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Os patos facultativos

por Pedro Correia, em 11.07.09

  

“Facultatividade.” Não conhecia esta palavra, de resto horrível – só recentemente soube que existia. Tem-se ouvido muito a propósito do ridículo “desacordo” ortográfico que o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, quer impingir aos portugueses, contra a opinião expressa da sua antecessora nesta pasta, Isabel Pires de Lima, e de um apreciável número de escritores, editores e filólogos. Um “desacordo” que dá para os dois lados, cheio de “facultatividades”, como gostam de dizer os exterminadores de consoantes mudas, acusando quem se lhes opõe de pretender voltar a escrever farmácia com um obsoleto PH.

Se a consoante for pronunciada, escreve-se a palavra de uma forma; se não for, escreve-se de outra forma: facto ou fato, pacto ou pato – tanto faz. Há quem chame “acordo” a isto. Simplesmente genial.
Aposto que várias dessas sumidades têm nos seus cartões de visita a palavra phone – assim mesmo, à inglesa, para indicarem o numerozinho de telefone fixo ou celular. Os ingleses e os americanos são assim: não assinaram nenhum acordo ortográfico, mantêm sem complexos o PH e dão-se bem com tal grafia, que deve tudo à etimologia e nada à oralidade. Uns obsoletos – é o que eles são. E as sumidades também: já há vinte anos que nos andam a chatear com isto.

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14 comentários

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De Teresa Ribeiro a 11.07.2009 às 13:02

Tens que ver a coisa pelo lado positivo. Com este pato, vais engrossar a tua lista de palavras e expressões que odeias.
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De Pedro Correia a 11.07.2009 às 16:26

De fato, Teresa.
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De Luís Reis Figueira a 11.07.2009 às 13:33

Tem sido vergonhosa a submissão de Portugal em relação ao Brasil nesta matéria do acordo ortográfico que 'já tem barbas'. Não raras vezes, tenho já pensado que, qualquer dia, a derradeira exigência será que se mude a designação da língua de 'português' para 'brasileiro' e então, ao contrário do que agora sucede, começará a existir o "brasileiro de Portugal" e não o "português do Brasil". E o que é mais lamentável é que este tipo de subserviências, venha sendo acalentado e promovido até, precisamente pelas entidades que tinham a absoluta obrigação de melhor preservar a entidade da língua portuguesa.
Com ou sem fato, de facto o que dá mesmo vontade de dizer é vão-se "f....", com todas as letras. E já agora com "ph", para eles ficarem a saber que, quando queremos, também ficamos a par das modernices que nos querem impingir à viva força.
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De Ana Vidal a 11.07.2009 às 13:57

Luís, não podemos tomar a nuvem por Juno: lá, como cá, há uma imensidão de cidadãos anónimos - e também muitos intelectuais - que não quer este "desacordo", mesmo tendo ele partido do Brasil. Esta imposição é uma coisa muito pouco democrática, feita por governantes que ignoram olimpicamente o facto (e não fato...) de ela não ser minimamente consensual. Se há matéria que mereça e justifique um referendo - não me canso de dizê-lo - é esta, que diz respeito a todos nós e deveria ter a concordância da maioria para entrar em vigor. E como se estão marimbando para o que pensamos, eu, pelo meu lado, também vou marimbar-me para eles: continuo a escrever como me ensinaram. Phacultatividade é isso mesmo, não é?
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De Luís Reis Figueira a 11.07.2009 às 15:12

