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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.10.17

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Pão com Fiambre, de Charles Bukowski

Tradução de Manuel A. Domingos

Romance

(reedição Alfaguara, 2017)

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Cinco mil visualizações por dia

por Pedro Correia, em 19.10.17

 

Nos últimos dez dias, aqui no DELITO recebemos 23.907 visitas e registámos 49.832 visualizações.

Em termos médios, quase cinco mil visualizações diárias.

Números que confirmam a vitalidade deste blogue, quase a entrar no décimo ano de existência.

Um blogue que não é só nosso: também é vosso.

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Pensamento da Semana

por Isabel Mouzinho, em 19.10.17

Há os que "subscrevem por baixo", os que "encaram de frente" e os que gostam de ler "Elsa"de Queiroz. Há as facas de "dois legumes" e os bodes "respiratórios". Há estas e muitas outras enormidades de uma lista interminável, que vamos ouvindo e lendo todos os dias. 

A língua portuguesa, nem sempre muito bem tratada num país que se envergonha de si e tende a valorizar o que vem de fora - línguas incluídas -, assumiu contornos de total despropósito com a chegada do "Novo Acordo Ortográfico", que veio permitir que hoje valha quase tudo. Como se a correcção linguística não fosse muito relevante. Na verdade, estas ou quaisquer outras incorrecções já não espantam ninguém. Pior: vão-se transformando em "normalidade", perante a indiferença generalizada dos que consideram que dizer "assim" ou "assado" não tem a menor importância, esquecendo, ou ignorando, que o domínio da língua e o uso que se faz dela também diz muito da cultura de um povo.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (202)

por Pedro Correia, em 19.10.17

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O «fim» da austeridade, o início das mentiras

por José António Abreu, em 18.10.17

Governo falseou dados das listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde. Entre 2014 e 2016, o tempo de espera subiu, o número de cirurgias desceu. Em 2016, 2605 pessoas morreram à espera de cirurgia.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da Geringonça, recuperado dos tempos de Sócrates, no qual tudo é perfeito, ainda que tenha ser à força. Muitos parecem acreditar que António Costa é, no que respeita ao estilo de governação, diferente do homem que teimou numa ilusão até ao instante em que o dinheiro acabou. Infelizmente, é igual. O roubo de Tancos e os incêndios mostraram amplamente a sua incapacidade para assumir erros, a sua indiferença pelos portugueses (que não pela opinião que os portugueses têm dele) e o despudor com que transforma os próprios correligionários em escudo pessoal (por muitos erros que tenha cometido, a Ministra da Administração Interna poderia ter sido poupada à humilhação de, na prática, se ver demitida pelo Presidente da República). Esta notícia - que certamente não irá incomodar os parceiros da Geringonça, outrora tão vocais acerca de situações menos graves - revela a sua disponibilidade para usar absolutamente todos os truques, de forma a manter as ilusões e se agarrar ao poder. E que possa não ter partido dele a indicação concreta para maquilhar os números pouco importa: em ambientes malsãos, pejados de yes men, nos quais as aparências são tudo, as estruturas fazem o que sentem ser necessário fazer.

Enfim, talvez nada disto interesse no país em que Isaltino é eleito e Sócrates ainda recebe aplausos. Talvez até constitua motivo para felicitações. Num país decente, porém, depois da forma vergonhosa como geriu o caso dos incêndios, seria razão bastante para conceder a António Costa o mesmo género de férias forçadas com que ele presenteou Constança Urbano de Sousa. Em Palma de Maiorca, como quando pretendeu escapar à polémica de Tancos, ou noutro lado qualquer.

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A responsabilidade do governo

por Rui Rocha, em 18.10.17

Não, fofinhos. O problema do governo não foi apenas o da gestão catastrófica da comunicação enquanto a tragédia estava a decorrer. A questão não é só a do "safem-se" do secretário de estado, do "habituem-se" do Costa ou das "férias" da ministra. Está é uma parte que impressiona pela frieza, pela boçalidade e pela estupidez. Mas o ponto da responsabilidade política do governo é muito mais vasto. Foi este governo que decidiu substituir a estrutura de comando da Protecção Civil com base em critérios estritamente partidários e oportunistas. Foi este governo que geriu com evidente reserva mental todo o processo de apoio às vítimas de Pedrógão. Foi este governo que decidiu, já com mais de 60 mortos no cadastro e por motivos puramente economicistas, reduzir significativamente o dispositivo de combate a incêndios quando as condições meteorológicas aconselhavam extrema prudência. Estas foram opções políticas concretas e tragicamente erradas que não podem ser escondidas atrás das alterações climáticas ou de décadas de política da floresta e de ordenamento do território. Não reconhecer isto é reconhecer que não se tem vergonha.

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Manobras comunistas

por Pedro Correia, em 18.10.17

O PCP nem quer ouvir falar em qualquer moção de censura ao Governo socialista, apoiado desde o primeiro instante pelo partido da foice e do martelo na Assembleia da República. Com profundo desdém, até com um certo ar de repulsa, os comunistas consideram que iniciativas como a que o CDS já anunciou não passam de "manobras parlamentares".

Jerónimo de Sousa tem particular autoridade para se pronunciar nesta matéria. Acontece que o PCP é, de longe, o campeão das moções de censura em Portugal. Nos últimos dez anos, houve nada menos de 12 - metade das quais promovidas pelo PCP, tendo uma sétima ficado a cargo do PEV, partido satélite dos comunistas.

Concretamente, nos seis anos de mandato de José Sócrates a bancada parlamentar vermelha apresentou três moções de censura. E patrocinou outras tantas durante os quatro anos do Executivo Passos Coelho.

Campeões das "manobras parlamentares", portanto. E da duplicidade de critérios. Nada de novo na frente parlamentar. 

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A Gente Daninha

por jpt, em 18.10.17

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A (in)ministra demite-se, com ela presume-se que cairá o abstruso homem-de-mão do PS que foi a secretário de estado. O CDS apresentou uma moção de censura que obrigou a uma movimentação do quadro político, em particular do PR. Mas convém lembrar três coisas:

1) A ministra foi-o porque assessorou Costa quando ele foi ministro desta tutela, e acompanhou as medidas estruturantes que ele tomou nesta matéria, e que tanto influenciam a actualidade. A sua nomeação foi uma declaração de continuidade. Tudo isso foi esmiuçado aquando da primeira mortandade, em Agosto. A cabeça da ministra (e a do amanuense que lhe foi "adjunto") não pode satisfazer. Costa tem, como ex-ministro e como actual PM uma enorme responsabilidade nisto. Há que lhe cobrar isso (a minha factura seria o despedimento mas cada um que ponha a sua sentença).

2) Em Pedrógão Grande o PR sufragou, de imediato, a política governamental (em particular a partidarização da protecção civil, que levou a este total desconchavo). Agora teve que arrepiar caminho, até para sua salvaguarda. Chega de aplausos conjunturais, aponte-se-lhe directa responsabilidade nestes 40 mortos, pelo tempo de inércia e gestão tresloucada, que uma sua intervenção política poderia ter evitado.

3) Assunção Cristas, à frente do CDS, apresentou uma moção de censura, algo correcto, que o governo não pode passar incólume na AR diante de tanta aleivosia na relação com os cidadãos e sob um PM com tanta responsabilidade política nisto tudo. Mas cessem os aplausos a Cristas - há que lembrar que ela foi Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território de 2011 a 2015. E era muito louvada, lembram-se? Alguém pode fazer um relatório, mero sumário executivo que seja, sobre as boas medidas neste assunto que ela avançou? Duvido muito.

 

Urgem novas políticas, um gigantesco inflectir de visões e concepções. E, nisto como em tantas outras coisas, uma enorme varridela. Estas pessoas não servem. E deste molde de gente - o aparelhismo - nada sairá de bom. A terra está queimada, e não pode ser semeada com gente daninha.

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Música recente (139)

por José António Abreu, em 18.10.17

Nadine Shah, álbum Holiday Destination.

Shah é filha de uma inglesa descendente de noruegueses e de um paquistanês. Centrado nas questões da imigração, o seu novo álbum foca as dificuldades de constituir o elemento estranho numa comunidade, os enviesamentos daí decorrentes, e as por vezes inacreditáveis prioridades de quem tenta proteger o seu casulo. Shah não assume um tom de confronto, excepto quando perante este último ponto: o tema Holiday Destination (no vídeo acima) foi inspirado numa reportagem onde se relatavam as queixas de turistas na Grécia sobre a forma como a crise dos refugiados lhes estava a estragar as férias. Já o tema Evil terá resultado da leitura do poema Days, de Philip Larkin (ver abaixo). Para Shah, o «dia» é a normalidade, fora do qual surgem os medos e os ódios.

