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Pensamento da semana

por Rui Rocha, em 28.05.17

Filho de Madonna treina no Seixal. Madonna janta com Nuno Gomes. Filhas de Madonna passeiam em Lisboa com camisolas do Benfica. Madonna despede-se com fotografia no Estádio da Luz. A verdade é que estas visitas de celebridades planetárias têm muitíssimas vantagens para Portugal. Trazem experiências e perspectivas diferentes, despertam-nos para ângulos de análise a que não dávamos a devida importância. Sim, porque maluquinhos que passam o dia a pensar e a falar em futebol a verdade é que ainda não tínhamos suficientes.

 

Este pensamento acompanhará o DELITO durante toda a semana.

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.05.17

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«Graças aos progressos da ciência, qualquer confusão entre história e lenda se torna cada vez menos possível. Uma acaba por fazer justiça à outra.»

Júlio Verne, A Invasão do Mar (1905), p. 41

Antígona, Lisboa, 2005. Tradução de Luís Leitão

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.05.17

«Somos nós que criamos os ídolos danados em falando ad nauseam sobre as suas acções cobardes, em lhes dando inesgotável tempo de antena e voz à vergonha letal que cometeram, que não é de todo terror, é apenas um absurdo corrosivo sem nome e sem raiz, que nunca deveria ter tido história, porque esta escória alimenta-se da mediatização .
Também não acredito que não se saiba onde está e quem é que instiga a extinção da vida como palavra de um deus qualquer.
Ter medo é definhar, é esconder-se nas frestas, é não existir. É dar vitórias a sicários do vazio.
Recuso-me a ter medo. Morrer, morremos todos um dia.

Mais um louco resolveu suicidar-se e massacrar crianças inocentes em nome de um futuro brilhante no qual estará bem morto. O Massacre dos Inocentes também aconteceu e não foi terrorismo, foi política.»

 

Da nossa leitora há Maria Dulce Fernandes. A propósito deste texto da Inês Pedrosa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.17

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  A Lógica ou a Arte de Pensar, de Antoine Arnauld e Pierre Nicole

Tradução, apresentação e notas de Nuno Fonseca

Filosofia

(Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 2016)

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Canções do século XXI (58)

por Pedro Correia, em 28.05.17

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.17

A tolerância, a verdade, o partido, o politicamente correcto, o amor ao próximo ou à pátria não devem ser um obstáculo à reflexão. A reflexão não é um incómodo. A sua falta, o silêncio e o permanente desconversar é que são uma fuga que nos torna intolerantes, ímpios e pequeninos. A reflexão sem voz é um acto colectivamente inútil.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 27.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

O DEUS DAS MOSCAS – William Golding

(1954)

“Não nos parece que tenha sido totalmente sucedido a trabalhar uma ideia que admitimos poder ser promissora”.

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Leituras

por Pedro Correia, em 27.05.17

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«O que é a memória? Devíamos encontrar outro nome para a maneira como vemos os acontecimentos passados que ainda estão vivos dentro de nós.»

John Le CarréO Túnel de Pombos (2016), p. 330

Ed. Dom Quixote, Lisboa, 2016. Tradução de Ana Saldanha

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O blog da semana

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.17

O meu blog da semana chama-se Nascer na Praia e encontra-se em http://nascernapraia.blogspot.pt/. Porquê este? Porque me surpreende sempre, o que confesso já não é facil. E eu gosto de ser surpreendida. Cada vez mais.

Já não tenho paciência para o expectável, como acontece sempre com tantos blogs em que a matéria (prima) é a política ou o futebol. O mundo existe para além destes temas e parece que ninguém dá por isso. O Nascer na Praia foge ao estereotipo!

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Há 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamentodo do regime agora encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda mantém. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso da Venezuela, por exemplo, onde se esperava indignação, temos silêncio. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas de uma ferida histórica que continua aberta.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.17

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  O Homem da Nave, de Aquilino Ribeiro

Prefácio de Álvaro Domingues

Crónicas da Serra da Nave

(Reedição Bertrand, 2017)

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Canções do século XXI (57)

por Pedro Correia, em 27.05.17

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Frases de 2017 (20)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Como mulher, a dr.ª Assunção Cristas sabe bem que, para se trabalhar, não se pode usar espartilho nem a saia travada. A saia tem de ser larga e, se necessário, vestir calças, que ultimamente não se sabe onde andam. Custam a ver

Gonçalo da Câmara Pereira, vice-presidente do PPM, na celebração de um acordo pré-eleitoral com o CDS em Lisboa (14 de Maio)

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Frases de 2017 (21)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Tenho calçado botas e calças de ganga muitas vezes para estar nos bairros sociais.»

Assunção Cristas, presidente do CDS, na mesma ocasião

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Música recente (99)

por José António Abreu, em 26.05.17

The Mountain Goats, álbum Goths.

