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Começaram os debates dos avatares

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.09.09

Num mundo e numa sociedade virtuais, em que as únicas coisas verdadeiramente reais são a miséria e o desemprego, e não falo apenas de Portugal, é natural que o debate político seja também ele virtual e feito de uma súmula de virtualidades inapreensíveis para o cidadão comum. O ciclo de debates que ontem à noite começou na TVI entre os líderes políticos, pelo modelo, pelo estilo, pelo encadeamento sucessivo de vacuidades e intervenções despropositadas, revela bem a distância que vai entre a política e a realidade. Confesso que encontrei muito poucos motivos de atenção no debate Sócrates-Portas. Desconheço que audiência teve, mas foi fácil perceber que daquela forma não haverá esclarecimento possível para os eleitores. Os temas são limitados, mas tal como qualquer aluno distingue facilmente um mau professor de um bom professor, há muitas maneiras de debater e de todas elas a mais frustrante é aquela em que ao fim de meia dúzia de minutos a tentação de quem assiste é de deixá-los a "debater" e dedicar-se a algo mais proveitoso. José Sócrates pode ter cometido muitos erros ao longo da legislatura, alguns voluntários, outros involuntários, mas foi capaz de aguentar o embate com Paulo Portas. Portas esqueceu-se propositadamente do passado e da dimensão da crise internacional. É normal. Não lhe convém. Sócrates poderia ter-lhe lembrado os números de 2004 e os actuais em matéria de desemprego e défice público em França, na Alemanha ou em Itália, governadas por conservadores e com partidos de direita no poder. Esteve bem quando recordou a balbúrdia dos professores ocorrida com uma ministra da Educação do último governo PSD/PP, com os problemas informáticos que foram alvo de gozo generalizado, com a referência à posição do CDS/PP em matéria de alterações às leis penais e com o episódio da medalha de Rumsfeld. Menos bem nas questões da Segurança Social. Por momentos pensei que poderia ter ido mais longe, mas, certamente, já moldado pelas críticas mais recentes, entendeu conter-se e moderar o discurso. Eu não me teria contido, em especial porque a entrevistadora se revelou "mole" e o seu interlocutor é de outro campeonato. Menos ainda quando se verifica que Paulo Portas, que sistematicamente se queixava da arrogância do primeiro-ministro, proferiu frases do tipo "só lembrar-lhe uma coisa que ele vai perceber", "vá fazer as críticas que entender aos seus camaradas" e "vá interrogar os seus camaradas". Um homem com aspirações a governar, que quer liderar e federar a direita, a falar assim apenas vai conseguir os votos da extrema-direita ignorante e xenófoba. Não será grave. Por momentos pensei que Sócrates explodisse. Paulo Portas já muitas vezes demonstrou a plasticidade e flexibilidade do seu discurso consoante as circunstâncias. Desta vez mostrou também que as suas melhores armas, a acutilância e a oportunidade, são aquelas que nestas eleições lhe podem causar mais danos. Quando o verniz estala já nada o pode recompor.  

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6 comentários

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De Paulo Quintela a 03.09.2009 às 12:10

Destacaria ainda a autoridade profissional e a elevada competência da jornalista que conduziu o debate. Constança foi a verdadeira perdedora neste debate.
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De Pedro Correia a 03.09.2009 às 12:57

Em desacordo. A moderadora não 'conduz' o debate: modera. Aquele debate não precisava de moderação: só precisava de alguém que lançasse os temas e fosse olhando para o cronómetro. Foi o que fez a Consstança. O melhor moderador, tal como um árbitro no futebol, é aquele que passa despercebido. Quem estava ali para sobressair eram os dois políticos. E nenhum deles precisava do ralhete da jornalista, género 'Não se deve interromper aquele senhor'. Eles interromperam-se, ela deixou - e fez bem.
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De Pedro Correia a 03.09.2009 às 12:53

Sérgio: é demasiado fácil perceber por que motivo Sócrates se conteve tanto, ocultando a sua tão conhecida faceta de 'animal feroz': ele bem poderá vir a precisar do tal político que, nas tuas próprias palavras, no dia 27 de Setembro apenas "vai conseguir os votos da extrema-direita ignorante e xenófoba".
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 03.09.2009 às 15:24

Subscrevo na íntegra a tua análise, Sérgio. Apenas discordo num ponto. Além dos votos da direita xenófoba e ignorante, PP vai recolher votos de descontentes com a liderança do PSD. Não será fácil, a muita gente de bem que há no PSD, aceitar o comportamento da sua líder que, afirmando-se repetidamente de arauto da verdade, nos tem dado sobejos exemplos de falta de honestidade política. E não só...
Por isso votarão em Sócrtaes pela mesma razão que muitos simpatizantes do PS vão votar no BE , ou no PCP. O cansaço dos eleitores com o Centrão vai fazer alguns estragos...
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De Sérgio de Almeida Correia a 03.09.2009 às 15:34

Pois, mas mais estragos vai fazer a abstenção.
Mesmo para quem vota PSD não vai ser fácil votar numa lista que inclui Pacheco Pereira e António Preto, Alberto João Jardim e um outro senhor que falava das "cavalgaduras do círculo", só para referir alguns casos mais berrantes.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 03.09.2009 às 16:06

Mesmo para quem vota no PSD, vai também ser difícil engolir uma líder que tem feito do debate político um manacial de vulgaridades e tem , como único argumento, levantar suspeição sobre o adversário ( apenas acusado na comunicação social troglodita) mas defende um tipo com Preto que, para ludibriar a PJ, pede ao cunhado para lhe engessar um braço.
Há quem goste do estilo, mas com gajos desses, nem sequer à mesa me sento...

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