 

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What are days for?

Days are where we live.

They come, they wake us

Time and time over.

They are to be happy in:

Where can we live but days?

Ah, solving that question

Brings the priest and the doctor

In their long coats

Running over the fields.

Philip Larkin

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O preço da obsessão

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.10.17

Foi caro, muito caro, estupidamente caro.

É difícil governar sem distância em relação ao aparelho, afastado do país, respondendo-se às questões colocadas como se o respondente fosse algum dos antecessores de muito má memória, daqueles que primaram pela pesporrência e teimosia, reincidindo naquilo em que não se podia reincidir e que foi objecto de severa crítica no passado.

O resultado é que depois se gere politicamente tarde, contabilisticamente, mal e num momento em que as falhas são duplamente censuradas. Assim se deixa arder um importante capital de confiança nas pessoas e no partido que governa.

Porém, o pior de tudo não foi isso. Com ou sem moção de censura, qualquer que seja o resultado da votação, que importa pouco face à ausência de alternativas políticas credíveis, pior é quando se deixa arder a esperança na regeneração das instituições. 

Quem é que quer saber do défice, da imagem do primeiro-ministro, do desemprego ou dos números do crescimento perante a tragédia? Perante a perda estúpida de vidas humanas? Quem é que quer saber do resto quando tudo ardeu, quando a responsabilidade política surge in extremis e sacada a ferros, quando se fica à espera que chova?

 

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Nunca é de mais lembrar

por Pedro Correia, em 18.10.17

 

O secretário de Estado da Administração Interna, que agora mandou os portugueses apagar fogos, impelindo as "comunidades a ser pró-activas" no combate às chamas perante a ausência dos bombeiros e com os dispositivos de protecção civil em notório colapso, é precisamente o mesmo que a 17 de Maio, numa audição na Assembleia da República destinada a apresentar o "dispositivo especial de combate aos incêndios florestais", declarou isto: «Quero transmitir aos portugueses que temos um dispositivo capaz, devidamente estruturado e organizado, no qual temos plena e total confiança, para fazer frente ao período mais crítico dos incêndios florestais» (minuto 8 deste vídeo); «O País tem um dispositivo integrado, competente, forte e mobilizado para defender a floresta, o património e a vida dos portugueses.» (10' 30'' do vídeo).

Cento e sete mortos depois, cento e sete vítimas da fúria dos incêndios e da incúria estatal entretanto sepultadas, esta solene garantia prestada por Jorge Gomes na Casa da Democracia desfez-se em cinzas: não passava de propaganda vazia e barata. Nunca é de mais avivar memórias antes que alguns (ir)responsáveis procurem passar entre os pingos da chuva que começou a cair e já tardava.

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Frases de 2017 (44)

por Pedro Correia, em 18.10.17

«Sete séculos depois ardeu o pinhal de D. Dinis, o das "naus a haver", morreu o verde pinho do rei poeta. Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado.»

Manuel Alegre, hoje, no Diário de Notícias

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PEV?

por jpt, em 18.10.17

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O "Partido Ecologista "Os Verdes"" tem existência parlamentar há 30 anos. Tenho alguma curiosidade relativamente ao que fará diante da moção de censura apresentada ao governo. Devastação generalizada, inexistência de uma política florestal/ecológica condigna e competente. O icónico Pinhal de Leiria, sob responsabilidade estatal, dizimado. 

Que irá fazer o PEV? E o que dirá para o justificar?

 

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O xeque à geringonça.

por Luís Menezes Leitão, em 18.10.17

Sempre me impressionou a obsessão politicamente correcta de, perante o colapso total de serviços públicos, a oposição não aparecer a exigir a demissão dos responsáveis políticos, com medo de ser acusada de querer obter ganhos à custa de tragédias. Essa obsessão não ocorre em mais nenhum país do mundo, sendo com naturalidade que os responsáveis políticos se demitem quando ocorrem situações graves no seu ministério. Há dias a Ministra da Defesa da Holanda demitiu-se por causa de um acidente que vitimou dois soldados holandeses no Mali. Em Portugal ocorrem mais de cem mortos, e a Ministra da Administração Interna continua em funções, com a total cobertura política do Primeiro-Ministro. E os defensores do governo apresentam o argumento espantoso de que a sua saída não resolve o problema. E o facto de ela ficar não agrava o problema da falta de confiança dos portugueses nas instituições?

 

Assunção Cristas percebeu que era tempo de reagir e apresentou uma moção de censura ao governo. Face à blindagem com que a Constituição protege o governo, a moção de censura não tem quaisquer hipóteses de ser aprovada, uma vez que necessitaria de que a maioria absoluta dos deputados votasse a favor da mesma. Por isso, até toda a esquerda se podia abster que a moção de censura não passava. Mas a moção de censura é um claro xeque ao governo e por arrastamento aos partidos que o suportam. Porque, sendo a moção de censura baseada apenas na situação da administração interna, todo o governo vai ser obrigado a solidarizar-se com a respectiva ministra, pelo que vai assumir uma culpa colectiva por uma situação que a maioria dos portugueses ainda vê como um simples problema da ministra. E os partidos da extrema-esquerda terão que votar naturalmente a favor do governo, o que os responsabilizará também por esta situação. Qualquer tentativa de estes partidos descolarem do governo para as eleições de 2019 ficará irremediavelmente comprometida, razão pela qual o PCP protesta furiosamente contra estas "manobras parlamentares".

 

Com esta iniciativa Assunção Cristas coloca assim a geringonça em xeque. Obriga António Costa a ligar o destino de todo o seu governo ao de Constança Urbano de Sousa, anulando os efeitos políticos da sua recente vitória nas autarquias, e faz o mesmo aos partidos de extrema-esquerda, que não permite que ensaiem qualquer descolagem do governo. Isto é política no seu estado puro, sendo isso o que se espera que os políticos façam, especialmente quando estão na oposição. A nova liderança do PSD bem pode começar já a aprender alguma coisa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.10.17

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E a Noite Roda, de Alexandra Lucas Coelho

Romance

(reedição Companhia das Letras, 2017)

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Canções do século XXI (201)

por Pedro Correia, em 18.10.17

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Num país desamparado

por Pedro Correia, em 17.10.17

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 Foto: Paulo Novais/Lusa

 

Sentimo-nos por estes dias habitantes de um país sofrido, magoado, desamparado, órfão da protecção do Estado. Um país revoltado com tanta impreparação, tanto desleixo, tanta incúria, tanta incompetência.

Um país enlutado por duas tragédias ocorridas num intervalo de quatro meses que provocaram mais de uma centena de mortos e largas dezenas de feridos, muitos em estado grave.

Na sua excelente comunicação de há pouco ao País - o melhor discurso do seu mandato - Marcelo Rebelo de Sousa falou de tudo isto. Também ele sofrido, também ele magoado, também ele profundamente enlutado. Dando expressão contida mas iniludível a estes sentimentos. Mostrando assim, uma vez mais, como sabe estar em sintonia com os portugueses.

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O camponês da Ventosa

por Alexandre Guerra, em 17.10.17

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporada com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.
A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.
O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma "estrela" internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal...

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Cento e três

por Pedro Correia, em 17.10.17

 

Trinta e sete mortos confirmados até ao momento nos fogos que devastaram o País este domingo. O mesmo número das vítimas do atentado terrorista em Ancara, em Março de 2016. O mesmo número dos falecidos no violento sismo em Amatrice, em Itália, em Agosto de 2016. O mesmo número dos assassinados no morticínio num hotel de Manila, em Junho de 2017.

Trinta e sete, somados aos  65 mortos de Pedrógão. E ao  piloto que morreu a combater o fogo em Castro Daire.

Cento e três vidas ceifadas de forma inaceitável num país europeu do século XXI. O país da Web Summit, o país que exporta "modernidade". O país político que se entretém a legislar sobre a abertura de restaurantes a  animais de companhia mas é incapaz de zelar pela segurança e pela integridade física dos seus habitantes, tratados sempre como contribuintes pelo mesmo Estado que os ignora enquanto cidadãos.

