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A abundância e monocultura da informação

por João André, em 14.08.17

Quando surgiu a internet (ou, pelo menos, quando a World Wide Web se popularizou e expandiu), não faltou quem argumentasse que um novo iluminismo surgiria, sustentado pelo acesso livre à informação que o novo meio proporcionava. Pessoalmente não tinha opinião e estava na altura mais interessado nas possibilidades de trocas de ficheiros que se me abriam. No entanto sempre me pareceu que tais ideias eram excessivamente optimistas. Não o pensava porque tivesse uma visão do que iria (ou sequer poderia) suceder, mas porque sempre me pareceu que um meio não determina nada. É o uso que a população faz do mesmo que decide o futuro.

 

O que temos hoje é uma riqueza de informação inigualável na história humana. Não só inigualável mas inclusivamente inimaginável apenas há 20-30 anos. Há 100 anos este futuro não seria tanto de sonho mas de pesadelo para quem tinha acesso, mesmo que limitado, à informação. Mesmo os arautos desse e-iluminismo não sonhariam com a expansão que vimos, não imaginariam a existência de Google, Facebook, Twitter, YouTube ou tantos outros.

 

Só que tal acesso ao conhecimento vem com um problema: perante tanta informação, como escolher aquilo que se deseja aprender ou, uma vez feita essa escolha, como decidir qual a informação mais fiável. Em parte este dilema de escolha reflecte aquele o que o consumidor ocidental moderno enfrenta cada vez que entra num supermercado: há tanta escolha de produtos que se torna impossível saber qual a escolha certa. E isto apenas num espaço limitado onde a decisão e a justeza da escolha reflectem apenas e só preferência pessoais.

 

Na internet, quando procurando informação, a escolha torna-se mais complicada, uma vez que em múltiplos casos existe uma escolha correcta (no que á sua exactidão ou conclusões diz respeito), a qual não depende das nossas preferências ou convicções pessoais, por muito que delas estejamos... convictos.

 

Há actualmente dois tipos de situações que sofrem com isto: acontecimentos políticos e factos científicos. Um exemplo claro do primeiro é o fenómeno trump e clivagem esquerda/direita que se vê cada vez mais na sociedade (a dos EUA, como canário na mina de carvão, serve de aviso). A população, na presença de enormes quantidades de informação, vê-se na situação de ter de escolher qual aquela que usa. Nesta decisão cada vez mais vemos que a exactidão da mesma pouca importância tem. Nos EUA os partidários da direita preferem crer num tweet de Trump mais que nas reportagens de jornais e televisões com décadas de reputação de honestidade; enquanto que há muitos na esquerda que ignoram a realidade para crer que Bernie Sanders não só teria trucidado Trump como o fará novamente (ou Elizabeth Warren por ele) se receber a oportunidade.

 

Outros exemplos são as narrativas alternativas que vemos na Polónia, Hungria, Venezuela, Brasil, Portugal, Inglaterra, etc, etc, etc... dependendo de qual o meio de comunicação que seja usado. Para quem queira informação de qualidade, o dilema chega ao ponto de deixar de se acreditar no próprio meio preferido perante o bombardeamento de informação alternativa e contraditória.  Se eu ler o Washington Post estou de facto a ler notícias solidamente construídas e analisadas ou a ver propaganda anti-Trump e anti-GOP? De certa forma, mesmo estando eu contra os argumentos da direita estridente que domina parte dos media americanos, torna-se um caso em que deixo de saber se as minhas referências não começarão a optar pelas mesmas tácticas para combater os opositores. Não é uma mentira repetidas vezes o suficiente para se tornar verdade, mas nesta guerra basta provocar dúvida.

 

O mesmo vemos no segundo caso: factos científicos. Aqui o problema é a liberdade de opinião. A liberdade de opinião não é um direito, ao contrário do que se costuma afirmar. A liberdade de opinião, seja ela qual for e esteja ou não bem ou mal sustentada em factos, é absoluto facto para todos nós. Ninguém é privado da sua opinião, por muito repressiva que uma sociedade seja. Aquilo de que podemos ser privados é da liberdade de expressar essa opinião ou de a criar de forma livre. Há formas repressivas de reduzir o acesso à informação não desejada, mas há também a forma não repressiva: o bombardeamento da informação falsa. E não há campo onde isso seja mais visível que o da ciência.

 

Os cientistas, por treino, são pesosas altamente cépticas, não só do que os rodeia como dos próprios resultados. É quase impossível encontrar um cientista a afirmar que uma determinada teoria está correcta a 100%. Há sempre espaço para a dúvida, para casos especiais, para excepções causadas por variáveis não conhecidas. É por isso que a ciência avança: porque há sempre alguém que tem dúvida que a explicação existente seja suficiente.

 

No entanto a sociedade não funciona assim. A sociedade acredita na democratização da informação, no poder do contaditório. Isso faz com que se dê peso a mais às dúvidas, quais brechas no edifício teórico, e se dê mais tempo a quem expressa as suas ideias de forma categórica e convincente. É por isso que movimentos como o anti-vacinas ou anti-estatinas conseguem enorme destaque. Porque os seus proponentes pegam em pequenas excepções, em dúvidas ou faltas de convicção dos cientistas, bem como na ignorância científica da população e preconceitos da mesma, para fazer avançar as suas agendas motivadas exclusivamente pelo interesse pessoal.

 

O caso mais claro que existe deste problema do acesso à informação boa e má na internet é o da execrável Jenny McCarthy, que afirmou ter obtido o seu grau académico na "universidade do Google", demonstrando perfeitamente como é possível encontrar informação em favor das convicções pessoais, por mais que estejam demonstradas como erradas. O mesmo se poderia referir à mania da comida orgânica, anti-glúten, veganismo radical, anti isto e anti aquilo.

