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Ler

por Pedro Correia, em 12.08.17

A tragédia da avioneta. Da Ana Garcia Martins, n' A Pipoca Mais Doce.

Avioneta, piloto, pai da criança e os julgamentos sumários do costume (a que não me acostumo).  Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

Das epifanias. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Tatoo you. Do Filipe Nunes Vicente, na Má Consciência.

As nadadoras-salvadoras de Gijón. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.

Os pirosos. Do José Pimentel Teixeira, n' O Flávio.

Dos clássicos. Do João Marchante, no Eternas Saudades do Futuro.

Os discos e a tuberculose. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

É preciso mais coragem para ir ou para ficar? Da Psicogata, na Língua Afiada.

Não queiras para os outros... Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Maduro e a revolução bolivariana. Os caminhos negros do poder absoluto e da repressão. De José Guinote, no Vias de Facto.

Eu ainda sou do tempo em que a França era um país respeitável. Da Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória.

Aos 20, celebra-se o fim da adolescência. E a vida é o que fazemos dela. Do Miguel Marujo, na Cibertúlia.

A cara que Deus nos negou. De J. Rentes de Carvalho, no Tempo Contado.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.08.17

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 A Catedral do Mar, de Ildefonso Falcones

Tradução de João Vala Roberto

Romance

(reedição Suma de Letras, 2017)

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Canções do século XXI (134)

por Pedro Correia, em 12.08.17

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Leituras

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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«Aprender a ouvir é mais difícil do que aprender a ler.»

Luís de Sttau MonteiroAngústia Para o Jantar (1961), p. 208

Ed. Ática, Lisboa, 1979 (8.ª edição)

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A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

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Música recente (121)

por José António Abreu, em 11.08.17

Randy Newman, álbum Dark Matter.

Aos setenta e três anos de idade, quarenta e nove após lançar o primeiro álbum, Newman - ultimamente mais dedicado a bandas sonoras para a Pixar e similares - relata encontros póstumos entre Sonny Boy Williamson e Aleck Miller (AKA Sonny Boy Williamson II), organiza debates entre ciência e fé, imagina os Kennedy a planear a invasão da Baía dos Porcos, pondera a razão por que foi escolhido pela mais bela mulher que alguma vez encontrou e delicia-se a satirizar Vladimir Putin.

 

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Convidado: PAULO GUINOTE

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

Fazer velho dizendo que é novo

 

As políticas educativas em Portugal são sempre um sucesso para quem as implementa e um fracasso para quem quer justificar novas reformas. A verdade é que raramente são avaliadas de uma forma independente, pois as escassas instâncias que temos para fazer esse tipo de avaliação (Universidades, Conselho Nacional de Educação) estão completamente contaminadas por muitos daqueles que, em seu tempo, estiveram associados à preparação ou implementação dessas mesmas políticas. A endogamia académica é uma evidência neste sector e são muito poucos os casos em que as “investigações” não fazem lembrar aquelas outras em que os “estudos” que aconselham determinado tipo de medicação foram patrocinados pelas empresas farmacêuticas com interesse directo na comercialização de um dado “remédio”. A teia estabelecida entre centros de investigação e o Ministério da Educação são evidentes para quem conhece um pouco dos seus meandros, embora para a opinião pública se faça passar a noção de que é tudo “independente”. O mesmo se passa com o próprio Conselho Nacional de Educação, cuja presidência raramente é entregue a alguém que não tenha sido ou venha a ser Ministro da Educação ou muito próximo de um determinado lobby político activo no sector, conforme os ciclos eleitorais. E a coisa nem melhora com o recurso a entidades internacionais, sendo que a OCDE é a preferida para o Estado português encomendar estudos ou recomendações durante os governos do Partido Socialista, tendo preferido o governo PSD/CDS recorrer ao FMI nos tempos da troika. Raramente se encontram recomendações que não encaixem nos programas pré-existentes, assim como não é nada estranho que os dados usados em tais estudos, em especial os comparativos, sejam os fornecidos pelas entidades nacionais de uma forma nem sempre muito transparente. E quando os dados não são completamente dóceis, são martelados ou desvalorizados como secundários (caso do progresso do desempenho dos alunos portugueses em todos os testes internacionais, dos PISA aos TIMMS, que é subalternizado quando um novo ciclo eleitoral “exige” mais uma vaga de “reformas” e/ou de “inovação”).

 

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Escrevo isto a propósito de estarmos a experimentar mais uma vaga reformista no ensino não-superior que se tem organizado em torno de uma retórica que critica o ensino português por estar parado no século XX ou mesmo XIX (embora com resultados a melhorar de forma consistente no século XXI) e ser uma necessidade inadiável adaptá-lo ao século XXI e a um novo conjunto de “competências” destinadas a criar um “perfil” de aluno para os novos tempo, no que se apresenta como sendo uma “inovação” que só empedernidos conservadores não podem apoiar e aplaudir. Perante uma apatia quase generalizada, fruto do cansaço que este tipo de ímpetos reformistas produzem na classe docente, bem como da percepção que é inútil tentar um debate racional e fundamentado quando a posição de uma das partes se apresenta, à partida, como moralmente superior e só disponível para alterar vírgulas ou advérbios e nunca para reconsiderar algo de substantivo, o “debate público” das medidas é feito em circuito fechado e com pontas-de-lança na comunicação social e blogosfera, beneficiando de uma cada vez menor capacidade de cotejo e análise crítica dos factos.

 

Quase tudo o que agora se apresenta como sendo um “novo” projecto de “autonomia e flexibilidade” na gestão do currículo do Ensino Básico já foi preparado e experimentado há cerca de duas décadas e não correu bem. Quase tudo o que os governantes do sector aparecem a defender como sendo um imperativo da modernidade é a recauchutagem do que foi tentado na segunda metade dos anos 90 do século XX, mas como se escreve na obra A receptividade à mudança e à inovação pedagógica (Ana Paula Cardoso, Edições Asa, 2002, p. 21) a inovação é muitas vezes relativa, pois “pode ser considerada pelos actores como inovação, mesmo que já tenha sido conduzida, de maneira quase idêntica, noutros lugares e ao mesmo tempo ou noutros tempos”. Entre 1996 e 1998 já se fez um debate muito alargado sobre estas matérias que deu origem ao despacho 4848/97 de 30 de Julho e a uma experiência-piloto com uma dezena de escolas. Menos de um ano depois  o despacho 9590/99 de 14 de Maio regulamentaria a generalização do que ficaria conhecido como a “gestão flexível do currículo”, existindo abundante bibliografia sobre o assunto, nomeadamente a publicação das comunicações ao Fórum Escola, Diversidade e Currículo (ME, 1999), entre as quais temos o testemunho da então secretária de Estado da Educação Ana Benavente que declararia que “temos de passar de um ensino/aprendizagem centrado nos programas e nos saberes, para um ensino/aprendizagem centrado nos resultados dos alunos no que diz respeito às competências que eles constroem, ou seja (…) a competência que cada criança, cada jovem, constrói e que lhe permite continuar a aprender”. Anunciava-se “uma enorme e imensa revolução que vai obrigar a trabalhar de um modo diferente, de definir o que se pretende e depois desenhar o caminho para lá chegar” (p. 28).

 

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Tudo o que agora se anuncia com estrépito mediático e ar ufano, mais não é do que retomar algo com 20 anos e que foi abandonado em poucos anos no que tinha de mais importante, apesar de agora aparecerem a defender esta solução representantes de quase todas as forças partidárias que governaram a Educação em Portugal nos últimos 30 anos, incluindo ministros, secretários de Estado, especialistas académicos ou apenas cortesãos do poder.