 

ADENDA, às 17.25: O número de vítimas mortais de domingo, agora actualizado, eleva-se a 41. Superando portanto o dos mortos no atentado em Ancara, do sismo em Itália ou da chacina em Manila. Os incêndios em Portugal já provocaram este ano pelo menos 107 mortos.

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Arranjem um canalizador

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.10.17

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O ar já estava pesado. A terra ficou ainda mais com o inferno que persiste, pelo que aquela frase não podia ser mais apropriada: ''aquela merda ainda não entupiu... ”

 

Não se pode dizer que não tivessem feito tudo para isso. 

Quanto ao país, bom, já estava há muito. E não sei se haverá alguém que consiga desentupi-lo nas próximas décadas.

Não há purificadores do ar que cheguem. Nem mesmo em Marte.

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Fim da linha

por Diogo Noivo, em 17.10.17

O Secretário de Estado da Administração Interna disse que não podemos esperar pelos bombeiros: “Têm de ser as próprias comunidades a ser proactivas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver os problemas. Temos de nos autoproteger”. Traduzindo para português corrente, amanhem-se.

Já a Ministra da Administração Interna foi mais uma vez uma cornucópia de inanidades sem freio. Avisou o país de que “as comunidades têm de ser tornar mais resilientes às catástrofes”. Portanto, poucas lamúrias. Aliás, nada como a própria para dar o exemplo: “Para mim seria mais fácil, pessoalmente, ir-me embora e ter as férias que não tive.”

O Primeiro-Ministro podia salvar a honra do convento – ou pelo menos tentar -, mas decidiu amarrar-se politicamente ao quadro de miséria. Logo de manhã, perante uma pergunta incómoda de uma jornalista, pediu que não lhe provocassem o riso. Lamentavelmente, o cenário não era propício à galhofa, mas António Costa parece que teve opinião diferente. Depois, partiu para um aviso à navegação do povo português: habituem-se porque isto vai acontecer novamente. E não há “soluções mágicas” – talvez existam soluções técnicas e políticas, embora sobre estas o Primeiro-Ministro nada tenha dito. Não satisfeito, o Primeiro-Ministro colocou a cereja no topo do bolo quando, “naturalmente”, garantiu que a sua Ministra da Administração Interna tem condições para se manter no lugar, e classificou como infantis aqueles que pedem a demissão de Constança Urbano de Sousa.

 

Entretanto, à medida que o dia avançava, a área ardida crescia e o número de mortos aumentava. O Primeiro-Ministro anuncia então ao país que falará às 20 horas. Criada a expectativa, a António Costa pediam-se mínimos olímpicos: (i) distanciar-se da sucessão de indecências ditas por ele e pelos seus colegas de Governo; (ii) pedir desculpa ao país porque, afinal, é missão inalienável do Estado garantir a segurança de pessoas e bens e já vamos em 100 mortos num espaço de 4 meses.

Mas não. Tudo como d’antes, quartel-general em Abrantes. Na sua comunicação ao país, o Primeiro-Ministro limitou-se a repetir o que tinha dito depois do incêndio em Pedrógão. Não há consequências, não há lições, não há pedidos de desculpas. Por outras palavras, é favor circular porque não há nada de novo ou de relevante para ver. Por vontade própria, António Costa fica irremediavelmente amarrado à tragédia dos incêndios de 2017 e à inépcia que o próprio escolheu para tutelar o Ministério da Administração Interna.

A autoridade do Governo em matéria de segurança interna acabou ontem à noite.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.10.17

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Corações de Pedra, de Alfredo Barroso

Ensaios políticos e económicos

(edição Porto Editora, 2017)

"Por vontade expressa do autor, a presente obra não segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Do aproveitamento político

por Pedro Correia, em 17.10.17

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 Imagem da manifestação de ontem em Ourense: fogos mataram quatro pessoas na Galiza

 

Milhares de pessoas manifestaram-se ontem em várias cidades da Galiza reclamando a demissão da junta governativa na sequência dos dramáticos incêndios que provocaram a morte de quatro pessoas naquela região autónoma de Espanha. Na maior manifestação, em Santiago de Compostela, participaram representantes de todos os partidos políticos da oposição. Entre as palavras de ordem, gritou-se: "Um governo que improvisa é um terrorista."

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Provocações (15)

por Rui Herbon, em 17.10.17

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- Está lá? É do MAI?

- É sim.

- A ministra ainda está, ou já alguém lhe deu as merecidas férias?

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Canções do século XXI (200)

por Pedro Correia, em 17.10.17

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Impressiona a quantidade de gente que das suas tribunas na televisão, na imprensa, ou nas infames redes sociais continua a não perceber ou a fingir não perceber que o problema político do desastre de Pedrógão Grande em Junho e do novo desastre da zona Centro-Norte em Outubro não foi a meteorologia ou a floresta mas a (des)protecção civil. A meteorologia, como é evidente, não é culpa de nenhum Governo (deixemos a discussão sobre as alterações climáticas para outra ocasião), e a floresta até será responsabilidade (ou irresponsabilidade) parcial de Governos passados, presentes, e futuros; mas a organização actual das estruturas de prevenção a incêndios, a preparação corrente dos meios de combate ao fogo, e a coordenação dos meios de socorro a pessoas e bens são competências da responsabilidade do Governo presente (como foram de Governos passados, e serão de Governos futuros). E nesse campo, tanto em Junho como em Outubro, o Governo presente falhou em toda a linha, demonstrando a cada momento uma impreparação assustadora e uma arrogância desmedida - as declarações proferidas nas últimas 24 horas pelo Secretário de Estado da Administração Interna, pela Ministra da Administração Interna e pelo Primeiro-Ministro são mais do que irresponsáveis e insensíveis; são inaceitáveis. Não, a demissão dos responsáveis políticos do MAI não resolve nada em termos práticos - não recupera o que se perdeu, não resolve problemas estruturais de décadas, nem soluciona agora o que falhou há pouco. Mas perante os colapsos sucessivos a que assistimos, parece-me imperativo  afastar quem demonstrou de forma cabal não só não estar à altura dos cargos que ocupa, como também não ser capaz de fazer o que for necessário fazer daqui para a frente. É uma questão de responsabilidade política, sim, e também de capacidade política. Ou, neste caso, de irresponsabilidade política e de incapacidade política.

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De D. Dinis a Capoulas Santos

por Pedro Correia, em 16.10.17

A tragédia de Pedrógão fez aumentar o caudal de disparates proferidos por certos governantes. Entre eles destacou-se o ministro da Agricultura, que a 13 de Agosto se apressou a proclamar ao País que o Executivo tinha acabado de aprovar a "maior revolução na floresta desde o reinado de D. Dinis".

Estava equivocado. D. Dinis destacou-se por mandar plantar árvores, não por vê-las arder. Com destaque para uma das maiores manchas de pinheiro bravo da Europa, reunida no vasto pinhal de Leiria, com cerca de 15 milhões de árvores. Acabo de saber que 80% desta mata nacional foi consumida pelas chamas - no dia em que no País inteiro ardeu uma extensão equivalente a seis cidades de Lisboa. Presumo que não se tratava de "floresta desorganizada", na medida em que é propriedade do Estado. A menos que cheguemos à conclusão que afinal o Estado imita os piores procedimentos dos privados.

Capoulas Santos, o revolucionário da treta, desta vez tem-nos poupado à sua ridícula verborreia. Resta ver por quanto tempo conseguirá permanecer calado.

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Das questões verdadeiramente importantes

por José António Abreu, em 16.10.17

Já decorre algum estudo para saber se desta vez a popularidade de António Costa é afectada?

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Portugal a arder (actualização)

por Pedro Correia, em 16.10.17

 

Balanço oficial: 36 mortos em quatro distritos (Viseu, Coimbra, Guarda, Castelo Branco), 63 feridos, 15 dos quais em estado grave, e sete desaparecidos.

 

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Insensibilidade e mau gosto

por Pedro Correia, em 16.10.17

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Já não falo da ética da responsabilidade, a que alguns - de forma mais restritiva - preferem chamar ética republicana. Cada um faz a interpretação deste princípio de acordo com a sua formação e a sua consciência.

Até dentro da mesma maioria política há discrepâncias nesta matéria. Em 2001, por exemplo, Jorge Coelho renunciou dignamente à pasta ministerial que ocupava quando ocorreu a tragédia de Entre-os-Rios alegando que a culpa não podia morrer solteira. O País, mergulhado em estado de choque, compreendeu bem o que este gesto e estas palavras significavam.

