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A decadência da Europa

por Rui Herbon, em 15.09.14

Há motivos para aceitar como algo inevitável que a Europa não recuperará das tensões provocadas pela crise e pelo extenso sentimento de que estamos no fim de um ciclo que deslocará em definitivo a centralidade do mundo para a Ásia e o Pacífico. Mas isso não vai ocorrer da maneira imediata. Arnold Toynbee estabeleceu a teoria cíclica das civilizações que nascem e morrem em companhia dos séculos que as vão sepultando. Mas as correntes de fundo que movem as culturas e os impérios não param abruptamente. 

 

Faz agora cem anos, em vésperas da Grande Guerra, Oswald Spengler concluiu a sua obra "A decadência do Ocidente", na qual expunha que as civilizações tinham ciclos de vida naturais e que o mundo ocidental havia chegado ao seu ocaso. Nas sociedades abertas e livres, a tendência para enegrecer o futuro é um recurso frequente que conduz ao pessimismo e a situações de medo colectivo. Já se sabe que o medo não é sobre o que vivemos ou sofremos, mas sobre as incertezas que os nossos presságios projectam. No Ocidente em geral, e na Europa em particular, onde o nível de vida continua a ser muito superior ao da média, parece que entrámos já, por antecipação, nesse espaço de grande sofrimento que pressagiamos. Mas o futuro reiventa-se permanentemente e todas as previsões para uma tão grande escala de tempo, espaço, economia, população, etc, são precipitadas. 

 

O século XX começou com a Belle Époque, que significava progresso, ciência e «o fardo do homem branco», que era, segundo Kipling, o autor da expressão, civilizar as sociedades colonizadas da África e Ásia. Começou com grande euforia e penetrou nas trevas das duas guerras mais ferozes e sanguinárias que a Europa conheceu, e acabou com o período mais longo de convivência, paz e bem-estar que viveu a velha civilização europeia, sempre tão a ponto de ficar sepultada nos sarcófagos da história.

 

A crise da Europa não se deve, a meu ver, a na Ásia se produzir mais e mais barato, mas ao facto de nos termos deixado levar pela euforia do crescimento sem esforço, por termos trocado a cultura da poupança pela do crédito, por termos uma cultura pouco liberal na economia e demasiado liberal socialmente, permitindo milhões de excluídos que dificilmente poderão regressar a esse amplo espaço em regressão que conhecemos como classe média. E se este último ponto se deve à falta de visão da direita, os restantes foram mais ou menos conscientemente alimentados pela esquerda, que favorece o consumismo desmedido (a ideia tonta de que pode haver tudo para todos) e continua sem reconhecer que quem vive de crédito, seja família, empresa ou estado, vive acima das suas possibilidades e, mais cedo ou mais tarde, acaba em maus lençóis.

 

Mas a decadência não é meramente económica ou geoestratégica: é também civilizacional. Deixámos crescer um sistema enquistado nos aspectos menos humanistas e mais egoístas, em que se pratica um darwinismo guiado pelos mercados e as finanças. E se isto é, evidentemente, um pecado de direita, também não vi a esquerda empenhar-se no seu combate. Aliás, vivem tão fascinados pela tecnologia e pelo novo meio de propaganda/luta que são as redes sociais, que nem se apercebem de que aqueles e estas contribuem decisivamente não só para o egoísmo, mas para um encerramento em torno de si.

 

A Europa pode e deve rebater esta sensação de derrota. Para isso a política deve voltar a ser o instrumento mais idóneo para servir os interesses dos cidadãos. Não pode ficar impune a corrupção, que é a principal causa das desigualdades. Há que desterrar as utopias que sempre que postas em prática deram resultados catastróficos. E desconfiar dos salvadores da pátria. A decadência, em qualquer caso, não está na política, mas nas condutas daqueles que a gerem. É certo que o sistema se deteriorou, mas é reparável. A grande incógnita é se esta regeneração se poderá fazer sem confrontações violentas, como ocorreu no passado.

