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Legislativas (26)

por Pedro Correia, em 05.09.09

  

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-JOSÉ SÓCRATES

 

Jerónimo de Sousa não pensa. Quero eu dizer: não pensa sozinho. Pensa no plural. "Nós pensamos", "pensamos nós" são muletas que usa para começar grande parte das frases. Esta incapacidade de o PCP dar margem de liberdade pessoal a qualquer dos seus militantes, incluindo o próprio secretário-geral do partido, que se vê forçado a falar sempre pelo 'colectivo', é algo que nunca deixa de me surpreender. Voltou a suceder ainda agora, durante o frente-a-frente entre Jerónimo de Sousa e José Sócrates, na RTP.

 

Jerónimo entrou em campo tão nervoso como a selecção nacional, pouco antes, no triste jogo de empatas contra a Dinamarca. Jerónimo, tal como Simão Sabrosa, rematou algumas vezes à baliza sem acertar no alvo. Sem ter Carlos Queiroz como treinador, argumento que ao menos serve de atenuante aos sucessivos falhanços de Simão.

Bastou um Sócrates a meio gás para neutralizar o discurso sindicalista do líder do PCP, muito rígido na sua linguagem corporal: alguém tem de dizer-lhe que não deve baixar sistematicamente a cabeça nestes debates.

O líder socialista pôde deixar a pele de 'animal feroz' em casa. Mas talvez tenha abusado de algum excesso de candura, nomeadamente quando rebateu "qualquer insinuação" de que possa ter estado na origem da golpada na TVI. "Nem sei quem é a administração da TVI. Soube que o dr. Pina Moura era o presidente do Conselho de Administração, nem sei se ainda é" , afirmou, com o ar mais cândido de que foi capaz, como se tivesse desembarcado de Sirius na passada quinta-feira. Era fácil perceber que nem ele próprio acreditava numa só palavra que acabava de pronunciar. Assim não admira que cada vez menos gente acredite nele.

 

O resto foi o de sempre: Sócrates fala de um país que só existe na propaganda governamental. Melhoria de condições laborais, diálogo social, oportunidades de emprego, eficácia da escola pública: quatro anos e meio depois, apenas os socialistas mais irredutíveis têm fé nisto. O líder do PCP, aliás, deu-lhe um bom troco nesta fase: "Às vezes parece que José Sócrates quer substituir a realidade. A realidade não é essa para milhões de portugueses. Eu conheço outro país, mais duro, mais real." Quase parecia retomar o tom enérgico que usou ontem na Festa do Avante, mas logo a sua energia pareceu dissipar-se - mistura de Duda com Tiago no jogo contra a Dinamarca.

Sócrates precisa de namorar o voto dos partidos à sua esquerda e foi fiel a esta táctica. Lembrou o combate conjunto de comunistas e socialistas contra a ditadura, algo muito incomum no seu discurso. Fez a apologia do Estado Social. Lembrou que o seu Executivo promoveu o maior aumento de sempre do salário mínimo e alargou o subsídio social de desemprego. Meteu na gaveta as suas habituais - e justas - críticas ao "sectarismo" do PCP. E acentuou que para os comunistas não pode ser indiferente estar o PS ou o PSD no poder. Esta é uma questão fulcral: o apagadíssimo Jerónimo de Sousa não soube, não quis ou não pôde rebatê-la. Nunca me pareceu tão semelhante a Simão Sabrosa como nessa altura.

 

ADENDA: Leio aqui que Jerónimo de Sousa foi o vencedor. Não devemos ter visto o mesmo debate.

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11 comentários

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De Teresa Ribeiro a 05.09.2009 às 22:52

Concordo com a tua análise, mas quanto ao animal feroz ter ficado em casa não me pareceu. Quando se falou da TVI deu um ar da sua graça, nomeadamente quando interpelou, visivelmente irritado, a Judite de Sousa, quado ela usa a expressão "mais papista que o Papa"
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De Teresa Ribeiro a 05.09.2009 às 22:56

Ena tantos "quandos"! Tou com preguiça, fica assim. O João Carvalho que feche os olhos, sff :)
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De João Carvalho a 05.09.2009 às 23:15

Não faz mal. Gostei de ver Sócrates momentaneamente irritado com a Judite. E de a ver atabalhoada sem saber o que fazer.
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De Pedro Correia a 05.09.2009 às 22:57

Ah, mas esse já era outro debate. Já não era o frente-a-frente com Jerónimo: era o frente-a-frente com a Judite.
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De Teresa Ribeiro a 05.09.2009 às 23:02

O debate porventura não seria hoje a sua maior preocupação. Até porque sabia que ia ser fácil para ele.
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De Pedro Correia a 05.09.2009 às 23:07

Pois. Ele tem bastante mais com que preocupar-se.
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De José Manuel Faria a 05.09.2009 às 23:18

3ª feira vai ter de se preparar mt bem.
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De Pedro Correia a 05.09.2009 às 23:25

Terça-feira vai ter o Louçã pela frente. Não será a pera doce que o Jerónimo foi.
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De Daniela Major a 05.09.2009 às 23:34

Jerónimo não tem estofo para estes debates. Safa-se no Parlamento porque não é tão directo mas nestas ocasiões é mais dificil. E depois, Sócrates entrou a matar e não deixa de ter razão. O PM tentou logo desde o início colar a ideia que o inimigo do PCP não era o PS mas sim a "Direita", quando todos sabemos muito bem que não é bem assim, apesar de, se calhar, dever ser. Contudo, parece-me que a Jerónimo também não convém "hostilizar" o PS. Afinal, as coligações não são só o bloco central.
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De Pedro Correia a 05.09.2009 às 23:52

O que mais chocou, Daniela, foi o enorme contraste entre o tom duro e combativo do Jerónimo 24 horas antes, na abertura da Festa do Avante, e a pose humilde, cabisbaixa, no debate de hoje. Ficou-me a dúvida: o secretário-geral do PCP só funcionará 'em colectivo'?
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De Anónimo a 05.09.2009 às 23:51

Há uma pessoa no Simplex que escreve isto sobre o debate:

"Sócrates esteve praticamente perfeito. O estilo "ó Jerónimo de Sousa, confesse lá, que ninguém nos ouve", assentou-lhe muito bem"

Pergunto-me que cara fará quando se olha ao espelho...

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