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Nada na História é inevitável

por Pedro Correia, em 02.09.09

Foi a semana mais angustiante da vida de Neville Chamberlain. Em carta à irmã, Ida, o primeiro-ministro britânico viria a confessar que aqueles "dias de tensão" lhe tinham feito perder toda a noção do tempo e a existência, para ele, se transformara num "longo pesadelo". O político que mais se esforçara para preservar a paz via-se forçado a declarar a guerra - a mais cruel e mortífera guerra de todos os tempos, iniciada às 4.45 da manhã de 1 de Setembro de 1939, quando o navio-escola alemão Schleswig-Holstein, atracado no porto de Danzig, abriu fogo sobre o forte polaco de Westerplatte. Londres e Paris, associadas à Polónia por pactos de assistência mútua assinados pouco antes, não tardaram a apresentar ultimatos a Berlim: ou as tropas nazis abandonavam de imediato solo polaco ou se sujeitavam a enfrentar a guerra a ocidente. Hitler ignorou olimpicamente os ultimatos: 48 horas mais tarde, França e Reino Unido, em socorro da Polónia, declaravam guerra à Alemanha.

Era um domingo, 3 de Setembro. "Um dia de invulgar beleza, com o sol quente, a brilhar, nuvens incrivelmente brancas; por baixo de um zénite azul, um suave vento alto", como recordaria o escritor britânico Storm Jameson, citado por Richard Overy nas páginas de 1939 - Contagem Decrescente para a Guerra. Este é um livro que pretende mostrar-nos que "nada na História é inevitável" - nem sequer a guerra.

 

Em capítulos que se lêem ao ritmo de um thriller, Overy transporta-nos àqueles oito alucinantes dias decorridos entre a assinatura do pacto germano-soviético - o instrumento diplomático que serviu de luz verde a Hitler para invadir a Polónia - e o início das hostilidades, que viriam a provocar mais de 50 milhões de mortos. Foram dias de alta tensão, que deixaram exaustos os líderes das principais potências europeias. Foram dias de jogadas arriscadas em todos os tabuleiros diplomáticos: o ditador italiano Benito Mussolini, o rei dos belgas, Leopoldo III, e até o espanhol Francisco Franco foram sondados para possíveis mediadores entre as diversas capitais. Hitler, tolhido por uma súbita indecisão, chegou a ter milhão e meio de soldados prontos a avançar em 26 de Agosto, mandando-os travar in extremis enquanto alguns membros da sua corte, como Göring, enviavam sinais ambíguos de aproximação a Londres.

Sabe-se como tudo terminou: com um planeta exaurido, semeado de cinzas e escombros. Chamberlain, que menos de um ano antes, ao assinar o acordo de Munique com Hitler, anunciara aos britânicos "a paz no nosso tempo", já não conheceria o mundo do pós-guerra: morreria amargurado, em Novembro de 1940, após ter cedido a liderança do Governo a Churchill: "Sinto-me como um homem que está a conduzir um autocarro desconjuntado, numa estrada estreita, às curvas, à beira de um precipício", confessou à irmã em carta de 27 de Agosto de 1939.

Foi há 70 anos - como se tivesse sido apenas anteontem, no implacável e desconcertante calendário da História.

 

1939 - Contagem Decrescente para a História. De Richard Overy (Livros d' Hoje, 2009)

166 páginas

Classificação: * * *

 

 

 

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10 comentários

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De Pedro Oliveira a 02.09.2009 às 09:17

Estou a ler nesta altura.Muito interessante.
abr
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De Pedro Correia a 02.09.2009 às 20:42

Sem dúvida. Nada de genial, mas recomendável.
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De João André a 02.09.2009 às 10:52

Às vezes pergunto-me o que teria sido se se tivesse mantido a paz mesmo que péssima. A França teria cedido muita coisa à Alemanha em troca da paz e da não invasão, o Reino Unido teria sido poupado à guerra, mesmo que humilhado e o leste teria sido invadido tal como o foi, sendo que muito provavelmente a URSS teria acabado em Berlim, tal como acabou. A maior diferença, no final, seria que a URSS poderia ter ocupado toda a Alemanha e ainda a Áustria e talvez a Itália (duvido desta) e a Grécia. Mas sabe-se que Estaline não queria ocupar a Alemanha e que a divisão foi o resultado de um jogo de bluffs mal entendidos. Por outro lado seria bem provável que o Reino Unido (e talvez os EUA) acabassem por entrar na Europa quando a Alemanha se visse sem capacidade para parar as tropas soviéticas (mais para 1944 ou 1945, talvez).

É difícil fazer estes exercícios contrafactuais, mas não creio que o balanço final fosse pior do que foi. Seria sempre desastroso. 1928 ou 1929 não são os anos decisivos. Esses foram os de 1917 (revolução bolchevique) e 1918 (capitulação humilhante para a Alemanha).
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De Pedro Correia a 02.09.2009 às 20:49

Esse é um exercício intelectual muito estimulante. Os jogos de 'bluffs' mal entendidos costumam ter resultados desastrosos sobretudo quando os intervenientes estão sentados em barris de pólvora.
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De Daniela Major a 02.09.2009 às 12:01

Devo dizer-lhe Pedro que uma das coisas que mais me agrada no Delito são estas crónicas sobre História. Muito bem
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De Pedro Correia a 02.09.2009 às 20:43

Obrigado pelas tuas palavras tão simpáticas, Daniela. Este é sempre o melhor dos incentivos.
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De Bruno Vieira Amaral a 02.09.2009 às 14:00

Olá, Pedro

ao ler este livro fiquei com a ideia contrária: a guerra era inevitável e os esforços "apaziguadores" só reforçam essa ideia. "Nada na História é inevitável" é uma afirmação a-histórica, é tão vago como dizer que nada na vida é inevitável. Por exemplo, a entrada dos EUA na guerra era evitável? Sim, depois do ataque a Pearl Harbor podiam ter ficado sossegadinhos. As circunstâncias, sobretudo a estratégia de Hitler, tornaram a guerra inevitável.

Um abraço,

Bruno
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De Pedro Correia a 02.09.2009 às 20:45

Viva, Bruno. Gostei muito desta visita.

Li o livro com a minha perspectiva de sempre: sou contra todos os determinismos históricos, recuso 'ler' a História como se fosse um rio pronto a desaguar no mar. Esta obra não desfez - antes pelo contrário, consolidou - esta minha convicção.

Um abraço
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De mike a 02.09.2009 às 23:18

Obrigado, Pedro. Eu indeciso sobre que livro ler e dou que este seu post. Amanhã compro-o e começo a lê-lo. Abraço.
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De Pedro Correia a 02.09.2009 às 23:24

Vale a pena, Mike. É um livro interessante e que se lê muito bem.

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