Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
por José Gomes André | 13.07.09

 

As (excelentes) intervenções de Obama em África suscitaram um óptimo texto de Nuno Gouveia, do qual salientaria a seguinte passagem: "Obama pediu aos africanos que parem de se queixar do seu passado colonialista, e da exploração que sofreram pelos europeus. A génese dos problemas africanos está sim, na corrupção e nas suas elites. E Barack Obama foi mais longe, dizendo que a ajuda ocidental deve ser acompanhada pela garantia de boa governação e de boas práticas democráticas. [...] ao contrário daqueles que culpam o Ocidente e o capitalismo, o presidente americano urge os governos africanos a abraçaram um modelo de desenvolvimento económico e social responsável, assente nas instituições democráticas."

Obama está perfeitamente ciente de que a sua Presidência assume importantes contornos simbólicos e que esse facto, mais do que simples curiosidade, pode ser utilizado para operar alterações concretas nas políticas públicas. Naturalmente que não se "decreta" por exemplo o fim do racismo nos EUA, nem o fim da corrupção em África, mas quando um Presidente negro se refere a estes dois temas, as suas palavras têm uma amplitude e um significado reforçados. E ao insistir que, quer os afro-americanos, quer os povos africanos, têm de abandonar a referência sistemática à "exploração do passado", e assumir a sua responsabilidade e lutar pelo seu próprio destino, Obama envia claramente a mensagem certa.




6 comentários:
De Pedro Correia a 13 de Julho de 2009 às 12:41
É, sem qualquer dúvida, a mensagem certa.


De Maria João Marques a 13 de Julho de 2009 às 15:56
"Obama está perfeitamente ciente de que a sua Presidência assume importantes contornos simbólicos". Não deixa de ser verdade: a religião obâmica é algo com que tem de se contar. Mas não nos enganemos: para simbólico já temos muitos candidatos (por exemplo o Papa, que tem muitos mais seguidores na sua religião do que Obama) e nenhum deles tem qualquer efeito prático. Obama e os obâmicos perceberão a seu tempo que o que contam são as políticas concretizadas, que as suas palavras deixarão o mundo exactamente como o encontraram, se não pior por falta de acção. Veja-se, por exemplo, o que serviram as palavras de Obama de appeasement face a Teerão no ano novo persa.


De José Gomes André a 13 de Julho de 2009 às 19:57
Cara Maria João, não espero que nos entendamos sobre o Obama, mas há duas coisas importantes a referir. 1) Partilho da sua crítica à "religião obâmica". Peço-lhe que não me inclua nessa lista de pessoas que o adoram como se fosse o novo Messias. Suponho que admite a hipótese de haver pessoas que gostam de Obama sem cair na idolatria, certo? :)
2) Estou de acordo que o mais importante na acção política são os "feitos concretos", mas julgo que está a desvalorizar excessivamente a importância do "simbolismo" associado a certas figuras, frases, posturas, etc. O mundo também mudou e também muda através de discursos simbólicos como o que ouvimos no Gana.


De Maria João Marques a 14 de Julho de 2009 às 00:07
José, eh, eh, se concordássemos perdia a piada. E claro que tem razão:os aspectos simbólicos contam; acontece que o quanto contam só se pode verificar à posteriori, enquanto que com Obama toda a gente, da religião obâmbica ou não, perante qualquer coisa que o senhor diga atribui-se logo o epíteto de 'histórico' sendo que nada muda. As palavras de Obama para os muçulmanos têm sido francamente insatisfatórias (mas históricas,claro, mesmo quando diz aberrações sobre as mulheres e o véu) e as palavras sobre África provavelmente vão pelo mesmo caminho.


De CM a 14 de Julho de 2009 às 00:34
Até que enfim que alguém põe o dedo na ferida...


De Pedro Correia a 14 de Julho de 2009 às 01:13
E muito bem.


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