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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas -- algo nunca antes acontecido -- e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o "estrangeiro" inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de "soberania nacional".

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior "economia paralela" da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros - ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro -- uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

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74 comentários

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De Estupefacto a 29.01.2015 às 15:22

Sabendo a gente que eleições se ganham (e se perdem) por um voto, será que um único votinho pode dar direito a 50 deputados? Ao menos que fossem necessários 50 votos, com mil milhares de sabords.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 00:26

A Grécia é um país peculiar. Nos mais diversos aspectos, incluindo na lei eleitoral, que distorce por completo as regras da proporcionalidade. Uma lei eleitoral que seria inconstitucional face à lei fundamental portuguesa.
O curioso é que o Syriza, que agora beneficiou dela com 50 deputados extra, dirigiu críticas duríssicas à mesma lei eleitoral num passado recente.
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De rmg a 30.01.2015 às 01:33


Fez bem em lembrar isso das duríssimas críticas ao "bónus" de 50 deputados, uma estranha situação em democracia.
Mas a democracia por lá sempre foi estranha, em Atenas cada cidadão livre tinha pelo menos um escravo,por mais que Sócrates (o original) e os Estóicos barafustassem.

Admito de muito boa fé que já que os outros sempre beneficiaram eles também beneficiem.
Mas teria sido bonito de se ver que tivessem formado um governo sem esse "truque constitucional" que tanto os horrorizou sempre, ainda que mesmo com o truque acabassem num acordo que os "pouco espertos" úteis de seviço tanto se esforçam por justificar.

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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 00:21

Veremos se agora, no poder, aprovam uma nova lei eleitoral. Mais transparente e proporcional. Mais democrática, enfim.
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De rmg a 31.01.2015 às 01:51


Aprovam, quando perceberem que vão perder o poder.

Isto se tiverem tempo, como é óbvio.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 22:26

Julgo que não terão tempo. Esta coligação vai desfazer-se em poucos meses. Resta ver o que virá depois.
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De campus a 29.01.2015 às 16:00

Anda tudo cheio de esperança e sem saber onde isto vai parar. Afinal é tudo muito simples pois a Grécia vai sair do Euro e da União Europeia. Quem não quer ver é pior que um cego! O Syriza bloco de partidos comunistas e de extrema esquerda juntos com um partido de extrema direita ambos ferozmente anti euro e anti União Europeia e sem qualquer interesse em negociações com os credores e mercados, vide primeiras medidas pelo governo já tomadas, espera calmamente que Bruxelas os convide a abandonar a UE. Passa então à segunda fase, recusa o pagamento aos credores e fazendo-se de vítima para o seu eleitorado que inocentemente foi no canto da sereia, ganha força e alibi para integrar outros mercados tipo russo mais de acordo com o pensamento dessa verdadeira esquerda. Ao fazerem o acordo contra natura com a extrema direita dizem ao mundo que de imediato não pretendem a construção pela positiva mas sim pela destruição do status quo, a conhecida teoria da esquerda marxista e leninista de quanto pior melhor. Lamento a sorte do povo grego mas assim escolheram.
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De lucklucky a 29.01.2015 às 16:37

Porque é contra natura?

A vantagem do Marxismo é que se pode ser o que se quiser.

Com Marxismo pode-se ser racista - vide o comportamento histórico de boa parte dos partidos comunistas - e ser nacionalista ou internacionalista,
anti-sexista ou sexista, ser feminista ou anti-feminista, pode-se clamar contra a exploração dos porcos capitalistas ou clamar contra a falta de exploração dos porcos capitalistas que não querem negociar connosco. Ser gay é liberdade ou é desviante.Pode-se clamar que os bancos guardam o dinheiro todo para eles, ou que o crédito foi imposto por bancos malvados.
Que a palavra Pátria é "fascista" ou que já pode aparecer nos cartazes do PCP.

Até os ultimos pingos de coerência não resistem. Até uns anos atrás todas as religiões eram más para o Marxismo. Mas hoje descobrimos considerável apoio a certos grupos religiosos anti liberdade da mulher ou anti gay.
Tudo é possível no Marxismo, por isso é que alguns Marxistas acabam no lado errado. Afinal não há regime Marxista que não tenha condenado à pena de morte outros Marxistas.
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De campus a 29.01.2015 às 16:47

Contra natura é uma força de expressão. Claro que todos sabemos que os extremos se tocam. O melhor exemplo é o Nacional-Socialismo.
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De nunca se viu tal a 29.01.2015 às 17:02

É uma religião extraordinária.Muito flexível no seu idealismo materialético, adaptando-o de modo a que os seus representantes autorizados se mantenham à tona das massas e as conduzam ao paraíso prometido por marx.Nem que seja à bala e em campos de reeducação.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 00:28

E, tratando-se da Grécia, não esqueçamos também a cicuta.
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De ver-se-á a 30.01.2015 às 00:39

Isso era dantes.Há quem lhes arranje polónio,à borla.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 01:02

Dizem que tem efeitos alucinogénios, o polónio. Desconheço os efeitos do bulgário e do roménio.
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De rmg a 29.01.2015 às 19:12


Estou de acordo no geral com o que diz mas duvido muito que os russos queiram ter esta gente como parceiros.

Os russos têm mercados bem demarcados para onde exportam e de onde importam produtos também muito específicos e de que têm excesso ou falta.

http://atlas.media.mit.edu/profile/country/rus/

Não vejo onde é que aqui possa caber a Grécia que aí está e muito menos a que aí vem.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 00:31

Os russos enfrentam um cenário recessivo interno, devido à queda abrupta dos preços dos combustíveis no mercado internacional. A última coisa que ambicionam é selar parcerias financeiras com Estados que têm fama (e proveito) de não honrar as dívidas assumidas.
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De campus a 30.01.2015 às 10:12

E quem disse que vão selar parcerias financeiras com a Grécia ? Do que se tratará é levar um País do Euro e da UE para o lado russófono, criar embaraço e desestabilização na União Europeia ou seja vingarem-se das sanções. A Grécia coitada, para a Rússia será um idiota útil.
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De rmg a 30.01.2015 às 15:25


Aí já estou consigo.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 00:26

Não me parece nada provável o arrastamento da Grécia para a órbita russa. Moscovo é um tigre de papel. A Standard & Poor's acaba de atribuir o rótulo de "lixo", nada invejável, às perspectivas económicas russas. Com a depreciação do rublo e a queda dos preços do petróleo, principal fonte de divisas do país, a Rússia vive o espectro da recessão. E tem a quinta dívida mais arriscada do planeta. O tempo não está para aventuras russófilas.
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De rmg a 31.01.2015 às 02:00


Deve mesmo ser a última coisa que a Rússia quereria nesta altura.

Problemas têm eles que cheguem, a começar pelos que cita.

E não vão afrontar os seus clientes de "estimação" em troca de bravatas, quando e se os afrontarem será com cisas sérias porque a situação deles é séria.

