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A voz dos teus egrégios avós

por José Navarro de Andrade, em 09.06.14

Bem sei que a partir do dia 11 estareis todos, Portugal e o restante planeta, suspensos do menor suspiro de Cristiano Ronaldo, aflitos por notícias sobre a sua digestão do pequeno-almoço, dependentes, como se da vossa ventura se tratasse, das délficas exegeses de cada um dos seus esgares, proporcionadas por uma bataria de experimentados nigromantes televisivos.

Ouso porém, apesar da magnitude das vossas inquietações, distrair-vos para um assunto radicalmente diferente de Cristiano Ronaldo. Imploro-vos que façam o favor de desviarem o vosso olhar, por um átomo de tempo, do que sucede lá no topo da Equipa de Todos Nós (EDTN) e repararem no que discretamente está ocorrendo lá em baixo, nas catacumbas da defesa.

Desde os tempos de Gentile, senhor de assento seguro no panteão dos maiores facínoras que alguma vez pisaram relvados internacionais e o mais orwelliano dos futebolistas porque tudo o que fazia era o oposto do nome que tinha, desde os idos desse Mundial espanhol de 1982 que ninguém se lembra de haver uma seleção de futebol – nem mesmo anteriores e famigeradas EsDTN que em bravatas ultrapassaram a aura de uma Argentina ou de um Uruguai, mérito que só os portugueses ainda não reconheceram – cuja defesa é constituída por uma quadrilha de contumazes capaz de suplantar em ruindade a de Jesse James.  

Enquanto todos os outros jogadores do campeonato, por cortesia com os anfitriões, afinarão fintas e jogadas pelo ritmo do samba, da defesa da EDTN o mundo aguarda que se inspirem na dança dos pauliteiros de Miranda ou que se comportem como um rio infestado de jacarés que aos adversários tentarão atravessar a vau.

botinhas lindas

À extrema-direita evoluirá João Pereira, aquele que com Jorge Jesus será um dos últimos espécimes de uma etnia indígena em vias de extinção: o autêntico lisboeta. Bem mais fiel às sua origens do que Ulisses, João Pereira inscreveu-as a fogo e sangue nas botas: na direita “Meia Laranja” na esquerda “Casal Ventoso” – quem percebe de antropologia e de semiótica perceberá o que isto significa. Um dos mais inolvidáveis momentos da minha perseverante carreira de espectador de futebol, foram aqueles segundos do glorioso desafio entre o meu periclitante Sporting e o pujantíssimo Manchester City, para os oitavos-de-final da Liga Europa 2011-2012, em que na disputa de uma bola fora, o nosso Joãozinho, estribado no seu 1,72m, fez peitaça ao 1,89 do irascível Balotelli. Tal terá sido a protérvia do olhar de Pereira que o italiano de crista loira, por uma vez jamais repetida, se temeu e retrocedeu.

Ao centro da defesa da EDTN plantar-se-ão Bruno Alves e Pepe, dois pilares do inferno.

O caso de Bruno Alves explica-se pela genealogia. Ele é filho de Washington, um arranca-corações brasileiro que passeou pelos relvados nortenhos, entre Espinho e Varzim, na bíblica década de 70. À sua volta Washington criava uma área de exclusão de pelo menos 5 metros quadrados, imposta pela sua torreada figura, pela carantonha e, dizem, por um jorro de recomendações à família no criativo linguajar carioca – ali ninguém tinha licença de entrar. Ó maravilhas da genética: tal pai, tal filho.

Washington aproximando-se
Washington de perto 

Quanto a Pepe, a sua fama napoleónica já rodou o mundo e até a depurada revista americana “New Republic”, tão interessada no exotismo do futebol como em entomologia, deu voz ao escritor Jess Walter para exprimir o que todos pensamos: como foi inolvidável a cena em que Pepe, após ter espalmado no chão o peneirento Javier Casquero, daquele clube chamado Getafe, ainda o recalcou com um par de pontapés nas costas – uma ode à virilidade, à contumácia, ao capitalismo selvagem.

Até te adeceibo todo

À extrema-esquerda prontifica-se Fábio Coentrão, que apesar das perturbações capilares provém desse alfobre de lidadores que é Caxinas. Haverá mesmo um “caxinas style”, tese a ser um dia desenvolvida pelo saudoso conceptualista Carlos Queirós, um futebol com pêlos na palma das mãos, todo feito de vagalhões, rochedos e espinhas de peixe, que foi interpretado com desvelo por estilistas como Paulinho Santos ou André. Pois Fábio será o terceiro cateto deste triângulo, forma que representa, como se sabe, a ordem primordial das coisas.  

Estes quatro cavaleiros por assim dizer do Apocalipse, serão o patriótico último reduto de Portugal no sertão baiano, as nossas linhas de Torres em plena floresta amazónica, o garbo e esplendor do estro lusitano que relampejarão no planalto central. A nossa alma de fadistas, toureiros, capas negras, malteses, marialvas e raianos estará de certeza muito mais caldeada nos feitos dos patibulares João, Bruno, Pepe e Fábio, do que nos peitorais publicitários de Cristiano, ou no penteado cosmopolita de Ronaldo.

Obrigado pela vossa paciência. Ide agora sofrer em descanso pela EDTN.

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4 comentários

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De William Wallace a 09.06.2014 às 21:42

Gosto !

Os mais sábios sempre disseram que a casa constrói-se pelas fundações e que o ataque começa na defesa.

Se bem que o João Pereira não me inspira lá muita confiança, mas se o Mister Paulo Bento acha que sim quem sou para discordar !

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De Pedro Correia a 10.06.2014 às 00:04

Grande ensaio sobre futebol, Zé. Que é muito mais do que um ensaio sobre futebol.
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De da Maia a 10.06.2014 às 00:42

Impressionante.
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De Miguel R a 10.06.2014 às 00:54

Sublime!

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