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20 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 15.09.2014 às 12:02

Excelente publicação. Muito bem escrita e elucidativa de um ponto de vista muito acertado.
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 13:15

Muito obrigado.
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De Vortex a 15.09.2014 às 14:49

tudo certo, mas no título alemão
Untergang des Abenlandes
a 1ª palavra significa 'NAUFRÁGIO'
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 16:02

Obrigado pelo esclarecimento.
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De Carlos Faria a 15.09.2014 às 14:42

Há muito que ao olhar o que se vai passando ao nível nacional, europeu e global que vinha a formar uma ideia aproximada com as conclusões deste excelente artigo.
Há muito que defendo que em democracia os líderes políticos refletem os vícios do povo, por isso, penso que tanto os erros que apontou à esquerda ou à direita foram também fruto das opções aceitáveis pelo eleitorado, que se sente atraído por propostas de efeitos rápidos e enquadrá-las numa visão estratégica de longo prazo.
À incógnita final, associo outra: será que o ocidente, por meios violentos ou não, ainda vai a tempo de regenerar-se?
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 16:05

Eu acredito que sim, houvesse vontade. Não sei é se as pessoas estão interessadas em pensar e agir para além das contas do dia a dia e da selecção de futebol.
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De lucklucky a 15.09.2014 às 15:53

Foi a Política que criou o estado em que estamos.
O excesso de Política é o mais grave problema da Europa.

Olha-se para um jornal e o que é que lê? Política.
Não se lê o que é que os Portugueses fazem, criam, inventam.
Lê-se que Portugueses são bem sucedidos a tirar dinheiros de outros Portugueses.
Lê-se sobre Portugueses a defenderem o seu privilégio sobre outros Portugueses ou a tentarem implementar outros privilégios.

Os Jornais são projectos Políticos para nos convencerem que a nossa prosperidade depende da política. De mais política.

Quando uma criança vê um Telejornal, o que aprende? Aprende que deve fazer parte de um grupo, de um lobby político. De ter o poder para implementar uma lei que o beneficie.
Lei.
Ou não se comprometendo pode escolher fazer parte da Burocracia que vai implementar as leis. Nova Lei. Mais leis.
Ou seja de existir ainda mais Política.

Pois a Política até termos a Liberdade de Objecção de Consciência é a possibilidade de impor a sua vontade a outros. Pela força do Estado. Uns ganham outros perdem.
E quanto mais Política, mais derrotados há. Pois a Política é Escolha.

No passado queria-se construir, fazer, hoje olha-se para quem se arrisca a construir para ir lá buscar um bocado.
Como não se pode construir, fazer por causa das inúmeras leis temos a depressão.

Spengler fala de coisas diferentes . Imigração/cultura/civilizações.



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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 16:09

Não defendo mais política, mas melhor política (independentemente das ideologias, porque até defender a abolição do estado ou da sociedade é política), ou melhores agentes políticos. Vendo os debates entre Seguro e Costa parece-me que vamos de mal a pior.
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De rmg a 15.09.2014 às 17:35


Excelente artigo.

Na linha do que diz Carlos Faria (e muito bem) acho doentia e meramente auto-desculpabilizante (a culpa é sempre dos outros) esta ideia de que os políticos são uma casta à parte, uma cambada de malandros que estão para ali - e em quem curiosamente ninguém votou - enquanto deste lado está uma população inteira cheia de virtudes que óbviamente não merecia o que lhe está a acontecer.

Ora basta olhar à volta para vermos com o que contamos, cada vez que ouço ou leio alguém a gabar-se de ser um modelo de virtudes, seguro logo a carteira e encosto-me à parede.

O problema da corrupção é talvez dos mais complicados de combater em toda a Europa (só por provincianismo se pode dizer o "só neste país", tão bem satirizado pelo Sérgio Godinho).
Isto porque existe a ideia de que corrupto é o caso dos 100 mil (ao alcance de muito poucos), se forem só 10 mil (ao alcance de mais) já não é tão grave e então se forem mil euros é um jeitinho, uma atençãozinha.
E assim muitos vão dando uns golpes perante a compreensão geral, amanhã talvez me calhe a mim...

Em todo o caso duvido muito das confrontações violentas na Europa, isto está cheio de desistentes da vida, como escrevia há dias Rentes de Carvalho.
E a geração dos meus netos está a crescer sem amarras ideológicas ao passado nem expectativas económicas sobre o futuro.

Eles vão dar a volta por força da circunstância simples de estarem aí e quererem comer, se possível todos os dias.
Mas eu não antevejo como, a minha geração e até a dos meus filhos (quarentões) não me parece mentalmente formatada para o imaginar de modo coerente.

Só sei que muitos dos que vivem por aí de utopias mas não convivem com a malta nova ou não os tentam compreender não vão gostar de viver esses tempos, demasiado habituados que estão a serem "os donos do jogo".

Eu gostava de assistir mas admito que, não sendo para amanhã, daqui a 20/25 anos pode ser que assista mas já não devo perceber nada!