Basta ver como, por mais que nos vendessem que a Grécia não assinava isto ou aquilo contra a Rússia, tudo morreu na praia.

Não me espantava nada que tivesse sido o próprio embaixador russo na famosa reunião tão falada que lhes tivesse dito "assinem lá o raio do papel"...
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 22:28

Também não me espantava nada. Bem chegou a Moscovo ter sustentado durante décadas a ditadura cubana e diversos regimes plutocratas em África, qual deles o mais corrupto. Os russos deram sempre muito mais a estes regimes do que receberam. E estão mais do que vacinados quanto a calotes dos países "amigos".
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De rmg a 31.01.2015 às 22:56


A Rússia começa a atravessar problemas complicadíssimos (e que não se atenuarão tão depressa) com a quebra de valor das suas exportações.

Também por lá vai aquecer (humor involuntário...).

Ora qualquer livrito de política básica nos diz que nestas alturas nada melhor do que agitar ameaças externas para acalmar as massas e que é exactamente o que as declarações da UE lhes proporcionam.

Com um bocado de jeito diría até que são combinadas, "vocês ataquem-nos, nós fazemos de vítimas e a malta continua calminha por aqui, que é o que todos queremos".

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De Pedro Correia a 01.02.2015 às 01:05

A Rússia está a financiar diversos movimentos de cariz populista, de extrema-direita e extrema-esquerda, um pouco por toda a Europa. Financia - não é segredo - a Frente Nacional em França. E financia também os dois parceiros de coligação em Atenas: o Syriza e os "Gregos Independentes".
Não por acaso, deixámos de ouvir a extrema-esquerda criticar a FN. O modelo grego está a seduzir radicais de várias tendências. Resta ver quanto tempo irá durar.
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De rmg a 01.02.2015 às 01:55


A Srª Le Pen até ficou bastante contente com a vitória do Syriza.

Tudo na vida tem várias leituras, algumas até conjuntas, desde que se tirem as pálas.
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De campus a 02.02.2015 às 10:17

Ou seja e em resumo, criar embaraço e desestabilização na União Europeia.
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De Anónimo a 29.01.2015 às 18:31

Exige-se o impossível porquê? Faça-se o que se fez à Alemanha e assunto arrumado. A Alemanha, matou, violou, fez barbaridades, fez Auschwitz que todos, ainda hoje, choramos e choraremos enquanto houver memória de pessoas com sentimentos e perdoa-se metade da dívida e o resto foi paga há bem pouco tempo e os outros, têm de pagar custe o que custar, nem que para isso, haja outro Auschwitz, mas mais disfarçado. Nada é impossível, só a morte, nós é que tornamos as coisas impossíveis porque somos egoístas e gananciosos.
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De Retrato Falado a 29.01.2015 às 18:57

Então e os portugueses fizeram festinhas aos povos colonizados até muito depois de outros países terem feito a descolonização? E trouxeram para cá os escravos para lhes darem uma vida boa e pagaram com dólares os ouros e as pimentas? E os árabes foram gentilmente convidados a irem embora?

Não consegue perceber que:

1. O povo alemão de hoje não é o que já morreu. 2. Os alemães, mais do que terem beneficiado desse plano, foram vítimas de um bando de loucos nazis.

Já que assim pensa, trate de devolver tudo aquilo que os seus antepassados roubaram e de pedir humildemente perdão por todo o mal que fizeram.
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De Anónimo a 29.01.2015 às 22:31

Porque não! Escrevi que nós portugueses fomos santos? Não fomos santos, roubámos ouro, roubámos terras aos mouros, explorámos negros por onde andámos e ensinámo-los a serem corruptos. O termos sido tudo isto, não quer dizer que já é tempo de mostrarmos ser outros. Alguns alemães foram vítimas, outros, fizeram vítimas por essa Europa fora. Na hora do perdão tiveram-no, então que sejam humanos e que vejam que os outros também têm direito a negociarem a dívida monstruosa que jamais serão capazes de pagar. Esta é a realidade que nós, não queremos abrir os olhos, vá-se lá saber porquê!....
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De rmg a 29.01.2015 às 23:44


Eu explico-lhe porquê.

Eles é que fizeram a dívida e lhe garanto que viveram uns bons tempos muito razoávelmente à conta dela.
Viveram mesmo muito melhor que nós alguma vez sonhámos viver.

Nós também a fizémos, é certo - e estamos a pagá-la.

Mas acontece que eu e outros que nos encontramos nos 40% de portugueses que não estão isentos de IRS achamos de elementar justiça contribuír para o Estado Social que por aí ainda vai subsistindo através de uma redistrubuição de riqueza que, não sendo a ideal, permite que muitos tenham acesso a uma vida um poucochito melhor.
Para mim isso é básico e indiscutível.

Agora o que já não é para mim nem básico nem indiscutível é que parte do dinheiro desses nossos impostos seja encaminhado para o Estado Social grego. Compreenderá decerto que a vida é feita de opções e eu optei por me preocupar mais com os meus compatriotas do que com os gregos.

De resto e se me fôsse necessário ajudar outros povos do mundo concordará que só em África encontraríamos uma multitude de gente com evidente prioridade em relação aos gregos.

Portanto comece então V. por mostrar que é outro fazendo um generoso donativo aos gregos pois isso de fazer donativos com o dinheiro que nos faz falta é tipico de quem não é do bolso dele que sai.

Cumprimentos
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De Anónimo a 30.01.2015 às 01:22

Se viveram foi porque os deixaram e enquanto eles viviam, ninguém os questionou e em vez de os mandarem parar, continuavam a mandar dinheiro. Os políticos gregos, iam fazendo asneiras e o BCE, UE, FMI, foram coniventes. Os políticos corrompiam e eram corrompidos porque não há corruptos, sem corruptores e o povo paga as asneiras, daqueles que os governam, mas de governação, está provado que nada sabem, o que está provado, é que se sabem é governar a si mesmos, isso sim. É dever, duma sociedade bem formada, ajudar quando têm como. Não me mande a mim ajudar, mande aqueles que nos roubaram e roubam e que nós temos andado a pagar e eles andam por aí como se fossem honestos. Esses, é que deveriam repor, todos os milhões que não são deles, mas de todos nós e exija que a justiça aja com mão de ferro com todos esses que esbanjam o que é nosso. Aí, sim, estaríamos a construir uma sociedade mais justa e menos cruel, caso contrário, continuaremos cada vez mais egoístas e desumanos e assim sendo, acredite que não acabaremos da melhor forma, é inevitável e cíclico.
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De rmg a 30.01.2015 às 15:36


Mando-o a si , mando-o, já que V. me mandou a mim ajudá-los.
Ou ainda não percebeu que não é a Alemanha sózinha que paga?

Quanto ao resto que diz, eu não gostaria de concluír que v. é dos que acham que a malta que só podia ter um T2 e comprou uma moradia ou só podia ter um Fiat e comprou um BMW é uma vítima dos bancos

Porque então das duas uma: ou é ingénuo ou está a falar em causa própria.

