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Faça-se luz

por Teresa Ribeiro, em 09.07.09

Separar a obra dos criadores é, certamente, o mais adequado, sobretudo quando estão em causa grandes legados. Porém, se não é de arte que estamos a falar, mas da retórica de homens que se arrogam o direito e o dever de questionar a sociedade e teorizar sobre ética e moral, então parece-me razoável ceder à tentação de os julgar em função da sua conduta.

Não está em causa a sua eventual condenação como autores, mas a possibilidade de, com esse conhecimento privilegiado, podermos introduzir uma nota de subjectividade na avaliação das suas obras. No caso parece-me vantajoso, porque nos permite relativizá-las cruzando a realidade com postulados cheios de verdades higienizadas, difíceis de levar à prática, até pelos seus próprios signatários. Vem esta conversa a propósito de Os Intelectuais, de que o Pedro  falou aqui, uma obra que também considero fundamental, pois sejam quais forem as motivações que levaram Paul Johnson a escrevê-la, a verdade é que o valor do seu trabalho de pesquisa não foi contestado.

Os Intelectuais desperta-nos sentimentos ambíguos. Por um lado reforça-nos o cinismozinho esclarecido com que na maturidade nos habituamos a encarar a natureza humana, por outro não deixa de nos decepcionar se porventura encontramos naquele lote de luxo um nome que faça ou tenha feito parte da nossa iconografia pessoal.

Pergunto-me quantos machos não se terão decepcionado ao ler que Hemingway, esse monumento à virilidade, era um mentiroso compulsivo cujas proezas militares e sexuais eram quase todas inventadas. Mas sim, concedo. Hemingway não é exemplo, porque nunca se arvorou em condutor de massas. Mas o mesmo já não podemos dizer de  Simone de Beauvoir.

A autora de Segundo Sexo, a bíblia do feminismo, eterna companheira de Sartre, segundo Paul Johnson esteve longe de viver com o filósofo a relação livre e igualitária que se imaginava. Para mim foi um choque descobrir que a mulher que contestou a subalternização feminina de forma tão veemente foi, desde o primeiro encontro com Sartre, reduzida ao estatuto de sua escrava. Coseu, cozinhou e lavou roupa para ele e, pior ainda, nada fez para sair da sua sombra em termos de carreira, quando tinha, reconhecidamente, capacidade para o fazer.

É impossível não nos sentirmos ludibriados, nem que seja um pouco, quando vislumbramos o abismo entre o que os faróis da nossa civilização apregoam e praticam. 

Resta-nos, de facto, o cinismo, essa montra de inteligência, que está tão na moda e nos fica tão bem.

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27 comentários

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De ariel a 09.07.2009 às 12:55

Nunca tive grande fascínio pela Simone de Beauvoir . a propósito deixo este link que me parece muito interessante.:
http://pt.mondediplo.com/spip.php?article155

As minhas "heríonas" da mesma geração foram as Marguerites, Duras e Yourcenar
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De Ana Vidal a 10.07.2009 às 03:01

Estou consigo, Ariel, nas Marguerites. Sobretudo a Yourcenar, que acho superlativa.
E com a Teresa estou na desmontagem de Simone de Beauvoir como líder incontestável e coerente. Ela não só se submeteu em casa como - até publicamente - fez coro com Sartre na satirização impiedosa de muitas fragilidades humanas (mulheres incluídas). Era uma figura dúbia, que propagava um tipo de mensagem que precisa obrigatoriamente de ser praticada para ter algum crédito. Mas, lá está... a obra e o homem (ou a mulher) nem sempre convergem.
Resta-nos o cinismo para avaliar Beauvoir, porque essa matéria, pelo menos, ela e Sartre souberam ensinar-nos com muita propriedade.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 14:37

Dizes bem, Ana. Sartre e Beauvoir foram excelentes mestres do cinismo.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:09

Ariel: gosto muito, mas mesmo muito das Margaridas. Mas a obra de referência de Simone marcou-me na adolescência. Apesar de a ter lido décadas depois da sua publicação, considerei na altura que a obra não tinha uma ruga. Nunca mais lá voltei. Ficou-me uma grande admiração pela figura. Anos depois descobri que a senhora tinha facetas menos dignas do meu aplauso, mas o seu papel no movimento feminista permanecia incólume aos meus olhos, até ler este livro.
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De Amêijoa Fresca a 09.07.2009 às 14:23

O iluminismo esclarecido
de verdades higienizadas,
é, por vezes, embrutecido
por certezas arrevesadas.

Entre os faróis da civilização
existe muita ambiguidade,
é dura a descredibilização
numa parte da sociedade.