 

Constança Urbano de Sousa, titular da Administração Interna, tem um entendimento muito diferente da ética da responsabilidade: a culpa, para esta ministra, é sempre de terceiros.

Foi assim na tragédia de Pedrógão, está a ser assim neste novo drama em que Portugal mergulhou desde ontem pela mesmíssima causa, agora alastrada a dois terços do País, como se nada tivéssemos aprendido com o que aconteceu há quatro meses e as 65 vítimas mortais desse fatídico 17 de Junho tivessem morrido em vão.

 

A ministra tem, pois, o direito de se manter agarrada ao umbral da porta do seu gabinete no Terreiro do Paço, por mais evidente que seja a sua falta de competência para o exercício do cargo que ainda ocupa. Não tem é o direito de insultar os portugueses - e, desde logo, os familiares das vítimas dos fogos - ao queixar-se publicamente, enquanto Portugal arde, de não ter gozado férias neste Verão. Por revelar uma insensibilidade chocante e um mau gosto inadmissível em qualquer titular de um cargo político.

Se o primeiro-ministro for incapaz de lhe transmitir isto, espero ao menos que o Presidente da República não perca a oportunidade de dizer com franqueza ao chefe do Governo que esta ministra está a mais no elenco governativo e deve portanto ir enfim de férias. Muito prolongadas.

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Relato de uma noite no inferno

por Rui Rocha, em 16.10.17

Dezasseis de Outubro de 2017. Deixei o Dinis na Almirante Reis à uma da manhã. Tive de o trazer de Braga de carro porque hoje tem pela manhã a primeira frequência no Técnico e a circulação de comboios esteve várias horas interrompida. No sentido de Lisboa, a viagem foi um martírio: fogos por todo o lado, o ar está irrespirável, estradas cortadas, na A1 não se transita, a A17 também foi interrompida. Safei-me em Aveiro para a 109 em direcção à Figueira da Foz, segui por Ílhavo, Vagos, Cantanhede e cheguei a Coimbra sempre com chamas a rasgar a noite. Entro finalmente na A1. Há em vários pontos labaredas ao lado da estrada com 3, 4 metros de altura, faúlhas por todo o lado. Nestes sítios, só não foi cortada porque manifestamemente ainda não tinha ali chegado qualquer autoridade. Por alturas de Leiria, a Leonor liga-me. A dois passos de nossa casa estão moradias a arder. Um lar de idosos de Braga foi evacuado. Antes, uma amiga do Dinis tinha telefonado. Tem familiares na zona de Pedrógão. A aldeia onde vivem estava cercada pelo fogo. À uma de manhã inicio o regresso a Braga. Por alturas de Torres Novas a A1 estava cortada. Entrei na noite por Minde, Ourém, Fátima, Pombal. Sempre fogo, sempre mais fogo.  Até chegar a Braga quase já de dia ainda ouvi a intervenção do primeiro-ministro na Protecção Civil umas três ou quatro vezes, a cada noticiário. Uma noite de inferno. Mas podem ficar descansados. No Terreiro do Paço não havia incêndios.

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Se o incêndio estiver perto da sua casa: 

Avise os seus vizinhos. Corte o gás e desligue a corrente eléctrica. Molhe as paredes e os arbustos que rodeiam a sua casa de forma abundante. Se tiver animais solte-os porque eles saberão o que fazer para se salvarem. Esteja pronto para abandonar a sua habitação. Ligue um rádio a pilhas e esteja atento a todas as indicações difundidas. Proceda apenas à evacuação da sua casa quando as autoridades o  recomendarem ou quando a sua vida correr perigo. Obedeça sempre e rapidamente às autoridades.

 

Em caso de evacuação:
Tenha em conta que as autoridades não recomendam que abandone a sua casa se a sua vida não correr perigo. Quando estiver a proceder à evacuação da sua casa ajude os que mais precisam como as crianças, os idosos e os deficientes. Não leve consigo objectos pessoais desnecessários. Depois de abandonar a sua casa não volte atrás até ordem em contrário.

 

Se ficar cercado por um incêndio:
Tente sair na direcção contrária à do vento. Caso tenha de se refugiar, procure uma zona com acesso a água e com pouca vegetação. Enrole-se em roupas molhadas, não esquecendo de cobrir a cabeça. Fique agachado para respirar junto ao chão, evitando inalar fumo. Se possível, coloque um lenço molhado a cobrir o nariz e a boca. Se não conseguir abandonar a área onde está, aguarde o auxílio dos bombeiros.

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Grau Zero

por Diogo Noivo, em 16.10.17

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Do relatório de investigação ao sucedido em Pedrógão Grande sobrevém uma grande conclusão: o Estado falhou. E falhou clamorosamente. Falharam os responsáveis da Protecção Civil nomeados pelo actual Governo. Faltaram os meios aéreos. Não foi equacionada a retirada de moradores no devido tempo. Foi suspensa a fita do tempo que permite registar as ocorrências e que, por isso, é essencial a qualquer investigação - o que sugere intenções pouco salubres do ponto de vista democrático. Atrapalharam as entidades oficiais e os responsáveis políticos que se acotovelaram no centro de comando. Falhou o Ministério da Administração Interna porque não soube ler os indicadores que pediam a antecipação da Fase Charlie. A lista é longa e penosa.

O fracasso do Estado tem responsáveis técnicos e responsáveis políticos. Os técnicos serão demitidos, mas os políticos mantêm-se aferrados à cadeira, como é fácil de perceber pelas declarações recentes da Senhora Ministra da Administração Interna e do Senhor Primeiro-Ministro.

 

Para avaliar as condições de Constança Urbano de Sousa para manter-se na tutela da Administração Interna o relatório sobra. O facto de se tratar do incêndio mais mortífero de que há memória chega para que a MAI, com ou sem responsabilidades de ordem técnica, abandone o ministério. Se este argumento não convencer, veja-se o comportamento da MAI em relação aos incêndios: no primeiro ano andou em parte incerta até emergir numa festa do social; no segundo ano, com recordes de área ardida e de mortos, a primeira despesa política foi feita pelo Secretário de Estado da Administração Interna, homem que foi literalmente empurrado para fora da fotografia quando a Senhora MAI se deslocou ao terreno. Tanto no primeiro ano como no segundo, passados os momentos de emergência, a ministra desdobrou-se em declarações tão tontas como lamentáveis. A partir daqui, foi o caos. Os serviços do MAI entraram em roda livre e a Ministra mostrou não ter capacidade (e autoridade) para trazê-los à ordem e impor um módico de decência institucional.

 

Ontem o país voltou a arder. Estará a arder como nunca. E há novamente vidas perdidas – o número exacto é um mistério porque às 10 da manhã de hoje a Protecção Civil reconheceu não saber quantas pessoas morreram.

Ontem, em declarações à RTP, a Senhora MAI atribuiu responsabilidades ao clima e aos comportamentos dos portugueses, um povo que teima em não aprender. Já sobre a aprendizagem do Ministério nada disse. Nada há a reportar sobre as lições de Pedrógão. Nada há a dizer sobre o facto da Protecção Civil estar com um comandante interino há mais de um mês. Nada há a dizer sobre a capacidade do dispositivo. O Primeiro-Ministro, à semelhança do que fez quando era autarca de uma Lisboa submersa, entrega o país ao peso do inevitável.

 

A demissão de Constança Urbano de Sousa não deverá ocorrer por força da calamidade dos incêndios, mas sim como consequência da forma calamitosa como geriu (e gere) politicamente o assunto. A permanência de Constança Urbano de Sousa no MAI é uma bizarrice inenarrável que certifica o grau zero do Governo em matéria de segurança interna: falta autoridade, decoro e respeito institucional. Aqui chegados, António Costa não pode assobiar para o lado.

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Entre Orwell e Voltaire

por José António Abreu, em 16.10.17

(...) Costa é pragmático: "Nada é perfeito." Mas tendo em conta que "dos 523 fogos deste domingo 400 foram extintos", há que relativizar e "analisar as coisas como elas são".