Os Mountain Goats são basicamente John Darnielle, que, desde 1994, já lançou 16 álbuns. Vários abordam recordações da juventude, mais ou menos ficcionadas. Goths contém uma série de histórias sobre inadaptados tentando encontrar um lugar no panorama gótico das décadas de 1980 e 1990. O décimo primeiro tema intitula-se For The Portuguese Goth Metal Bands. Mesmo prestando atenção à letra, ainda não entendi bem porquê.

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Desafio aos leitores

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Quem poderá ser o Emmanuel Macron português?

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Convidado: JOÃO LISBOA

por Pedro Correia, em 26.05.17

 

Utopias

 

Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho – , alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”.

Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava “L’Atlas des Utopies”, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita “Utopia” – acerca de cujo autor os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à “República”, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Umberto Eco, por exemplo, em “Serendipities: Language and Lunacy”, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável raccord com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que  "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

 

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Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no “Alfabeto de Ben Sirach”. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático esse, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

 

 

João Lisboa

(blogue PROVAS DE CONTACTO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.05.17

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 História Natural da Estupidez, de Paul Tabori

Tradução de Fernando de Morais

Ensaio

(Reedição Book Builders, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Aura Garrido

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Amanhã

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.17

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Amanhã será dia 27 de Maio. Um amanhã diferente daquele que em tempos foi cantado. Uma data triste para Angola, uma data feita de memórias dolorosas. E porque à dor ninguém escapa, envio daqui um forte e fraterno abraço ao Zé, com votos de que o lançamento seja um sucesso e o seu trabalho útil para as gerações vindouras. Angola continua a precisar de todos. E de ter memória da dor.

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Canções do século XXI (56)

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

«Fernando Medina foi criticado por se ter deslocado ao hotel de Madonna, para lhe dar as boas-vindas e ajudá-la a encontrar casa. Há quem diga que se subjugou aos caprichos da cantora, que ela é que devia ter ido à Câmara. Discordo: foi golpe de génio. Se Madonna tivesse de ir do Ritz à praça do Município, demorava três horas só para se desembaraçar da rotunda do Marquês. Provavelmente, desistia de morar numa cidade tão caótica. E perdíamos a honra de ter entre nós a Miley Cyrus dos anos oitenta.

Até há pouco tempo, o sítio onde tivera mais dificuldade em orientar-me fora a medina da cidade de Fez. Agora é a cidade que Medina fez.»

 

José Diogo Quintela, no Correio da Manhã

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Penso rápido (84)

por Pedro Correia, em 25.05.17

Nem só jovens "radicalizados" filhos de imigrantes e nascidos já na Europa ruminam ódio à civilização europeia. Pela sua abertura, pela sua tolerância, pelo seu cosmopolitismo, pelo seu abraço acolhedor à diversidade.
Muitos europeus ancestrais estão na primeira linha do ódio à Europa. Odeiam a democracia liberal europeia e suspiram por um big bang que possa devolver-nos às cavernas.
Esses são os cúmplices morais dos terroristas - os que lhes dão alento e resguardo. Muitos deles acoitam-se sob pseudónimo nas redes sociais, onde exibem os instintos mais predadores e primitivos.
A avaliar pelo que escrevem, já regressaram emocionalmente às cavernas. Ou, no fundo, nunca de lá saíram.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

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  Tempo de Combate, de Baptista-Bastos

Crónicas

(Edição Parsifal, 2014)

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Os pregadores do modo de vida

por Inês Pedrosa, em 25.05.17

Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015

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Canções do século XXI (55)

por Pedro Correia, em 25.05.17

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 24.05.17

Numa livraria do aeroporto de Atlanta, uma senhora idosa agarra num volume de As Cinquentas Sombras de Grey e comenta para outro cliente da loja, num delicioso sotaque sulista - “I heard this is a lovely book”.

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 Paris, Novembro de 2015

(foto: Charles Platieu, Reuters)

 

1

O terrorismo jiadista combate-se como se combateu o terrorismo extremista na Itália e na Alemanha, na década de 70. Combate-se como se combateu o terrorismo da ETA, como se combateu o terrorismo do IRA.

Como?

Com serviços de informações competentes e organizados em rede, infiltrados nas organizações terroristas e dotados de meios efectivos para desarticulá-las. Quebrando-lhes as células dirigentes, os circuitos informáticos e as vias de abastecimento de armas e munições. E utilizando dissidentes e terroristas arrependidos nessas operações.

Não é preciso inventar a pólvora. A pólvora já foi inventada há milhares de anos.

 

2

Alguns tudólogos com lugar cativo no espaço mediático teimam em "perceber" o "porquê de o serem [assassinos], o que os levou a isso". Estes raciocínios sempre me conduzem àqueles judeus que tentaram "perceber" as motivações dos nazis entre 1933 e 1939. Alguns desses judeus contemporizaram com a barbárie, deixaram que lhes saqueassem lojas e confiscassem propriedades enquanto procuravam mostrar-se bons cidadãos alemães: muitos escutavam Wagner e exibiam orgulhosamente as condecorações obtidas em combate na I Guerra Mundial em defesa do império germânico.

