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Os quadros das nossas vidas (8)

por Pedro Correia, em 15.07.09

 

 SEM A LOUCURA O QUE É O HOMEM?
 
Por vezes alguns dos aspectos mais secundários de um quadro são os que o tornam mais significativo. Acontece isso no célebre O Grito, de Edvard Munch (1893), peça essencial da iconografia do nosso tempo. Vi pela primeira vez esta tela densa e misteriosa ainda criança, reproduzida num selo norueguês que me fascinou. Norge, lia-se nesse selo branco e azul, como atestado de proveniência. Mirei-o e remirei-o incessantemente, sem nada saber da arte de Munch nem da sua existência atribulada. Fascinou-me ao primeiro olhar: jamais vira – jamais vi – os abismos da mente humana captados de forma tão verosímil pelos caprichos de um pincel lançado numa espécie de liturgia do expressonismo. Há vida neste quadro. Vida transtornada, transfigurada, trepassada por uma dilacerante angústia existencial, indescritível por palavras. Só vendo se percebe.
 
De há cem anos para cá, multiplicaram-se as teorias sobre a origem deste ‘grito’ tão singular. Houve quem mencionasse a hipótese de um ataque de pânico que o artista transportaria para a sua tela, falou-se em ansiedade e neurose. Houve até quem arriscasse que tudo se terá devido às frequentes libações alcoólicas de Munch. Não faltaram as teses psicanalíticas, aludindo à sucessão de dramas na infância do pintor, que ficou órfão de mãe muito cedo e viu a irmã mais velha desaparecer de forma trágica.
Filho de médico, o artista noruguês (1863-1944) habituou-se a acompanhar o pai, em criança, a diversas visitas domiciliárias que lhe causariam um permanente assombro perante os abismos da doença e o rasto inevitável da morte.
É o próprio Munch que nos ajuda a desvendar o que terá ocorrido naquele fim de tarde de 1892 numa rua de Cristiânia [a actual Oslo]: “Caminhava com dois amigos. O sol, vermelho-sangue, descia no horizonte – e senti-me invadido por um sopro de tristeza. Parei, num cansaço de morte. Sobre o fiorde negro-azulado e a cidade caíam línguas de fogo. Os meus amigos prosseguiram – eu fiquei, tremendo de medo. Senti um grito infinito através da natureza. Senti como se conseguisse de facto escutar esse grito.”
Não tardou a fazer um esboço daquele que viria a tornar-se um dos quadros mais célebres de todos os tempos, cheio de linhas irregulares e convulsivas: terra, água e céu parecem atingidas pela mesma vaga demencial de sangue e fogo. A paleta de Munch é única. E a sua visão sombria da existência também. No rosto da figura principal – de algum modo um símbolo do mundo contemporâneo – estampa-se a “imagem primária do medo”, como acentuou o britânico Iain Zaczek, autor da obra The Collins Big Book of Art and Masterworks.
 
Regresso ao princípio para acentuar um daqueles pormenores que fazem toda a diferença nos melhores quadros: as duas figuras de cartola que caminham impávidas na direcção oposta à da personagem principal. Elas – e só elas – nos elucidam de que tudo quanto ali vemos se passa apenas na mente perturbada do autor, estabelecendo um evidente contraste entre o que este imagina por sugestão de um pôr-de-sol e a realidade objectiva daquele plácido fim de tarde na capital norueguesa.
“Só podia ter sido pintado por um louco”, escreveu Munch, a lápis, numa das cópias deste quadro que lhe deu projecção universal. Um seu contemporâneo português, Fernando Pessoa, bem poderia responder-lhe nestes versos antológicos, adaptáveis a todas as estações da vida: “Sem a loucura o que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”

 

Outro quadro: Auto-Retrato com Cigarro, de Munch (1895). Tal como O Grito, pertence à colecção do Museu Munch, em Oslo.

 

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23 comentários

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De mike a 15.07.2009 às 19:28

G'anda post! (Ainda me arrisco a ler que "g'anda post" são palavras que detesta, mas não importa).
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 19:46

G'anda generosidade a sua, Mike.
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De João Carvalho a 15.07.2009 às 20:52

Excelente, compadre. Nunca eu seria capaz de escrever isto de Munch. Acho que puseste as palavras à minha frente.
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 21:21

Grato pelas tuas palavras, compadre. Abraço.
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De mdsol a 15.07.2009 às 22:09

Estou comovida.
:)
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 22:21

A minha vénia, Maria do Sol.
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De Leonor Barros a 15.07.2009 às 22:52

Excelente, Pedro.
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 22:56

É uma série para manter aqui no DELITO, Leonor. Por mim, todos os meses regresso ao tema.
(obrigado)
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De Leonor Barros a 15.07.2009 às 22:59

Já tenho o próximo em mente há algum tempo. Falta "só" escrever. É merecido :-)
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 23:11

Já me deixaste curioso, Leonor. A eterna curiosidade de Gémeos...
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De Leonor Barros a 15.07.2009 às 23:13

Não fiques, Pedro, é um quadro banal sem muito que se lhe diga mas fiquei agarrada a ele desde a adolescência e nunca mais partiu. A curiosidade Gémeos é terrível...
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De Pedro Correia a 15.07.2009 às 23:23

Ah, pois é. Como a dos gatos...
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De Leonor Barros a 15.07.2009 às 23:25

Outro post que tenho pensado.
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De mike a 16.07.2009 às 00:39

O quadro pode ser banal mas a escrita de quem vai escrever sobre ele não é, por isso... :)
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De Teresa Ribeiro a 16.07.2009 às 01:09

Como já várias pessoas aqui disseram, o teu texto é excelente, Pedro. Parabéns.
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De Pedro Correia a 16.07.2009 às 09:24

Obrigado, Teresa. Por mim, continuarei a trazer aqui um quadro todos os meses.
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De JuliaML a 16.07.2009 às 01:14


gostei muito de o ler, Pedro!
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De Chloé a 16.07.2009 às 02:16

Deste também gosto. Mas para os tais 'abismos da mente humana' há também outro pintor que nos deixa transidos. Géricault. Fascinado pelo sofrimento espiritual e pelo pânico. Igualmente sintético, mas em versão romântica, cerca de 100 anos antes. Recomendo, para quem goste de pintura perturbadora.
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De Pedro Correia a 16.07.2009 às 09:23

Connais pas.
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De Pedro Correia a 16.07.2009 às 09:38

Muito agradecido, caríssima Júlia.
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De João André a 16.07.2009 às 09:31

Sempre excelentes estes textos. Penso que Munch fez várias versões do quadro, não é verdade?

Já agora, dentro da questão dos quadros, uma passagem do filme Looney Tunes, Back in Action (de Joe Dante, o que é sempre garantia de qualidade) dá uma "explicação" para o grito:

http://www.youtube.com/watch?v=97PLr9FK0sw

além de ter mais um conjunto de interacções hilariantes com outros quadros.
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De Pedro Correia a 16.07.2009 às 09:38

Munch, de facto, fez várias versões. Como é óbvio, reporto-me aqui ao original. E o quadro foi imitadissímo por outros artistas e tornou-se ícone da 'pop art', entre outras referências.
Agradeço o 'link'. Vou espreitar.

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