E que assim não percebo os milhares e milhares de pessoas que não deram passos maiores que as pernas.
Está V. a chamar-lhes burros (e só confirmaria então que o "grego" os terá dado)?

Cumprimentos

PS - Por razões que não vou pôr aqui estou muito farto dos discursos na blogosfera sobre a construção de sociedades mais justas e menos cruéis.

São como os "likes" das redes sociais, pretendem apenas limpar consciências.
Quem faz algo pela sociedade de real não o anda a trombetear.


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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 11:08

Há uma contradição aparentemente insanável entre o que o Syriza proclama e o que o Syriza faz. Enquanto proclama o desejo de manter a Grécia no euro (correspondendo aliás à opinião largamente maioritária no país, cerca de 74%) começa a fazer tudo, e em passo rápido, para que a Grécia abandone o sistema monetário europeu com as primeiras medidas de carácter populista já anunciadas em ruptura com os compromissos assumidos ao receber o fundo de resgate (aumento do salário mínimo, electricidade gratuita para cerca de um milhão de pessoas, restituição do subsídio de Natal, abolição das taxas moderadoras, medicamentos gratuitos e passes de transportes também gratuitos para desempregados, renacionalizações de empresas privatizadas ou em fase de privatização, etc, num pacote que agravaria o défice orçamental grego em nove pontos percentuais).
A intenção, por enquanto inconfessável, parece-me evidente: apontar mais tarde o dedo acusador às instituições comunitárias, acusando-as de responsabilidade directa na ruptura da Grécia com o euro.
Tudo demasiado previsível, enfim. Estamos perante rudimentares aprendizes de Maquiavel. Receio apenas que o povo grego acabe por sofrer ainda mais com isto. E nós com ele.
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De rmg a 31.01.2015 às 14:57


Tenho vindo a aconselhar as pessoas a consultarem, por exemplo, a Wikipedia ou outros locais da net que descrevem a situação grega no que respeita a agricultura,indústria e serviços.

Como se trata de informações fornecidas pelas entidades oficiais, a habitual crítica de que a Wiki conta histórias facciosas (desconhecendo as pessoas que se assim é as podem lá ír desmentir) não colhe aqui.

Acho muito instrutivo para quem possa fazer leituras destes factos que vão para além das frases grandiosas "pour épater le bourgeois".
É que é preciso continuar a dar de comer às pessoas, a todas as pessoas, as que votaram em nós e as que nos odeiam, com risco de tantos como outros se chatearem.

Estou assim bastante de acordo consigo na conclusão que tira.

E não deixa de ser útil lembrar que Pablo Iglesias do "Podemos" espanhol já tenha vindo deixar bem claro que isto é tudo muito bonito mas ele só é "Syriza" na Grécia, em Espanha nem pensar.
Nisto mostra bom senso.
Na Grécia todo o tipo de acordos, coligações e experiências variadas foram tentados ao longo dos anos com resultados catastróficos e nada disso aconteceu em Espanha (ou até em Portugal).

Que a saída da Grécia possa trazer uma crise das instituições com "luto" mais ou menos prolongado (é um divórcio!) não duvido, que traga o fim do euro como muitos anunciam para vender papel ou horas de transmissão, aí duvido.

O fim do euro vem aí pelas mãos das injecções maciças de dólares na economia americana (e por consequência na global, que do dólar ainda muito vive) e pela queda acentuada de crescimento na China e outros emergentes que se tinham tornado grandes clientes dos países europeus mais industrializados.

De resto não leram Maquiavel mas apenas os comentários de Bonaparte, que era pouco convencido, era...
Viu-se como acabou.
Agora me lembro que prometi a um comentador do DO confirmar se os comentários eram realmente dele ou não e ainda não o fiz (as minhas desculpas se me está a ler).

PS - Na Grécia o voto não é obrigatório mas os que se abstenham têm depois dificuldades na obtenção de determinados documentos, por exemplo o passaporte ou a carta de condução.
Desta vez estes mecanismos legais não foram "accionnados", por assim dizer.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 22:32

Há uma coisa que me espanta sempre nestes debates sobre a Grécia: ouvir alguns, do lado de cá, exigirem "solidariedade" com os gregos a todo o preço. Apetece perguntar, para ser ouvido do lado de lá: que solidariedade concreta têm dado os gregos aos parceiros da UE? Não chegou finalmente a altura de também nós lhes exigirmos que sejam solidários connosco?
Estas coisas só funcionam nos dois sentidos. Nunca funcionam em via única.
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De rmg a 31.01.2015 às 23:03


Para as crianças mimadas e egoístas funcionam só num sentido, sempre.

De qualquer modo o Sr. Varoufakis tem vindo a dizer que o que estão a fazer é pelos europeus e em solidariedade com os seus problemas.

Mas os "pouco espertos" úteis de serviço adoram estas coisas.
Ditas por algum rapaz da nossa praça eram de o deitar ao rio com uma pedra ao pescoço mas ditas por um sujeito que ninguém sabe de onde vem e para onde vai e que, de qualquer modo, ninguém conhecia anteontem é já matéria de fé.
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De Pedro Correia a 01.02.2015 às 01:06

Ou muito me engano ou o Sr. Varoufakis será o primeiro a abandonar o barco...
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De rmg a 01.02.2015 às 01:50


Já somos dois...

Esta mania de ír buscar académicos cheios de teorias não seria grave se os académicos vivessem no país.

Agora vivendo por outras paragens, longe do dia-a-dia das gentes, é complicado.

Como não me cando de dizer: quem não anda frequentemente de autocarro não conhece o país onde vive.

Eu ando e mesmo assim...
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De Pedro Correia a 02.02.2015 às 17:16

É uma grande frase. Vou copiá-la aqui para melhor a memorizar: quem não anda frequentemente de autocarro não conhece o país onde vive.
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De da Maia a 29.01.2015 às 19:24

A deixa que o Pedro deixa, sugere a conclusão de que Sócrates hoje é mais cidadão do mundo prisional de Évora.

De facto, ao que consta, dentro do muito que consta, Sócrates acabou na cicuta porque o Oráculo disse que ele era o melhor candidato a PR. Não... isso é o outro, o antigo o Oráculo de Delfos disse que Sócrates era o mais sábio.
Ora, Sócrates, como muito boa gente, não era de ficar de boca calada, e começou a dizer que nada sabia, e foi ridicularizando figuras importantes de Atenas, mostrando que afinal elas ainda sabiam menos que ele. Portanto, ao que consta, o elogio do Oráculo foi a primeira parte do veneno que provou pela sua língua.

Como não acho que os autocarros de quéflôs, com bandeirinhas do PS, não sejam apenas ocorrência eleitoral nacional, presumo que a contagem dos 149 deputados tenha sido muito bem feita.
Acresce que a junção com o ANEL permitiu enfiar um compromisso no dedo direito do Syriza, para calar a histeria da tia Aurora. Isto é coisa para casamento estável, e pender a música para o lado da nação grega contra os persas, contra os otomanos, contra os nazis, etc...
Falar em extremos aqui é um bocado fora de contexto, porque o único extremo que se agudizou foi o extremo imperial, quando Merkel pensou que era czarina, e o resto são nacionalismos reactivos, perfeitamente naturais. O nacionalismo parece que só é mau quando é o dos outros...