Acabaram nos campos de extermínio e nas câmaras de gás tal como os outros, os que não tinham tentado "perceber" o que levava as hordas hitlerianas a comportarem-se como bestas sanguinárias.

 

3

Rejeito as teses deterministas. Acredito firmemente no livre arbítrio e na responsabilidade individual: ninguém é criminoso antes de praticar um crime.
Mas não recorro a eufemismos para qualificar actos criminosos.
Lamentavelmente, quando ocorre um atentado terrorista, logo surge gente a considerar que os assassinos são vítimas. Da economia, da crise, da sociedade, da discriminação, do capitalismo, do aquecimento global, do planeta Terra, do sistema solar.
Isto para mim é inaceitável.
Um crime é um crime. A barbárie é a barbárie - tenha a cor ideológica que tiver, idolatre os deuses que idolatrar. Ponto final.

 

4

A ladainha da "destruição do Iraque", invocada por sistema quando ocorrem atentados terroristas na Europa, equivale a dizer que as vítimas inocentes destes atentados "estavam mesmo a pedi-las".
Equivale também a considerar vítimas os assassinos. Coitados, argumentam os arautos de tal tese, eles estão apenas a vingar o que os malandros dos ocidentais fizeram ao Iraque.
Essa é a lógica hitleriana do olho por olho, dente por dente. Hitler conquistou metade da Europa, espezinhando-a e escravizando-a, para vingar as humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes. Alegava ele. E muitos concordaram.
Quando começamos a chamar vítimas aos assassinos os nossos padrões éticos invertem-se. O passo seguinte, nesta rota descendente, será chamar criminosos às vítimas verdadeiras.

 

5

É um absurdo incorporar um homicida numa categoria étnica, religiosa ou cultural, fixando-o neste rótulo.
Há assassinos em todos os quadrantes, em todas as etnias, em todas as classes sociais.
Este princípio não é de via única. É tão absurdo dizer ou escrever que "os muçulmanos professam uma ideologia assassina" como fazer proclamações genéricas de sentido inverso: "os ocidentais são culpados de terem explorado populações noutros continentes e estão a pagar pelo que fizeram" ou "os americanos foram lançar bombas ao Iraque e agora recebem o troco".

 

6

A vida humana para mim tem valor absoluto em qualquer lado. Em Paris como na Síria. Em Bruxelas como no Paquistão. Sou incapaz de alimentar duas teses sobre o assunto em função das coordenadas geográficas.

A minha posição é clara: não quero "compreender" os terroristas. Que armam meninos na Libéria e os transformam em carne para canhão. Ou que usam meninas na Nigéria como bombas humanas. Ou que investem com demencial fúria apocalíptica contra crianças e adolescentes, como ainda há dois dias aconteceu em Manchester.
Nem conseguiria, mesmo que quisesse.

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Convidada: ANA

por Pedro Correia, em 24.05.17

 

As crianças de hoje

 

Dei catequese durante anos numa paróquia muito dividida em termos de classes sociais. Crianças muito, muito pobres, e, no outro extremo crianças com muitas posses. O comum entre a maioria delas? A Hiperatividade diagnosticada e comprovada cientificamente.
Lidar com crianças hiperativas pode ser esgotante, desgastante, frustrante. Sabemos que não podemos ir a qualquer local público, pois não sabemos que comportamento elas poderão vir a demonstrar. Pode chegar mesmo a ser humilhante para os adultos que as acompanham, sendo pais ou não.
No início do ano de catequese, e com um grupo novo, coloquei-me à prova, tentei desvendar o que poderia estar por trás deste comportamento. Eu não acredito que as crianças nasçam hiperativas só porque sim, sempre acreditei que existem diversos motivos para que este comportamento se desencadeie. E não me enganei. Vou apenas enumerar alguns exemplos, infelizmente reais:
 
 
- Crianças que viveram na rua até aos 3 anos de idade – Não se recordam da maior parte das coisas, mas há três memórias fundamentais e que as irão acompanhar para a vida: a sensação de insegurança, a fome e o frio;
- Crianças que assistiram à morte de um dos familiares perpetrada por outros, ou seja, pessoas em quem confiavam;
- Crianças que apareciam com a marca do cinto no rosto, nos braços, e sempre que me arriscava a levantar um pouco a camisola a algum, as lágrimas tendiam a cair tal a crueldade, a violência a que tinham sido sujeitas;
- Crianças que destruíam os vidros ao murro por se sentirem presas, por não sentirem a liberdade tão desejada;
- Crianças que não tinham o mínimo acompanhamento em casa, uma palavra de carinho, força e confiança. A sua companhia eram os gadgets eletrónicos, os telemóveis topo de gama, as consolas de inúmeras formas e feitios;
- Crianças “depositadas” na catequese, como se de um ATL se tratasse;
- Crianças sem estrutura familiar;
- Crianças que à pergunta “O que queres ser quando fores grande?”, respondiam “Quero ser pai, quero ter muitas mulheres, que vou matando à medida que tenho filhos.”
  

