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O guarda-chuva de Chamberlain

por Pedro Correia, em 11.09.09

 

As primárias do Partido Democrata norte-americano, em 1960, foram extremamente concorridas. Entre os candidatos, destacavam-se John Fitzgerald Kennedy – representante da elite da Nova Inglaterra, sofisticada e liberal – e Lyndon Baines Johnson, um texano até à medula, representante da chamada ‘América profunda’, com raízes rurais e esclavagistas. Estava em causa a escolha do nome que iria apresentar-se contra um candidato forte: o republicano Richard Nixon, vice-presidente do inquilino cessante da Casa Branca, Dwight David Eisenhower.
Kennedy e Johnson, cada qual apostado na vitória, esgrimiram argumentos e trocaram duras acusações durante esta animada campanha interna, que culminou na convenção de Los Angeles em Julho de 1960. A dado passo, Johnson – que era o líder dos democratas no Senado – atacou John Kennedy em termos pessoais, não poupando sequer o pai do seu rival, o milionário Joseph Patrick Kennedy, que quando foi embaixador dos Estados Unidos em Londres, entre 1938 e 1940, revelou alguma simpatia pela Alemanha nazi. “O meu pai nunca andou a segurar no guarda-chuva de Chamberlain”, disparou Johnson, aludindo ao primeiro-ministro que capitulou perante Hitler em Munique. O que revela bem até que ponto o debate aqueceu nessa convenção do tudo-ou-nada.
Kennedy conquistou a nomeação democrata – com 806 votos dos delegados, contra 409 recolhidos por Johnson e 287 distribuídos por vários outros concorrentes, entre os quais Adlai Stevenson, Hubert Humphrey e Stuart Symington. E logo o seu primeiro passo, aliás incompreendido à época por vários dos seus colaboradores, foi estender a mão ao seu principal rival no interior do partido, convidando-o a ser o candidato à vice-presidência. Uma aposta que valeu a pena. Em Novembro desse ano, a dupla John Fitzgerald Kennedy-Lyndon Baines Johnson bateu os republicanos por margem muito escassa: cerca de 110 mil votos. Sem a junção dos dois nomes complementares, concluem hoje os historiadores sem sombra de dúvida, a derrota dos democratas teria sido inevitável.
 
Apeteceu-me fazer esta digressão histórica para assinalar o contraste entre dois modos muito diferentes de estar na política: o que Kennedy revelou em 1960, superando até agravos pessoais, e o de políticos contemporâneos, nomeadamente em Portugal, que preferem subtrair em vez de somar. Como se o verdadeiro adversário estivesse intramuros e não no exterior. E como se não precisassem de cada militante nos combates eleitorais. Vivem obcecados com o guarda-chuva de Chamberlain, que nunca protegeu ninguém contra intempéries políticas.
 
Imagem, em cima: John Kennedy, Jacqueline Kennedy, Lady Bird Johnson e Lyndon Johnson, Agosto de 1960. Foto: Paul Schutzer (Life)

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4 comentários

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De João Carvalho a 11.09.2009 às 01:19

Excelente exemplo. Hoje em dia, qualquer político que se preze sabe que deve fazer (e faz) exactamente o que então fez Kennedy: estender a mão ao seu concorrente interno, rival circunstancial. Qualquer político sabe, excepto em certos meios neste Portugal.
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De Pedro Correia a 11.09.2009 às 07:26

E a diferença entre uma atitude e outra equivale à diferença entre a vitória e a derrota, compadre. Se algumas pessoas lessem alguns livros e tivessem alguns conhecimentos históricos saberiam fazer melhor política.
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De james a 11.09.2009 às 02:00

É impossível ser-se mais explícito.
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De Pedro Correia a 11.09.2009 às 07:24

Ainda bem. A ideia era essa.

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