 

Relativizemos, então. Relativizemos os pelo menos 75 mortos num único ano. Relativizemos o valor excepcionalmente elevado de área ardida por incêndio, sinal de que a resposta às deflagrações está a ser tardia e incompetente. Relativizemos o facto de já em 2016 os dados terem sido negativos. Relativizemos as regras rígidas (o relatório sobre as falhas do SIRESP menciona a não utilização de um helicóptero que se encontrava a 42 km de distância de um incêndio por o limite autorizado ser de 40 km), o centralismo que tolhe a acção de quem está no terreno (veículos e bombeiros ficam nos quartéis à espera da ordem para avançar proveniente de Lisboa), e a incompetência de quem apenas foi nomeado por ter cartão partidário, tudo indícios não apenas da apropriação do Estado por parte do PS mas da austeridade encapotada que vai destruindo os serviços às populações em prol do rendimento de funcionários e apaniguados. E relativizemos ainda a tendência para a desculpabilização de António Costa (isto quando não se entrega a basófias deslocadas), da sua Ministra da Administração Interna (hiper-competente a afastar responsáveis de organismos suficientemente ousados para emitir pareceres técnicos contestando as posições do governo) e dos parceiros de Geringonça (outrora tão lestos a disparar acusações). Já vimos isto com Sócrates, voltamos a vê-lo com o seu mais perfeito acólito: vivemos no melhor dos mundos possíveis e pretender outra coisa só pode constituir desvio psiquiátrico ou má vontade.

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O colapso do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 16.10.17

As duas funções fundamentais do Estado são assegurar a justiça e a segurança dos cidadãos. Se não consegue assegurar essas duas funções, o Estado já não existe. O que os incêndios de ontem demonstram é que todo o sector da protecção civil de Portugal colapsou, acrescentando mais sete vítimas mortais e vinte e cinco feridos à já inaceitável tragédia de Pedrógão Grande. O próprio Secretário de Estado pede agora às populações para combater as chamas, admitindo que não tem bombeiros em condições de lutar contra os fogos. Mas António Costa segura a sua Ministra, apesar de garantir que os dias negros se vão continuar a repetir. Parece assim que para António Costa conservar a Ministra no cargo é mais importante do que resolver o problema dos incêndios, que ceifam vidas e destroem propriedades. Há uns tempos eu achava que isto era um problema com a Ministra da Administração Interna. Neste momento, já acho que é um problema geral de um Governo incapaz de assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas. Tivéssemos um Presidente que se deixasse de afectos e paninhos quentes e exercesse a sério os seus poderes, e outro galo cantaria. Assim, e como o Governo bem nos avisou, Portugal vai continuar a arder.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.10.17

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Os Corpos, de Rodrigo Magalhães

Romance

(edição Quetzal, 2017)

"Por decisão do Autor, este livro cumpre a grafia anterior ao Acordo Ortográfico"

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Portugal a arder

por Pedro Correia, em 16.10.17

 

Pior dia de sempre: registaram-se neste domingo 443 incêndios em Portugal, muitos dos quais continuam activos.

 

Cinco vítimas mortais dos fogos: duas em Penacova, uma na Sertã, duas em Oliveira do Hospital. Há pelo menos 25 feridos, vários em estado grave.

 

Jovem grávida morre em choque frontal na A25, junto à estação de serviço de Vouzela, quando tentava fugir das chamas.

 

Mais de 20 estradas cortadas devido às chamas.

 

Comboios parados devido aos incêndios.

 

Linhas do Norte e da Beira Alta cortadas.

 

GNR escolta condutores no IP3 ameaçado pelas chamas.

 

Fogo chega a habitações em Braga.

 

Zona industrial da Tocha ameaçada pelo fogo.

 

Chamas destroem parque de campismo da praia de Vieira.

 

Incêndio em Arouca põe casas em perigo.

 

Situação incontrolável em Arganil.

 

Zona industrial de Oliveira de Frades foi dizimada.

 

Chamas fora de controlo em nove aldeias de Monção.

 

Fogo ameaça várias casas em Mafra.

 

Incêndio de Vale de Cambra leva 13 pessoas para o hospital.

 

Fogo destruiu casas em Vila Nova de Poiares.

 

Evacuada aldeia de Melgaço.

 

Situação em Oliveira do Hospital é trágica.

 

Fogo ameaça centenas de casas em Mira.

 

Gouveia cercada pelas chamas, com casas a arder.

 

Fogo na Ericeira está fora de controlo.

 

Aldeias evacuadas em Arganil, Lousã, Seia e Marinha Grande.

 

Chamas descontroladas em Óbidos ameaçam três aldeias.

 

Activado plano municipal de emergência em Mangualde.

 

População de Tondela aconselhada a refugiar-se no quartel dos bombeiros.

 

Incêndio em Santo Tirso força evacuação de idosos.

 

Activado plano municipal de emergência em Aveiro.

 

Incêndio de grandes dimensões na Serra da Estrela.

 

Bombeiros de Gaia sem homens nem material disponível para combater todos os incêndios.

 

Base aérea de Monte Real aberta à população que foge das chamas.

 

Secretário de Estado pede à população que combata as chamas: "Não podemos ficar à espera dos bombeiros".

 

(actualizado às 2.22)

 

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Canções do século XXI (199)

por Pedro Correia, em 16.10.17

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CONVITE

por Inês Pedrosa, em 15.10.17

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O Encontro Internacional Mulheres nas Artes - Percursos de Desobediência decorre segunda e terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian. Programa completo aqui: https://gulbenkian.pt/evento/mulheres-nas-artes/

Estão todas e todos convidados. 

Convite extensivo ao lançamento do primeiro livro da minha editora, Sibila, que acontecerá neste Encontro.  

Às 18 horas, antes do lançamento, Joumana Haddad fará uma palestra sobre a situação das mulheres árabes. 

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Fotografias tiradas por aí (380)

por José António Abreu, em 15.10.17

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São Pedro da Afurada, 2004. 

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Celebrar Agustina

por Inês Pedrosa, em 15.10.17

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Agustina Bessa-Luís completa hoje 95 anos. Deixo aqui o prefácio que fiz para o livro As Chamas e As Almas, que reúne Crónica do Cruzado Osb. e As Fúrias, dois brilhantíssimos romances que a escritora escreveu no imediato pós-25 de Abril, sobre os tempos da revolução. 

 

A orquestra do imprevisível 

 

«Que gente tinha saído da revolução dos cravos? Os que abriam o coração aos acontecimentos e os que abriam o guarda-chuva.» (Crónica do Cruzado Osb., p. 186)

 

         Quem, porque não fosse ainda nascido ou porque andasse por outras partes, não pôde experimentar o tempo e a singularidade da revolução portuguesa, viverá nestes dois romances todos os acontecimentos e emoções desses anos turbulentos. Em pleno caudal revolucionário, Agustina concebeu um par de ficções nas quais realidade e reflexão fluem em paralelo, conseguindo captar, por dentro, o magma dos sentimentos e das revoltas das diferentes camadas sociais e pensar, por fora – como se pudesse observar a vertiginosa sucessão dos factos a partir de uma curva temporal posterior –, as consequências futuras do que estava a acontecer. Nesta extraordinária capacidade de descrever uma época e de antecipar o seu desfecho, com o rigor daquela isenção a que em literatura se chama compaixão, ou partilha da paixão dos outros, reside a mais imediata qualidade desta obra de inúmeras qualidades. O tempo pousa sobre as palavras escritas como um revelador – mostra o brilho dumas e a irrelevância doutras. Os trinta anos que decorreram sobre estes livros, escritos em tempos de lume, mostram a perfurante capacidade de análise da Escritora – e a força da sua profecia. Um escritor genial é sempre um profeta, um historiador do invisível, alguém que vê a coreografia temporal do espírito humano e consegue imaginar-lhe as configurações futuras, para lá dos concertos actuais do bem e do mal. A precisão dessa profecia dá-nos a medida de eternidade de uma obra; Agustina é já uma autora de todos os futuros – como o foi o Padre António Vieira, o seu único antepassado verdadeiro na História da Literatura Portuguesa, quer pela ousadia de exposição e asserção, quer pela transfiguração da matéria anímica através da acção política ou do sentimento dela.     