Era importante perceber-se porque foi essa reforma um fracasso antes de a requentar e servir de novo, como se de coisa inédita se tratasse. Eu tenho algumas ideias sobre as causas do fracasso e, infelizmente, encontro-as de novo presentes, agravadas com tudo o que no entretanto se passou e desmobilizou as “escolas” para encarar este tipo de medidas com entusiasmo e vontade de uma colaboração activa. Deixando de parte as questões de ordem sócio-profissional, gostaria de aqui recordar que este foi o período em que para tudo começou a ser necessário ter um documento a comprovar que o que tinha sido feito tinha mesmo sido feito. Em que a burocracia soterrou a pedagogia e em que a representação dos actos pedagógicos passou a ocupar muito do tempo que deveria ser usado nos actos em si. Foi o tempo em que o palavreado cerrado que o ministro da altura crismou como “eduquês” se tornou dominante e feriu quase de morte a essência do trabalho dos professores.

 

Em 2017 está tudo de volta, como em 1997. Os erros repetidos, a retórica recuperada, a terminologia decalcada, as metodologias clonadas, a superioridade moral da fórmula mágica e que se pretende única para o “sucesso” amplamente despejada sobre quem ousa contestar a bondade ou adequação da solução única da imposição rígida da “flexibilidade” numa lógica top-down de uma pretensa “autonomia das escolas”, enterrada em paralelo através do esvaziamento das suas competências para as autarquias. Mas essa é toda uma outra conversa.

A História não se repete, a menos que seja como Farsa.

Mas sempre como Sucesso.

 

 

Paulo Guinote

(blogue O MEU QUINTAL)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.08.17

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 Prosápias Geométricas, de Luiz Conceição

Poesia

(edição Âncora, 2017)

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Uma obra de referência

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.08.17

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Já há algum tempo que gostaria de ter trazido este livro até vós. Publicado o ano passado, o seu autor é um historiador holandês que tem escrito muito, e bem, sobre a China. Em Macau chegou a vir um dia para dar a conhecer a sua obra, na Universidade de S. José, onde tive oportunidade de ouvi-lo de viva voz, mas à custa desse convite foi corrido o professor e politólogo francês que aí leccionava e que o havia convidado. De qualquer modo, pese embora esses circunstancialismos e oportunismos de conveniência tão pouco cristãos, vindos sempre de onde menos se esperaria em pleno século XXI e sobre os quais não rezará a história, o trabalho de Frank Dikötter é internacionalmente reconhecido.

Anteriormente escreveu Mao's Great Famine, que em 2011 venceu o Samuel Johnson Prize for Non-fiction, e The Tragedy of Liberation: A History of the Chinese Revolution 1945-1957. Desta vez, com The Cultural Revolution - The People's History 1962-1976, do qual desconheço se já existe tradução portuguesa, o autor debruça-se sobre um dos mais conturbados e ainda desconhecidos períodos da história recente da China.

Devo dizer que a excelência do seu trabalho reside, para lá das suas reconhecidas qualidades como investigador, no acesso que teve em primeira mão a documentos classificados do Partido Comunista Chinês, a relatórios policiais e a textos de discursos originais dos dirigentes chineses, antes das correcções. Considerado um livro magistral pelo New Statesman, mereceu páginas no The Guardian, de Julia Lovell e de Rana Mitter, mas também no New York Times, no South China Morning Post e em muitos outros jornais e revistas.

A capa que acima reproduzo é da primeira edição de 2017, da Bloomsbury, que é aquela que possuo, e recomendo vivamente este livro a todos os que se interessam por estas questões e não gostam de ficar pela rama do que lhes é impingido, em especial agora que nos aproximamos rapidamente do 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês que, muitos nisso acreditam, irá introduzir mudanças significativas no rumo da liderança, consolidando ainda mais a posição de alguém que, como já foi escrito, tem hoje mais poder do que aquele que Mao alguma vez conseguiu.

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 11.08.17

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Greta Garbo

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Mais leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.08.17

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"O espaço de relação dos partidos com a sociedade passa, necessariamente, pela filiação partidária como objeto e sujeito da política, da organização civil e do regime político, democrático ou não. Apesar da sua importância vital para o funcionamento dos sistemas políticos, a filiação partidária constitui-se um dos elos frágeis e, tendencialmente em declínio, da vida política. Esta obra partiu do objetivo genérico de identificar e avaliar a natureza da atividade de filiação partidária, à luz de um conjunto de dimensões, como sejam: a evolução da atividade partidária, em Portugal, numa perspetiva comparada; os moldes de relação dos filiados com os partidos, incluindo o seu posicionamento ideológico; a socialização partidária, tendo em conta as perspetivas de vínculo e continuidade da atividade através dos seus agentes principais, os filiados, e dos partidos como instituição e estrutura política, de entre várias linhas de análise aprofundadas. A obra resulta da aplicação de estudo internacional que envolve vários países, no âmbito do projeto MAPP (Members and Activists of Political Parties), coordenado por Emilie van Haute, da Universidade Livre de Bruxelas. Apoiando-se em dados recolhidos através de inquéritos aos filiados dos partidos políticos, esta obra apresenta o primeiro estudo sistemático sobre ativismo e militância partidária em Portugal." (da contracapa)

"Os estudos incluídos na presente obra foram apresentados pela primeira vez na conferência «Filiados e Ativismo Partidário: Portugal em Perspetiva Comparada» organizada no ISCSP/Universidade de Lisboa, a 23 de Janeiro de 2015, e têm como base empírica inquéritos conduzidos juntos dos principais partidos portugueses – com exclusão do Partido Comunista Português – a nível dos filiados ou dos delegados aos congressos partidários. Os contributos apresentados foram, sucessivamente, reformulados e harmonizados para cobrir melhor a diversidade dos temas e das dimensões analisadas. Este contributo propõe-se sistematizar um conjunto de linhas de orientação e investigação, assentes numa longa tradição de investigação internacional sobre a filiação partidária, a qual, em Portugal, tem sido, escassamente, desenvolvida (Stock 1986; Martins 2004; Espírito Santo 2006; Lisi 2011 e 2015). Concretamente, este estudo assenta nas linhas gerais do projeto internacional designado MAPP (Members and Actvivists of Political Parties), do qual resultou a construção do questionário e requisitos metodológicos que estiveram na base desta contribuição. Os objetivos específicos deste estudo centram-se num conjunto de eixos, aliados a conceitos-chave essenciais no plano da sociologia política, e que são concretamente os seguintes: identificação do perfil dos filiados dos vários partidos políticos em análise; motivações políticas dos filiados; posicionamentos políticos e ideológicos; modus operandi e estratégias de captação de novos membros assim como de mobilização dos filiados; satisfação e integração na estrutura partidária. Ou seja, esta contribuição propõe sistematizar um espaço de pesquisa com bases empíricas para futuros desenvolvimentos, também em Portugal, numa perspetiva comparada. A questão da filiação partidária é abordada neste livro, principalmente, através de três perspetivas. Nos primeiros dois capítulos analisa-se a evolução da filiação partidária e as respostas dos partidos ao declínio da militância. Sucessivamente, o livro oferece uma análise sistemática do papel dos aderentes através dos inquéritos administrados aos principais partidos portugueses. Mais em pormenor, os capítulos centrais do livro examinam a participação dos filiados, as posições sobre temas políticos, os padrões de comunicação e a avaliação do funcionamento interno dos partidos. Finalmente, a terceira parte do livro é dedicada a uma análise comparada da filiação partidária." (Marco Lisi, Introdução).

O livro desdobra-se num total de nove capítulos. Para além da participação dos próprios organizadores, inclui como autores os nomes de Júlio Fazendeiro, Bruno Ferreira da Costa, João Cancela, Ekaterina Gorbunova, Edalina Sanches, Isabella Razzuoli, Rita Figueiras, Jaime R. S. Fonseca e, ainda, das consagradíssimas Anika Gauja e Emilie Van Haute, bem como, passe a publicidade, deste humilde escriba, ao tempo estudante do doutoramento. A ortografia, com excepção dos casos em que os autores escrevem de acordo com as normas do Acordo Ortográfico de 1990, é a que resulta do financiamento público à edição.

