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(Sittin' on) The Dock of the Bay

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 16.07.09

“Sittin' in the mornin' sun
I'll be sittin' when the evenin' come
Watching the ships roll in
And then I watch 'em roll away again…”
(Otis Redding, 1967)

 

 

Estou sentado no meu Rochedo, desfrutando desta magnífica paisagem de mar imenso que o Guincho oferece. Já peguei em vários  jornais e revistas de leituras atrasadas. As notícias provocam-me um ligeiro frémito. Rejeito–as com um esgar de enfado. Sinto algum desconforto. Olho outra vez o mar à minha frente. Penso no país de maravilhosas paisagens que está nas minhas costas. O sempiterno Gerês. O Douro beijando as margens do meu amado Porto onde nasci, espreguiçando-se em direcção à Foz, depois de um percurso que o trouxe das profundezas de  Sória, atravessando a agreste paisagem transmontana. Recordo as  paisagens suaves da planície alentejana.  Dou um mergulho no Vale do Tejo. Imagino a costa oeste, nublada e ventosa,  oferecendo-se, luminosa,  à câmara de Nick Knight.  Hesito entre desfrutar o momento presente e o regresso a dias atrás.
Um chiar de travões desperta a minha atenção. Um táxi acaba de evitar, “in extremis”, um atropelamento em cima de uma passadeira. Esta manhã, quando saí de casa para gastar quase 50 euros em notícias que só me trazem desânimo, desgosto, revolta, quase fui atropelado. Atravessei a passadeira com o sinal verde, depois de dois carros terem desrespeitado o sinal encarnado que os mandava parar. Não sabia, mas ainda havia um terceiro  transgressor. Um taxista. Provavelmente daqueles que exibem no vidro traseiro auto-colantes do Correio da Manhã e se alinham em manifestações contra o governo gritando “slogans” de estiva.

Mas neste país não vivem apenas taxistas trogloditas e  transgressores. Há também camionistas e condutores tresloucados. E empresários gananciosos, trabalhadores desmotivados, classes sócio-profissionais eivadas de corporativismo, olhando apenas para o seu umbigo, juízes que trocam a sua função pelo calor dos holofotes, políticos que se julgam deuses infalíveis e outros que se apresentam como salvadores, brigadas anti-aborto, gente indignada com as coligações à esquerda e vice-versa, e uma comunicação social que se demitiu do seu papel.
Portugal é um país maravilhoso mas, por algum desígnio sobrenatural, foi escolhido para residência da Besta. É a Besta que nos governa (pelo menos  desde o tempo do Estado Novo), que põe e dispõe, adormecendo-nos com uma parafernália de bens de consumo com que nos entretemos, na ilusão de que decidimos os nossos destinos.

Admirados com um ministro a fazer corninhos no Parlamento? É talvez a encarnação da Besta, o Sebastião que todos aguardamos, sentados, e abúlicos, à espera que o milagre aconteça. No fundo, os portugueses gostam da Besta e vivem com ela no coração. Por isso olham com nostalgia para o Estado Novo e lamentam o que perderam com a democracia. Os portugueses gostam de “sol na eira e chuva no nabal”, mas isso não é possível, porque a Besta não faz milagres….
Volto a pegar nos jornais. Leio agora que um jardim qualquer quer a Constituição a proibir o comunismo. Desde quando é que os jardins falam? São certamente jardins de papoilas... mas é preciso ter cuidado com os alucinogéneos, por causa dos contágios. Ou será que este país é mesmo um conto de fadas?
Rejeito mais uma vez os jornais  e pego num livro de Chatwin. Tal como ele, pergunto-me “O que faço aqui”?
A brisa serena leva-me até paragens distantes, no hemisfério sul, onde me aguarda o descanso final, junto ao Parque Nacional de Los Alerces, em convívio com as lendas de Butch Cassidy. Encarno a personagem de José Mauro de Vasconcellos em  “Meu Pé de Laranja Lima”. Aí reside a minha esperança. Um dia destes, recebem um post meu a dizer: “Adeus, vou para a Patagónia”. Chatwin fez isso e não se deu mal…
Chegou o momento de regressar à vida de Méthèque.

 

Nota: este post foi escrito (quase) em estereofonia com o Rochedo.

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4 comentários

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De ariel a 16.07.2009 às 22:56

Irrepreensível. Desde o Sittin'on the Dock f the Bay , até ao Méthèque , nada a reclamar!
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De mdsol a 16.07.2009 às 23:22

Concordo totalmente com a colega comentarista anterior ehehehe

:)))))))
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De João Carvalho a 16.07.2009 às 23:24

Concordo com as duas senhoras acima.
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De Ana Vidal a 17.07.2009 às 00:07

E eu concordo com todos. Belo texto, Carlos, apesar do tom pessimista. As escolhas musicais são de cinco estrelas: Redding e Moustaki, dois dos grandes.
Mas, embora recolnheça a veracidade de quase tudo o que li, recuso-me a ser tão pessimista. A Besta tem muitas moradas, não se instalou só por cá... e acredito que será expulsa delas, um dia.

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