Tsipras fez-se assim pronto a erguer o gládio de Leónidas e defender as Termópilas com mais 300 amiguinhos, contra tudo o que lá vier. Isso não é mau para especuladores, pelo contrário, quem controla de alto, muito ganha com situações de instabilidade.

Estas alturas de incerteza põem os mercados aos saltos, e com tanto peixe a saltar, ora compra ora vende, há uns cachalotes prontos a abocanhar na altura certa. O resto é uma gestão de expectativas, entre pânico e a calmaria.
O que menos se ganham com esta história é se os gregos caíssem às primeiras, fazendo moeda própria, etc. Assim, caíriam apenas os gregos, e a ideia melhor para um especulador, é arrastar na queda uns anjinhos da UE.

Por isso, acho bem mais previsível que esta história se arraste, que esteja
entre Grécia entra ou Grécia sai, porque é isso que dá mais massa aos controladores dos espaços aéreos. Para além disso, a massa que os bancos franceses e alemães iriam perder com a bancarrota grega seria muito...

O novo acto desta tragédia grega foi posto agora em cena, com cuidado, e não me parece que seja para se juntar à Albânia, apostaria mais que o encenador quer fazer dançar as bruxinhas de Bruxelas.
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De rmg a 29.01.2015 às 23:48


Meu caro

Suponho que queria dizer a contagem do 99 deputados, claro.
Sim, essa foi bem feita.

Quanto ao resto não estamos de acordo em muita coisa mas isso faz parte do prazer de conversarmos.

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De da Maia a 30.01.2015 às 03:38

Caro RMG, aproveito uma pausa de uns minutos para o prazer de lhe responder.
Já tivémos oportunidade de conversar o suficiente para concluir muitas vezes que não é nos fatos que discordamos, é mais no corte que lhe fazemos. Como perceberá, gosto de pegar na tesoura e cortar por aí adiante, fazendo o modelo com a menor cobertura possível. Por vezes, arrisco beliscar as peles mais sensíveis, mas é o jeito do alfaiate, que não é do Panamá.
Se faço isso, é porque gosto mais da crítica do que do consenso, que é algo que nos adormece. É claro que há consensos imprescindíveis, e a crítica sem sentido é apenas ruído - no máximo o nonsense dá uma boa piada.

Neste caso, e para não adormecer no consenso sobre a irresponsabilidade grega, e como a novela anda tão previsível, e a mãe austera não pára de bater no filho, ao menos que mudem um bocadito a narrativa. Ou o miúdo sai de casa, ou então que confronte a mãe. Agora esta história de estar sempre a amochar e ir dormir com os patinhos feios, parece uma sessão contínua de Calimero...
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De rmg a 30.01.2015 às 15:48


Caro Da Maia

Pois muito lhe agradeço, é sempre um prazer.
Lembro-me mesmo que o maior prazer das nossas conversas por aqui e até agora foi quando eu apareci inadvertidamente como anónimo e me deixei ficar como tal depois de uns comentários patetas de outro comentador.
Não só o meu amigo e eu fômos aproximando as nossas posições relativas, o que só é possível quando se está de boa fé (e se tem a necessária visão cultural e histórica) como ainda me "apanhou" com a história das vírgulas...
Foi giríssimo, conto sempre isso a vários amigos e conhecidos meus que fazem o favor de me vir ler e criticar (os que me acham muito inteligente dispenso, isso já eu sei!).

Do "Se faço isso..." até ao fim é notável de acutilância o que diz e, como é usual dizer-se, só lamento não ter sido eu a escrevê-lo.

Abraço
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De da Maia a 31.01.2015 às 00:30

Pois, meu caro, com essa das vírgulas, agora já não o apanho.
Acerca disso, é engraçado que há quem julgue que é melhor guardar certas vantagens para si, ocultando certas coisas.
Mais novo, já pensei assim, em "guardar vantagens", mas curiosamente, talvez por "mera coincidência", fui sempre constatando que me dava muito melhor em não esconder nada. Já vi gente a vangloriar-se de ideias que lhes tinha dito, como se fossem suas, e até achei piada. Era como se uma ideia filha se tivesse casado com alguém que a estimava.
A questão fulcral é que se os outros souberem mais do que eu, então nada tenho a temer do seu julgamento - será melhor do que o meu. No meio de todos esses processos, o progressivo libertar de "posses" é por vezes um alívio enorme.
Um abraço, e até ao prazer de discordarmos numa qualquer outra concórdia.
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De rmg a 31.01.2015 às 02:24


Caro Da Maia

Pois entrei no bom caminho graças a essa história, mas não quer dizer que não me distraia e não me volte a pôr a jeito.
Conto consigo para o devido correctivo, que isto de fazer sermões aos netos sobre as notas a Português e depois asneirar eu não é mesmo nada bonito.

Gostei muito de o ler, revi-me muito no que diz, sorri para dentro e para fora o tempo todo.

Eu acho que sempre fui muito aberto, minha mulher durante anos até me criticava por isso e eu sempre lhe disse "falo muito mas não falo demais".
Curiosamente ela terá acabado por compreender pois agora também já fala muito e, por vezes, até demais!

A mentira tem a perna curta e assim não há como dizer o que há a dizer e se possível tudo até ao limite da circunstãncia em que o fazemos e dos circunstantes que nos ouvem.
Evitam-se assim muitas contradições futuras e respectivos momentos constrangedores.

A sua observação das pessoas que se vangloriam das ideias que lhes demos como se fossem deles é preciosa, isso sempre me aconteceu e eu sempre fiquei feliz com isso e incapaz de comentar "espera aí, essa é minha!".
Pelo contrário, constatava que a ideia era boa pois alguém que (habitualmente) respeitava se apropriava dela.

No entanto e infelizmente isso tem acontecido cada vez mais.
E digo infelizmente não porque o facto em si me desagrade mas porque me é difícil conviver com alguma chéchézice própria da idade em que os meus amigos e conhecidos estão (e é igual à minha), que faz com que 5 minutos depois já achem que a ideia foi deles, é tempo muito curto.
O mesmo acontecerá comigo mas aí minha mulher, filhos e netos têm instruções estritas para me darem discretas cotoveladas ou claríssimos pontapés debaixo da mesa.

O libertar de "posses", como diz, é sempre um alívio.
Mas há "posses" que por vezes não dá para libertar, morre-se com elas.