         Nesses anos em que, de repente, como se lê no início de Crónica do Cruzado Osb., «a política ocupava todo o horizonte humano», Agustina conseguiu continuar a radiografar a alma humana – da qual as vestes políticas são sempre e só um epifenómeno, a espuma (às vezes arrasadora) de uma história oculta de sangue e afectos – e perscrutar o desenvolvimento da sociedade, para lá desse cerrado nevoeiro da política. No subconsciente da política está a luta pelo poder, e no inconsciente dessa luta o drama particular da afirmação de si, que envolve o segredo dos sentimentos e da inteligência dos homens e das mulheres. Nunca foi outro o tema – caudaloso, inesgotável – de Agustina, isso que a Escritora inúmeras vezes sintetizou, com uma simpatia rápida, para corresponder à rapidez borbulhante dos jornais, como «as relações humanas». Costuma dizer-se que escreve sobre famílias, e fica tudo sossegado – como se a família fosse um lugar pacífico. O tema incessante de Agustina é o poder, que desvenda como autêntico microscópio da vida humana: na lamela desse microscópio, paixão e ódio, energia e morte, crime e culpa formam uma rede romanesca. Acontece que em Portugal, país pequeno e antigo, o poder aparece sempre profundamente imbricado nesses complicados enredos do sangue a que damos o nome de «família». Agustina afirmou uma vez, à entrada de uma das suas subversivas crónicas: «Eu não gosto de me meter em assuntos de família, mas não há outros». Ironizava sobre a arrumação fácil, e tão frequente, dos seus romances como uma colecção de histórias de grandes famílias do Douro – porque as famílias, e o brilho enigmático do Douro, as brumas do Norte são, na sua obra, apenas o ponto de partida, o lugar familiar de onde se parte para o desconhecido inquietante, o princípio do desassossego.

         Só quem nunca leu Agustina pode considerá-la uma «conservadora». Nenhum grande escritor pode ser um «conservador» ou um «revolucionário», porque o que faz um grande escritor é, antes de mais, esse dom de liberdade que não se compadece com classificações. Diz Olga Rodom, na página 266 de As Fúrias: «A liberdade é uma serpente que rasteja como a inveja primeiro, e depois açoita como a vingança». Sim, a liberdade açoita inexoravelmente as limitações mentais de cada época, expondo-as em carne viva. Num dos seus aforismos fulgurantes como haikus, escreve Agustina, na página 343 de As Fúrias: «Os preconceitos são o espírito do tempo mal compreendido». O rótulo de «conservadora» tem limitações às quais a escrita e o pensamento torrencial de Agustina não se acomodam – precisamente, não é uma escrita acomodada às modas da estação, nem um pensamento que se deixe pastorear, e é isso o que, muitas vezes, ainda hoje, não lhe perdoam. Consagram-na para a encarcerarem no sossego dos clássicos, e a escrita de Agustina – desconcertante, sábia, imprevisível – não tem arrumação nem catalogação possível. Onde quer que se abra a página, uma frase nos incendeia e nos leva a pensar o mundo de novo. Num texto belíssimo, Maria Velho da Costa descreve Agustina como «menina total e raciocinante» («Maria Agustina, a trânsfuga», revista Egoísta, Fevereiro 2007). É preciso ter um pensamento vigoroso, indomável, para conseguir pôr ordem e justiça no tempo de uma revolução. Não há nada de anti nem pró-revolucionário nestes romances – há a busca do entendimento das causas e das consequências, uma análise que não poupa os «novos feudais» da revolução («novos feudais» que ela define, em versão actualizada ao início do milénio, no seu mais recente romance, o prodigioso A Ronda da Noite) como nos velhos feudais da ditadura. O tom sentencioso da sua escrita conduz também os espíritos mais ligeiros a catalogações apressadas – ela revela verdades profundas, mas essas verdades não são portáteis e adaptáveis ao politicamente ou espiritualmente correcto em curso, transporatndo antes uma visão aguda, de uma lucidez extrema, sobre a natureza humana, com todos os seus paradoxos e contradições. Por isso Agustina pode parecer cruel como a verdade, ou audaciosamente conservadora como uma criança; tem a consciência cortante de que o ser humano muda menos do que julga, e teve sempre – sobretudo nos tempos de maior agitação – a coragem de não o esquecer, e de o declarar. Agustina não fornece respostas, amplia as perguntas – escava e escavaca as evidências. Silvina Rodrigues Lopes descreveu cirurgicamente os efeitos deste labor: «a escrita [de Agustina] produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor e abertura de múltiplas hipóteses, também elas sem outra legitimação que não seja a que adquirem na sua própria prática» (Agustina Bessa Luís – As Hipóteses do Romance, Asa, 1992, p. 302).

         Estes dois romances compõem, de facto, uma obra única, o romance da revolução desde o seu arranque militar, masculino, táctico e frontal, aos seus desenvolvimentos políticos, femininos, estratégicos e sub-reptícios. Logo no início de Crónica do Cruzado Osb., escreve: «A revolução do 25 de Abril não mudara o fundo do complexo humano. Esbarrara mesmo com esse fulcro de inútil consciência das coisas, uma espécie de neurose da queixa, de expiação, talvez. O sangue de muitos povos alimentava o carácter racial da contradição; celtas garridos e sombrios iberos existiam em oposição no contexto da natureza provinciana e que pesava em todos os actos da vida comum e privada» (p. 30). Mais adiante, dirá que a revolução tocava «alguma coisa de mais profundo, talvez a extinção do medo milenário, do desprezo por si próprio», e simultaneamente verifica como «no campo das profissões grassava já a baixa manobra para obter lugares, assegurá-los no futuro mercê duma fluidez de compromissos» (p. 48). A justa serenidade da Escritora mantém-se imune à atmosfera convulsiva da época – o ponto final de Crónica do Cruzado Osb. data de 7 de Maio de 1976. O decidido esculpir de uma justiça visceral que constitui a força motriz do entendimento agustiniano conduz-nos através deste romance que vai organizando a desorganização revolucionária, do inicial período de festa e ruptura com o medo, à fase do «terror branco» em que se prenderam ao desbarato «inimigos verdadeiros ou fictícios», e ao progressivo nascimento de um «socialismo de ballet, pleno de fugas, suspensões, saltos e trémulos». Cáustica, a Escritora escalpeliza as diversas camadas da burguesia: «Toda essa gente cometeu a vulgaridade de se incomodar com a revolução, mais pelo facto de ela os ignorar, do que porque realmente ela os podia perder. (...) O primeiro movimento de muitos burgueses foi o de se adaptarem a uma atitude de vanguarda» (p. 44). Quanto ao revolucionário Movimento das Forças Armadas (vulgo, MFA), define-o numa frase: «Gente interessante, radiosa, que julgava o povo um público e a vida política uma actividade temperamental». E acrescenta, de imediato: «Mas o povo, e o povo português em especial, não concederia a ninguém a sua confiança. Se o fizesse, seria o mesmo que abdicar da sua parte de liberdade autenticamente permissível. A desconfiança é a única vantagem do povo sobre as minorias que o conduzem» (p. 48). Sobre as campanhas de alfabetização, escreve: «Achavam que saber coisas, estar cevados de conhecimentos, gordo de títulos, pletórico de razões, era a maneira de libertar as pessoas, de as tornar úteis e felizes. Não reparavam que a cultura assim ministrada não passava de uma nova superstição. Que o sexo, a física nuclear e o estudo dos clássicos ficavam tão obscuros como dantes, se não fossem respeitados como fenómenos independentes de qualquer versão vitoriosa; pois a obscuridade de todas as coisas só se dissipa quando o elementar delas se atinge – e o elementar delas é a relação entre elas e o homem» (p. 86). Sobre a desilusão inevitável, escreve: «As revoluções são tão incertas, que basta fazê-las triunfar para vermos quanto nos decepcionam. Isto, que parece efeito dum pensamento difícil, o povo sabe-o; e o povo português sabe-o primeiro do que qualquer outro. É uma raça privilegiada para entender o que não compreende» (p. 147).

