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Clarificações

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.09.09

Pela forma como o debate corre e os argumentos são esgrimidos neste espaço de liberdade e de democracia, sobre as razões que levaram ao cancelamento do Jornal Nacional de Sexta de Manuela Moura Guedes (MMG) e tendo em atenção alguns artigos e frases que foram caindo nas caixas de comentários, gostava de deixar claros alguns pontos quanto à forma como vejo o assunto e, ao mesmo tempo, de colocar algumas questões que gostaria de ver esclarecidas, a saber:

1) A suspensão do programa de MMG não deverá ser confundida com a investigação e divulgação de todos os pormenores relacionados com o processo do Freeport, o que deverá ser feito em qualquer meio de comunicação social e quaisquer que sejam as circunstâncias;

2) A decisão da administração da Media Capital/Prisa (isto ainda está por esclarecer)  é legítima, podendo também ser ilegal, mas o apuramento deste facto deverá ser feito pelas entidades competentes e, no fim, se for o caso, a empresa sancionada de forma exemplar para que situações idênticas não voltem a ocorrer;

3) O momento para a tomada de decisão de suspensão do programa foi inoportuno, penalizador para o Partido Socialista e susceptível de interferir perigosamente na pré-campanha e na campanha eleitoral, com eventuais reflexos nos resultados eleitorais;

4) MMG perdeu o programa, mas não perdeu visibilidade nem protagonismo, e vai continuar a ter tempo de antena, primeiras páginas e atenção nas revistas cor-de-rosa, até que o assunto esteja totalmente esclarecido e mesmo depois desse esclarecimento;

5) A estratégia conduzida pela jornalista MMG, em especial depois das muitíssimo infelizes declarações e intervenções de José Sócrates, era de vitimização, já que só assim se pode entender o desafio lançado à administração da TVI quando qualificou há umas semanas atrás de estupidez a hipótese do seu  afastamento e da suspensão do programa;

6) Convém não confundir a divulgação de factos pertinentes, a notícia daquilo que é do interesse público, essencial em democracia para formação da opinião, com um certo tipo de pseudojornalismo feito de sensacionalismo, da gestão criteriosa dos factos e do momento da sua  divulgação como arma de arremesso político e garante de audiências e de receitas publicitárias em horários nobres, o que não raras vezes é feito com atropelo de regras elementares - já nem digo de deontologia jornalística, mas de cidadania - e de respeito pelo contraditório (recorde-se, por exemplo, a forma como foram saindo as notícias do processo Casa Pia e como elas foram sendo divulgadas pela TVI acompanhadas da imputação de factos, de juízos de valor e do julgamento sumário de suspeitos, de arguidos, de cidadãos comuns e até da razoabilidade das decisões de magistrados cuja indumentária ou forma mais ou menos apressada de entrar ou sair de um tribunal podia ser sinal da maior ou menor justeza da decisão);

7) Seria interessante - para avaliar da seriedade das razões financeiras invocadas pelo grupo Prisa - conhecer os números das audiências do telediário das sextas-feiras por comparação com os outros dias da semana, ver os números das audiências desse mesmo telediário com e sem MMG, saber o valor das receitas de publicidade nas sextas-feiras e nos outros dias no mesmo horário, esclarecer qual o custo médio do jornal das sextas-feiras - incluindo o custo dos pivots -  por comparação com os outros telediários da mesma estação;

8) Bernardo Bairrão devia esclarecer quando, sob que forma e de quem é que partiu a decisão de suspender o telediário e de afastar MMG e se houve alguma pressão do Governo, de José Sócrates ou de "alguém próximo" deste, incluindo da Agência Lusa, no sentido da suspensão e do afastamento da jornalista em causa entre a data da entrevista a RTP e o discurso no Congresso do PS e a tomada de decisão por parte da administração do canal televisivo;

9) O Jornal Nacional das Sextas era um programa incómodo, não só para quem exerce o poder, pela postura assumida e pela informação que prestava, mas também para quem via (e isto não tem nada a ver com a qualidade da informação ou o interesse que esta suscite), apenas porque a apresentadora tem uma má figura televisiva, por vezes vestia-se horrorosamente (é uma questão de gosto discutível, mas é importante para quem vê televisão), assumia tons e modos sobranceiros e afectados, por vezes era mal educada no trato com os convidados e usava uma linguagem televisiva inapropriada e desadequada, com comentários que foram muitas vezes alvo de correcção por parte dos seus entrevistados (casos mais flagrantes aconteceram justamente com Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente).

