência quero destacar exemplos pela positiva. Para variar.
Do resto, nem vale a pena falar mais do que isto.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D