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Todos estes exemplos indicados como hiperativos ou mesmo psicopatas (num dos casos). O acompanhamento que tinham a nível psicológico? Nenhum! Como é que a sociedade quer integrar estas crianças? Qual o papel da escola, das assistentes sociais no seu desenvolvimento?
Classificar as crianças como hiperativas é fácil, o difícil é mudar mentalidades, o difícil é fazer com que ultrapassem certas vivências, o difícil é fazer esquecer… No fundo, o difícil é agir e ajudar!
 
A catequese era assim uma hora semanal em que se falava da Igreja, de princípios e valores que lhes custava a interiorizar, mas acima de tudo era um espaço em que eles desabafavam, um espaço em que se sentiam seguros, um espaço onde podiam abraçar e beijar sem medo, um espaço onde podiam ser crianças e interagir com os outros, brincar sem maldade associada. Um espaço que ia deixando a teoria da Igreja cada vez mais para trás, um espaço que se tornou o espaço deles, o espaço em que deixei um pedacinho do meu coração a cada semana.
 
Quando conhecerem uma criança identificada / diagnosticada com alguns destes sintomas, tentem perceber a sua história de vida e não a classifiquem logo como irritante, provocadora, briguenta, intolerável. Pode ter suportado em poucos anos de vida aquilo que nenhum adulto suportaria. E estas crianças merecem ser ajudadas!
Numa semana em que se comemorou o Dia do Abraço, lembrem-se: este simples gesto pode curar meses de sofrimento.

 

 

Ana

(blogue CHIC' ANA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 24.05.17

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  O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares

Romance

(Edição Marcador, 2017)

"Por vontade expressa da autora, a presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Mais um ataque sem resposta.

por Luís Menezes Leitão, em 24.05.17

Depois de mais uma cidade na Europa ter sido brutalmente atacada, a única coisa a que se assiste é aos habituais discursos contemporizadores com o terrorismo, muitas vezes com atribuição de culpas próprias aos países ocidentais, como se artistas e crianças inocentes a divertir-se num concerto tivessem alguma culpa do que quer que seja. Há muito tempo que acho que isto só vai acabar quando se fizer uma coligação internacional contra o Daesh, que o persiga no seu próprio território, e ponha ordem nesta confusão que se deixou criminosamente instalar na Síria e no Iraque. Porque a única culpa do Ocidente consiste em precisamente em não fazer nada contra isto, quando o deveria ter feito há muito tempo. Como disse Leonardo da Vinci, "chi non punisce il male, comanda che lo si faccia".

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Canções do século XXI (54)

por Pedro Correia, em 24.05.17

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Viver com medo é vegetar

por Inês Pedrosa, em 23.05.17

Nunca direi à minha filha de 19 anos, que estuda cinema em Londres, que não vá a um concerto ou a uma peça de teatro, que não vá filmar aqui ou ali, que não atravesse a ponte que atravessa todos os dias, que não saia de casa, que se proteja. Persistirei em protegê-la do medo, o maior inimigo da liberdade. Viver com medo é vegetar. 

Alyssa Elsman, uma jovem de 18 anos, foi mortalmente atropelada há um par de dias por um terrorista que lançou um automóvel sobre as pessoas que passeavam em Times Square, Nova Iorque. Podia ter acontecido à minha filha. Será cruel chamar-lhe terrorista: sim, ele disse que queria matar e ser morto, mas não era por nada; estava louco, dizem-me. Terrorista, no meu dicionário, é o que pratica o terror. Nunca há justificação para o terror. Setenta e não sei quantas virgens no céu, um artesão de barbas e voz grossa que teria feito o mundo, a vitória da pureza suprema contra a badalhoquice das mulheres, não são argumentos que me convençam, nem podem ser levados a sério por ninguém. Este, de Times Square, era só doente mental: tivessem-no tratado antes que ele matasse uma menina que tinha direito à vida. Não esquecerei Alyssa. Do assassino não quero lembrar-me. Muitos deles matam para ficar na História, numa página de jornal, Hamlets de sarjeta, míseros assassinos que se vingam por interposta pessoa.

Por isso tenho pedido e continuarei a pedir aos órgãos de comunicação social: não dêem eternidade aos biltres. Apaguem-lhes os nomes. Quando a extrema-direita clama pelo fechamento de fronteiras e expulsão de imigrantes, é útil revelar que estes assassinos, na maioria das vezes, não são imigrantes - parece ser esse o caso do de Manchester. Mas para dizer isso não é preciso dar glória e fama ao seu nome. Este silenciamento dos carniceiros desincentivará futuros criminosos. A juventude é influenciável, pois. Mas a conversa mole sobre a discriminação social como justificação derradeira do terrorismo também não me serve. Há tempos, umas criaturas, certamente acéfalas (ou muito distraídas) chamaram-me «racista» no twitter porque recordei que, se a discriminação social fosse o motor do terrorismo, os negros seriam os grandes terroristas do mundo - e não são, nem nunca foram. Caramba: houve povo mais mal-tratado na história da Humanidade que o de origem africana? Pois é.