10) José Sócrates foi mal aconselhado, atribuiu demasiada importância a MMG, esteve infeliz nalguns momentos, deu respostas inapropriadas e assumiu enquanto primeiro-ministro e secretário-geral do PS um combate que não devia ter assumido nos termos em que o fez;

11) Continuo a pensar que não está em causa o direito à informação; quando muito, dando alguma razão ao Pedro Correia, estará em causa uma interferência da Media Capital/Prisa numa área que lhe estaria vedada, mas isso não justifica a histeria, o cenário catastrofista e melodramático, nem o aproveitamento político da nebulosidade e da desinformação que por aí grassam, o que também está a ser feito por muitos medíocres a coberto de gente séria.

12) Eduardo Cintra Torres - que felizmente não passou por Macau no tempo de Rocha Vieira para saber o que é censura em democracia e como se controla a informação - não tem qualquer razão quando diz que o "PS de Sócrates é contra a liberdade" (cfr. Público de hoje, P2, págª 16). Como também não tem Mário Crespo quando fala em "eliminação" de vozes incómodas. O PS não é pertença de nenhum secretário-geral. Se hoje existe liberdade de imprensa em Portugal isso também se deve e em muito ao PS (já se esqueceram da Rádio Renascença?), e em causa também não está nenhuma "medida protofascista" (Alberto João Jardim não diria melhor). Não se pode confundir atabalhoamento, voluntarismo, servilismo, subserviência, ignorância e simples falta de jeito de meia dúzia de broncos, alguns endinheirados, com coisas sérias. Isso é que já seria má-fé protofascista.

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11 comentários

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De clara a 05.09.2009 às 19:07

1- Não me parece que Moura Guedes vá continuar a ter protagonismo, a não ser nas revistas de fofocas, de tal maneira o assunto se tornou sórdido e saturante. (ler declarações da jornalista Paula Magalhães da TVI ao jornal I).
2 - Não vale a pena fazer contas e preocupar-se com custos e publicidade, porque o Jornal Nacional de ontem sexta-feira teve um share ainda mais alto do que anteriormente, isto SEM MMG.
3 - Concordo com o resto. Ralmente Sócates irritou-se e não valia a pena, porque MMG não vale nada nem tem qualquer credibilidade.
4 - Era bom que a oposição se dedicasse a apresentar propostas alternativas de governo e deixasse as insinuações, fofocas e outras coscuvilhices para...os coscuvilheiros.
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De João Carvalho a 05.09.2009 às 20:47

Só um reparo: o Jornal Nacional de ontem não é um indicador. Obviamente.
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De Carlos Pimentel a 05.09.2009 às 19:59

Eis uma prosa que me dá orgulho em ser leitor do "Delito".
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De João Carvalho a 05.09.2009 às 21:15

O orgulho é nosso, pela qualidade dos comentadores regulares.
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De Pedro Correia a 05.09.2009 às 23:40