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

Ao Samuel de Paiva Pires.

 

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Canções do século XXI (133)

por Pedro Correia, em 11.08.17

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Frases de 2017 (32)

por Pedro Correia, em 10.08.17

«O Bloco de Esquerda nunca confundiu a democracia com o acto formal do voto. Há muitas ditaduras em que se vota. Por exemplo, em Angola vota-se e não é uma democracia.»

Catarina Martins, a propósito da farsa eleitoral na Venezuela (30 de Julho)

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Palavras para recordar (26)

por Pedro Correia, em 10.08.17

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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

Público, 11 de Maio de 2013

«Portugal tem a democracia basicamente suspensa.»

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Fazer justiça e fazer política

por Pedro Correia, em 10.08.17

Não sinto a menor simpatia por Isaltino Morais. A verdade, porém, é que o ex-presidente da Câmara Municipal de Oeiras foi condenado, pagou com uma pena de prisão a sua dívida à sociedade e encontra-se hoje na plena posse dos direitos políticos. Se merece ou não uma segunda oportunidade enquanto autarca, só os eleitores do concelho deverão ajuizar.

Que seja excluído à partida por invalidação do processo de recolha de assinaturas dos proponentes da candidatura, aliás apresentadas em número muito superior ao que a lei prevê, já soaria a expediente para impedi-lo de ir a jogo: vencer na secretaria é sempre mais cómodo do que numa disputa leal em campo. Mas ao saber-se que essa exclusão foi determinada por alguém que é afilhado de casamento do seu principal rival - o actual presidente do município, Paulo Vistas, antigo lugar-tenente de Isaltino - estamos perante um facto que desprestigia não apenas o juiz responsável pela controversa decisão mas lança uma sombra de descrédito ao conjunto da magistratura portuguesa, que tem de estar sempre num patamar acima de qualquer suspeita.

O quadro torna-se ainda mais inaceitável ao saber-se, lendo a imprensa de hoje, que o controverso juiz de turno do Tribunal de Oeiras integrou a Comissão Política do PSD-Oeiras, na altura liderada por Vistas, e que no anterior processo autárquico, em 2013, decidiu de forma diferente ao que deliberou agora, dando razão ao actual presidente da câmara, então alvo de uma inquirição similar à de Isaltino no ano em curso.

A justiça tem o direito e até o dever de imiscuir-se na política sempre que estejam em causa atentados à legalidade. Mas não tem o direito de votar. E muito menos de substituir-se aos eleitores, únicos soberanos do processo de decisão política numa sociedade democrática.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 10.08.17

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  Olhar o Mundo, de António Mateus, com Francisco Seixas da Costa, Ana Isabel Xavier, Felipe Pathé Duarte, Luís Tomé, Teresa Anjinho, Tiago Moreira de Sá

Política internacional

(edição Marcador, 2017)

"Por vontade expressa do autor e dos colaboradores, à excepção do texto de Francisco Seixas da Costa, a presente edição não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Canções do século XXI (132)

por Pedro Correia, em 10.08.17

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 09.08.17

 

Má Consciência: um novo blogue do Filipe Nunes Vicente.

 

Calou-se o Baú Musical: espero que a Kalila reconsidere.

 

Nove anos depois, a Fonte de Letras continua a jorrar.

 

 

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Diário semifictício de insignificâncias (30)

por José António Abreu, em 09.08.17

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Na A1, entre as portagens de Grijó e a saída de Santa Maria da Feira, dois pombos atravessam-se-me à frente do carro. Quase não travo (julgo também não ser boa ideia travar a fundo em auto-estrada). Ocorrem dois impactos mas não percebo bem em que zona (admito que possa ter fechado os olhos durante uma fracção de segundo). Instintivamente, olho para o retrovisor, à espera de ver os pombos rodopiar no ar. Nada. O carro que vinha umas dezenas de metros atrás de mim continua lá, quiçá um pouco mais distante (o condutor terá travado mais do que eu). Na parte superior do pára-brisas há uma mancha, mas nenhum dano visível. Prossigo. Depois de sair da auto-estrada paro e vou analisar os estragos. Na parte da frente do capot há sangue, no emblema vestígios de penas. O rebordo do capot tem um vinco (merda). Já o pára-brisas encontra-se intacto e o tejadilho, acima dele, parece também apenas sujo. Pergunto-me se terei atingido ambos os pombos (pelo menos evitar-se-ia a tristeza de um ter que viver sem o outro) ou se as marcas na zona superior do carro decorrerão de um segundo impacto com o mesmo.

Olho para o carro imundo e não consigo evitar pensar em todas as outras vezes que pombos o sujaram. Pelo menos desta vez não se ficaram a rir. Ainda assim, não fossem elas maiores e mais pesadas - logo, capazes de provocar mais estragos -, teria preferido acertar em gaivotas, minhas inimigas figadais.

Nunca atropelara pombos. Insectos, mato milhares todos os anos com impunidade total (nem o PAN parece ligar). Há quase vinte anos matei um cão que, numa estrada secundária, saiu a correr de um pinhal (era um rafeiro com ar simpático e na altura fiquei com um nó no estômago, mas quando vi a conta da reparação roguei-lhe meia dúzia de pragas). Pombos, nunca acontecera. Suponho que, nestes tempos politicamente correctos, será inadequado pintar dois risquinhos verticais na lateral do carro, junto ao retrovisor. (Nunca o faria.)

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Ainda não lavei as manchas. Desagrada-me ver lá o sangue, mas parece-me ter uma faceta positiva. Nas ruas da cidade, ao verem-me chegar, os peões ficam muito mais cuidadosos.

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Já li o livro e vi o filme (194)

por Pedro Correia, em 09.08.17

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  CAROL (1952)

Autora: Patricia Highsmith

Realizador: Todd Haynes (2015)

O mais atípico e autobiográfico romance de Patricia Highsmith, escrito no auge da sua criatividade literária, é uma obra-prima da novelística norte-americana da segunda metade do século XX. A tardia adaptação ao cinema, embora competente, não dispensa a leitura - antes pelo contrário.

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Penso rápido (85)

por Pedro Correia, em 09.08.17

Os 222 milhões de euros pagos pelo Paris Saint-Germain (nome de santo ironicamente patrocinado por um país islâmico) para desviar Neymar do Barcelona cavam ainda mais fundo o fosso que separa o futebol enquanto actividade económica da genuína competição desportiva: deixaram de ser mundos complementares para se tornarem realidades antagónicas.
Este inédito montante adultera os princípios de transparência do mercado desportivo cotado em bolsa e transforma os jogadores em mera mercadoria à mercê dos capitães da fortuna fácil. Desde logo, parece colidir com as normas da concorrência vigentes na União Europeia e as regras de fair play financeiro da UEFA: qualquer resquício de equidade evapora-se de vez quando os Estados começam a investir em força nos clubes - neste caso o do Catar, com base nos seus lucros petrolíferos. E provoca um sério choque inflacionário na indústria do futebol: os preços vão disparar, a espiral da dívida aumentará em flecha, avizinham-se as mais desvairadas loucuras financeiras no horizonte.
Convém entretanto seguir em pormenor a origem e o rasto desta verba astronómica, que faz subir para 700 milhões de euros o orçamento anual do PSG para o futebol. À atenção das autoridades jurisdicionais - do desporto e não só.
Finalmente, está por demonstrar que um único jogador - e desde logo Neymar, com desempenho em campo inferior a Cristiano Ronaldo ou Messi - justifique estas cifras galácticas. O dinheiro pago por ele para o transformar em emblema de um clube sem tradição na alta-roda do futebol duplica o seu justo valor, nada tendo a ver com genuínos "preços de mercado". 
Ao dar este passo, o futebol de alta competição transforma-se num jogo de fortuna e azar - uma espécie de roleta russa para usufruto de caprichos milionários. O desporto, digam o que disserem, nada tem a ver com isto.