Ana, no essencial parece que estamos de acordo e, na verdade, não me parece que eu esteja a tomar a nuvem por Juno. Como todos sabemos, esta questão do acordo ortográfico vem-nos a incomodar há pelo menos vinte anos, (como diz o Pedro), e a verdade é que, de cedência em cedência, o português de Portugal tem vindo a ceder terreno ao seu congénere do Brasil. E se há matéria em que não sou ingénuo, esta é uma delas. Então, Ana, V. acha que é essa "imensidão de cidadãos anónimos e também muitos intelectuais" que refere, que vão decidir algo acerca desta matéria? É óbvio que não, e por isso eu refiro no meu comentário as entidades competentes que deveriam ser as guardiãs dos valores essenciais da nossa língua. Infelizmente serão estas que - bem ou mal, cá como no Brasil - irão decidir sobre isto. O 'povão' e os intelectuais irão sendo, como até aqui, pura e simplesmente ignorados.
E repare que eu não sou daqueles que defende a imutabilidade ou a 'mumificação' da língua a todo o custo, não. Pelo contrário, sou até daqueles que advogam que as línguas, (como tudo o mais, aliás), devem adaptar-se ao seu tempo, modernizando-se e servindo eficazmente a forma de comunicar, que é a sua principal função, coisa que, aliás, veio a acontecer ao longo dos tempos à medida que foram sendo sentidas essas necessidades. O português escrito de hoje é bem diferente do que existia no princípio do Séc. XX, como este seria bem diferente do de cem anos antes, sem que para isso tenha havido necessidade de se efectuar algum acordo ortográfico, ou seja, há todo um processo natural de evolução das línguas que não tem de ser forçosamente objecto de acordos e tratados.
Outra coisa bem diferente, porém, é agacharmo-nos constantemente ao gigantismo do Brasil, cedendo incessantemente às suas exigências.
Que eu saiba, nunca o Reino Unido fez qualquer acordo ortográfico com os Estados Unidos ou com o resto do mundo onde se fala inglês, no sentido de alterar o inglês de Inglaterra. Nem que a Espanha, também com esse mesmo intuito, o tenha alguma vez realizado com as Américas central e do sul. No entanto, é um facto que existem múltiplas maneiras de expressar tanto o inglês como o espanhol no mundo, atento o carácter universal de ambas as línguas.
O mesmo deveria acontecer com o português: cada povo que o usa como meio de comunicação deveria poder adaptá-lo às suas necessidades e características específicas, sem que isso devesse obrigar a uma uniformização rígida e universal da língua. Mas os portugueses, está visto, não perdem uma oportunidade para afirmarem a sua existência, nem que seja para mostrarem a sua subserviência perante os outros.
Um abraço. ;)
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De Ana Vidal a 11.07.2009 às 21:03

Estamos inteiramente de acordo, Luís, no essencial e no resto. Eu só queria salientar que nem todos no Brasil querem este acordo absurdo, mas tem razão quando diz que a decisão não cabe a esses, mas às entidades competentes. E assim, contra tantas opiniões válidas e fundamentadas, o acordo vingará.
Um abraço :-)
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De Pedro Correia a 11.07.2009 às 16:28

"Adeamus ad montem fodere putas cum porribus nostrus." Nunca fica mal um toque de erudição...
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De Luís Reis Figueira a 11.07.2009 às 17:08

É pró que está, Pedro, é mesmo para plantar batatas!
Um abraço!
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De João Carvalho a 11.07.2009 às 14:13

Já disse tanto sobre isto que estou sem phalavras. O acordo é uma phaláccia.
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De Pedro Correia a 11.07.2009 às 16:29

Com ou phacultividade, também já estou pharto.
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De António Manuel Venda a 11.07.2009 às 16:17

Pedro, já agora, a expressão «José António Pinto Ribeiro» existe?
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De Pedro Correia a 11.07.2009 às 16:31

Quando suprimirem as consoantes sonoras, no próximo pato, fica oé Aóio io ieio.
Com a 'facultividade' de se poder escrever também oé Aôio io ieio.
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De João Carvalho a 11.07.2009 às 20:52

Não, António, a expressão não existe. «José António Pinto Ribeiro» é um neologismo ainda por consagrar.
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De Ana Vidal a 11.07.2009 às 21:07

A expressão talvez exista, António, mas não tem correspondência física. Pelo menos, que seja conhecida...

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