Seria útil que se autonomizasse a constante indagação de Agustina em torno da identidade portuguesa num volume específico, de forma a que a sua arquitectura filosófica se pudesse observar como o edifício clarividente que efectivamente é. Eduardo Prado Coelho afirmou um dia, com uma inteligência exacta (em A Noite do Mundo, INCM, 1988), que o génio de Agustina não é o de um «maître à penser» mas o de uma «pensée sem maître» – e esse pensamento sem rédea nem dono desafia-nos tanto e tão desabrigadamente que chega a encandear-nos. Servido por uma escrita minuciosa e opulenta – «uma tapeçaria, mas dum género especial, aberta», como já em 1964 Eduardo Lourenço a definia (O Tempo e o Modo, nº 22, 1964)  – , esse pensamento atinge-nos intermitentemente como uma espada de sol demasiado forte. As personagens movem-se através dos seus romances como nuvens piedosas que nos protegem do sol abrupto da sabedoria de Agustina, mediadoras de infinitos, deusas de algibeira, precárias e pecadoras, tentando aconchegar-nos à intempérie desse pensamento extra-lúcido. Há um inacabamento voluntariamente esperançoso nos romances de Agustina; fechada a última frase, a vida daquelas pessoas continua, o que significa que continuam ao nosso lado, animando-nos a prosseguir sem o temor dos desenlaces. A profusão de micro-enredos e o desfibramento de protagonismos prende-nos ao longo de todas as páginas, e suaviza-nos o esforço de apreensão do pensamento profundo e profundamente livre da Escritora. Nos romances de Agustina, precisamente porque movidos por um democrático sentido de compaixão ou justiça, dilui-se a noção de personagem secundária; todas as figuras têm o seu momento de intervenção essencial – é isso o que de imediato torna os seus livros sedutores e acessíveis a leitores intuitivos e não-iniciados. Muitas vezes, aliás, esses leitores não-formatados entendem-na melhor do que os académicos puros, precisamente porque a escrita de Agustina parte de um contrato de autenticidade, de uma aceitação serena da contradição humana e de uma prática de indomável liberdade. Como escreveu Fernando Pinto do Amaral, «o que interessa à sua voz é ir abrindo portas, deixando a cada um a decisão de as transpor, quando e como quiser» (Uma «Incerteza Apaixonada», Diário de Notícias, 3 de Novembro de 2006). 

         Agustina Bessa-Luís herdou a curiosidade insaciável, a possante capacidade de trabalho e a força genuína de Camilo Castelo Branco – mas levou muito mais longe esses dotes, tornando-se uma espécie de super-Camilo. Teixeira de Pascoaes explicou que, nos livros de Camilo, «chegamos sempre à luta entre as forças espontâneas do ser e a lei que as subordina à sociedade. Tal luta é a mesma sociedade a fixar-se em formas inertes de encontro à acção renovadora do espírito» (O Penitente, Assírio& Alvim, 1985, p.85). Esta afirmação adequa-se igualmente à ficção agustiniana – que suplanta a de Camilo no que se refere à experiência abissal das paixões humana e ao entendimento desassombrado da dimensão caótica dos seus desejos. É verdade que, pelo menos à tona dos factos, a autora de Prazer e Glória terá experimentado menos vicissitudes morais e materiais do que o autor de Memórias do Cárcere. Mas o que sabemos da experiência do sofrimento alheio? Virginia Woolf meditou muito sobre a dose certa de raiva necessária a um escritor – não demasiada, para não obscurecer a justiça genérica da escrita, nem inexistente, para não amolecer a inspiração. Escrevemos sempre contra um silêncio ou uma submissão; em última análise, o génio globalizador de Agustina é, pura e simplesmente, da ordem do dom, ou do milagre – inexplicável. Podemos apenas congratular-nos com essa sua capacidade, absolutamente única, de nos dar a ver o movimento do mundo inteiro através das peripécias de uma série de famílias do Douro. Mais do que uma extraordinária criadora de aforismos, Agustina é uma artista da parábola. Os seus romances resistem a sínteses castradoras: para sermos fiéis ao enredo de Crónica do Cruzado Osb. teríamos de contar uma bateria de pequenas histórias, para lá do fio existencial desse Josué Silva que, em plena revolução, «magoado com uma desgraça que afinal se baseava no mau uso da sua juventude – ele fora saneado do jornal onde ocupava um cargo na redacção» decide escrever «uma sátira muito viva e espirituosa, e também mal-intencionada» a que deu o nome de Crónica do Cruzado Osb., declinação contemporânea da crónica de Osborne, militar inglês que assistiu ao cerco de Lisboa em 1147.

A obra de Agustina tem essa característica, cada vez mais rara e preciosa, de abrir os seus salões, descontraidamente, ao convívio com obras e temas de outras eras, actualizando-os. Num tempo em que Cícero é citado sem ter sido lido e os plágios entre vizinhos se disfarçam de homenagens, Agustina distingue-se também por essa ciência do diálogo, tão erudita quanto despretensiosa. Crónica do Cruzado Osb. é um romance invulgar na obra de Agustina, porque é um romance macho; não só circula em torno de personagens masculinas, como tem uma mecânica narrativa organizada, cartesiana, quase espartana. Desenvolve-se claramente como um romance de ideias – a tal ponto que seria possível descolá-lo da narrativa e reconstrui-lo, à margem dela, como um ensaio sobre a Revolução. Ensaio que vem ao encontro do Portugal de hoje: «Basta que se promulgue a austeridade na economia, que se exponha o sudário das adversidades a suportar, para que a revolução sofra um retrocesso. Os governantes hábeis costumam usar deste meio para, directa ou indirectamente, culpar s massas e assim obterem delas uma certa docilidade. A litania da penitência sempre procurou obstáculo à contestação, É assim no campo religioso e é assim no campo político (p. 96)». Ensaio que não deixa pedra sobre pedra: «Não é possível mudar nada enquanto a luta constar apenas de um rolamento de lugares de vítimas e carrascos. Abrir todas as prisões tem que significar destruir as prisões, e não conservá-las à ordem de outros poderes» (p. 135). Romance da candura armada e da iniciação à política, Crónica do Cruzado Osb. elabora o perfil do amor idealizado, abstracto, que marca a História do Masculino, de Platão aos nossos dias. É a crónica do orgulho, sobre o qual a Escritora reflecte longamente, virtude máscula que interrompe a vida, enredando-a em estratégias equívocas, quase sempre fatais.

         As Fúrias surgem, um ano mais tarde, como contraponto íntimo, veemente, à crónica de estrada da Revolução representada pelo autor de Osb. e pelos seus pares. Neste romance de «pessoas em contra-luz», «cheias de trevas», como explica a Autora (p. 362), observamos os efeitos da revolução social no interior das casas e dos corações, e, em particular, as consequências da fúria desencadeada nos corações das mais improváveis mulheres – as grandes burguesas como as pequenas proletárias, que de repente desatam a falar e a agir por conta própria, contra as novas como contra as velhas convenções e expectativas. Habituámo-nos a ver a emancipação social e política das mulheres como um mero processo legal e de conquista de direitos – mas Agustina desmonta implacavelmente o paternalismo superficial das ideias feitas sobre as emancipações, mostrando-nos mulheres que, sob o vendaval da liberdade, se entregam aos seus desejos mais ocultos, rejeitando qualquer definição emancipatória exterior, da ordem do masculino. Perpassa por todas as páginas deste livro a aragem de um erotismo intenso, convulso, enigmático, um clima de «desintegração erótica» nascido da força carnal, subitamente descoberta, das mulheres, que se erguem contra «o mau romantismo dos tempos». Ao orgulho masculino da primeira fase da revolução, descrita em Crónica do Cruzado Osb., segue-se agora o tempo feminino da vingança: «as mulheres estavam entregues a esse espírito de vingança que não tinha como barreira o esteticismo dos homens capaz de produzir uma acção política e nacional» (p. 299).     

         Mitologicamente, as Fúrias nascem das gotas de sangue que caem sobre a Terra durante a castração de Urano. Ou são filhas de Hades e Perséfone, localizadas entre as sombras. São as forças de retribuição: Aleto, a ira incessante, Tisifone, a retaliação, e Megera, o ciúme. No romance de Agustina, este feminino incandescente é representado, antes de mais, pela velha Olga, que decide chamar a revolução para dentro de casa (uma casa com trinta quartos e dois salões de festas), e convocar a ocupação, em vez de se defender dela. Nesta altiva Olga que decide comandar e estabelecer as regras da invasão da sua casa pelo povo, encontramos muito da própria Agustina: «Olga não tinha a menor ideia de que agia democraticamente, nem isso lhe interessava; a política não interferira nos seus costumes, porque eles derivavam directamente da sua condição, duvidosa de resto, de espectadora (...) Olga não tinha qualquer academismo de pensamento nem disposição revolucionária. Em diversas situações da vida fora incontestavelmente quase uma marginal. (p. 237). «Havia nela uma propensão para derrubar o passado, para o esvaziar do seu conteúdo mais sagrado; e isto a par de uma aparente fidelidade aos costumes que ela respeitava com uma certa pretensão racista, uma certa abundância de programas. Mas no fundo odiava a sua escola de merecimento, o seu padrão de elegância, cada um dos objectos que lhe ensinavam a amar» (p. 247). Também em Ofélia, filha de Olga, se detecta a maneira de olhar da própria Escritora: «não impressionava senão por uma espécie de atenção, como a das aves de presa; uma maneira certeira de ver tudo quanto se move e se desloca numa paisagem, seja um ramo que de súbito se desprende, seja uma pista animal e fugaz» (p. 294). A outra filha de Olga, Mimosa, ocupará o lugar de terceira Fúria; mecenas de uma espécie de asilo para intelectuais pobres, com «um gosto pela instabilidade» e tendo «por arquétipo uma virgem de Fátima vestida pelo Dior (...) saboreava os equívocos como pastéis e deleitava-se a provar as contradições desses belos recuperadores da pátria» (p. 269). O olhar e o passo destas três mulheres marca a narrativa dos anos em que a revolução se diluiu na habitualidade, desfigurando-se, humanizando-se, criando um novo mundo, em muitos aspectos idêntico ao anterior, e em muitos outros – imperceptíveis e determinantes – irreversivelmente distinto.    