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Convidado: JOÃO MARCHANTE

por Pedro Correia, em 09.08.17

 

Histórias de bibliófilos

 

Ainda sou do tempo em que entrando em qualquer boa casa portuguesa logo se avistavam livros. Nalguns casos, com direito a livraria (fórmula pela qual era designada a biblioteca particular, antes do comércio se ter apropriado totalmente da palavra). Hoje em dia, pelo contrário, são escondidos nos corredores, quando existem. A mudança deu-se numa só geração.

Dizem-me agora que os livros já não têm valor e que ocupam muito espaço. Assim, viúvas e filhos quase que pagam para se verem livres dos livros deixados por quem muitas vezes levou uma vida inteira a coleccioná-los.

Nestas andanças, um coleccionador designa-se por bibliófilo — alguém que tem amizade aos livros. Movido por esta amizade, que logo passa a paixão e culmina em amor, o bibliófilo não resiste a parar e entrar em todo e qualquer sítio que tenha o objecto do seu desejo, desde a livraria comercial, com as últimas novidades nos escaparates, até — e principalmente — aos velhos alfarrabistas, que contêm as obras antigas e raras, ou apenas arredadas do mercado, pois que cada vez mais, na sua febre de lucro, as lojas reenviam para as editoras os livros não vendidos, após uma ou duas semanas, para darem rapidamente lugar a outros acabados de vir a lume; e, assim, pouco depois, como que por artes mágicas, os primeiros aparecem nos livreiros-alfarrabistas. Esta velocidade pode mesmo ser alucinante.

Certa vez, aconteceu-me receber um convite para o lançamento de um livro, ao qual não pude comparecer. No dia seguinte, à hora do almoço, passei num alfarrabista e aí estava essa monografia à venda, com dedicatória e tudo! Alguém lá foi, o comprou (ou recebeu como oferta do autor), recolheu o autógrafo do escritor, leu-o na diagonal ao serão, e de imediato o empandeirou na manhã seguinte.

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Mais triste do que isto só mesmo quando me deparo com livros à venda marcados por ex-libris de pessoas com quem convivi e admirei e sei terem descendentes directos, os quais optaram portanto por nem sequer dividi-los entre si nas partilhas. Às tantas, mais valendo isto, porque possibilita um bibliófilo criterioso comprar essa biblioteca, ou núcleos dela com interesse, fazendo-a até chegar a uma instituição pública nacional, onde todos os que gostam de ler possam ter acesso às obras, do que ir a casa de alguém e ver nas prateleiras, à laia da biblots, ao sabor das cores das encadernações, livros dispersos de obras em vários volumes — uma enciclopédia, a obra completa de um escritor, etc.

Para rematar estas histórias trágico-cómicas, não resisto a contar aqui a melhor que presenciei: estando eu numa loja dum conhecido livreiro-alfarrabista, vejo entrar uma emproada criatura de meia-idade, toda aperaltada, que dispara para a jovem que lá estava a trabalhar: «Tem livros antigos de Direito?». Responde a rapariga: «Que autores procura?» Vocifera a serigaita: «O que eu quero são boas encadernações, para o escritório do meu marido». Conclui a empregada, revelando-se bibliófila: «Enganou-se no sítio, isto aqui não é uma loja de decoração».

Bibliófilo é pois alguém que tem um profundo respeito pelos livros, como entes amados, e dedica grande parte do tempo ao seu convívio — procurando-os, mirando-os, namorando-os, acariciando-os, cheirando-os, conquistando-os, aprendendo com eles, guardando-os perto de si. Note-se que o bibliófilo tem em princípio e por princípio um género preferencial ao qual dedica as suas apaixonadas energias de busca e aquisição; por exemplo: Poesia inglesa, ou História de Portugal, ou Romance francês do século XIX, ou Incunábulos, ou primeiras edições de Camilo e Eça, ou Livros de Arte, etc. e tal.

Ah!, e há ainda, por estranho que pareça, um pequeno nada que é tudo: o bibliófilo lê os seus livros.

Por fim, contrariamente a outros amores, este pode e deve ser partilhado. Surgem assim as tertúlias literárias, que têm como principal tema os livros e que servem para despertar ou consolidar amizades entre pessoas com afinidades culturais. Aí se partilham experiências, se mostram livros, se fala sobre eles, e muitas vezes surgem projectos comuns. Também estes encontros, infelizmente, se têm vindo a perder, invocando alguns membros destes grupos a famigerada «falta de tempo», que faz pendant com a «falta de espaço», a tal que leva a expulsar os livros de casa.

 

 

João Marchante

(blogue ETERNAS SAUDADES DO FUTURO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 09.08.17

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  A Baleia que Engoliu um Espanhol, de Marco Neves

Romance

(edição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico"

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.08.17

"The PiS left a long trail of documentary evidence of its hostility to the liberal-democratic model and its preference for paternalistic authoritarianism, probably closest to Salazar-era Portugal, perhaps: an all-pervasive state, backed by a state church, with corporatist economic and social arrangements, presided over by a “father of the nation” figure, and with the loyalty of key groups — including party functionaries, the military and security services — secured by opportunities for self-enrichment familiar from other cases of authoritarian clientelism."

Penso que vale a pena ler o artigo do Washington Post, apesar de já ter uns dias, e aceder aos links. Os comentários ficam para os sabichões do costume.

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A democracia venezuelana

por Diogo Noivo, em 09.08.17

O Egipto de Hosni Mubarak era uma democracia. Bom, não era, mas se aplicarmos ao regime de Mubarak a bitola usada por alguns para analisar a Venezuela de Hugo Chávez, então o ditador egípcio era na verdade o chefe de um Executivo ampla e plenamente democrático. Os órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP - mostram-se incomodados com as cenas que nos chegam da Venezuela e, acto contínuo, dizem-nos que antes é que era bom, que antes não se manipulavam eleições, enfim, que Hugo Chávez era um democrata. Ora, se Chávez era um democrata, então Mubarak também o era.


No Egipto de Mubarak as eleições eram livres na medida em que raramente havia manipulação dos votos expressos em urna. De resto, alguns actos eleitorais foram monitorizados e validados por organizações internacionais independentes. O problema da liberdade eleitoral egípcia estava a montante, isto é, nos partidos e indivíduos a quem era permitido concorrer. O crivo eleitoral imposto pelo regime era de tal forma apertado (e viciado) que às eleições apenas se apresentavam o partido no poder e chamada "oposição leal". No Egipto de Mubarak as eleições eram livres porque a manipulação (opressão, na verdade) acontecia antes de os eleitores se deslocarem às urnas. Na Venezuela de Chávez a lógica era em tudo semelhante: os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente. Quando este é o terreno de jogo não há grande necessidade de manipular eleições. Por estes dois lustrosos exemplos de autoritarismo se vê que quando falamos em democracia não nos limitamos à exigência de actos eleitorais livres em stricto sensu.
 
Na Venezuela actual a manipulação é evidente, como é evidente o grotesco atentado às liberdades políticas dos cidadãos. Não há dúvidas - pelo menos, para os democratas - quanto ao carácter autoritário do regime de Maduro, criatura que as ruas de Caracas apelidam adequadamente de Maburro. No entanto, o agravar da crise política e humanitária em curso está a abrir espaço para a reabilitação de Hugo Chávez, um revisionismo que dificilmente teria sustentação se não fosse pela falta de memória colectiva. Hoje, como no passado chavista, a democracia venezuelana é uma aldeia Potemkin.

