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Mariano Rajoy Brey é um caso raro de sobrevivência política. O seu percurso, sobretudo nos últimos anos, é uma história quase inexplicável de resistência a tudo e a todos (e até a ele próprio). Perdeu duas eleições legislativas consecutivas sem nunca abandonar a liderança do Partido Popular (PP). Depois de oito anos na oposição, obtém uma maioria absoluta e forma governo para ver-se a braços com uma crise internacional, uma crise nacional e uma crise de reputação partidária. Repete a vitória nas legislativas de Dezembro de 2015, embora sem a maioria necessária para formar governo. Passados seis meses de chefia de um Executivo em gestão, Rajoy volta a apresentar-se às eleições generales do próximo dia 26 de Junho.

 

De derrota em derrota…

 

Em 2003, Mariano Rajoy é escolhido para suceder a José Maria Aznar na presidência do Partido Popular e, consequentemente, para assumir o papel de candidato a Presidente de Governo nas eleições legislativas do ano seguinte. À mesa dos mentideros, Rajoy é visto como a consequência da vaidade de Aznar. Zeloso do seu legado político, Aznar terá visto em Rajoy um político tímido e sem carisma. Portanto, alguém que não faria sombra aos oito anos do Executivo “España va bien” por ele liderado. Trate-se ou não de um maquiavelismo mal intencionado de quem conspira nos arrabaldes do poder, a verdade é que suceder a uma figura carismática e forte como Aznar não foi certamente uma tarefa fácil.

Tudo parecia estar de feição para uma vitória do PP nas generales de Março de 2004. Porém, dias antes das eleições, um brutal atentando terrorista, a reacção do PP a esse atentado e a organização de manifestações “espontâneas” contra o governo Popular provocaram um terramoto no sentido do voto dos eleitores. O PP perdeu as eleições para o PSOE de José Luis Rodríguez Zapatero. Rajoy manteve-se na liderança do partido.

Quatro anos mais tarde, em Março de 2008, Rajoy volta a apresentar-se como candidato a Presidente de Governo. Perde novamente as eleições para os socialistas de Zapatero. Rajoy permanece na presidência do PP.

 

…até à vitória aritmética.

 

mariano_rajoy.jpg

 

Após oito anos de oposição, Mariano Rajoy consegue vencer as eleições de 2011. O PP obtém a maioria absoluta com 186 mandatos (num total de 350) e com 44% dos votos. Mas as razões para festejar rapidamente desapareceram. A crise internacional destapou um conjunto de problemas estruturais do país, em particular no sector imobiliário. Apesar de não ter pedido um programa de resgate formal, o Governo espanhol viu-se obrigado a implementar sérias medidas de austeridade. Como um problema nunca vem só, o espaço público foi invadido por uma torrente de casos de corrupção e de branqueamento de capitais onde estavam envolvidos militantes do PP – um desses casos, porventura o mais célebre, já tem versão cinematográfica. Olhando acriticamente para as notícias, parece não haver no PP um único lugar impoluto: das estruturas nacionais às locais, de militantes de base a altos quadros do partido, nada parece escapar à obscuridade do crime financeiro e do abuso de poder. Pelo contrário, um olhar atento verá que não há uma situação de corrupção endémica, que o PP não é o único partido com problemas com a justiça, e que em muitos dos casos ainda não foi deduzida acusação. Contudo, dos vários partidos, o PP é aquele cuja reputação mais sofre com os sucessivos casos de corrupção e de branqueamento de capitais.  

O contexto político saído destes quatro anos de governação prenunciava uma hecatombe eleitoral sem precedentes. Contra Rajoy jogava ainda o aparecimento de novos partidos, o Podemos e o Ciudadanos, muito críticos do bipartidarismo PP-PSOE, e que foram capazes de mobilizar eleitorado e de demonstrar uma sagacidade invulgar nas suas estratégias de comunicação política. Novos ou velhos, todos os partidos da oposição escolheram o PP como alvo a abater. No dia 20 de Dezembro de 2015, o PP perde votos e mandatos, mas ainda assim é o partido mais votado – o PP obtém 28,72% dos votos, o PSOE 22,01%, o Podemos 21,67% e o Ciudadanos 13,93%.