De modo que, quer queiramos quer não, acabamos na violência religiosa - e na especialíssima violência contemporânea da religião islâmica. O islamismo radical está furioso com a liberdade de costumes do Ocidente, com os direitos das mulheres e dos homossexuais, com a alegria e a realização sexual. E o islamismo não-radical é - que me desculpem essas santas almas, se existirem - de um silêncio tão ruidoso que me faz mal à cabeça.    

Na Síria, no último ano, morreram centenas de meninas e meninos de todas as idades. Não nos afecta porque não nos imaginamos ali. Imaginamos pouco. Quando a minha filha chorava porque não queria ir para o infantário, eu dizia-lhe: «Estás a chorar porquê? Nasceste no Afeganistão?". Aos três anos de idade falava da vida do Afeganistão a quem a quisesse ouvir. Dizia: «Aquilo é só pedras, não há água. E, se houver, não dão a água às mulheres.»

Nunca disse à minha filha nada sobre a água do Afeganistão. Sucedeu apenas que ela começou a imaginar como seria ter nascido ali. Educação é empatia com o sofrimento humano, ou não é nada. Penso assim. Penso, logo existo, dizia Descartes - frase ainda hoje revolucionária.     

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642

por Alexandre Guerra, em 23.05.17

O terrorismo, sob as suas diversas formas, é um fenómeno que esteve sempre presente na Europa. Se formos a ver bem, o rastilho da I Guerra Mundial é aceso com um acto terrorista. Ao longo das décadas posteriores, o Velho Continente foi assistindo à emergência de vários grupos terroristas, com inspirações ideológicas várias e objectivos circunscritos a uma específica realidade, mas nunca estando em causa a ameaça generalizada a um determinado estilo de sociedade ocidental. Mesmo movimentos terroristas muçulmanos (alguns ligados à causa palestiniana) que surgiram nos anos 70, 80 e 90 tinham nas suas “declarações de guerra” fins muitos bem definidos que pouco ou nada tinham a ver com a destruição do modo de vida ocidental.

 

A Globalização que ganha força no início dos anos 90 após a queda do sistema bipolar das Relações Internacionais veio tornar o mundo mais igual, mais “flat” (pedindo emprestada uma expressão a Thomas Friedman), mas este movimento acaba por criar um paradoxo. Porque, se, por um lado, vai tornando o mundo cada vez mais interdependente e comunicativo entre os países, culturas e religiões, por outro, vai realçando as fracturas dos diferentes paradigmas de sociedade, criando fricções ou, se preferirmos, os tais “choques” de civilizações de que Huntington falava.

 

Se é verdade que Huntington identificava zonas geográficas claras de confronto entre civilizações, o terrorismo global fundado por Osama bin Laden acabaria por levar esse “choque” para as ruas de cidades como Nova Iorque, Paris, Bélgica ou Londres. A al Qaeda é a primeira “multinacional” do terrorismo, com “franchisados” em quase todo o mundo, e a partir desse momento vai inspirando cada vez mais seguidores. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e a Washington são uma espécie de “apresentação” hollywoodesca ao “mercado”, sendo que já antes a al Qaeda tinha actividade e era sobejamente conhecida das autoridades, mas totalmente desconhecida do grande público e jornalistas. As imagens dos aviões a embater nas Torres Gémeas a sua consequente queda foram de tal maneira impressivas, com quase três mil mortos, que a al Qaeda ganhou a tal notoriedade que pretendia para poder mobilizar, recrutar e inspirar milhares de militantes radicais em diferentes partes do mundo que estavam “adormecidos”. Tudo o resto, nomeadamente o Estado Islâmico, já é uma consequência disso.

 

Se verificarmos a lista dos principais atentados do terrorismo islâmico na Europa desde 2004, chegamos ao número 642. É o número de pessoas que morreram desde aquele ano até hoje. É certo que a ETA matou mais de 800 pessoas desde a sua fundação em 1959 e o IRA Provisório terá matado cerca de 1800 pessoas entre 1969 e 1997, mas escusado será sublinhar as diferenças evidentes nos tipos de terrorismo em causa e das suas finalidades. Numa análise fria, convenhamos, foram tantas as notícias de mortes em Espanha e no Reino Unido por causa daqueles movimentos e, para lá da comoção momentânea, as pessoas nos vários países europeus nunca sentiram que os seus modelos de sociedade estivessem em causa e muito menos a segurança dos seus estilos de vida. Era um conflito lá “deles”, ou seja, não havia uma sensação de ameaça generalizada na Europa.

 

Ora, ataques como o de ontem em Manchester resultam de uma guerra generalizada e arbitrária à Europa, infligindo o medo e o receio transversais a todos os seus cidadãos, estejam onde estiver, vivam onde viver. E o pior é se cada cidadão começa a pensar que podia fazer parte daquelas 642 pessoas que morreram nos últimos anos em várias cidades europeias, em locais tão comuns, como um mercado ou uma sala de concerto, e isso condicionar a sua liberdade. Se isso vier a acontecer, é a partir desse momento que o terrorismo começa a vencer.