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Canções do século XXI (131)

por Pedro Correia, em 09.08.17

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Dão-se alvíssaras a quem puder esclarecer

por Rui Rocha, em 08.08.17

Tenho aproveitado o Verão para fazer caminhada e corrida mas não uso telemóvel preso no braço. Estou a violar alguma lei?

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Pensamento da semana

por José Navarro de Andrade, em 08.08.17

A internet é a mais formidável memória que a humanidade alguma vez teve ao seu dispor. E no entanto parece que a memória não aumentou. 

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Na semana passada estive na principal conferência científica da minha área técnica e vi que o foco continua a ser quase exclusivamente (ou pelo menos com esmagador peso) na investigação dita fundamental. A investigação aplicada pareceu quase ausente e poucos exemplos existiram entre apresentações orais e de posters que recaíssem em casos industriais, mesmo a nível piloto.

 

Sempre existiram diferenças entre o tipo de investigação que os países tendem a apoiar (habitualmente por razões históricas). A Alemanha sempre teve o hábito de ter uma investigação muito aplicada, resultado de as empresas do seu Mittelstand normalmente deixarem determinado tipo de investigação para as universidades sob a forma de contractos. Outros países perferiram investigações mais fundamentais, para desenvolver conceitos absolutamente novos, que pudessem ser disruptivos nas suas indústrias. Esta é uma generalização grosseira (normalmente este tipo de foco é mais específico da instituição que do país), mas serve para dar uma ideia da separação entre os tipos de investigação.

 

Só que hoje todas as universidades parecem optar por investigação fundamental e cada vez menos seguir pelo lado da aplicada (pelo menos no que diz respeito à engenharia). Pessoalmente considero isso um resultado dos rankings de universidades, os quais colocam um peso muito elevado na componente de investigação, especialmente pelo lado das publicações. Ora, dado que as empresas raramente permitem a publicação dos seus resultados, isso faz com que as universidades, para poder manter um númro de publicações aceitável, optam pelo atalho de fazer apenas investigação fundamental, mais rápida e, por via do seu carácter completamente exploratório, menos passível de sofrer com resultados negativos.

 

Isso torna as uniersidades - ou os seus professores - paradoxalmente mais conservadores na sua escolha de temas. No ciclo actual de financiamento a apresentação de resultados preliminares e a demonstração de capacidade (sob a forma de competências ou equipamento) para executar a investigação proposta tornam-se factores determinantes para a concessão do projecto. Isso faz com que os professores acabem a propor inúmeras variações sobre os mesmos temas, conseguindo financiar projectos consecutivamente com os resultados do projecto anterior. Uma compração seria investigar teoricamente a aderência de pneus à estrada propondo de cada vez novos desenhos para os perfis, novos materiais ou novas dimensões, sem nunca avançar para um produto final.

 

O resultado é um mundo científico que cada vez mais se desliga do mundo industrial devido ao risco que existe de fazer investigação que não permite a publicação ou, devido à sua natureza, dará origem a menos publicações para a mesma quantidade de trabalho. Em resposta a isso as empresas começam a fazer a sua própria investigação, a qual recai também nos temas com que os seus cientistas se sentem confortáveis e não introduzem quaisquer verdadeiras inovações, apenas fazem avanços incrementais. Isto sucede especialmente porque a indústria vive do conceito do retorno sobre o investimento (Return on Investment - ROI, no jargão inglês). Uma investigação mais arriscada demora mais tempo e custa mais dinheiro, tanto em desenvolvimento como em novo equipamento e na implementação. A opção é então por projectos mais conservadores e seguros.

 

Temos então que as opções que a sociedade moderna fez para dar um impulso à investigação - criar rankings e colocar grande peso na publicação científica - poderá causar pelo menos em parte o efeito oposto. Claro que estou a simplificar o caso, mas ver, pelo 15º ano consecutivo, o tema de mixed matrix membranes para remoção de dióxido de carbono, uma solução que a indústria continua a rejeitar como pouco relevante, deixa-me sempre desiludido com a investigação de professores que, de outra forma, admiro.

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Música recente (120)

por José António Abreu, em 08.08.17

Nine Inch Nails, EPs Not The Actual Events e Add Violence.

Há temas dos Nine Inch Nails que me são perigosos. Mr. Self Destruct, abertura do seminal The Downward Spiral, invade as convoluções do meu cérebro como uma droga extraída do pólen de uma planta carnívora. Sob a sua influência, receio mutilar-me com todo o prazer ou - alerta aos guardiães do politicamente correcto - começar a destruir propriedade pública. The Perfect Drug, da banda sonora de The Lost Highway, levou-me a fazer algo que raramente faço: comprar uma banda sonora (há por lá outras coisas boas). Aos longos dos anos, a raiva depressiva de Trent Reznor apresentou flutuações. Nestes dois EPs (um lançado há meses, o outro há um par de semanas), surge razoavelmente intensa - e variada: os dez temas (cinco por EP) incluem momentos de tensão reprimida e momentos de catarse. No que me diz respeito, é capaz de ser boa ideia ir ao YouTube assistir a vídeos de gatinhos.

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Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 08.08.17

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1

Nicolás Maduro, confrontado com sondagens  cada vez mais negativas e um parlamento dominado pelas forças da oposição, lembrou-se de rasgar a Constituição mandada elaborar pelo seu antecessor, Hugo Chávez, e que vigorava apenas há 18 anos. Convocou por decreto uma Assembleia Constituinte sem prazo de vigência para esvaziar de funções a Assembleia Nacional e silenciar o que restava das vozes discordantes nos órgãos políticos de Caracas.

Foi uma autêntica farsa eleitoral, ocorrida num cenário sangrento, com dez mortos confirmados só nesse fim de semana e a capital venezuelana transformada numa cidade sob custódia militar. Sem debates, sem verdadeira campanha, com o recolher obrigatório imposto nas ruas por millhares de polícias armados até aos dentes, milícias paramilitares e até membros das forças armadas contendo o menor sinal de protesto. Com os círculos eleitorais desenhados de forma a que as regiões do interior, mais facilmente domáveis, faziam eleger quase tantos representantes como as grandes metrópoles, onde se concentra a maioria da população e o essencial da oposição. E um terço dos 545 lugares reservados à "constituinte" ocupados desde logo por putativos representantes de segmentos económicos e sociais, todos pró-governo, ao jeito da defunta Câmara Corporativa salazarista.

 

2

Nesse dia ocorreu a mais grosseira fraude eleitoral de que há memória este século em toda a América Latina. A tal ponto que a própria empresa internacional responsável pelo sistema eleitoral venezuelano denunciou publicamente a manipulação de pelo menos um milhão de votos, anunciados pelo regime mas afinal nunca entrados nas urnas. E a própria procuradora-geral da República, designada para esse cargo durante a vigência do mandato de Chávez, em 2007, anunciou a abertura de um rigoroso inquérito para apurar a extensão da fraude, recusando validar os resultados.

Pagou por isso: chamaram-lhe "traidora" e, apesar de o seu mandato só terminar por lei em 2021, tornou-se de imediato um alvo a abater. Desde logo, viu o inquérito às eleições invalidado pelo Supremo Tribunal, que nunca proferiu qualquer acórdão desfavorável a Maduro e é integralmente composto por um séquito de fiéis ao sucessor de Chávez, alguns dos quais nunca foram magistrados. Começando pelo presidente Maikel Moreno, ex-quadro da polícia política (a Sebin, equivalente à tenebrosa Stasi da antiga Alemanha comunista) que esteve dois anos preso pelo assassínio de uma mulher. Facto nada irrelevante, mesmo num país onde em 2016 se registaram 28.479 homicídios, 98% mantidos impunes.

A investigação à fraude, obviamente, nunca se fará.