 

No fundo, e voltando ao meu ponto inicial, o problema torna-se o acesso à informação. Esta está democratizada e não hierarquizada em função da sua veracidade ou verificabilidade. A isto acresce a noção, errada, que toda a gente tem direito à sua opinião (confundido opiniões e factos) sem que tenha que a defender ou sustentar de alguma forma. A internet permite que todas as opiniões sejam tratadas da mesma forma, independentemente do seu valor. E, sendo um repositório de todas as opiniões do mundo, resulta que cada vez menos as teremos.

 

De certa forma, após o quase deserto de informação do passado, temos um jardim do Éden da informação a dar lugar a monoculturas da informação. E isto não é bom.

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5 comentários

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De Luís Lavoura a 14.08.2017 às 16:37

este dilema de escolha reflecte aquele o que o consumidor ocidental moderno enfrenta cada vez que entra num supermercado

O problema é que, perante um grande número de escolhas possíveis, a mente humana fica bloqueada e incapaz de fazer uma qualquer escolha - ou então faz uma escolha apressada e errada, apenas com o fim de se libertar rapidamente do problema excessivamente difícil que tem pela frente. O excesso de liberdade de escolher resulta então numa efetiva falta de liberdade.

Temos assim um paradoxo: para que haja um exercício efetivo de liberdade, é preciso que essa liberdade seja coartada a priori.
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De Vento a 14.08.2017 às 19:15

Tentarei ser o mais claro possível.
João, a informação também tem esse propósito, isto é, criar dúvida. Pois é a partir da dúvida que se faz luz.
Se alguém fundamenta sua caminhada através de um erro também tem a oportunidade de, por isso mesmo, revelar o valor do mesmo e alcançar uma certeza, ainda que esta possa vir a ser destronada, ou complementada, por uma outra fatia da verdade.

O desenvolvimento científico, a par do desenvolvimento social, também é um processo empírico, no sentido em que parte da observação das coisas ou do fenómeno.
A única diferença entre um e outro é que a evidência para uns não tem de ser forçosamente interpretada da mesma forma que outros. Há sempre quem faça da convicção um modo de vida. E daí? Não é disto que falamos ou escrevemos?
Portanto, estando no domínio das opções a ciência não pode prevalecer como lei. E também não pode prevalecer como evidência porque está sujeira a dúvida. No entanto já compreendo que quando aplicada siga um método.

Concluindo, se nos depararmos com a questão do mal menor, por que razão não podemos permitir a opção somente do mal e esquecer o que é menor?
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De João Marques a 14.08.2017 às 19:52

Discordo.

Exceptuando as grosserias que proliferam no debate telemático, violando os limites da liberdade de expressão, questão de fácil resolução quando cada pessoa for identificada e responsabilizada por aquilo que escreve (identificação unívoca de utilizadores - telemóveis, contas de utilizador, drones, etc. - a dificuldade não está na execução, está na inércia dos decisores), não concordo com qualquer limite imposto àquilo que depreendemos por inanidade, desde que não se ultrapasse os limites básicos de ofensa à honra e de insulto.

Quanto às fontes, faz parte do processo de aprendizagem de cada qual escolher de livre vontade as suas fontes de informação ou de propaganda.
É um direito individual afirmar que não se acredita no efeito de estufa, por exemplo.
É outro direito individual decidir seguir ou não seguir quem manifesta determinada opinião.
Aliás, mesmo em órgãos de comunicação social com alguma credibilidade observamos claro "debate político" multifacetado. Cabe à sensatez de cada um fazer a escolha.

Se o problema é a pesquisa generalista nos motores de busca, também há solução.
Além das ferramentas de restrição de pesquisa facultadas, é necessário escolher a ferramenta adequada.
Se estiver a fazer uma pesquisa técnica ou de investigação obviamente não vou utilizar um motor de busca generalista sem especificar critérios. Recorro a páginas de fabricantes, a normas internacionais, a entidades reguladoras, a legislação, a bases de dados temáticas com maior ou menor especificidade.

Passa-se o mesmo, há décadas, com os fóruns e, mais recentemente, os feeds que escolhemos.

Em contrapartida, se decidir ler "as notícias" pela opinião dos amigos nas redes sociais também tenho esse direito.

Limitar o que quer que seja neste âmbito, além da ofensa, vai contra os princípios básicos do livre arbítrio.
Se a questão for meramente a veracidade dos factos, teríamos, por redução ao absurdo, de remover todos os comentários religiosos e metade dos comentários políticos da web. Inclusivamente nas ciências exactas. Teses e deduções matemáticas que pareceram correctas, até revolucionárias, em determinada época, foram posteriormente demonstradas erradas, sem qualquer dolo do autor. No entanto, e afirma com justeza, a investigação científica segue outros critérios, inclusivamente os novos movimentos de validação matemática. Mas isso é outro assunto.
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De Beatriz Santos a 14.08.2017 às 20:50

É inegável o valor que tem uma informação acessível a todos. E, nesse sentido, democratizada. Como é inegável que, tanto o uso que dela se faz quanto o seu entendimento, dependem, na sua maior parte, do carácter do sujeito que a procura. Ser democratizada não é sinónimo de ser democrática.E aquilo que parece a maior glória do homem nos últimos anos surge também como a sua maior responsabilidade. A ignorância não é não saber, é não saber pensar sobre aquilo que se sabe, que se lê e ouve, que se aprende.
E o que me parece é que o mergulho no excesso informação provoca a superficialidade opinativa. Não que eu tenha remédio para tal desastre.
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De IsabelPS a 15.08.2017 às 09:46

Nada de substancialmente novo. É o eterno problema da democracia: é um mau sistema mas ainda não se inventou nada melhor.

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