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Tão-somente poder

por Diogo Noivo, em 23.05.17

Não sei se o problema tem 20 anos. Na verdade, vejo-lhe as origens no fracasso dos projectos pan-arabistas, como o de Nasser. Seja como for, "é um problema político" e não um choque de civilizações ou uma guerra de religiões. Aliás, é esse o meu argumento aqui e aqui

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Temos medo

por Patrícia Reis, em 23.05.17

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

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No centenário de John F. Kennedy

por Pedro Correia, em 23.05.17

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«Ele adorava ser Presidente.»

Arthur Schlesinger

 

A autoconfiança é um atributo fundamental num político. John Kenneth Galbraith notou certa vez que nunca tinha conhecido um homem tão confiante em si próprio como John Fitzgerald Kennedy – o que serve para explicar grande parte do sucesso do 35.º Presidente dos EUA, nascido a 29 de Maio de 1917, faz dentro de poucos dias um século.

Na fascinante obra The Best and the Brightest, dedicada aos bastidores da presidência Kennedy, David Halberstam mostra-nos outra característica do inquilino da Casa Branca que viria a ser assassinado em Dallas: ele era exactamente como parecia. Ao contrário de outros políticos, que fazem tudo para parecer o que não são, Kennedy tinha uma autenticidade que empolgava os adeptos e desarmava os adversários. Isto ajuda a explicar a sua inédita popularidade: atingiu uma extraordinária taxa de aprovação -- 83% -- e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Galbraith e Halberstam falam com conhecimento directo: ambos conheceram pessoalmente Kennedy e privaram com ele.

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Há um episódio da disputadíssima campanha eleitoral de 1960 que ilustra bem tudo isto: a certa altura alguém pergunta a Kennedy se não se sente exausto. A resposta, negativa, veio num sorriso. Mas o então senador do Massachusetts que se candidatava à Casa Branca pelo Partido Democrata acrescentou ter a certeza de que o seu antagonista republicano, Richard Nixon, se encontrava à beira da exaustão (o que mais tarde se provaria ser verdade). E como é que Kennedy sabia isto? O futuro presidente esclareceu o seu interlocutor: «Sei bem quem sou e não tenho de me preocupar em adaptar-me ou transformar-me. Tudo quanto tenho que fazer, em cada etapa da campanha, é mostrar-me tal como sou. Mas Nixon não sabe bem quem é. Portanto, cada vez que faz um discurso tem de decidir que face dele próprio irá mostrar, o que deve ser extenuante.»

Assim foi. Enquanto na campanha de 1960 Nixon se esforçava sempre por aparentar o que não era, Kennedy jamais fazia um esforço nesse sentido: a imagem que projectava dizia muito do que ele era de facto, o que lhe dava uma vantagem sobre o principal rival. Isto é um traço de carácter que deve ser valorizado num político.

 

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado em 1957 com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem e o mais jovem Presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca.

Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

 

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 Com Willy Brandt e Adenauer em Berlim (Junho de 1963)

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos 1037 dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal no Texas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente -- o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

«Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis romanus sum. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner», declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

 

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano -- o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival -- e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Nixon -- não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy.

Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. «Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos», respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

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Precursor em vários domínios, estava vinte anos à frente da maioria dos políticos seus contemporâneos.

Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão -- ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas.

Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV.

Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961.

Baptizou o avião presidencial -- um Boeing 707 -- com o nome Air Force One, «para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial».

Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

 

A ida de Kennedy a Berlim naqueles escaldantes dias de Guerra Fria revelou muita coragem. Coragem política e até coragem física: basta lembrar que a actual capital alemã era então um minúsculo enclave no império comunista, armado até aos dentes. Também por esse atributo ele é lembrado. E ainda pelo desassombro intelectual, de que deu inúmeras provas. É aliás muito interessante verificar como várias frases que proferiu em discursos entraram na linguagem comum, tornando-se deste modo património universal.

Eis algumas:

«Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país.»

«Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres, não conseguirá salvar os seus raros ricos.»

«Nunca negociemos por medo -- mas nunca tenhamos medo de negociar.»

«A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã.»

«A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós.»

«Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade.»

«Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa.»

«Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil.»

 

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 Na campanha presidencial de 1960

 

Outra virtude: onde outros viam problemas, ele via oportunidades.

Ao conquistar a nomeação democrata no Verão de 1960 após uma fracturante campanha interna – com 806 votos dos delegados, contra 409 recolhidos por Lyndon Johnson e 287 distribuídos por outros concorrentes - logo o seu primeiro passo, aliás incompreendido à época por vários colaboradores, foi estender a mão ao principal rival no interior do partido, convidando-o a ser o candidato à vice-presidência. Uma aposta que valeu a pena. Em Novembro desse ano, a dupla Kennedy-Johnson bateu os republicanos por margem muito escassa: cerca de 110 mil votos. Sem a junção dos dois nomes complementares, concluem hoje os historiadores, a derrota dos democratas teria sido inevitável.