 

3

Os crimes violentos em Caracas, a segunda cidade mais perigosa do planeta, tornaram-se parte integrante da paisagem urbana - agravando um quotidiano afectado pela persistente falta de víveres e de medicamentos. São como "uma epidemia fora de controlo", como a descreve uma jornalista do El País. Mas Maduro e a clique militar que o sustenta no poder parecem exclusivamente preocupados em dar combate a quem lhes faça frente.

Não admira, por isso, que mal foi anunciada a contabilidade oficial de votos a Sebin tenha detido dois dos principais resistentes à fúria repressora do regime: Leopoldo LópezAntonio Ledezma foi retirados à força de suas casas pouco após a meia-noite, contrariando as leis vigentes no país, e conduzidos ao sinistro presídio militar de Ramo Verde, onde se concentra a maioria dos cerca de 600 presos políticos do país.

Luisa Ortega, a corajosa procuradora-geral, foi  destituída pela amestrada Constituinte logo no primeiro dia dos trabalhos, "por unanimidade e aclamação", ao estilo da velha União Soviética. Sem inquirição prévia, sem processo, sem o exercício de qualquer contraditório. Acusam-na, absurdamente, de "cumplicidade com a insurreição armada" num país onde todas as armas estão em poder do aparelho repressivo do Estado ou das máfias do crime.

Autarcas eleitos por voto directo são hoje perseguidos pelo obediente Supremo apenas pelo facto de pertencerem a partidos da oposição. Como Ramón Muchacho, alcaide de Chacao, recém-condenado a 15 meses de prisão e destituição de funções públicas. Que "crime" cometeu? "Não acatou a proibição de encerrar ruas durante manifestações contra o Governo." É o quarto autarca opositor condenado nas últimas semanas, após Gustavo Marcano (de Lechería), Alfredo Ramos (de Iribarren), Carlos García (de Mérida) e José Barreras (de Cabudare).

Um cenário kafkiano que teve como única vantagem retirar os últimos vestígios de postiço verniz democrático a Maduro, agora convertido sem rodeios em ditador. Ameaça retirar a imunidade parlamentar aos deputados da oposição na Assembleia Nacional, agora esvaziada de poderes. Profere contínuas ameaças ao que resta da comunicação social independente. Manda encercerar juízes que ousaram desafiá-lo.

 

4

Já ninguém se preocupa sequer em ocultar o quadro de nepotismo, bem evidente no facto de a mulher de Maduro, Cilia Flores, o filho do casal - Nicolasito Maduro, de apenas 27 anos - e o ajudante de campo do Presidente figurarem entre os 545 constituintes. É um regime que se fecha em círculos cada vez mais concêntricos, incapaz de conviver com opiniões adversas.

Ser jornalista na Venezuela é arriscar a vida. Dois dias após a consumação da farsa eleitoral, um jornalista do diário independente El Nuevo País, José Daniel Hernández Sequera, foi encontrado morto. Outro jovem jornalista, Miguel Castillo, foi assassinado em Maio enquanto cobria uma acção de protesto, enquanto os directores do El Nuevo País  e da revista Zeta eram detidos sem culpa formada. "Maduro faz tudo para silenciar as vozes independentes nos media", denuncia a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.

Ser jovem na Venezuela é perigoso quando se protesta contra o regime. A Procuradoria-Geral da República definiu o perfil médio dos 109 mortos em manifestações entre 1 de Abril e 27 de Julho: estudantes do sexo masculino com 27 anos. A mesma idade de Nicolasito, já em pleno tirocínio para um dia suceder ao pai.

 

5

Ser venezuelano no país de Maduro é estar condenado à emigração por motivos políticos e sociais. A rede de organizações católicas da América Latina e Caraíbas para as Migrações e Refugiados acaba de denunciar um êxodo “sem precedentes” da população venezuelana para países vizinhos.

Ser cidadão de corpo inteiro na Venezuela, nos dias que correm, requer desassombro moral e coragem física. Segundo a ONU, o regime pratica a tortura e recorre ao "uso generalizado e sistemático de força excessiva" para dobrar quem protesta.

E no entanto na Venezuela de hoje, tal como no Portugal salazarista e em tantos outros países que estiveram e estão ainda submetidos a ditaduras, há felizmente sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 08.08.17

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  Oliver Twist, de Charles Dickens

Prefácio de G. K. Chesterton

Tradução de Mário Domingues

Romance

(reedição E-primatur, 2017)

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Frases de 2017 (32)

por Pedro Correia, em 08.08.17

«Está tudo doido quando se paga 222 milhões por um jogador.»

José Mourinho, ontem à noite, em entrevista à RTP

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 08.08.17

 

Ao Ladrões de Bicicletas.

 

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Canções do século XXI (130)

por Pedro Correia, em 08.08.17

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E agora, Governo?

por Rui Rocha, em 07.08.17

Vamos esquecer que sabemos quem negociou a compra do Siresp. Vamos admitir que o Lacerda é só um tipo com azar e que o facto de todos os processos que mediou darem asneira é mera coincidência. Vamos acreditar que a agora Ministra Tancinha nao sabia de nada naquela altura. Não é difícil. Não sabe de nada agora, também não saberia então. Vamos dar de barato que o Zé Sócrates estava demasiado ocupado a esconder a massa na gruta e a planear as férias em Formentera. Vamos aceitar que o traidor Passos, incapaz de concretizar o plano diabólico de levar o seu povo à miséria, fechou os olhos na esperança de o ver arder em incêndios. Seja. Mas então, fica uma pergunta: perante a evidência da absoluta imprestabilidade do sistema, o que vai o actual Governo patriótico de esquerda fazer? Denuncia o contrato? Pede indemnização? Tenta renogociar? Sim, é isso: afinal de contas, o que vai fazer agora?

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Blogue da semana

por Rui Rocha, em 07.08.17

O tempo pede e a sanidade exige. O Verão é tempo de evasões e no Viaje Comigo da Susana Ribeiro não faltam sugestões. É o nosso blogue da semana.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 07.08.17

«A tentação totalitária existe. Desmonta-se com facilidade o mito de que certas eleições não são, na realidade, hologramas. A propagandeada por Nicolás Maduro na Venezuela (aplaudida em Portugal por quem parece preferir um regime onde a paz e o pão são hoje miragens) é uma das grandes mentiras contadas aos crédulos e aos idiotas úteis. Quando Maduro perdeu as eleições legislativas de forma clara, começou a congeminar uma solução milagrosa para se manter no poder. Sem a bênção dos preços altos do petróleo para abençoar a sua deriva totalitária, Maduro tirou uma carta marcada da manga: criou a farsa de uma Assembleia Constituinte para tirar legitimidade ao Parlamento eleito. Nesse aspecto, Trump é um perfeito aliado para Maduro, porque assim tenta aparecer como uma ovelha prestes a ser abatida por um carniceiro sem escrúpulos. Se Portugal tem de ser sensato na relação com a Venezuela, não pode fingir que não se passa nada.»

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios

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A "obscenidade" das transferências no futebol

por João André, em 07.08.17

Neymar Jr. transferiu-se para o Paris St. Germain pelo valor mais alto da história do futebol: 222 milhões de euros. Com este valor vieram os adjectivos: obsceno, pornográfico, ofensivo, etc. Não se trata apenas dos 222 milhões da transferência, mas também dos 30 milhões líquidos por época, os 38 milhões em pagamentos aos agentes envolvidos (incluindo o pai de Neymar). Assumindo uma taxa de 50%, o custo da transferência será de 112 milhões por ano ao longo de 5 anos (assumindo que o salário se mantém constante, o que nunca é certo).

 

A primeira pergunta que se impõe é: conseguirá o PSG pagar tal investimento sem infringir as regras do Fair Play financeiro da UEFA? Esta pergunta é relevante não apenas de um ponto de vista financeiro mas também moral: se o clube consegue pagar os custos, como dizer que é imoral?