 

[Publicarei a segunda parte deste texto amanhã]

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8 comentários

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De Peregrino a Meca a 07.06.2016 às 10:48

Só um pequeno comentário relativo a "Pelo contrário, um olhar atento verá que não há uma situação de corrupção endémica, que o PP não é o único partido com problemas com a justiça, e que em muitos dos casos ainda não foi deduzida acusação"
Quando um partido tem situação de corrupção que afeta desde as obras na sede nacional do partido (pagas "en negro"), caixas B pagando campanhas e "sobresueldos" (complemento de salário) a dirigentes nacionais, inclusive o próprio "presidente de gobierno" (primeiro ministro), quando em quase todos os órgãos regionais onde mantém poder há indícios fortes de corrupção, etc, etc, é perfeitamente permitido falar em corrupção endémica. O facto de outros partidos também terem problemas (certo que o têm) ou que haja mais corrupção na Rússia ou em Angola não invalida que o nível de corrupção em Espanha, e neste caso no PP, é muito, muito por cima do que seria de esperar num país desenvolvido e, também, endémica (esperemos que não incombatível)
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De Diogo Noivo a 07.06.2016 às 20:36

Percebo o seu argumento, mas creio que a corrupção não é endémica no PP.
Para além dos argumentos que dou neste post, julgo que quando olhamos em detalhe para estes casos encontramos coisas muito diferentes (e com diferente gravidade) que, por uma razão ou outra, são descritos por atacado na imprensa como corrupção. Há, de facto, casos de corrupção e de branqueamento de capitais, mas também há o muito latino “dar o jeitinho” que infelizmente perpassa todos os partidos. Porém, quando surgem casos destes no PP, são automaticamente descritos como corrupção. Em suma, há casos de corrupção, mas não creio que sejam tantos e com um alcance tal ao ponto de haver um problema endémico.
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De JPT a 07.06.2016 às 13:53

Outro pequeno comentário, este à "reacção do PP a esse atentado e a organização de manifestações “espontâneas” contra o governo Popular [que] provocaram um terramoto no sentido do voto dos eleitores". Num país civilizado, a cínica imputação dos atentados do 11M à ETA, quando todos os indícios apontavam para terroristas islâmicos, protagonizada, precisamente, pelo Ministro do Interior desse governo... Mariano Rajoy (e para evitar a associação entre os atentados e o apoio de Aznar à guerra no Iraque), teria causado a sua morte cívica e política. No entanto, apesar deste ser dos mais abjectos actos políticos de que me recordo, em Espanha (como seria o caso em Portugal, suponho), espantosamente, o tempo passou, e o homenzinho até medrou. Penso que o Eng.º Sócrates tem aqui um exemplo de que o seu regresso à ribalta política é perfeitamente viável.
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De Diogo Noivo a 07.06.2016 às 20:43

Creio que a análise à reacção do PP e do governo de então aos atentados de 11M merece matizes. Num primeiro momento, a tese ETA é legítima e justificável. A ligação a Ávila, cidade de onde vieram os explosivos, é um dos vários aspectos que permitia assumir uma possível ligação à ETA. Depois, à medida que a investigação foi avançando, como diz o JPT, deixou de fazer qualquer sentido e foi um erro grave insistir nesse caminho.

Quanto à associação do 11M à guerra do Iraque, faz bem evitar esse caminho. Porque carece de fundamento. Fernando Reinares, um dos mais conceituados investigadores europeus na área do terrorismo e da violência política, já demonstrou em artigos e em livro (“Matadlos”, Galaxia Gutenberg, 2014) que essa associação é descabida.
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De JPT a 07.06.2016 às 22:00

A associação é descabida? Concordo. Sucede que foi o próprio PP que a estimulou ao inventar a estapafúrdia "tese ETA". O que me parece descabido é sugerir que, por um segundo, alguém honestamente pensou que podia ter sido a ETA a levar a cabo o atentado. Não só não teria qualquer precedente, em 40 anos de actos terroristas (contra alvos civis sempre foram precedidos de aviso telefónico) como o método era clássico al-Qaida. Os espanhóis perceberam o embuste no próprio dia (e já nem falo das forças de segurança) e não fosse a escassa elasticidade do eleitorado (nessa altura...) e o PP teria sido justamente obliterado nas urnas, em favor do zero à esquerda que era (e foi) o Sr. Zapatero.
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De Peregrino a Meca a 08.06.2016 às 09:11

Lamento, mas matizes merece poucos. O PP insistiu, a todos os níveis, numa linha oficial que inculpava a ETA (houve até instruções dadas a embaixadores no estrangeiro para insistirem na tese da ETA). Se num primeiro tempo seria ajuizado uma certa prudência ("não sabemos, estamos a investigar"), no máximo algo como "não podemos descartar a ETA que já provocou atentados destes, etc..". O PP insistiu na tese oficial com veemência e violência quando resultados da investigação muito rapidamente (horas!) já indicavam que era muito pouco provável que fosse a ETA mas sim um terrorismo islâmico.
Como dito acima, foi dos atos mais abjetos em termos de manipulação de informação da democracia moderna.

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De JSP a 07.06.2016 às 21:13

Fernando Mujica, recentemente falecido, nunca abandonou a tese "ETA"...
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De cristof a 08.06.2016 às 04:13

Também cá os campeoes da "justiça", aplaudem em congresso o amigo que ajuda o Santos Silva a gastar os milhões, sem que os amigos do governo, PCP e BE, ditos impolutos da justiça sintam que devem abrir a boca. Assustador

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