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Nas últimas semanas, Portugal entreteve-se a discutir as origens do fascismo, uma cortesia de José Rodrigues dos Santos que as luminárias doutorais da pátria agradeceram com regozijo e soberba. Espanha tem agora a possibilidade de seguir as pegadas do seu vizinho ibérico: Pablo Iglesias, líder do Podemos, afirmou esta semana que a coligação por ele dirigida é social-democrata. Mais, empenhou-se em demonstrar que a social-democracia é um sucedâneo directo do marxismo. E, para rematar a faena, muniu-se das suas credenciais de professor de ciência política para afirmar que Karl Marx e Friedrich Engels eram social-democratas.

 

Como seria de esperar, Alberto Garzón, Coordenador Federal da Izquierda Unida (IU) e comunista confesso, foi rapidamente cercado por jornalistas interessadíssimos em saber o que pensava ele deste novo amor ideológico do seu parceiro de coligação. “Sinto-me confortável nesta aliança com o Podemos”. A vida em política não é fácil, sobretudo quando se está ao lado de Pablo Iglesias. No entanto, porque a política é um espaço onde impera a eficiência e porque há um PSOE para eliminar, a intelectualidade da IU reuniu-se com a imprensa para matar a polémica com uma cartilha preparada para a ocasião: “El comunismo es una tradición política que nace como escisión teórica y práctica de la socialdemocracia. Por eso, Lenin, Marx y todos los comunistas del siglo XIX eran de partidos socialdemócratas, y hablaban en sus textos como socialdemócratas. Solo que entonces socialdemócrata significada lo que hoy comunismo”.

 

Não me meterei no debate de filosofia política pois temo que a concorrência será mais do que muita. E deixarei a dissonância cognitiva de Iglesias para os psicólogos. Contudo, vale a pena dar uso à ciência política – a ciência social, não o veículo de doutrinação militante que alguns fazem passar por ciência nas universidades. Num ensaio muito recomendável, o cientista político Víctor Lapuente traça o perfil da nova estirpe de populismos que, à esquerda e à direita, tem despontado na Europa. Entre outras características, Lapuente adverte que à mínima oportunidade de conquistar o poder, independentemente do país em causa, os populistas (descritos pelo autor como “xamãs”) deslocam o seu discurso para o centro do espectro ideológico. Isto explica parte os conflitos de Marine Le Pen com o seu pai, fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen. Explica igualmente o desdém que Syriza e Podemos nutrem pela tradicional dicotomia esquerda-direita. A ausência de grilhetas ideológicas declaradas oferece uma liberdade de actuação táctica essencial para o acesso ao poder. Numa referência implícita ao célebre trabalho de Zigmunt Bauman, Víctor Lapuente afirma que estes populismos configuram partidos gasosos, e não líquidos. Há nos novos populismos uma obsessão com a conquista do poder ou, nas palavras de Pablo Iglesias, com “asaltar el cielo”. Resta saber se, perante a nova social-democracia do Podemos, este partido espanhol continuará a ser convidado de honra do Bloco de Esquerda em campanhas eleitorais.

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5 comentários

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De ariam a 09.06.2016 às 11:09

Ou então, podemos esquecer tudo e ir diretamente para as, fresquinhas, notícias do dia, daquelas que não passam muito na comunicação social mas, onde não faltam os que controlam, verdadeiramente e realmente, o Presente e o Futuro das nossas vidas.
YouTube:
Frm BBC Journalist: Why Bilderberg Won't Allow BREXIT
https://www.youtube.com/watch?v=2S7ZdJ3_Pjs
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De jo a 09.06.2016 às 11:14

No fundo estes partidos mimetizam a estratégia dos partidos de poder tradicionais que há muito abandonaram a ideologia. São grupos de pessoas com interesses comuns que prosseguirão qualquer política que lhes permita conservar o poder e as benesses associadas. No fundo são sindicatos que defendem interesses próprios, não são partidos políticos.

Não me parece uma boa opção a longo prazo. Mas a longo prazo estaremos todos mortos.
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De Luís Lavoura a 09.06.2016 às 11:28

estes populismos configuram partidos gasosos, e não líquidos

E partidos sólidos, onde os há? Eu diria que os eleitores querem um partido sólido no qual votar, não um partido que lhes fuja entre os dedos como um líquido.

Há nos novos populismos uma obsessão com a conquista do poder

Eu diria que tal obsessão existe em praticamente toda a política. O objetivo da política é sempre a conquista e o exercício do poder. Ou não?
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De lucklucky a 09.06.2016 às 12:11

"Portugal entreteve-se a discutir as origens do fascismo, uma cortesia de José Rodrigues dos Santos que as luminárias doutorais da pátria agradeceram com regozijo e soberba."

As luminárias tiveram de vir à rua porque as pernas da narrativa do regime tremeram com apenas uma frase correcta.

A História do Marxismo é o Poder pelo Poder. Por isso os seus usam o que for necessário.
O Líder do Podemos tem um programa na Estação de TV do Regime dos Ayatollah que aprisionam mulheres por mostrarem o cabelo, destroem templos Zoroastras e atacam homossexuais isto enquanto dá beijos na boca na assembleia para dizer que é favorável aos ditos.

Com o Marxistas é possível tudo e o seu contrário. Ainda os verei a dizer que flat rate no IRS é uma grande medida e que o aborto é mau - quando precisarem de corpos para a batalha.


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De cristof a 09.06.2016 às 16:31

É uma inutilidade muito usada, que dá uma cronicas cheias de nada, mas com um cariz de intelectual, lero lero interessante para quem gosta de coisa nenhuma essa de andar a etiquetar as coisas e pessoas de esquerda/direita. O novo passatempo da tudologia aponta para os extremismos, tal fabula do vem aí o lobo, mas ainda não pegou de estaca como a dicotomia esquerda /direita

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