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Legislativas (36)

por Pedro Correia, em 15.09.09

  

OS PARTIDOS DA DIVISÃO DE HONRA

 

O Partido Operário de Unidade Socialista quer proibir por lei o desemprego. O Portugal Pela Vida luta pelo reconhecimento dos direitos jurídicos do embrião. O Partido Trabalhista Português propõe a garantia aos agricultores do escoamento de dez por cento dos seus produtos para as grandes superfícies. Rui Marques, do Movimento Esperança Portugal, confia vir a ser "uma janela de esperança no Parlamento". Pedro Quartin Graça, cabeça de lista da Frente Ecologia e Humanismo, apresenta entre as suas principais medidas a moção de censura popular, com vista a um referendo revogatório dos mandatos governativos que deixam promessas por cumprir. Manuel Monteiro, do Partido da Nova Democracia, defende o encerramento imediato das lojas de chineses em Portugal, pois "um regime comunista [chinês] está a beneficiar da nossa economia capitalista". Garcia Pereira, líder do MRPP-Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses, corrige-o de imediato: "Não é comunista, é social-fascista!" José Pinto Coelho, do Partido Nacional Renovador, desabafa: "Este sistema está todo de pantanas!"

Tudo isto no debate de ontem à noite, no Prós & Contras da RTP. Um peculiar espectáculo televisivo para cumprir as obrigações de serviço público do canal estatal, destinado a mostrar o que dizem os micropartidos - os "da Divisão de Honra", como lhes chamou Nuno da Câmara Pereira, do Partido Popular Monárquico. Que quer "referendar a República", pretensão original numa agremiação pró-monarquia. Já Eduardo Correia, do Movimento Mérito e Sociedade, aponta-nos a monárquica Noruega como exemplo a seguir por este país onde "em qualquer lado vemos lixo no chão".

As originalidades não ficam por aqui. Luís Botelho Ribeiro, do PPV, escandaliza-se com a "retirada dos nomes dos santos aos hospitais". A FEH exige o alargamento do subsídio de desemprego aos trabalhadores independentes. O PTP sai em defesa do "subsídio de desemprego na hora" e da generalização da "telemedicina". O MRPP quer a "renegociação de todos os tratados e acordos" que vinculam Portugal à União Europeia. Carmelinda Pereira, do POUS, diz praticamente o mesmo de forma mais sintética: "Ruptura com esta UE!" José Pinto Coelho, do PNR, proclama: "A UE escraviza Portugal!" Ficando assim demonstrado que as diferenças entre a extrema-esquerda e a extrema-direita são mais ténues do que muitos imaginam.

Ouço o debate de fio a pavio e logo me vêm à memória os versos do Opiário, de Álvaro de Campos, que José Sócrates confundiu com Ricardo Reis: "Eu acho que não vale a pena ter /  Ido ao Oriente e visto a índia e a China. / A terra é semelhante e pequenina / E há só uma maneira de viver."

Numa coisa os líderes dos partidos são peritos: em torrentes de palavras que ornamentam a espuma dos dias. Macro ou micro tanto faz.

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27 comentários

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De duarte a 15.09.2009 às 09:41

Caríssimo:

Apreciei o seu comentário-resumo do Prós e Contras, programa que muito raramente vejo por considerar pouco útil (opinião muito pessoal).
No entanto há um ponto que gostaria de comentar:

O subsídio de desemprego para trabalhadores independentes. Sabe que há trabalhadores independentes que o são porque as empresas não os contratam para não terem encargos acrescidos. Conheço um caso de um trabalhador independente que faz os seus descontos regulares para a Segurança Social, mesmo quando não tem trabalho - o que aconteceu um mês nos últimos anos -, e que perguntou na SS se podia pagar uma taxa suplementar que lhe permitisse ter acesso ao subsídio de desemprego.
Foi-lhe dito que a Lei não o permitia.
Isto considero uma injustiça, pois quando está desempregado e não ganha continua a descontar.
Não seria justo permitir uma taxa suplementar, a definir, para possibilitar o direito ao subsidio de desemprego, nos casos em que as empresas se recusassem a integrar estes trabalhadores?
Não me refiro aos que por opção profissional, ou outra, optassem por serem "completamente" independentes.
Claro que isto implicava uma rigorosa fiscalização das situações, como , de resto, todas as outras situações o exigem.

Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 10:49

Meu caro:
Claro que conheço situações como a que descreve - infelizmente muito frequentes neste moderníssimo e maravilhoso Portugal socrático - de trabalhadores falsamente independentes, que são forçados a tal estatuto pelas empresas onde trabalham. E acho útil que os partidos - qualquer partido - falem dessas situações escandalosas nesta campanha. Parece-me menos útil uma medida legislativa que de algum modo viesse a caucionar tal prática inaceitável, tornando o regime independente, com ou sem aspas, equiparado ao do trabalhador por conta de outrem. Imagine-se só, tendo Portugal a cultura cívica que sabemos, o número de fraudes que isso iria proporcionar. De resto, tanto quanto sei, nenhum outro país da União Europeia adoptou semelhante medida, e não é difícil perceber porquê.
Mas a sua reflexão é pertinente. E oportuna.
Apareça sempre.
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De Luís Lavoura a 15.09.2009 às 10:57

Este post foi útil para quem, como eu, não teve oportunidade de ver o referido programa.

Entretanto, parece-me que aquilo que neste post fica dito sobre o MMS e sobre o MEP nada tem de mal. O Pedro viu algum desses dois partidos fazer alguma má figura?
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 11:02

Eu não, Luís. Nem a intenção do post era essa. No caso do MEP e do MMS - que me pareceram partidos gémeos, sem nada que os distinga - só não entendo por que motivo não vão coligados, única hipótese viável de conseguirem fazer eleger pelo menos um deputado.
Só isso.
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De Luís Lavoura a 15.09.2009 às 11:09

Obrigado pela resposta.

Fico satisfeito por o MEP e o MMS não terem feito má figura, pois parecem-me hipóteses realistas para o meu voto.

Quanto a deputados, parece que não é irrealista o MEP eleger um por Lisboa. Aconteceria se tivesse a mesma percentagem que nas europeias.
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De Francisco a 15.09.2009 às 12:03

O MEP e o MMS são a mesma coisa?!?! Como?!
Discordo muito dessa sua comparação. A única coisa que têm de comum é serem os dois a face da renovação da direita em Portugal: um à esquerda do PSD, o outro à direita do PSD. Um social-democrata, cristão e conservador, o outro neoliberal na linha dos republicanos americanos.
Bem hajam e bem-vindos.
Caro Pedro, estranho a descaracterização.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 12:07

Você lá saberá, Francisco. Ouvindo os líderes dos dois partidos não me apercebi minimamente dessas diferenças de pendor ideológico tão acentuado. Sendo assim, fazem bem em não se juntar: a coisa acabaria certamente em divórcio ligitioso.
A segunda parte do que escreve, no entanto, só me deixou mais baralhado. Um partido de direita que está "à esquerda do PSD"? Um partido que é simultaneamente "social-democrata e conservador"?
Esperarei pelo próximo debate para ficar mais esclarecido.
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De Francisco a 15.09.2009 às 12:15

Caro Pedro, a política não vive do eixo esquerda-direita. Tem mais dimensões. Recorde a bússola política que é apenas outra simplificação.
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De Luís Lavoura a 15.09.2009 às 12:35

"Um social-democrata, cristão e conservador, o outro neoliberal na linha dos republicanos americanos."

Parece-me uma boa descrição.
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De Graciosa a 15.09.2009 às 12:21

O MEP e o MMS não são partidos gémeos. Um quer o TGV e o outro não quer.
Também não pode haver entendimento entre eles. São dois galos no mesmo poleiro e ambos querem tudo. Além do mais o MMS, por muito que se esforçe, não chega nem aos calcanhares do MEP, que apesar de tudo deixou bem evidente a falta que a Laurinda lhe faz.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 23:39

Gosto da cor do MEP. Talvez por ser sportinguista.
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De Pedro Tarquínio a 15.09.2009 às 11:29

Constato, sem grande rigor, a seguinte divisão:
esquerda: PCTP, POUS, PTP
centro: FEH, MMS, MEP
direita: PND, PPV, PPM, PNR

é uma alteração com o que havia à 15-20 anos em que os pequenos partidos de esquerda abundavam em contraste com a pouca dispersão da direita.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 12:07

Ainda bem. Unicidade é que não. Política coxa também não. E vesga ainda menos.
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De Francisco a 15.09.2009 às 12:10

Nos últimos dois anos apareceram 4 novos partidos, 3 são de direita.
Os partidos de direita em Portugal abdicaram há alguns anos da ética - as palavras de paulo rangel a desconsiderar a ética são uma pequena ponta de iceberg, por baixo encontram-se os antónios preto, o BPNs e os dias loureiro.
Felizmente há mais gente a ver isso. Não havendo renovação a partir de dentro, a renovação vem de fora. A ética é fundamental em todas as fases da política.
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De Luís Lavoura a 15.09.2009 às 12:32

"Os partidos de direita em Portugal abdicaram há alguns anos da ética - as palavras de paulo rangel a desconsiderar a ética são uma pequena ponta de iceberg, por baixo encontram-se os antónios preto, o BPNs e os dias loureiro."

Excelente observação. Concordo plenamente.
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De P.Fragoso a 15.09.2009 às 11:32

Como eu não vi o programa na totalidade - Federer e Del Potro assim o obrigaram - gostaria de perguntar um coisa. Alguma vez durante o debate Quartim Graça ou Câmara Pereira fizeram balanço sobre os seus mandatos como deputados na última legislatura? É preciso não esquecer isso e, nos momentos em que os vi discursar, não me apercebi de tal facto.