A montra de inteligência
imaculada e apelativa,
por vezes, à base indigência
de natureza destrutiva.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:10

Não podia estar mais de acordo, ameijoa (como é que se diz isto em verso?)
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De Once a 09.07.2009 às 14:23

já tinha gostado do postal do Pedro e agora lhe digo que gostei bastante deste também Teresa .. só acho que o cinismo é, na maioria das vezes, a protecção dos espertos para a falta de inteligência. Nada mais.

:)
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:11

Obrigada. O cinismo está cada vez mais in, Once.
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De l.rodrigues a 09.07.2009 às 15:36

Eu fiquei de pé atrás, como de resto tive oportunidade de manifestar nos comentários ao post do Pedro, como bom melga que sou.

Fui ler sobre o livro. E a impressão que deixam as criticas negativas é que houve na sua execução duas pressões selectivas: uma na definição do que constitui um intelectual (fazendo com que os visados no livro sejam genericamente "de esquerda" ou identificados com esta, ateus diversos e outros hereges) e outra na selecção cuidada dos factos, de forma a isolar aqueles que justificavam o ponto estabelecido à priori pelo autor. Nomeadamente há biógrafos referenciados pelo autor que manifestaram rejeição pela leitura selectiva das suas obras.

Portanto, e resumindo, anti-intelectualismo primário oriundo de um ultra-conservador intelectualmente desonesto. Nada de novo, "move along".

Não seja demasiado rápida a condenar a sua heroína literária.
Se ela lavava as cuecas de Sartre? Talvez sim, talvez não. Para saber porquê e como ela vivia com isso, suspeito que é melhor perguntar a outros que não Paul Johnson.

PS Sabia que Churchill era um bêbado racista? E Goebbels, um extremoso pai de família. So what?

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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:20

L.Rodrigues: Não foi à toa que referi no post que, no caso, as motivações do autor pouco interessam se a sua pesquisa foi séria - e, tanto quanto sei, isso não terá sido posto em causa. Factos são factos. Esses dois que apresentou são tão interessantes como os que constam do livro de Johnson. Mas a verdade é que, como já alguém notou, exibir na lapela o retrato de Estaline é socialmente aceite, enquanto que fazê-lo com Hitler... Considero-me uma mulher de esquerda, mas gosto de cultivar a distância crítica e não há dúvida que a esquerda reivindica uma superioridade moral a que nem sempre tem direito.
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De Adília a 10.07.2009 às 12:56

Só depois de fazer o meu próprio comentário tive oportunidadede ler o seu e não posso estar mais de acordo. É curioso como se embandeira em arco com uma obra que no mínimo parece facciosa e no máximo, como diz, desonesta. É que o autor pode apresentar factos, mas diferentemente do que diz Teresa factos não são factos, factos são matéria prima para uma interpretação, dependendo dos contextos e ainda resta mesmo saber se enquanto factos foram devidamente estabelecidos.
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De JuliaML a 09.07.2009 às 20:49


Teresa, venho a dizer isso de Simone e da relação dela com Sartre desde os anos 80 e bastaria ler as suas memórias para concluir tal. Aliás na Força da Idade está lá tudo. Para mim ela anulou-se desde o inicio.


Infelizmente as maioria das pessoas são rebanhos...
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:23

Li as "Memórias de uma Menina Bem Comportada" long time ago, JUlia. Ainda sob o impacto que a leitura de O Segundo Sexo teve na minha pueril consciência da época. Ou seja, fui muito acrítica. Se estão lá esses sinais de que me fala. não os vi, ou não os quis ver...
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De Pedro Correia a 09.07.2009 às 20:59

Teresa: a minha homenagem a este teu excelente texto, em que tanto me revejo. A duplicidade da Beauvoir, 'emancipada' nos livros mas submissa em casa, é um dos aspectos mais interessantes desta obra de Paul Johnson, capaz de tirar tantos pequenos deuses do pedestal.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:25

Obrigada, Pedro. Aprende-se muita acerca da natureza humana quando se lê este género de obras. Soui cada vez mais cliente do género.
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De Cristal a 09.07.2009 às 21:10

É tão fácil julgar a história dos outros... Sobretudo é fácil, depois de terem sido alteradas as condições de um contexto fazer críticas sobre esse contexto de que nem sequei há a mínima ideia de como tenha sido. Depois, esta iconoclastia das figuras que ajudaram a abrir os olhos para as injustiças e as desigualdades, sejam elas quais forem ou foram, cheira-me sempre a encomenda. A descrença e o cinismo são tão "construtivos", não são?
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 10:27

Os Intelectuais é uma obra muito elogiada e muito criticada. Não seria de esperar outra coisa. Digo e repito: factos são factos. Se alguns - concedo - são passíveis de distorção, outros são mesmo incontornáveis.
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De Cristal a 10.07.2009 às 11:17