Um abraço para si
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De da Maia a 01.02.2015 às 02:23

Meu caro, dado o adiantado da hora, e da conversa, resta-me enviar-lhe um abraço.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 00:52

Meu caro, os gregos já beneficiaram de um perdão de dívida em cerca de 50%.
Estou firmemente convencido de que não haverá mais perdão nenhum. A Comissão Europeia e o BCE não quererão, com isso, enfrentar revoltas generalizadas dos contribuintes de cada Estado credor nem estimular a multiplicação de forças similares ao Syriza por essa Europa fora.
Nisto há convergência entre os dois principais blocos políticos - socialistas e conservadores/democratas-cristãos.
Um novo perdão de dívida grega seria, aliás, uma péssima notícias para Portugal: o nosso país é a nação comunitária mais exposta à dívida grega, no equivalente a 3,2% do nosso PIB, como se pode verificar aqui:
http://www.bloombergbriefs.com/content/uploads/sites/2/2015/01/MS_Greece_WhoHurts.pdf
Com gravata ou sem gravata, Tsipras e o seu parceiro eurofóbico terão oportunidade - na melhor das hipóteses - de renegociar os compromissos que o Estado grego estabeleceu com os parceiros comunitários. As bravatas, para efeitos de propaganda, ficarão à porta das salas de reuniões em Bruxelas e na Alemanha.
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De da Maia a 30.01.2015 às 04:17

Sim, Pedro, tem razão nesse ponto. Há o perigo de contágio, e é claro que a haver mudança teria que ser mais profunda, questionando o funcionamento actual da UE. Esse funcionamento é o de Estados que não governam a união, usam a união para se governar.
De forma que esse lado da narrativa tem um ponto perigoso. Se Tsipras for pouco mais de um espasmo de novo Hollande, então é toda a UE que está ameaçada, porque está a cavar um buraco que irá destruir a coesão por dentro.
Eu já tive ocasião de ter dado um salto inesperado, e sei perfeitamente que, acima do poder que conseguimos, há sempre outro poder pronto a retirá-lo. Nesses contextos até as secretárias se passam a esquecer de enviar despachos, e basicamente tudo o que era suposto funcionar, colapsa misteriosamente.
Por isso, eu não estava a falar propriamente de Tsipras conseguir sozinho, isso parece-me difícil - no máximo conseguiria colar-se à vizinha Albânia. Falava mais numa certa vontade externa, que me parece haver, dirigida contra a UE, e muito em concreto, contra a Alemanha.
E é também por se sentir alvo, repetidamente, que a Alemanha se mostra mais inflexível e em posição altamente defensiva. Só que é preciso não esquecer que a Alemanha só cresceu o que a deixaram crescer, e nada mais que isso.
Por exemplo, a França desde Waterloo nunca mais abriu boca contra a Inglaterra, mas é claro, pode fanfarronar com outros.

O contexto, não haja ilusões, é definido pelos vencedores.
Cartago quando perdeu a 2ª Guerra Púnica, ficou a pagar uma dívida quase impagável a Roma. Mesmo que o assunto fosse batata, Catão terminava as suas intervenções com "... além disso, é minha opinião que Cartago deve ser destruída". E foi. O motivo e o pretexto acabariam por ocorrer.
Agora, saber se esse discurso ainda é actual, é algo que me escapa.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 00:35

Claro que são os vencedores a definir o contexto, meu caro. E a propósito: quando agora tanto se fala na conferência de Londres, que em 1953 determinou o perdão de cerca de metade da dívida externa alemã, isso deveu-se essencialmente a pressões dos EUA, que ocupavam militarmente parte do território alemão e queriam fazer desse protectorado uma montra do seu modelo de sociedade num mundo fragmentado em blocos ideológicos quando havia parte da Alemanha sob a tutela de Moscovo.
Nada disso acontece agora. Por isso invocar esse precedente ocorrido há 61 anos como via de saída da actual crise grega é mera retórica política que não conduz a lugar algum.
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De da Maia a 31.01.2015 às 02:23

Claro, Pedro, não discordamos nisso.
A única questão que congeminei foi sobre a insustentabilidade de manter políticas draconianas numa união, salvando uns e deixando outros na falência irremediável.
Isso poderia ser viável durante alguns anos, mas as melhores perspectivas apontam um arrastar por décadas. E nesse caso a união passa a mera prisão de trabalhos forçados.
A Alemanha meteu-se numa alhada monumental por ter caído no conto do vigário dos subprimes. Ainda em 2007 já se podia ler isto:

«At first glance it seems paradoxical: Loan defaults in the U.S. real estate
market threaten the viability of two major German financial institutions–both
with deep national roots. But although the full extent of the current banking
crisis remains yet unknown, the first steps toward a critical reappraisal of
future market scenarios can begin now. »

http://static.esmt.org/publications/businessbriefs/BB-107-003.pdf

Assim, quando houve uma crise de liquidez, o que ainda valia alguma coisa eram as dívidas soberanas, desde que os estados que as detinham fossem convencidos a credibilizá-las, pagando rapidamente. Isso foi um golpe na expectativas de quem "geria a dívida" a juros baixos. Para isso era fulcral que os planos de austeridade resultassem, porque só isso daria valor rápido a esses activos.

Isto são factos documentados, agora a sua interpretação é que é facultativa.
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De Vento a 31.01.2015 às 22:49

Meu caro Pedro,

o perdão da dívida à Alemanha abrangeu dividas anteriores e posteriores à guerra assim como o perdão das reparações aos adversários. Mas para que compreenda deixo o link de um colega seu português que reproduziu o contexto destas negociações, as de 1953:

http://economico.sapo.pt/noticias/o-perdao-a-alemanha-em-1953_210844.html

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De Pedro Correia a 01.02.2015 às 01:08

Obrigado, meu caro, mas tenho a pretensão de saber alguma coisa também sobre esse tema.
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De William Wallace a 29.01.2015 às 20:51

Quando os resultados não agradam á oligarquia instalada há que mudar as regras e fazer afirmações rasteiras de xenofobia contra quem unicamente está a defender o seu próximo, não haja duvidas perante a tentativa desesperada de instigar o medo e o ódio feitas por muitos e muitas .


"Quem levantou dinheiro foram oligarcas, não foi de certeza o desempregado ou o mendigo ou quem recebe o salário básico ou médio, claro além dos agiotas internacionais que andaram a fazer compras de saldo nas privatizações sendo que ainda o desempregado, o mendigo ou assalariado médio não perdeu o direito de votar.

Lá como cá a oligarquia que está montada nos políticos e anda aí a pedir batatinhas todos os dias pensa que se safa mas não safa.

Nós SOMOS MAIS !

Já agora o ex- DDT informou hoje que teve umas reuniões com o Passos, Cavaco e o irrevogável Portas a contar que tava á rasca e pretendia apoio "institucional" (guito) para se salvar a ele e aos amigos, mas a malta que nos desgoverna apesar de informada pelo DDT continuou a dizer que o banco era sólido até á ultima.