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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 17:53

E no caso da corrupção convém não esquecer que ela nem sempre passa por uma troca monetária, ou de robalos. Basta favorecer alguém que fica em dívida de um favor futuro. Claro que é muito mais fácil apontar o dedo aos grandes. Mas acredito que os pequenos actos de corrupção somados têm um montante superior e efeitos mais nefastos do que os casos que fazem manchete de jornais.
E tem razão quando aos políticos: eles não vêm marcados à nascença. Emanam dos cidadãos e, como vivemos em democracia, não só são eleitos como as tolices praticadas nas últimas décadas foram avalizadas pelo "povo".
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De rmg a 15.09.2014 às 17:37


5ª linha a contar do fim: "enterrar"?
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 17:48

É mesmo "desterrar" porque não me parece que se possam "enterrar". Mesmo com os milhões de mortos na bagagem ainda há quem pense que a próxima experiência será diferente, em métodos e resultados.
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De rmg a 15.09.2014 às 17:57


Tem razão no que diz mas, face à conclusão que tira, a mim não me dava para aí.

É o que dá ter uma empedernida formação técnica de base.
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De André Miguel a 15.09.2014 às 22:11

Não é para publicar, apenas para alertar de um erro: "espunha", na 1ª linha após o 1º parágrafo.
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 22:15

Que horror! Obrigado.
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De Mário Pereira a 15.09.2014 às 22:16

Interessante artigo. Apenas um reparo. Será impressão minha, ou há em dois ou três pontos uma intenção de culpar sobretudo a esquerda por esta decadência da Europa?
A sentença de que com a simples frase "a ideia tonta de que pode haver tudo para todos" - como se a esquerda alguma vez tivesse defendido isto nalgum lado - se transforma a esquerda na principal responsável pelo crédito e consumo desmedidos que nos fizeram chegar a este triste estado, não fazendo sequer uma única referência ao papel que o sistema financeiro, beneficiando de uma quase total desregulação, e o triunfo das ideias neoliberais desempenharam nisto, é sem dúvida peregrina.
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De Rui Herbon a 15.09.2014 às 22:38

Culpo a esquerda por umas coisas e a direita por outras.
Não reconhecer que quando se vive de crédito se vive acima das possibilidades é dizer que podemos ter bens independentemente das condições materiais objectivas. Se o que podemos ter não depende de condições materiais objectivas, então podemos ter tudo.
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De Pedro Correia a 15.09.2014 às 23:55

Muito bem, Rui. Excelente artigo.

Podia destacar outras passagens, mas elejo estas duas, que me parecem muito importantes:
«A crise da Europa não se deve, a meu ver, a na Ásia se produzir mais e mais barato, mas ao facto de nos termos deixado levar pela euforia do crescimento sem esforço, por termos trocado a cultura da poupança pela do crédito, por termos uma cultura pouco liberal na economia e demasiado liberal socialmente, permitindo milhões de excluídos que dificilmente poderão regressar a esse amplo espaço em regressão que conhecemos como classe média.»
«Há que desterrar as utopias que sempre que postas em prática deram resultados catastróficos. E desconfiar dos salvadores da pátria. A decadência, em qualquer caso, não está na política, mas nas condutas daqueles que a gerem. É certo que o sistema se deteriorou, mas é reparável.»

Nunca é de mais sublinhar tudo isto. Mesmo que seja necessário remar contra a corrente. Ou precisamente por causa disso.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 16.09.2014 às 12:01

Excelente texto. Também acredito que o sistema é reparável, mas não podemos ignorar o efeito que determinados factores vão ter no futuro da Europa e dos europeus, como p. ex. a baixa demografia e o efeito da entrada maciça de emigrantes, principalmente os muçulmanos, a par do crescimento de partidos extremistas nos maiores países europeus. Na minha opinião há-de ser por aí que a corda vai partir, e o que se está a passar com um novo fenómeno chamado "estado islamico", que os politicos parecem ainda não ter percebido bem o que é que significa, não pode e não deve deixar ninguém indiferente.
Quanto à decadência económica da Europa: quantos anos de crescimento económico serão precisos para 1/3, e já é muito, da população da China, da India, do Brasil ou até mesmo da Russia, atingirem patamares de riqueza e bem estar social parecidos com os que a generalidade dos europeus usufruem?
Esta Europa foi construída em cima dos escombros da guerra mais terrivel que os humanos já conheceram e do sacrificio de várias gerações. Deixar destruir este sistema, e não fazer tudo para o salvar, seria uma imperdoável regressão civilizacional.

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De Rui Herbon a 16.09.2014 às 12:18

O problema é que há quem ache que pode ficar tudo na mesma. Sem reformas é impossível manter o nosso chamado estado social. Mas sempre que se tenta mexer em alguma coisa, e agora falo concretamente do caso português, ai jesus que querem destruir o estado social, quando a inacção perante as mudanças é que o tem feito perigar.

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