 

 

Também aqui.

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Caetano Veloso: 75 anos hoje

por Pedro Correia, em 07.08.17

 

«Minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma sentença: p'ra eu sempre pedir licença, mas nunca deixar entrar.»

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Convidado: PAULO FERRERO

por Pedro Correia, em 07.08.17

 

Lisboa, dez anos "capital da demolição"

 

Feitas as contas do balanço autárquico do decénio 2007-2017 (mandato intercalar 2007-2009 mais os dois mandatos seguintes de quatro anos cada) em termos de reabilitação urbana, é pena que sejam apenas isso: contas. Estatística para inglês ver.

Com efeito, por detrás dos números pomposos apresentados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em tudo quanto é fórum internacional, há uma cidade do faz-de-conta em que, regra geral, os prédios intervencionados se tornaram apenas fachadas (e mesmo aí adulteradas com janelas e portas medonhas em alumínio/pvc - como se a Lisboa fosse proibido resistir à intempérie com a madeira, como os atrasados “tropicais” das ilhas britânicas ou da Escandinávia o fazem, onde se teima em manter como obrigatória a madeira nos perfis das janelas, o ferro nas portas e por aí fora), esventrados que foram nos seus interiores (fazendo desaparecer estuques, frescos, materiais nobres, etc.) e impermeabilizados os seus logradouros, com os inevitáveis “apartamentos” para os popós, que o Plano Director Municipal teima em privilegiar.

E é pena redobrada se pensarmos no imenso esforço que a CML fez, e muito bem, durante esses mesmos 10 anos no pelouro respectivo (Urbanismo), ao sarar a chaga da corrupção e dos escândalos de dimensões colossais em que a CML se atolara desde meados dos anos 90 … ou, em pelouros diferentes, nas tentativas, muitas vezes ciclópicas, de dignificação do espaço público sem nexo nem gosto (a abertura de esplanadas, o aproveitamento dos miradouros, o relançamento dos mercados emblemáticos, o programa Uma Praça em Cada Bairro - este apesar de todos os defeitos de “esterilização” dos locais-alvo, por via de uma inadequada estética “Pólis”, indigna de Lisboa.

 

Alargando o espectro, a CML também se portou bem noutras áreas ciclicamente esquecidas (com ou sem propósito), ao apostar na “mobilidade suave” (mais espaços pedonais, ciclovias, etc.), ou, mais recentemente, o grande feito que foi lançar o programa Lojas com História, âncora legal e operacional fundamental para a salvaguarda, recuperação, divulgação e viabilização do comércio de carácter e tradição que ainda existe na cidade.

É por isso que ainda custa mais assistir-se à confrangedora propaganda de algo que não existe, porque a reabilitação urbana tem-se pautado pelo total desrespeito pela Carta do Património, anexa ao Plano Director Municipal, e, portanto, esse desrespeito tem tradução prática no incumprimento das várias cláusulas de um articulado que os mais incautos considerarão como imaculado (no que se refere à estrita obrigação de preservar os interiores, os materiais, os vãos, as métricas, etc., dos edifícios que estejam listados nesse inventário, já para não falar nos que são classificados como de interesse público ou que estão nas zonas de protecção destes últimos, o que ainda é mais grave).

Pois não é nem tem sido nestes últimos 10 anos e não se prevê que venha a ser diferente tão cedo, talvez mesmo quando já nada houver a salvaguardar.

Com efeito não há palácios, palacetes, antigas moradias, prédios antigos, conventos, hospitais, quartéis ou antigas instalações industriais que estejam a salvo do camartelo. Ele há mesmo “nichos de mercado” que são verdadeiros filões.

 

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 Rua Barata Salgueiro, 21 (foto de 2017)

 

Veja-se o caso dos prédios de rendimento de finais de XIX, princípios de XX, onde Lisboa era rica, à nossa escala, e onde há bairros e artérias emblemáticos que pura e simplesmente estão irreconhecíveis e reduzidos, quanto muito, a fachadas: o outrora belíssimo Bairro Barata Salgueiro, por exemplo, tem sido disso mártir (10 prédios na R. Rosa Araújo, 1 R. Castilho, 3 Rua Rodrigo da Fonseca, 1 R. Barata Salgueiro, 1 R. Duque de Palmela, 1 R. Alexandre Herculano), bem como as Avenidas Novas, os bairros das Picoas e de Camões (zona da Av. Duque de Loulé), a Estefânia, a Almirante Reis, Campo de Ourique, Lapa, enfim.

Tem sido um fartar vilanagem no que toca a essa época construtiva, graças, por um lado, e desde logo, às características originais desse edificado: prédios baixo (3-4 andares) e menos apartamentos, gigantescos para os nossos dias (uma combinação explosiva se aliada aos “mitos urbanos”, irrevogáveis, dos prédios antigos, a cair, de que ninguém já gosta, recuperá-los é caro e moroso, etc.), com logradouros com árvores e não pátios para estacionamento, etc.

 

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 Ruínas de uma moradia Arte-Nova na Rua Bernardo Lima (foto de 2013)

 

E, por outro lado, graças à estratégia consciente da CML em “reabilitar” o edificado decrépito (por anos e anos de incúria permitida aos proprietários, na sua esmagadora maioria fundos especulativos) por via da construção nova com manutenção das fachadas, ampliação dos 2-3 andares para efeitos de recolha de taxas e, claro, contando com a tradicional inoperância e permissividade dos serviços do Igespar/DGPC, os mortíferos “licenciamento zero”, projectos PIN e projectos de “interesse excepcional”, leia-se, acima da lei. Isso tudo e, como é natural, a marca de autor – nada mais seguro para uma aprovação de lesa-património do que um projecto de arquitecto de firma reconhecida.

Desenganemo-nos, é puro divertimento esta noção de reabilitação urbana que consta do site da CML «Reabilitação urbana é a forma de intervenção integrada sobre o tecido urbano existente, em que o património urbanístico e imobiliário é mantido, no todo ou em parte substancial…».

A expressão não passa de um chavão. As estatísticas, para inglês ver, ou seja, para revista republicar a incauto acreditar.

E se a coisa não resultar à primeira, porque fulano esteve atento e votou contra, sicrano pôs uma areia na “engrenagem” ou beltrano, pura e simplesmente, disse o que outros calaram, há sempre um remédio para que resulte à segunda.

Há que agilizar processos, criar comissões, quem sabe, mais protocolos. Em última instância faz-se o projecto aprovado trocar de mãos, revende-se o edifício, assegura-se a mais-valia (até se “emite moeda”, como alguém em quem confiei dizia), ou uma alteração durante a obra, à socapa (por ex., o que era para ser hotel, e por isso ficou isento de alguns pareceres e etapas administrativas, passa a prédio de habitação e escritórios.

 

Está tudo muito bem pensado, reconheça-se. Além de que contam com a indiferença do comum dos mortais, e também das élites, se é que as há. A sociedade civil é desorganizada, e quando se organiza é imediatamente catalogada disto e daquilo. Por fim, a lei é muito escrita e cheia de palavas caras, mas a verdade é que ninguém a faz cumprir (por ex., alguém sabe por que razão a CML não faz cumprir a obrigação legal de obras de conservação cada 8 anos? Ou até isso já se foi?), além de que a figura de “crime urbanístico” é comprovadamente imberbe.

O atraso é geracional e só se agrava. Daqui por 10 anos, do património de transição restarão apenas alguns exemplos pontuais, talvez só mesmo os edifícios classificados, um punhado de bravos resistentes, para memória futura. Daqui por 10 anos estarão na calha os edifícios Déco (aliás, já estão a ser esventrados, só que mais low profile. Depois, seguir-se-ão os modernistas.