"Despite the evident failure of the 'extend and pretend' logic, it is still being implemented to this day. The second Greek 'bailout', enacted in the Spring of 2012, added another huge loan on the weakened shoulders of the Greek taxpayers, "haircut" our social security funds, and financed a ruthless new cleptocracy"

Fica o link se quiser ler o resto

http://syriza.net.gr/index.php/en/pressroom/253-open-letter-to-the-german-readers-that-which-you-were-never-told-about-greece

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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 00:58

A soberania grega está hoje, de facto, profundamente limitada. O país não reúne condições de financiamento fora do eixo FMI-BCE e qualquer denúncia unilateral dos compromissos assinados com aquelas entidades ameaçará a solvência do Estado grego.
A coligação da esquerda radical com a direita radical pode refugiar-se na retórica patrioteira, habitual recurso da demagogia populista. Mas este nacionalismo exacerbado choca com a dura realidade: sem dinheiro, sobram as palavras. E nenhum povo se alimenta de retórica.
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De am a 29.01.2015 às 23:56

Todos os dias dou graças aos deuses gregos pela vitória do Syricusa...

O meu merceeiro é grego ... já me perdoou o calote!
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 01:03

Eu dou graças aos gregos por terem chamado o Vitor Pereira. Já se falava dele para treinador do Sporting...
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De Vento a 30.01.2015 às 00:09

Não acredite nisso Pedro. Em momentos de crise tão grande existe tendência para confundir uma gota de água com o oceano. E o oceano é a UE e não a Grécia que é a gota que pode originar um tsunami.

Acho um absurdo que se transformem milhões de pessoas em dificuldade numa simples percentagem do PIB. Isto é raciocínio de acomodados que não entendem a razão, a luta e a revolta para uma morte feliz (sim, lembrei-me de Camus).

Traduzir uma sociedade em números, que é a coisa mais simples de fazer, e numa opção de vida só revela que é a imaginação que deve estar no poder. Com todas as transformações ou metamorfoses que se assistirá no tempo.
A coerência é o acto de evoluir e não de nos mantermos na mesma posição.
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De Vento a 30.01.2015 às 00:46

Já agora, Pedro, recorda-se que foi a Alemanha que quebrou o tratado de Maastricht aquando da reintegração alemã; e que esta foi suportada por todos?
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 01:08

A opinião pública alemã foi no início fortemente contrária à integração no euro. Os alemães orgulhavam-se do marco e pretendiam manter a divisa nacional. O sistema monetário europeu foi concebido pelo presidente Mitterrand para amarrar Berlim ao compromisso comunitário, pois receava que a Alemanha reunificada voltasse a ter uma voz plenamente autónoma numa Europa que progredia para Leste.
Este desígnio estratégico permanece em vigor. Digam o que disserem os quixotes de turno, a construção europeia não se fará sem a Alemanha e muito menos contra a Alemanha: eis uma evidência que fala por si. E ainda bem: graças a ela, pudemos disfrutar de sete décadas de paz na Europa.
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De Vento a 30.01.2015 às 13:09

De acordo nos princípios. Mas ainda que o desenho tenha sido de Miterrand a Alemanha foi uma das grandes beneficiárias. Significa isto que é necessário pensar e agir por eles até mesmo para os favorecer.
É isto que deve ocorrer hoje.
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De Pedro Correia a 30.01.2015 às 13:47

Pela minha parte, caro Vento, apoio todas as soluções que resultem de pactos negociados na base da boa-fé e do respeito pela soberania mútua. Este sempre foi sempre o espírito dos históricos obreiros da construção europeia nos anos do pós-guerra. Também por isso, defendo o cumprimento dos pactos. Os acordos não devem ser rasgados à mercê das circunstâncias, como se a palavra e a assinatura dos estadistas valessem tanto como a volátil verborreia dos charlatães.
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De Vento a 30.01.2015 às 14:03

Pois é , Pedro, mas já lhe disse que os alemães suspenderam Maastricht para poder chegar ao estado em que hoje se encontram. E todos pagaram.
Os pactos têm o valor que têm nas circunstâncias em que são feitos, mas as evoluções podem determinar alterações e, à falta dessas alterações, simplesmente rasgá-los.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 00:31

Os pactos são a alternativa à guerra. Parafraseando Churchill, são a pior solução com exepção das outras todas.
Mas é preciso cumpri-los, não rasgá-los. E Portugal, que tem mil e cem milhões de euros empenhados na Grécia, não tem qualquer interesse num perdão de dívida. Que acabaria sempre por ser pago pelo contribuinte português. Ou seja: nós.
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De Vento a 31.01.2015 às 01:02

Meu caro,

depois do que já perdemos com tudo o que nos foi imposto, e desejado também por Passos, ainda acredita que o que nos pode beneficiar é perda?

Fala de Mil milhões? Quantos mil milhões não estão em causa para resgatar em particular a banca francesa e alemã que beneficiou de toda a cosmética contabilística - e não foram os únicos - por eles elaborada lá por Atenas e que depois foram todos os contribuintes da UE a assumir esse e outros desastres?

Os gregos não estão vinculados a pagar tudo isso e também o resgate que nos foi feito? Só vê por uma via?

Eles já fizeram o papel que lhes competia, e enfraqueceram-se. Com o crescimento que têm necessitam de dois séculos para pagar a dívida. Acha razoável?
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 10:55

Devolvo-lhe a pergunta, caro Vento. Com várias outras.
Acha razoável que a primeira medida do novo governo grego tenha sido o aumento do salário mínimo em 28% num país em que cerca de um quarto da população activa está desempregada, o que portanto só potencia o aumento do desemprego ainda em maior escala, na proporção directa do aumento dos custos unitários do trabalho?
Acha razoável que o governo da Grécia - cuja dívida pública ascende a 177% do PIB - se tenha apressado a anunciar ainda mais despesa pública, num valor orçado em 12 mil milhões de euros - cerca de 6% do PIB grego - em medidas assistencialistas e desenvolvimentistas com dinheiro que manifestamente não tem?
Acha razoável que a Grécia deite pela janela os 17 mil milhões de fundos comunitários que, de acordo com os tratados, ainda deverá receber até 2020?
Acha razoável que entre 2000 e 2006 os trabalhadores da função pública grega tenham visto aumentar os seus rendimentos em 60% devido a sucessivos aumentos de salários decretados por governos que apenas pretendiam colher dividendos eleitorais à custa dos contribuintes europeus?
Acha razoável que apesar de ter sido alvo de duas assistências financeiras externas de emergência a Grécia possua ainda um PIB per capita de 22 mil dólares enquanto a vizinha Bulgária não ultrapassa um PIB per capita de 8 mil dólares e continuem apesar disso os búlgaros a contribuir para o fundo de resgate grego (tal como os portugueses, aliás)?
Acha razoável que os gregos, já contemplados com o maior aumento de perdão de dívida até hoje registado nos anais financeiros, reivindiquem um novo perdão quando não conseguiram meter a casa em ordem e se apressam agora a readmitir funcionários, renacionalizar empresas, alargar o tecto de isenções fiscais e outras medidas de pura demagogia que só poderão ser sustentadas pelos contribuintes de outras nacionalidades enquanto batem no peito invocando o orgulho nacional?
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De Vento a 31.01.2015 às 12:28

Eu vou responder, Pedro, resumidamente uma a uma de suas questões. Mas espero o mesmo resultado a todas as questões que lhe tenho colocado, incluindo aquela a respeito de se o não ter medo fazia heróis aqueles que levaram a efeito o atentado ao CH.