A minha questão tem mais a ver com o quê ou a quem serve esta iconoclastia retrospectiva. Duvido que sirva para alguma causa irrepreensível ou para formar melhores consciências. Os seres humanos são imperfeitos? Claro que são. Ainda bem! Está mais que demonstrado que não há deuses ou, se lhes damos benefício de existência, não servem para grande coisa...
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 11:59

O objectivo de Johnson é-me relativamente indiferente. As suas intenções não ilibam, de modo algum, os visados. Há imperfeições e imperfeições. Não é, Cristal?
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De l.rodrigues a 10.07.2009 às 12:30

O objectivo de Johnson deverá ser indiferente, mas a sua desonestidade não. Concretamente, (e cito de um critica negativa) quando fala de Shelley acusa-o de deixar um tipo na cadeia por ter andado a distribuir um poema da sua autoria, mas ao que parece omite que o mesmo Shelley pagou do seu bolso para sustentar o homem enquanto esteve preso, presumivelmente para ilustrar a desumanidade do poeta.

É apenas um episódio, não invalida tudo o que é verdade, mas leva-nos a questionar que outras verdades inconvenientes terá ele deixado de fora.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 14:31

É verdade que os factos também são o que deles fazemos. Mas mesmo que Johnson tenha cometido o pecado da manipulação - coisa feia, com certeza - não me parece que o tenha feito a ponto de pôr a credibilidade da sua obra em causa. Se o tivesse feito por esta hora já o teriam crucificado, o que não aconteceu. Muito pelo contrário.
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De Adília a 10.07.2009 às 12:45

Será que não está a dar demasiado crédito a Paul Johnson? Já procurou dados sobre a sua propria vida e convicções políticas. Reparou nos intelectuais que ele seleccionou para o seu estudo?
Isto posto, apenas dois reparos: Beauvoir e Sartre tanto quanto sei viveram em residências separadas e levaram uma vida, de cumplicidades é certo, mas bastante independente para a época. Se Beauvoir cozinhou ou lavou não sei, mas além de não me parecer relevante que episódicamente o tenha feito sei que mostrou ser uma mulher de fibra capaz de defender ideias e de lutar por elas. Por isso não retiro uma grama à admiração que por ela nutro.
Quem nunca condescendeu com a sociedade machista em que todas nós vivemos, quem nunca teve de pactuar com o «inimigo» para obter um pouco de paz, que atire a primeira pedra.
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De Teresa Ribeiro a 10.07.2009 às 14:21

Condescendi e condescendo todos os dias, Adília. Mas ela, por motivos óbvios, não podia. E vamos lá a ser honestas: a sua subalternização em relação a Sartre foi óbvia. Como filósofa será vista para todo o sempre como a "companheira de Sartre".
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De adilia a 10.07.2009 às 16:13

Teresa
Como deve saber, Beauvoir será vista como a companheira de Sartre por uma razão muito simples que não tem a ver com ela mas com os académicos que estabelecem o canon filosófico. Como também deve saber não só ela como a própria Hanna Arendt não fazem parte dele por uma razão demasiado óbvio é que o canon filosófico foi e continua a ser misógino. Portanto, não confunda as questões porque se vamos a podres temos muita roupa suja para lavar. De grandes monstros sagrados da filosofia ocidental não há grande preocupação em tirar os esqueletos do armário, Kant por exemplo defendeu ou pelo menos tolerou, o infanticidio em certas circunstâncias, Rousseau na carta a D'Alembert mostra-se receptivo a uma espécie de burka para as mulheres e Nietzsche não desdenhava as vantagens dos haréns para preservar o recato e a modéstia das mulheres etc. etc.
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De Teresa Ribeiro a 11.07.2009 às 12:48

"Se vamos a podres temos muita roupa suja para lavar" - quem disse o contrário, Adília? O meu ponto é que não vejo vantagem em ignorar deliberadamente a informação mais controversa que nos chega sobre as figuras que temos por referência. Eu gosto de saber. E de ter liberdade para depois fazer os meus juízos. Posso até, para efeitos de "culto" continuar a não tomar em conta essa informação. Mas é uma opção minha.
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De mike a 10.07.2009 às 21:57

Eu não li o livro. E tenho, admito, uma relação preconceituosa com a palavra intelectual. O texto acho-o excelente, Teresa. Quanto ao comportamento da Simone de Beauvoir, se calhar ela não se considerava subalternizada, fez tudo por amor e porque queria. ;)
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De Teresa Ribeiro a 11.07.2009 às 12:28

Só que essa forma de amar não jogava com aquilo que ela defendia...

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