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Crónica da Galiza - III

por Ana Vidal, em 11.09.09

O tema "quente" do momento, em Espanha, é apelidado pela oposição a Zapatero de "cortina de fumo" destinada a escamotear responsabilidades pessoais no descalabro económico do país. Não admira: em época de pura sobrevivência nacional, parece de facto uma hábil pirotecnia política a discussão de um problema real, mas apesar de tudo secundário. Falo da legalização da prostituição, um assunto que, pela sua natureza (a escolha do timing não é inocente), galvaniza os ânimos e incendeia debates televisivos. Assisto a um deles sem conseguir resistir, também eu, ao painel de convidados de um dos canais nacionais: dois jornalistas, um advogado, dois anónimos (na verdade, um homem e uma mulher que representam os cidadãos médios, seja lá isso o que for), um médico, um sociólogo e uma prostituta "encartada". Não é ironia: a convidada é uma profissional segura de si, que dá a cara sem medos nem inibições, além de vir bem equipada com estatísticas e argumentos sólidos para defender o seu lado da barricada. O do "sim", claro. Contra ventos e marés vejo-a, ao longo de uma boa meia hora, mover-se com o à-vontade de quem já galgou quase todas as barreiras de um sobrevivente. Fala com fluência e consegue fazer parecer - como por artes de magia - puro moralismo hipócrita todos os argumentos contrários. E alguns não são fáceis de rebater, apesar das pinças com que  têm de ser tratados. A mulher ganha terreno e remata, inflamada, com uma frase lapidar: "Eu não estou aqui a defender os direitos das prostitutas, mas sim os direitos de todas as mulheres, incluindo o de usar o seu corpo como bem entenderem!".

 

Mas o jornalismo tem razões que a razão desconhece e, sem pré-aviso, o moderador lança  no ar uma peça inesperada: uma reportagem sobre um novíssimo e perturbador "desporto" nacional  - encontros marcados (na net) entre desconhecidos, para sexo rápido e descomprometido em locais tradicionalmente ocupados pela prostituição. A grande diferença é que não há pagamentos envolvidos, as únicas motivações são a adrenalina e o risco. São entrevistados (de cara tapada, é claro) vários adeptos da modalidade, que enaltecem as maravilhas produzidas pelo exotismo nos seus hábitos sexuais. E é nesse ponto que a mostarda sobe ao nariz da prostituta em estúdio: furiosa e transtornada, reclama da concorrência desleal com todo o colorido do seu léxico, e - para gáudio de alguns dos presentes, antes humilhados por ela - invoca em seu abono as leis do mercado  e  da ocupação de território, já completamente esquecida dos argumentos soprados por algum florido saudosista do Maio de 68. A vida é dura.

 

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14 comentários

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De João Carvalho a 11.09.2009 às 18:50

Pois. A vida é dura. Mas, como diria Guterres: «É a vida.»
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De João Carvalho a 11.09.2009 às 18:52

Quero ainda dar-te os parabéns pelo 'post' e, sobretudo, por aquilo a que sou sensível: a escrita com que o trazes.
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De Ana Vidal a 11.09.2009 às 22:01

Obrigada, João. Esqueci-me de contar que os principais argumentos "contra" eram exactamente os mesmos: o direito das mulheres à dignidade, à recusa de serem usadas, etc. Ao que ela respondia que eram as prostitutas que usavam os clientes, e não o contrário. Um debate interessante, perdido por KO por um feitio exaltado e uns nervos à flor da pele...
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De João Carvalho a 11.09.2009 às 23:16

Interessante, sem dúvida.
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De Maria a 11.09.2009 às 19:04

Interessante a sua crónica, Ana, e também a prostituta " na sua atitude "furiosa" - compreendo a prostituta, tomara, não ia "morrer na praia" e como diz Ana - "A vida é dura" - para alguns, digo eu.
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De João Carvalho a 11.09.2009 às 19:36

Moral da história: todas as cobranças são devidas, excepto quando entram no meu bolso.
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De Ana Vidal a 11.09.2009 às 22:02

Para muitos, hoje em dia...
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De ariel a 11.09.2009 às 20:36

Caso para dizer, Ana que se entrou na fase do dumping e da concorrência desleal :))) , a cada um a sua cruz, em Espanha com um tema destes em "debate", de asfixia é que o Zapatero não poderá ser acusado, o arejamento está à vista...:))


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De Ana Vidal a 11.09.2009 às 22:06

Ele já empunha a bandeira da legalização do casamento homossexual (e bem, na minha opinião) e parece-me que quer ficar conhecido pela coragem e frontalidade nestas matérias. E também - verdade seja dita - lhe dá muito jeito que o povo se entretenha a discutir um assunto que não deixa ninguém indiferente, em vez de olhar para os bolsos vazios e pôr-se a procurar culpados...
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De Maria a 11.09.2009 às 20:36

Não, João, não seria essa a minha ideia...mas, vejo que a passei ao comentar emotivamente, sem reflectir.
No fundo o que eu queria dizer era - "ninguém é perfeito".
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De João Carvalho a 11.09.2009 às 20:46

É a vida...
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De Ana Vidal a 11.09.2009 às 22:07

Ninguém é perfeito, Maria, tem razão...
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 12.09.2009 às 00:21

Há uns tempos houve um debate semelhante na Holanda. Em causa estava a organização do sindicato das prostitutas e os argumentos eram muito similares. Duros como a vida. Sem saudosismos, mas tendo a realidade como pano de fundo.
Gostei da forma como trouxeste este tema à colacção. Devia ser mais debatido entre nós. Refiro-me à sociedade portuguesa em geral, não ao DO, como é óbvio
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De Ana Vidal a 12.09.2009 às 00:40

Concordo contigo, Carlos. Este tema devia ser mais debatido, sim, sem hipocrisias nem paninhos quentes.

Admira-me como Sócrates resistiu a trazê-lo para a ordem do dia, até porque uma nova profissão legalizada e a pagar os seus impostos significaria um aumento de receitas para o fisco...

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