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A propósito do Dia Europeu sem Carros, uma história

por António Manuel Venda, em 23.09.09

Um dia sem o Mercedes

Num certo dia europeu sem carros, um responsável público bem colocado – colocado, mesmo no sentido de ter sido colocado, entenda-se –, nesse dia, o tal responsável fez o habitual percurso entre a residência e a instituição que superiormente dirigia a pé. Quer dizer, pela opção de não carregar ainda mais nas vírgulas na frase anterior, importa clarificar as coisas, o senhor não dirigia a instituição a pé, embora também não a dirigisse exactamente de pé, pois geralmente até se apresentava um pouco curvado; ainda que, considerando que as grandes decisões vêm sempre de patamares mais arejados do que o seu (seu dele, responsável), não fosse difícil justificar tal deficiência, mesmo sem recorrer a um médico conhecido ou até assíduo frequentador da casa. O que o senhor fez a pé, ou melhor, fez a pé naquele dia europeu sem carros, foi o percurso da residência até ao gabinete. Colaborou, ou melhor, aderiu, sem que isso signifique que foi preciso desdobrar-se (o mais correcto, no caso dele, até seria dizer dobrar-se, coisa que implica menores esforços) em planeamentos, mobilizações e comunicados justificativos.
Bom, o que é certo é que o senhor aderiu ao dia sem carros por essas europas – e por estas do oeste, já agora – e lá se pôs a andar a pé. Aliás, por morar e «trabalhar» em zona interdita a automóveis (não dos oficiais, como o seu, mas usá-lo no referido dia seria provocação a mais para o povo), por causa disso teve mesmo que ser. De nada serviu a vantagem de não morar nos arrabaldes, onde, com dia sem trânsito ou não no centro da cidade, circular seria um teste complicado para o sistema nervoso, e também para o sistema de embraiagem da nova viatura – ainda que com a pertença ao Estado o arranjo só aos respectivos serviços interessasse, e mesmo isso com tendência para desaparecer, com as novas modas de agilização e, sobretudo, «desburrocatrização». E então o senhor bem colocado na hierarquia lá se meteu a fazer o percurso a pé, a palmilhar ruas e avenidas, para cima e para baixo, dado que logo por azar a cidade capital assenta em sete colinas. Às onze da manhã, quase uma hora depois de sair da residência, já transpirava por tudo quanto era poro. Poderia ter usado os transportes públicos – o metropolitano, os autocarros ou algum eléctrico dos turistas –, mas e depois, o que é que diriam de um quadro dirigente tão superior, ainda por cima da administração pública, a fazer aquelas figuras? Se fosse um ministro, vá que não vá, o sacrifício seria compensado com as câmaras das televisões a segui-lo por entre apertos, encontrões e amparos de assessores, e com as secretárias sempre atentas para as maquilhações (que não maquinações, que isso é coisa mais para as oposições). Agora ele, apenas dirigente, ou responsável, mesmo que superior, rodeado de povo por todos os lados, e sem ser em época de eleições, aquela em que o apoio a quem o nomeou fica sempre bem e até se recomenda… Fora disso, o mínimo que poderiam dizer era que se tratava de um sacrilégio.
Usar a bicicleta ou a trotineta, nem pensar, que as vias das europas cá do oeste não ajudavam muito, tal como a barriga bem tratada e o fraco sentido de equilíbrio do senhor. Sentido de equilíbrio, compreenda-se, em termos de malabarismos sobre duas rodas, porque a outro nível, por exemplo no falar, onde não há alto dirigente curvado que não o tenha, aí as coisas fiam mais fino. Também a opção pelo cavalo não haveria de ser a melhor – por certo geraria falatórios acerca de algum enriquecimento demasiado rápido – e o popularucho burro na volta ainda propiciava anedotas e até escárnios (além dos sempre inconvenientes zurros), apesar de ele próprio, o senhor, não o burro, já em tempos ter dado o seu aplauso a uma entrada na cidade de um burro em competição com um Ferrari. Enfim, somando as duas máquinas, o burro e o Ferrari (nunca o senhor), e dividindo por dois, sempre daria um bom Mercedes, afinal a marca que à data – a daquele dia europeu sem carros – superiormente atribuíam ao seu cargo dirigente. Seu dele, senhor (e nada burro).
Ao chegar à instituição, o senhor, parecendo-lhe que o fôlego já não o deixava com grande coragem para decidir sobre coisas importantes para a vida dos cidadãos (papelada, despachos e mais papelada), suspirou de alívio. Por sorte, tinha escapado às televisões naquele aspecto de o melhor ser nem dar a cara, a suar que nem um perdido (perdido apenas, não perdido de bêbado). Depois de assentar praça no gabinete (expressão não muito feliz, assentar praça no gabinete, ainda que ele no gabinete e na praça fizesse sempre o mesmo, andasse de um lado para o outro, só que na praça com mais raio de acção), depois disso iria aproveitar para dar seguimento às «exigências» do cargo até chegar a hora do almoço. Então, nova jornada a pé até um restaurante de jeito, que os havia abertos mesmo num dia europeu sem carros. Aí, no restaurante de jeito, ou melhor, à entrada, já poderia aparecer perante as câmaras e até prestar algumas declarações, inclusive à imprensa, às rádios e aos portais informativos, para contribuir para o avolumar dos inquéritos de rua a responsáveis superiores ou, dizendo de outra forma, dirigentes superiores. Devidamente limpo e relimpo, à custa de lenços e toalhetes em abundância – que os há na administração pública –, e com o fôlego restaurado (ou antes, recuperado, que fica melhor num republicano), nessa pouco humilde condição tudo haveria de parecer diferente.
O pior era o regresso à residência, para o seio da família, outra vez a subir e a descer pelas sete colinas. Valia-lhe a presença constante do motorista, caminhando invariavelmente dois metros à frente para desimpedir o caminho e assegurar a credibilidade do piso. Até aí o motorista tinha-se saído bem, da residência ao gabinete e deste ao restaurante, inclusive com melhor performance (isto para usar um termo quase técnico) do que nos outros dias, ao volante do Mercedes, que era novo de um mês e meio, depois da decisão superior de acabar com tudo o que fosse BMW ao serviço de dirigentes que estivessem naquele nível, ou melhor, no nível daquele senhor. E com o tempo o motorista haveria de habituar-se, à semelhança do senhor a que naquele dia tão briosamente desimpedia o caminho pelas ruas da cidade. Até porque também, podia-se dizer com franqueza, entre o BMW e aquele novo Mercedes quase não havia diferenças. A mudança, já agora, tinha resultado de uma mera opção pela alternância, porque senão, mais ano menos ano, o mais certo seria surgir algum falatório, «sempre a mesma marca!, sempre a mesma marca!, uns são filhos e outros são enteados!, e outros são uns filhos da mãe!...» Enfim, como talvez acrescentasse algum secretário de Estado, ou até algum ministro, se tivesse oportunidade de pronunciar-se, «aquelas coisas desagradáveis que toda a gente conhece e que não custa nada evitar atempadamente que venham a acontecer, com medidas simples, eficazes e sobretudo capazes de introduzir alguma moralização».

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2 comentários

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De mike a 23.09.2009 às 01:21

Muito bom post. Mas, António, há sempre diferença entre um BMW e um Mercedes. O Mercedes é melhor.
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De António Manuel Venda a 24.09.2009 às 02:01

Ou seja, o tipo até ficou a ganhar com a troca.

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