Sérgio: estou substancialmente de acordo com grande parte do que escreves. Em matéria de fundo, discordo apenas da tua tese que não está em causa o direito de informação. Parece-me que o sucedido afecta esse direito, que devemos reconhecer a todos quantos pensem de maneira diferente ou até oposta da nossa. É irrelevante, para a discussão deste assunto, o conteúdo editorial do telediário agora suprimido: já disseste que não eras espectador, eu também não era. O facto é que - e as audiências estavam auditadas ao segundo, dia a dia - era o espaço informativo da TV portuguesa com maior fatia de espectadores, que naturalmente lhe reconheceriam algum mérito, concordássemos com eles ou não.
Volto a parafrasear Mário Bettencourt Resendes, um grande director do DN com quem tive muito gosto em trabalhar durante vários anos: "Portugal é um país menos plural sem o Jornal da Manuela Moura Guedes."
Recordo-te que a perda da liberdade de informação e da liberdade de expressão, em regra, nunca ocorreram num momento só, subitamente, nos países e nas épocas em que isso sucedeu: foram acontecendo em pequenos mas irreversíveis passos.
É por isso que devemos estar sempre muito atentos: não há 'conquistas irreversíveis' nesta matéria. Tudo pode ser reversível.
Abraço
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De Anónimo a 06.09.2009 às 00:09

A oposição veio em coro, indignada, dizer que tem de haver explicações, que é muito mau para a democracia haver um governo suspeito de ter "censurado" um espaço de informação.
Eu pergunto. Não terá o governo, legitimidade para ser ele a acusar a oposição de tramoia? Quem beneficia com mais este folhetim? Pela unanimidade dos comentadores e blogger´s da nossa praça, o PS, o governo, não é de certeza. É mais uma suspeição que fica no ar contra o Primeiro Ministro. Por isso não me custa nada acreditar que este caldinho tenha sido cozinhado pelo badalado casalinho Moniz e gente ligada à direita. Os tais que querem a todo o custo, por todos os meios, ocupar o poder.
Este caso tem quase tudo parecido com as escutas de Belém.
Se de um lado havia fontes anónimas, que acusaram o PS, neste há vários orgãos que empurram uns para os outros as culpas, não havendo responsáveis por nada. Anónimos portanto. Mas em ambos os casos, foi uma bomba que rebentou e claro, a culpa é do presente governo. De José Sócrates.
O empate/derrota hoje da selecção, também é culpa do Primeiro Ministro, claro.

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De Pedro Correia a 06.09.2009 às 00:12

Eis ressuscitada a tese da cabala. Já cá faltava. Tem razão: foi tudo uma tramóia da oposição. Manuela, Paulo, Jerónimo e Chico juntaram-se à sorrelfa num sótão do Dafundo para tramarem tudo. Coitado do Zezito: isto não é oposição que se recomende a ninguém.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 06.09.2009 às 16:14

Jerónimo e Louçã, tiveram posição bem mais moderada do que MFL e PP, Pedro. Não se aproveitaram deste episódio para atacar Sócrates, sem terem provas. É isso que distingue a esquerda da direita. Uns são responsáveis ( a esquerda) outros são oportunistas ( a direita).
Ma afinal também pensas que isto foi recomendado pelo governo? Muito me espanta, Pedro, muito me espanta...
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De Pedro Correia a 06.09.2009 às 18:16

E tu, Carlos? Acreditas que foi a 'direita' que deu ordem ao Cebrián para dar ordem ao Bairrão para dar ordem à direcção de informação para fechar o telediário com mais audiência em Portugal?
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De Anónimo a 06.09.2009 às 10:55

Cabala?? Há acusações na 1ª pessoa, com os nomes bem identificados (estes não são anónimos) que são ou eram parte activa, interessada, na tvi, que vêm agora dizer que afinal lá dentro as coisas afinal eram o que se pinta. O quero, posso e mando da manela e do seu chefe. Sempre ouvi dizer, que o chefe andar a "comer" as subalternas, nunca dava bom resultado, muito menos quando são marido e mulher.
Percebe-se o seu ódio de estimação, ao governo, em cada post que escreve e esta da cabala é mais uma a todo e custo e por qualquer meio, para apanhar o poder. Vale tudo, não é?
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De Pedro Correia a 06.09.2009 às 11:01

A sua grosseria e a falta de nível do que escreve não merece qualquer resposta.

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