 

«Ele adorava ser presidente», lembrava o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato: um político que não goste do que faz está condenado a fracassar.

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos «um período quase idílico» de paz e prosperidade, como acentua outro dos seus biógrafos. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: isso é o que importa celebrar neste centenário.

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Música recente (98)

por José António Abreu, em 23.05.17

Vagabon, álbum Infinite Worlds.

O primeiro álbum de Vagabon (Laetitia Tamko, 24 anos, Brooklyn) é uma pequena pérola de indy rock saltitando entre a fragilidade e a aspereza.

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Canções do século XXI (53)

por Pedro Correia, em 23.05.17

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Ler

por Pedro Correia, em 22.05.17

O País do Futuro. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.

Agora Marcelo Caetano. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Laicidade. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Valha-me Nossa Senhora da Geringonça. Da Lina Santos, no Quem Sai aos Seus.

O silêncio de Francisco. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Caminhos. Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

Das conversas em corpo e alma. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Uma crónica usando o template do Fernando Alves. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Do alheamento. Da Vânia Custódio, na Caixa dos Segredos.

O pó da fivela. De Carla Romualdo, no Aventar.

Maias da Madeira. De Maria Carvalho, no Dias com Árvores.

A diversidade da Gardunha. Do Eduardo Saraiva, n' O Andarilho.

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Editor português, precisa-se

por Inês Pedrosa, em 22.05.17

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«Sejamos reaccionários ou progressistas, voltados nostalgicamente para o passado ou resolutamente para o futuro, todos somos modernos, porque reivindicamos e exercemos a liberdade de amar quem quisermos, como quisermos e durante quanto tempo quisermos.  
Somos, por outras palavras, senhores dos compromissos que assumimos. Esta soberania preenche-nos, mas também nos confronta, sem evasão possível, com as questões que atormentavam a Princesa de Clèves : basta que amemos para sabermos amar?  O amor será em si mesmo amável, digno de estima e de confiança? 
Podemos tratar destas questões através da estatística e das ciências sociais.Sem subestimar a utilidade dessas aproximações, escolhi uma outra: a literatura. Madame de La Fayette, Ingmar Bergman, Philip Roth e Milan Kundera foram os meus guias.»
Alain Finkielkraut.

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Um general com sorte

por Pedro Correia, em 22.05.17

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Diz-se que o primeiro critério de Napoleão para atrair generais ao seu estado-maior não era o da competência técnica. "Quero generais com sorte", exigia o imperador francês, curtido de vitórias em mil batalhas.

Há poucas coisas tão difíceis de definir como a sorte. Não falta até quem jure que conceitos como a sorte e o azar são totalmente desprovidos de sentido. A verdade, porém, é que estas palavras têm uso corrente entre nós. Por vezes olhamos para certa pessoa e desde logo sentimos que se trata de alguém bafejado pela sorte. Ou pelo azar, conforme as circunstâncias.

Veja-se o caso de Marcelo Rebelo de Sousa: basta olhar para ele para se perceber que é alguém que goza de boa fortuna. Não a fortuna pecuniária, mas aquela que mais interessa: a que vai removendo cada obstáculo do caminho por artes inexplicáveis dos humores astrais.

Reparem: desde que ascendeu à Presidência da República, por uma fabulosa conjunção de factores (impossibilidade de reeleição de Cavaco, processo judicial contra Sócrates, indisponibilidade de Guterres, recusa de Durão, falta de comparência de Rui Rio, o extravagante professor Tornesol como rival na corrida ao Palácio de Belém), os portugueses não param de celebrar boas notícias: inédita conquista do Campeonato Europeu de Futebol em França; eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU; a  arte da falcoaria portuguesa e a  olaria negra de Bisalhães declaradas património da Humanidade; produtor musical André Allen Anjos torna-se o primeiro português a ser distinguido com um Grammy em competição; vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão; triunfo de Leonardo Jardim como treinador do Mónaco, novo campeão de futebol em França; maior crescimento trimestral da economia nacional desde 2010.

O que vai seguir-se? Uma actriz portuguesa a conquistar o Óscar em Hollywood? Lobo Antunes a receber enfim o Nobel da Literatura? O futebol pátrio a erguer o troféu na Taça dos Libertadores? Marcelo vai sorrindo, distribuindo abraços, figurando em fotografias de grupo - espécie de amuleto desta nação bisonha habituada durante séculos a rogar pragas ao destino.

Vejo-o nos telejornais, sem falhar um dia, e penso no que diria Napoleão se o conhecesse: "Eis aqui um general com sorte." Portugal estava a precisar dele.