1 - Acho razoável. Porque não só potencia o consumo interno como também alavanca os salários médios, subindo-os no futuro, como também estimula o aumento de preços ao consumidor, reflectindo uma maior colecta de impostos, mas também retira da mão de oportunistas a contratação através de salário escravo, determinando assim as contratações futuras.

2 - O dinheiro que diz eles não terem só existe em sua cabeça. Pois se têm uma dívida para pagar que todos reivindicam é porque há-de haver dinheiro em algum sítio- Se não houvesse os credores não andavam tão agitados. Mas continuemos.
Sim, acho razoável, pelo seguinte: O assistencialismo é uma política de emergência e não uma política económica. Significa isto que a política económica deve ter como sentido não essa dita economia mas aqueles que a geram: os cidadãos.

3 - Por favor, mostre-me aonde e quando foram deitados pela janela esses tais montantes.

4 - A sua questão leva-me a concluir que o Pedro afinal é favorável à vitória do Syriza uma vez que responsabiliza o centrão lá do sítio por eleitoralismo de pacotilha. Todavia, os gregos já perderam uma grande percentagem dessas benesses eleitoralistas.

5 - A sua questão sobre a razoabilidade das medidas passa pelo nivelamento por baixo. E eu recuso-me a entrar neste tipo de jogo porque me obrigaria a colocar-lhe a questão se não é justo portanto aumentar-se o salário mínimo nacional acima da média deste salário na UE.

6 - A esta questão respondo-lhe com o perdão à Alemanha em 1953 e aos pressupostos geridos para que tal ocorresse.


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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 13:05

Meu caro:
Imagina você então que o aumento de 28% do salário mínimo num país que vive de empréstimos externos, não produz rendimento suficiente para gerar tais níveis salariais e cuja taxa de desemprego afecta mais de um quarto da população activa renascerá das cinzas, eureka!, por via de uma assinatura posta num decreto.
Desculpe a franqueza, mas isso faz equiparar a ciência económica à alquimia.
Ao contrário do que sustenta, essa parece-me a via mais directa para o desastre. Que conduzirá à subida da taxa do desemprego e à descapitalização das empresas que ainda produzem riqueza na Grécia, designadamente no sector turístico (que tem sido um dos raros sustentáculos da débil economia helénica). Nenhuma empresa resiste ao aumento dos custos unitários do trabalho sem correspondência com os índices reais do valor do produto.
Quanto ao perdão da dívida: lembro-lhe que a Grécia já beneficiou do maior perdão de que há registo. Um perdão que abrangeu 50% da dívida pública grega detida por investidores privados - no valor de cerca de 100 mil milhões. Além disso o peso da despesa pública com juros foi reduzido para menos de 3% do PIB grego (percentagem inferior à portuguesa).
Lamento decepcioná-lo, mas creio firmemente que não haverá novos perdões de dívida. A Grécia tem de cumprir as obrigações contraídas com a adesão à União Europeia e ao sistema monetário europeu, aliás defendido por cerca de três quartos dos gregos. Entre essas obrigações destaca-se a necessidade de consolidação das contas públicas, ameaçada claramente pelo pacote de despesas assistencialistas e de "investimento" público já anunciado pelo novo Governo - equivalente a 6% do PIB grego.
Aquilo a que você chama "consumo interno", eu chamo espiral de dívida. Porque num país que não produz sequer metade daquilo que consome o disparo do "consumo interno", a acontecer, significaria apenas maior dependência da economia grega ao exterior e portanto maior desequilíbrio das suas contas externas.
No fundo o Syriza e o seu parceiro da direita populista e eurofóbica pretendem a quadratura do círculo: pôr fim à "austeridade" e aumentar a despesa sem haver dinheiro para o efeito. A menos que imaginem que a benevolência dos contribuintes seja inesgotável ao ponto de continuarem a sustentar tais desvarios, somados aos 240 mil milhões já atribuídos no âmbito das duas intervenções de emergência financeira externa, em 2010 e 2012.
É óbvio que isso não sucederá. Os contribuintes europeus - todos nós - já deram o que havia a dar à Grécia, em forma de fundos estruturais e de fundos de resgate. O discurso do calote tem os seus custos, meu caro. Como o ano de 2015 amplamente demonstrará.
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De Vento a 31.01.2015 às 13:32

O Pedro transforma-se no alquimista que pretende atribuir-me. Na primeira questão eu não falei do desemprego, referi-me ao consumo e à colecta. O desemprego é uma questão que se resolverá com o tempo. Eu escrevi sobre "contratações futuras".

"Nenhuma empresa resiste ao aumento dos custos unitários do trabalho sem correspondência com os índices reais do valor do produto.". Esta afirmação é sua. Não resiste se não estivesse em causa o aumento do consumo interno e sim competir com produtos de exportação com salários ao nível da China e do Paquistão. E o exemplo que cita em termos de turismo, similar nosso país, não será em nada afectado por isso. Acontece também QUE EU REFERI que tal medida impulsionaria O AUMENTO DOS PRODUTOS e o AUMENTO DA COLECTA.

Por outro lado, o Pedro centra a questão no perdão já efectuado, e eu centro-a na impossibilidade de a pagar. E essa impossibilidade poderá ditar a aceitação de parte a parte que cada um tem de seguir o seu caminho. Mas parece-me que a UE não quer aceitar este desígnio que os gregos já intuíram. Por que será?
A decepção não é minha, parece-me que é sua e de outros. Eu sei que eles não a vão pagar NUNCA os montantes e nas formas acordadas. É o Pedro, insisto, e outros mais que pretendem fazer de alquimistas perante esta realidade.

O Pedro romanceia para tentar tornar credível sua retórica. Consumo interno é consumo interno. Significa isto que os agentes públicos e privados serão melhor apoiados pelo aumento destes valores. E nós estamos a escrever sobre uma situação concreta e não por teorias plasmadas em romances de economia.

O final de sua resposta, a partir daqui "No fundo o Syriza e o seu parceiro da direita populista e eurofóbica (...)", não passa da expressão de seu pensamento e sentimento que procura tornear as questões substantivas destes comentários. Eu gostaria que fosse claro no contraditório para não ter de dispersar de forma vã as respostas a suas questões.
Eu centro-me nas medidas e não no apoio de partidos. Estou e continuarei com as medidas gregas NO CONTEXTO.




