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A segunda morte de Raul Solnado

por Pedro Correia, em 09.08.09

Raul Solnado era uma das raras personalidades unânimes em Portugal. Por mérito próprio, figurava entre os genuínos artistas populares que também eram apreciados pelas chamadas elites. Estava, nesse aspecto, ao nível de Amália Rodrigues - de algum modo sobreviveu à sua própria celebridade, já tornada intemporal ainda em vida, facto ainda mais raro entre nós. Depois dele, sobram poucos no nosso mundo do espectáculo: um Rui de Carvalho, um Carlos do Carmo, uma Simone de Oliveira, um  Nicolau Breyner. Vinha do teatro de revista, dos filmes a preto e branco, dos tempos em que televisão e RTP significavam exactamente a mesma coisa. Herdeiro directo dos grandes cómicos de outras eras, como Vasco Santana ou António Silva, jamais se confundiu com qualquer deles: tinha uma voz própria, singular. Que se distinguia mesmo nos filmes menores em que entrou, logo no início da carreira, como O Noivo das Caldas ou O Tarzan do Quinto Esquerdo. E se prolongou por notáveis registos dramáticos, infelizmente a um ritmo muito irregular, como ficou bem patente no melhor dos seus papéis cinematográficos, como inspector Elias Santana n' A Balada da Praia dos Cães, de Fonseca e Costa. Teve ainda, no plano cívico, uma atitude exemplar: antes e depois do 25 de Abril, soube bater-se pela liberdade, sem equívocos de qualquer espécie.

Por tudo isto, é incompreensível que a RTP - que tanto deve a Solnado - não tenha produzido em tempo útil um bom documentário sobre a vida e a obra deste lisboeta da Madragoa que foi um dos nossos cidadãos universais. Pior que isso: é um insulto à memória deste grande actor e dos seus milhões de admiradores que o canal público de TV não tenha guardado nos arquivos as emissões integrais do Zip-Zip, um dos melhores programas de sempre da televisão portuguesa. Ainda pior: é um crime de lesa-património que a RTP tenha apagado todas as emissões d' A Visita da Cornélia, outro célebre programa de Solnado que obteve um enorme êxito em Portugal. O inesquecível intérprete d' A Guerra de 1908 merecia que a televisão pública que agora lamenta a sua morte o tivesse tratado com dignidade em vida. Preservando a memória do seu talento para as gerações que nunca terão o privilégio de o conhecer.

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20 comentários

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De Daniel João Santos a 09.08.2009 às 13:54

Muito bem observado e escrito...

Tentou talvez a RTP emendar um pouco a mão com esta serie sobre a comédia com Solnado e Bruno Nogueira, demasiado tarde.
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 16:20

Demasiado tarde, Daniel. Raul Solnado merecia uma série documental, em vários episódios, sobre o essencial da sua vida e obra - aproveitando os testemunhos em primeira mão de tanta gente que o conheceu e ainda está aí para contar. Um desses episódios deveria ser reservado ao Brasil, onde trabalhou várias vezes e era muito popular.
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De Luís Bonifácio a 10.08.2009 às 09:22

Mas infelizmente a RTPO não forneceu o microscópio, pois Bruno Nogueira com Solnado é um micróbio ao lado de um titã.
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De Pascoal a 09.08.2009 às 14:04

Uma RTP que que no dia da sua morte apresentou um programa em que falava muito de muita gente e pouco dele.
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De Daniela Major a 09.08.2009 às 14:22

A maneira como as televisões se aproveitam da morte de alguém conhecido é algo que, sinceramente, me choca e chega a tocar o nojo. A RTP e as outras estações foram muito rápida em ir para a porta da Igreja entrevistar os amigos, e de entrevistar qualquer pessoa que tivesse lidado com o R.S nos últimos anos, mas não foram capazes de prestar uma real homenagem como seja transmitir o documentário a horas decentes.
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 16:21

A RTP devia fazer a diferença nestas ocasiões, mas não faz. Limita-se praticamente a mostrar o mesmo que os outros mostram.
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De Ana Vidal a 09.08.2009 às 15:19

Não posso estar mais de acordo, Pedro. E mais: na pescadinha de rabo na boca em que se transformaram as notícias televisivas, Raul Sonado merecia mais do que esta preguiça generalizada de passarem sempre o mesmo excerto da mesma rábula da fantástica "guerra". Bem podiam variar um bocadinho, caramba... bastava abrir os arquivos.
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 16:21

Acho o mesmo, Ana. Ainda ontem pensava isso enquanto ia assistindo ao festival de banalidades e lugares-comuns que desfilava no ecrã.
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De João Carvalho a 09.08.2009 às 15:30

Disseste tudo, compadre. Pode a RTP limpar as mãos à parede.
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 16:23

'A Visita da Cornélia' foi totalmente apagada. Gravaram outras coisas por cima das 'tapes' do programa - um dos mais populares de sempre em toda a história da TV em Portugal. Nada que surpreenda neste país que sempre tratou mal do seu património.
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De Ana Mestre a 09.08.2009 às 18:07

Acabei de ver na RTP as cerimonias fúnebres de Raul Solnado e no meio daquilo tudo uma frase de Carlos Do Carmo:
"Ensinou um pais triste a rir!"

Aplausos de pé para o grande Raul Solnado
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 23:55

Excelente frase, a do Carlos do Carmo. De facto, Solnado ensinou este país triste a rir. Mas também a sorrir. E às vezes sorrir é mais importante do que rir. Pensemos só: quantas pessoas, no nosso dia a dia, vemos sorrir à nossa volta? Poucas, demasiado poucas. Solnado faz falta. Portugal precisa de mais Solnados.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 09.08.2009 às 18:39

Sempre que morre alguém que há muito andava esquecido em vida, procuro evitar ver telejornais. Aprecio pouco laudatórios hipócritas.
Os arquivos da RTP estiveram ao Deus dará durante décadas e perdeu-se parte do maior espólio de memóraias da televisão portuguesa. É inadmissível, mas é assim em Portugal. Não só em televisão...
Lembro apenas que a biblioteca de António Sérgio, por ele doada ao Estado, eesteve mais de uma década metida numa cave, a deteriorar-se, até que o Estado decidisse recuperar a sua casa na TV do Moinho de Vento e ali guardar o que restou de um arquivo imenso.
Muito oportuno o teu post, Pedro. Perderam-se alguns dos melhores momentos de humor (zip-Zip) e documentos sobre uma televisão que valia apena ver.
(Visita ad Cornélia). Vivia nos Estados Unidos nessa altura, mas os programas que vi quando cá vinha de férias, são das boas memórias qe guardo da RTP.
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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 23:56

Tens razão, nestes dias apetece evitar as televisões com os seus lugares-comuns sobre personalidades que foram incomuns.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 10.08.2009 às 00:08

É isso mesmo, Pedro.
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De ariel a 09.08.2009 às 19:59

Estou boquiaberta Pedro, uma pessoa pasma com tanta insensibilidade e tacanhez. Estranhei a pobreza da programação da RTP na homenagem que deveria prestar a Raul Solnado. Agora já percebo porquê.

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De Pedro Correia a 09.08.2009 às 23:56

Má consciência, Ariel, má consciência...
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De Teresa Ribeiro a 10.08.2009 às 12:02

Tens toda a razão e como sempre soubeste expô-la na perfeição.
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De Pedro Correia a 10.08.2009 às 22:56

Obrigado, Teresa. E tu ainda há poucos dias falavas dele aqui...

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