         Juntos, estes dois romances compõem um extradordinário vitral do período revolucionário português. Num tempo em que as livrarias se entopem dessa falsidade redundante a que se chama «romance histórico»  – a História nunca é só uma, e todo o romance digno do nome é uma formulação da História –, a ressurreição destas duas obras que nos oferecem a memória poliédrica do tempo inaugural da democracia, com o pressentimento certeiro das luzes e sombras que hoje ela desenha, e com a profecia do que continuamente a excede e corrói, é absolutamente fundamental. As palavras que a Escritora usaria, poucos anos depois destes dois romances, para definir a escrita epistolar da protagonista em Fanny Owen (1979), assentam-lhe como uma luva: «Não só escrevia com extraordinária correcção, como imprimia às palavras um fogo devorante, não pelo que elas significavem etimologicamente, mas pela sua escolha e aliança especial. Era como um jogo perfeito, sonoro, insensato e invulnerável, essa escrita produzida como por um anjo cego, cujos valores não fossem equiparados aos humanos» (p. 94). Nestes livros aprendemos tudo o que há para aprender sobre a nossa História contemporânea – e, sobretudo, apreendemos o que incessantemente nos escapa, ouvimos a voz dos silêncios, mágoas e sonhos desfeitos que a História e as histórias apagam. Porque na escrita de Agustina convergem todas as iluminações e misérias humanas, o segredo das maiores e menores almas, o dizível e o indizível, o tempo e a eternidade.

 

Maio 2007

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Mulheres portuguesas, deixai hoje de trabalhar

por Patrícia Reis, em 15.10.17
Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.


Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.

As mulheres, ao longo da História, tiveram de cumprir apenas duas quotas: ou são umas Evas – logo demoníacas e tentadoras, perversas e afins – ou são Marias – a mãe, beatificada e calma, sempre cumprindo a tradição e, acima de tudo, o silêncio. Desde o chamado pecado original que temos esta avaliação extrema das mulheres seja em que situação for.

No caso dos ordenados ou promoção nas carreiras, andámos muito, conseguimos muito, mas falta bastante para chegar à famosa e pouco cumprida paridade.

O Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social aponta como diferença ao nível dos salários dos tais 21,8% (dados de 2016) e releva que 28,9% das mulheres recebem o ordenado mínimo nacional. O mesmo ordenado mínimo vai para 18,5% dos homens.

Como combater esta desigualdade? Mantendo ferozmente a convicção de que os direitos são iguais. Por favor, não me falem em mérito.

As mulheres portuguesas trabalham muito. Todas as mulheres trabalham muito, dirão. Sim. A tradição pesa e a cultura também. E, se existem filhos, cabe por regra à mulher tratar dos infantes, da casa, dos mais velhos, desdobrar-se. Considerando que esta situação, em pleno século XXI, parece perpetuar-se, talvez seja mesmo bom irmos para casa fazer o que nos apetece, ou passear, já que para muitas de nós o que fazemos não vale o mesmo do que aquilo que é feito por homem.

Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.10.17

 

«O orgasmo também dura segundos independentemente da duração da cópula. Mas uma cópula sem orgasmo é como um ensopado sem borrego.»

 

Do nosso leitor Vlad, o Emborcador. A propósito deste postal do Rui Herbon.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.10.17

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Auto de António, de Manuel Alegre

Poesia

(edição Dom Quixote, 2017)

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In memoriam.

por Luís Menezes Leitão, em 15.10.17

Hoje passam 77 anos sobre o dia do fuzilamento em Barcelona de Lluís Companys, o presidente da Generalitat da Catalunha que pagou com a vida a ousadia de declarar o Estado Catalão dentro de uma República Federal Espanhola. Ao contrário do que habitualmente se refere, Companys nunca proclamou a independência, pretendendo apenas que a Catalunha fosse um Estado numa Espanha federal. Mas, mesmo isso chegou para que tivesse como resposta a prisão, o exílio, e por fim a morte por fuzilamento. Aquando da sua execução, efectuada após um julgamento sumário de umas horas, recusou a venda, quis permanecer descalço para que os seus pés nus pudessem sentir a terra catalã e gritou aos seus assassinos: "Assassinais um homem honrado. Pela Catalunha". Causou por isso indignação geral a recente ameaça de um jovem deputado do PP, Pablo Casado, de que Puigdemont poderia vir a ter o mesmo destino de Companys

 

Companys pode ter sido assassinado, mas a ideia que defendeu permanece. Hoje uma das avenidas principais de Barcelona é o Paseo Lluís Companys e a independência da Catalunha está na ordem do dia. Mesmo que não venha a ocorrer, há a certeza de que nada ficará como dantes depois deste processo, uma vez que o PP e o PSOE já se puseram de acordo para uma ampla revisão constitucional que reforce a autonomia das regiões de Espanha. É mais que tempo de a Espanha abandonar de vez a divisa de Franco "Una, grande, libre". Historicamente sempre existiram muitas Espanhas, sendo que até o nosso Arcebispo de Braga tem o título de Primaz das Espanhas. Reconhecer a diversidade dos povos de Espanha, e até a eventual consagração de uma Espanha Federal na Constituição, é seguramente a solução mais adequada para a resolução deste conflito, em lugar do extremar de posições que não conduz a lado nenhum.

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Canções do século XXI (198)

por Pedro Correia, em 15.10.17

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Remar contra a barbárie

por Rui Herbon, em 14.10.17

A própria ideia do que é o sucesso deverá ser alterada, e o espaço ocupado pelo trabalho e pelo dinheiro redimensionados, para que não permaneçamos analfabetos de dimensões humanas fundamentais. O termómetro da excelência tem de ser a vida integral e não apenas o trabalho produtivo.

 

José Tolentino Mendonça (Expresso, 14 Outubro 2017)

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Leituras

por Pedro Correia, em 14.10.17

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«Também para com os mortos se deve mostrar gratidão.»

Selma LagerlöfO Tesouro, p. 32

Ed. Cavalo de Ferro, Lisboa, 2017 (3.ª ed). Tradução de Liliete Martins

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Momento único

por Helena Sacadura Cabral, em 14.10.17

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Portugal vive um momento único e original. Se não relembremos sem ordem nem pontuação que o Ministério Publico concede entrevistas, os banqueiros e os empresários suspeitos de má conduta mantêm o mesmo estilo de vida, o Orçamento é apresentado antes de tempo, mas fora de horas, a reunião que se lhe segue decorre de madrugada, Madona vive em Portugal e diz-se encantada, os portugueses estão felizes como as cigarras costumam estar antes do inverno chegar, a dívida sobe paulatinamente mas ninguém parece lembrar-se da formiga que amealha no bom tempo para sobreviver na tempestade, os sindicatos só falam na função publica, esquecendo que há quem não tenha o Estado como patrão, o relatório sobre Pedrogão Grande é arrasador mas a ministra, tendo mesmo ao seu lado António Costa, afirma que se não demite, pese embora ja tenha demitido um responsável, que já fora readmitido e agora volta a ser demitido. Confuso? Nada! 

É o Portugal europeu, aquele que até já saíu do lixo de uma agência, pejado de turistas, comprado por chineses e paraíso fiscal para todos menos para aqueles que aqui tiveram a sorte de nascer e resolveram ficar. Amália e o Marceneiro, sim, é que nos haviam de cantar... mas azar nosso, já morreram e faltam-nos poetas para propalar o tal momento único e original! 

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Cria cuervos *

por Pedro Correia, em 14.10.17

 

O separatismo catalão está a ser uma fábrica de nacionalistas espanhóis.

 

* Do antigo adágio castelhano: "Cría cuervos y te sacarán los ojos".

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