Só aos dos anos 60-70-80-90 é que ninguém deita abaixo. Lá para 2117? Oxalá.

 

 

Paulo Ferrero

(blogue CIDADANIA LX)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 07.08.17

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 Coreia do Norte - A Realidade, de Margarida Serra

Reportagem

(edição Prime Books, 2017)

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Nomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.08.17

Quem nasce não tem qualquer responsabilidade na escolha dos nomes que lhe são atribuídos pelos progenitores e que depois são levados ao registo civil. Tenho visto de tudo para desgosto de muitos, forçados a carregarem pela vida fora as ingratas escolhas. Mas há alguns que pela sua combinação e circunstâncias da vida não podem deixar de nos fazer sorrir. Não deve ser fácil um tipo ser diplomata de carreira e porta-voz de um departamento governamental de Negócios Estrangeiros e ter como nome "Robespierre Bolívar". Imagino as piadas que não devem ter feito com o nome da criatura.   

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Chove em Caracas

por Pedro Correia, em 07.08.17

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«O Conselho Nacional Eleitoral [CNE, venezuelano] anunciou domingo [30 de Julho] que o madurismo conseguira 8.089.320 votos, apesar das estimativas da oposição (2,5 milhões de votantes) e da Procuradoria-Geral da República, que duvida de que tenham votado mais de três milhões de pessoas. A agência Reuters assegurou, citando fontes internas do CNE, que hora e meia antes do encerramento oficial das urnas só tinham votado 3,7 milhões de venezuelanos, um valor que coincide com a sondagem à boca das urnas realizada pela empresa Torino Capital.»

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 «Vinte técnicos da Smartmatic abandonaram o país em 48 horas, receando passar a engrossar a lista de 620 presos políticos confinados às masmorras de Maduro. As mesmas semanas onde regressaram, esta semana, o líder opositor Leopoldo López e o alcaide metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma. As suas detenções, de madrugada e com violência no segundo caso, confirmaram que o regime não recua nem um milímetro na estratégia de radicalizar a revolução.»

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«Luis Emilio Rondón, o único membro não-chavista do CNE, denunciou, tal como técnicos eleitorais, a falta de controlo e a ausência de tinta indelével para marcar o dedo dos votantes, bem como a autorização dada à última hora para se votar em qualquer mesa de voto do município. Era impossível, desta forma, evitar o voto múltiplo. O sistema permite que uma pessoa vote cinco vezes antes de a bloquear. Só a presença de testemunhas da oposição o teria impedido.»

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«As eleições para a Constituinte passam a encabeçar a lista de escândalos eleitorais na América Latina. "Confirma-se a maior fraude eleitoral da história da América Latina, em percentagem e em milhões de votantes", atacou Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos. (...) Seria necessária  uma auditoria para determinar a participação verdadeira. A mesma auditoria que o regime já rejeitou.»

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«O drama venezuelano ganha contornos trágicos, devido ao banho de sangue que custou a vida a 16 pessoas durante o fim de semana. Desde o início dos protestos, houve 121 vítimas mortais e 2000 feridos. Os detidos já ultrapassam a barreira dos 5000, boa parte julgados em tribunais militares sem quaisquer garantias.» 

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«Na Venezuela a crise política decorre em paralelo com o vertiginoso descalabro económico. Os economistas asseguram que a inflação está prestes a superar a barreira dos quatro dígitos para se converter em hiperinflação, depois de o Fundo Monetário Internacional ter alertado que o PIB cairá 12% este ano. A escassez e a escalada dos preços pulverizaram a algibeira dos venezuelanos e lançaram centenas de milhares num êxodo forçado, incluindo os portugueses.»

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«O assunto do dia em Caracas, para lá da manipulação das eleições, é outra escalada: o dólar no mercado negro disparou para a estratosfera económica. Há um ano, uma nota verde americana valia mil bolívares no mercado paralelo. Na semana passada caiu a barreira histórica dos 10 mil bolívares por um dólar. Ontem a cotação em Caracas era de 17.900 bolívares.»

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«Entre os 545 delegados constituintes inclui-se a mulher de Maduro, Cilia Flores. Com ela estão os nomes de quase sempre: o radical Diosdado Cabello; os ex-ministros Delcy Rodríguez, Iris Varela, Aristóbulo Istúriz, Adán Chávez, Carmen Meléndez e Ricardo Molina, entre muitos outros. Na Constituinte estarão também duas promesssas de grande "brilho": o filho do Presidente, Nicolás Maduro Guerra, e o seu ajudante de campo, o tenente Juan Escalona. Como de costume na revolução, fica quase tudo em casa.»

 

Trechos dos artigos de Daniel Lozano - correspondente na Venezuela - publicados este sábado no Expresso. Sublinhados meus.

 

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Canções do século XXI (129)

por Pedro Correia, em 07.08.17

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Fotografias tiradas por aí (369)

por José António Abreu, em 06.08.17

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Porto, 2017. 

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 06.08.17

«Voar é um hobby. Bem redutora afirmação. E neste caso falsa.

Aquele era um voo de instrução, um acto profissional, como tal fortemente regulado em termos humanos e de equipamento. Há muito mais do que hobbies na aviação ligeira. São várias as actividades profissionais nela praticadas, exercidas a bordo de "avionetas". Legítimas e o ganha-pão de muita gente. De onde acha que vêm, por onde acha que começaram, os pilotos dos grandes "jactos" que o levam em férias ou trabalho? Todos na aviação militar?
Critique-se a decisão tomada por aqueles dois (tomada, acredito, pelo instrutor, o piloto-comandante do voo), mas não se reduza aquilo que faziam a um hobby, coisa como tal perfeitamente secundária, inoportuna até. Hobby presumivelmente de meninos ricos e que passeavam sobre a praia decerto em profundo desprezo pelo povo que nela estava.
Nem se minimizem as circunstâncias em que houve que decidir. Em poucos segundos, em condições bem desfavoráveis, uma decisão teve que ser tomada rapidamente tornada irreversível e que, fosse qual fosse o desfecho, ficaria com eles para o resto das suas vidas. Uma decisão com uma urgência e peso como provavelmente nenhum ou bem poucos daqueles banhistas justiceiros terá alguma vez que tomar. Sabe-se agora que, perante as alternativas, não foi a melhor decisão. Da consciência dos tripulantes saberão eles. Da sua sorte saberá a justiça.

 

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Uma coisa é decerto segura: ao decidir como decidiram, não desejavam nem lhes era indiferente o desfecho que tudo aquilo teve. Não quiseram, poderá ser afirmado, aquele desfecho.

Não sei se o mesmo pode ser dito de gradas figuras da actualidade nacional, cujas acções condicionaram, condicionam, e condicionarão as nossas vidas e as dos nossos filhos e sobre as quais bem poucas - se algumas - manifestações públicas de desejo de justiça privada (desde logo nas versões de linchamento ou grande "enxerto de pancada", decerto visando aliviar justíssimas indignações) se conhecem. Fortes com os fracos, eis uma nossa inegável característica.

Respeitem-se os mortos e aqueles que lhes eram próximos. Não creio que esse respeito se engrandeça com a desconsideração liminar da actividade daqueles dois tripulantes, muito menos com fanfarronadas de heróis de vão-de-escada (actividade tão portuguesinha, aliás).»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do Rui Rocha.

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Leituras

por Pedro Correia, em 06.08.17

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«Envelhecer é um crime.»

Robert AlleyO Último Tango em Paris (1973), p. 95

Ed. Editores Associados (Portugália e Civilização Brasileira), s/d. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Colecção Unibolso, n.º 73

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 06.08.17

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 Vozes Dentro de Mim, de Carmen Dolores

Memórias

(edição Sextante, 2017)

"Por decisão da Autora, o presente livro não segue o novo Acordo Ortográfico"

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