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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 22:52

Caro Vento:
Se existe algo de útil nestas trocas de impressões em caixas de comentários blogosféricas é sabermos que as opiniões de cada um podem ser confrontadas com os factos à medida que o tempo passa.
Você faz profissão de fé no novo executivo do engenheiro Tsipras, que por estes dias tem surgido animado de um sopro messiânico talvez por inspiração do parceiro de governo da direita pura e dura, suscitando as mais inesperadas adesões. Eu, pelo contrário, não tenho qualquer fé nesta experiência governativa, sinto uma aversão instintiva por "homens providenciais" e prevejo que os gregos não tardarão a arrepender-se de ser cobaias de engenharias politicas e ideológicas por parte desta nova elite de pseudo-iluminados, convictos que farão dobrar a história aos seus desígnios da mesma forma que Moisés separou as águas do Mar Vermelho.
O que sucedeu nesta semana?
- O novo PM grego reuniu-se em primeiro lugar - mal tomou posse - com o embaixador russo, à revelia dos parceiros comunitários, emitindo assim uma clara preferência em termos de política externa;
- O novo MNE grego rompeu o consenso da política externa comunitária alinhando ao lado de Moscovo na crise ucraniana: a Rússia, não é segredo, financia há muito tanto o Syriza como a Frente Nacional francesa;
- O novo ministro das Finanças grego anunciou aos quatro ventos que não reconhece a tróica como interlocutora sabendo que o país continua sob intervenção e necessita que sejam libertadas duas novas fatias do segundo mega-empréstimo concedido à Grécia;
- O novo Ministro da Defesa sobrevoou de helicóptero ilhéus da Turquia, reclamando-os como território grego e fazendo assim disparar sinais de alarme no poderoso país vizinho;
- Audiências mal-sucedidas do novo PM com o presidente do Parlamento Europeu e o presidente do Eurogrupo, em particular com este último, que acusou justamente Atenas de romper com os compromissos assumidos pelo Estado grego a troco do auxílio financeiro de emergência;
- Declarações inequívocas de vários responsáveis europeus deixando claro que não haverá nenhuma conferência internacional destinada a estudar um novo perdão de dívida, contrariando assim mais uma reivindicação do governo de coligação Tsipras-Kammenos: os gregos, como referi antes, já foram contemplados com o maior perdão registado nos anais financeiros internacionais.
Respondi-lhe com factos dos últimos dias, não com proclamações de fé.
Mas se quiser pode sempre deixar aqui os seus prognósticos. Nada melhor para que um dia mais tarde possamos confrontá-los com a realidade.
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De Vento a 31.01.2015 às 23:23

Meu caro,

certamente que partilhamos dos mesmos princípios relativamente aos dois primeiros parágrafos. Só que essa onda messiânica também se aplica no sentido inverso e que procedem de outros quadrantes desta UE. E sim, que fiquem os registos aqui.

Ao contrário do meu amigo eu perfilho as políticas circunstanciais e não as dogmáticas. Significa isto que que o que está em causa não é a vitória do Syriza nem de uma ideologia, mas sim a reacção de um povo a um massacre que leva por nome resgate.

Compreendo seu alarme e sua reacção às ocorrências que refere. Eu não as valorizo assim tanto. E para que me compreenda permita que eu lhe refira como se procedem a negociações em clima de tensão, EXEMPLIFICANDO.
Quando os americanos enviaram Kissinger a negociar o final da guerra do Vietnam, em Hanói, eles mantinham os B52 no ar a lançar toneladas e toneladas de bombas sobre Hanói, COM KISSINGER lá em posição bem identificada. Durante esta ocorrência dizia-lhes Kissinger o seguinte:
Reparais!? Temos de encontrar um acordo! Estes cabrões mesmo sabendo que me encontro aqui não deixam de bombardear!

É claro que isto fazia parte da estratégia das negociações. E muitas vezes, e em particular em circunstâncias extremas, é assim mesmo que se negoceia.

Da mesma forma Merkel diz que não cede, mas pede a Hollande que fale com Tsipras.

Registe agora para memória futura:
A UE VAI CHEGAR A ACORDO COM A GRÉCIA, E PARA QUE NÃO SE PERCA A CARA EXISTIRÃO ASPECTOS QUE SÓ SE FORMALIZARÃO NUM FUTURO PRÓXIMO. EU DISSE FORMALIZAR.
QUANDO SURGIREM AS DECLARAÇÕES VAI PARECER QUE A GRÉCIA TAMBÉM CEDEU, MAS NÃO SERÁ ASSIM TANTO COMO SE APRESENTARÁ.

P.S. Deixo aqui uma vez mais o acordo de 1953 reproduzido no Económico:
http://economico.sapo.pt/noticias/o-perdao-a-alemanha-em-1953_210844.html
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De Pedro Correia a 01.02.2015 às 01:15

O que está em causa, aqui, é um novo perdão da dívida grega. Acontece que isso está fora de causa, na minha opinião, desde logo pelos seguintes motivos:
1. Já houve um perdão anterior, que abrangeu cerca de 60% da dívida.
2. Um perdão seria premiar o Syriza sem que este partido tivesse feito fosse o que fosse para o merecer (teria muito mais lógica, nessa hipótese, haver concedido tal troféu ao governo anterior, ND-Pasok).
3. Se a tese do Syriza vingasse, estimularia a multiplicação de forças populistas na UE reivindicando igual benesse e pulverizando o sistema partidário tradicional em diversos países.

Há mais motivos. Mas, para sustentar a minha tese, estes já chegam.
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De Vento a 01.02.2015 às 13:00

1 - Meu caro quem perdoa uma vez também perdoa 70x7. O acto de perdoar não retira a culpa, de parte a parte.

2 - Acontece que o(s) governo(s) anteriores, à semelhança dos governos congéneres por esta UE, viviam com suas culpas e é natural que nunca se premiassem. Melhor, que não premiassem quem deviam: os povos.

3 - A multiplicação de forças "populistas" já é uma realidade nesta Europa e Portugal não lhe ficará imune.
Deixo aqui uma reflexão minha feita há pouco tempo:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-primeiro-muro-derrubado-pelo-syriza-7076405#comentarios
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De Pedro Correia a 02.02.2015 às 17:23

Caro Vento: o seu ponto 3 mais reforça a minha tese. Mas há um ponto 4, que não enunciei mas não pode ser menosprezado: as opiniões públicas dos estados-membros da UE são frontalmente contra um perdão da dívida grega. Desde logo porque isso tornaria ainda mais pesados os seus encargos fiscais.
A lição de economia mais útil e mais profunda é também a mais simples: não existem almoços grátis.
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De Vento a 01.02.2015 às 14:49

Pedro,

só para acrescentar ao anterior comentário este link:

http://www.sapo.pt/noticias/presidente-do-parlamento-europeu-diz-que_54ce014c15870d4f2f468712

Tenho a certeza que através desta declaração de Schultz conseguirá vislumbrar as mudanças que se afiguram.
Ninguém se pode "comparar com a Grécia" significa que as excepções que se vão abrir não podem ser reivindicadas por outros.
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De William Wallace a 31.01.2015 às 15:15

Bem se isso acontecer (o default grego) sempre sai mais barato que a pessegada do NOVO BANCO que ainda vamos pagar apesar do homem do aguenta mesmo apresentando prejuízos recorrentes diz que tem força para comprar.
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De Pedro Correia a 31.01.2015 às 22:53

Um default grego sairá caro para todos. Muito caro. E para os portugueses também.

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