Segundo ponto: não me parece que MEP e MMS sejam gémeos. Por muito que defendam algo parecido, um tem um discurso optimista (MEP) e outro demasiado folclórico misturado com catastrofismo (MMS) - a aquilo da ZEE é simplesmente genial, nem os melhores humoristas se lembrariam daquilo. No meu entender é impensável alguém tão distinto unir-se. E , além disso, Eduardo Correia diz que não é de direita nem de esquerda e que esta dicotomia já não existe. (todos sabemos o que isto quer dizer). Já Rui Marques diz-se de centro. Unirem-se seria, com certeza, o fim de um deles.
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De Francisco a 15.09.2009 às 12:23

Caro Fragoso,
Concordo consigo que a união do MEP e MMS seria o fim deles.
Esse casamento de ideias é de conveniência mas é caro - abdica de muitos valores. Já apareceu várias vezes em Portugal: sempre que há uma coligação PSD/CDS e sempre que um político ambicioso de direita acha que o CDS é demasiado pequeno.
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De MEV a 15.09.2009 às 12:44

Esta não era a altura nem o momento para estes dois deputados fazerem qualquer balanço. Além disso o balanço já está feito.
Por tudo o que tenho lido nos mais diversos Blogs, à esquerda, ao centro, à direita, independentes etc... e por unanimidade, Pedro Quartin teve um excelente desempenho.
O Pedro Quartin Graça esteve bem. E esteve bem com o subsídio para o desemprego referente aos trabalhadores independentes. Eu percebi a ideia e gostei. Já que trabalho há tantos anos dessa forma, faço os meus descontos mesmo quando não trabalho e não tenho esse direito. Gostava de o ter e acho possível. A moção de censura popular parece-me mais difícil, mas com franqueza que bom seria se ela existisse.........
Foi quem mais gostei de ouvir falar. Quem mais se destacou. Vou continuar a acompanhar porque é para aqui que se inclina o meu voto.
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De P.Fragoso a 15.09.2009 às 14:22

MEV, porque não seria a altura de fazer um balanço? Mas também o que eu queria saber é se tinham usado isso como um trunfo ou não. Porque não nos podemos esquecer que eles foram mesmo deputados. Se ele foi um "excelente" deputado estou certo que ontem referiu o seu trabalho. Ou não? Já sei que não ficaria bem ali no contexto dizer-se que já se foi deputado. Era tal a militância contra o actual sistema político. Mas se trabalhou e considera ter tido um bom desempenho deveria - se não o fez - ter mencionado isso.
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De João Carvalho a 15.09.2009 às 12:23

Estiveste mesmo atento, compadre. O 'Opiário' diz tudo, não é? Muito bem lembrado.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 23:43

O 'Opiário' diz mesmo tudo: Pessoa/Campos era um visionário. Até fala lá de um tipo que fingia ter estudado engenharia.
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De Pedro Oliveira a 15.09.2009 às 16:47

E não falhou a luz para o programa acabar mais cedo?...
Coitada da Fátima Campos Ferreira e do Pedro Correia que tiveram que ver esse programa, a Fátima porque tinha de ser e o Pedro para que nós pudessemos rir um pouco com esses nano-micro-mini partidos e movimentos.
abraço Pedro
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 23:44

A Fátima ontem não estava muito bem. Tossiu o tempo todo. E estava com mau aspecto, a rapariga.
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De Maria a 15.09.2009 às 19:43

Pedro, eu também vi o programa e até comentei no post o "Super-debate -Mínis" do João carvalho, só não fui capaz de o fazer como o Pedro eheh - a sua análise é muito interessante e escrita de forma - excelente.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 23:45

A minha vénia agradecida, Maria.
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De Carlos Albuquerque a 15.09.2009 às 21:34

Vi o debate e não acho que se possam considerar todas as participações como estando ao mesmo nível. Misturar tudo não retrata o que por lá se passou.

Uma parte significativa dos participantes não esteve pior do que os cinco partidos estão às vezes. Vi o MEP com especial atenção (sou militante) e não encontrei nenhuma falha. A frase citada no post é uma frase de campanha como é normal em todos os partidos.

Do que aqui se diz fica claro que o debate não foi muito esclarecedor, sobretudo para quem não conhecia antes os noovos partidos; mas isso resulta do tempo diminuto dado a cada partido.

Melhor informação nos órgãos de comunicação social nacionais é uma necessidade.
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De Pedro Correia a 15.09.2009 às 23:45

Subscrevo sem reservas a sua frase final. Vá aparecendo por cá, seja para falar do MEP seja para falar de outro tema qualquer.
Abraço

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