 

Texto ampliado e actualizado, no dia em que a Comissão Europeia, por unanimidade, propôs o fecho do procedimento por défices excessivos aberto a Portugal em 2009

 

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Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 22.05.17

Certamente por limitação minha, só me ocorre uma analogia de surfista para descrever o blogue da semana: chegamos à praia e o mar não mexe; nem uma ondinha marreca, daquelas que apenas servem para acalmar o espírito; mas quando entra o set as ondas são memoráveis, ao ponto de colocarem esta praia no Olimpo dos sítios de surf favoritos. Falo de "A Origem das Espécies", de Francisco José Viegas. 

Para quem, como eu, o lê desde o advento dos blogues portugueses, os últimos tempos são marcados por uma cadência típica das marés: nenhuma actualização durante dias, seguida de posts em catadupa. É verdade que os leitores habituais querem maior regularidade, mas a qualidade dos textos compensa (e muito) a inconstância. 
De resto, Francisco José Viegas é dos poucos intervenientes no espaço público nacional cujas  análises não são mais do mesmo. Não alinha na opinião única e diz o que há a dizer com muito pouco. E abomina o politicamente correcto, o que muito se agradece. É, por isso, a minha escolha para Blogue da Semana. Esperemos que esta seja uma semana de ondas.

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Convidado: DIOGO OURIQUE

por Pedro Correia, em 22.05.17

 

Ases Indomáveis

 

– Mamã, que aviões grandes são aqueles?

– São aviões militares americanos, filho.

– Americanos? Mas os americanos não estavam a sair da nossa base?

– Pois, parecia que sim. Mas têm agora um presidente novo que, pelos vistos, os quer manter por cá.

– Aquele senhor cor-de-laranja?

– Sim, filho, aquele senhor cor-de-laranja.

– É por isso que têm passado muitos aviões pelo nosso aeroporto nestes dias?

– Sim.

– E isso é bom ou mau, mamã?

– Não sei, filho… Sinceramente, não sei.

– Mas não devia ser bom? A nossa professora de inglês diz que os americanos contribuíram muito para o desenvolvimento das nossas ilhas.

– E quantos anos tem a tua professora?

– Sessenta e tal, não sei bem.

– Pois, é normal, filho. A tua professora já está numa idade em que é bastante comum ter-se uma memória selectiva.

– O que é isso, mamã?

– Memória selectiva? É quando, por exemplo, tu nunca te esqueces de levar o equipamento para as aulas de Educação Física, mas esqueces-te sempre dos TPC que tens para fazer.

– Mas não foram os americanos que nos trouxeram músicas e filmes novos, e que deram muito dinheiro às nossas ilhas?

– Sim, filho, mas… Explico-te da seguinte forma: gostas muito da tia Teresa, não gostas?

– Sim, claro! E do Tomás, e da Marta, e…

– Pois. Agora imagina que a tia Teresa, o Tomás e a Marta vinham viver para nossa casa durante muitos e muitos anos. E, com eles, vinha o resto da família toda. Até pagavam renda e compravam umas coisinhas para a casa; só que deixavam tudo sujo, nunca saíam da casa-de-banho, usavam os teus brinquedos e escondiam bombinhas de mau cheiro debaixo dos tapetes. Bombinhas que, ao longo dos anos, deixavam a terra e as nossas plantinhas doentes.

– Credo, mamã! Porque é que iam fazer isso tudo?

– Porque sim, filho. Porque estavam a pagar, e achavam que o dinheiro justificava tudo. É mais ou menos assim que os americanos funcionam.

– Então e porque é que não alugamos a casa a outras pessoas, se eles são assim tão maus?

– Porque eles não deixam. Porque já não vivem cá a tempo inteiro, mas, pelos vistos, continuam a pagar. Só vêm nas férias, ou então quando há guerra.

– E estes aviões todos? Vêm de férias, agora que está a ficar calor? Ou vêm para a guerra?

– Não faço ideia, filho. Mas, normalmente, os aviões militares não transportam pessoas que vêm de férias.

 

 

Diogo Ourique

(blogue QUERIA? JÁ NÃO QUER?)

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 22.05.17

No avião de regresso de um jogo em Kiev, o jogador veterano de futebol John Terry estava a ler a autobiografia do jogador veterano de futebol Steven Gerrard.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.05.17

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  Sob os Céus do Estoril, de Maria João Fialho Gouveia

Romance

(Edição Topseller, 2017)

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Canções do século XXI (52)

por Pedro Correia, em 22.05.17

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Fotografias tiradas por aí (356)

por José António Abreu, em 21.05.17

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Porto, 2010.

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Terceiro Mundo é isto

por Inês Pedrosa, em 21.05.17

«A cantora terá também pedido ao Benfica para o filho treinar no centro de estágio do Seixal. O treinador anunciou  aos jogadores da equipa de sub-12 das Águias que passariam a treinar no campo nº 1, devido ao facto de contarem com o filho de uma estrela da música mundial

(de uma notícia sobre a provável mudança de Madonna para Lisboa)

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Frases de 2017 (18)

por Pedro Correia, em 21.05.17

«Música não é fogo-de-artifício, é sentimento.»

Salvador Sobral, em Kiev, momentos após ter ganho o Festival da Eurovisão

(13 de Maio)

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