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Um Panteão só para estrangeiros

por Rui Rocha, em 13.01.14

Sejamos francos. Nós, os portugueses, não gostamos da generalidade dos portugueses. Isso deve-se, se não estou enganado, a duas circunstâncias fundamentais. Somos portugueses há muito tempo e o país é pequeno. Ah e tal temos oito séculos de história ou lá o que é. Pois temos. É por isso que estamos fartinhos uns dos outros. Ao longo dos últimos séculos, a maior parte dos outros povos foram variando. Invasões, domínios, alianças, secessões, federações, independências, fronteiras partilhadas com vários países. Nós não. Temos fronteira terrestre com um único país e fomos invadidos e dominados poucas vezes. E por períodos curtos de tempo. Para além disso, para dizer tudo, tivemos o azar de sermos invadidos por espanhóis e franceses o que é, convenhamos, do piorzinho que nos podia ter calhado. De tal forma que, mal por mal, e apesar de não gostarmos de portugueses, acabámos por preferir ficar sozinhos. Por outro lado, estamos demasiado juntos. Num país normal, uma distância de trezentos quilómetros é poucochinha coisa. Em Portugal, quem fizer essa distância atravessa o país de norte a sul. Ou vice-versa. E se não travar a tempo ainda bate com os queixos no Algarve ou em Valença. É assim dessa longevidade histórica e da excessiva proximidade geográfica que decorre o nosso estado actual de saturação. Que não, agitam-se alguns sectores da plateia, que estou a tirar conclusões sem qualquer fundamentação. Pois testemos a tese. Gostamos ou não dos portugueses que estão no estrangeiro? Gostamos, claro. São portugueses, é certo. E isso, aos nossos olhos, prejudica-os à partida. Mas, como estão longe, não se verifica a segunda condição necessária para não gostarmos deles: a proximidade territorial. Outra situação evidente é a dos turistas estrangeiros. Caramba, como gostamos deles. Fazemos um esforço danado para falar a língua deles e tudo. Estão próximos? Estão. Mas, como não são portugueses, gostamos mesmo deles e, no fundo, até queríamos que ficassem mais tempo desde que não se tornassem portugueses. Ora, vem isto a propósito da momentosa discussão que envolve o Panteão. A pergunta, creio, não deve ser se Eusébio deve ir para o Panteão. A questão fundamental é se devemos ter um Panteão. Nos actuais termos, parece-me que não. E justifico. Face ao nosso pouco apreço pelos portugueses que vivem em Portugal, só há duas soluções que assegurariam um fluxo relativamente pacífico e com volume aceitável de inquilinos para o Panteão: manter o Panteão no sítio onde está e reservar o direito de acesso apenas  a nacionais de outros países (altos e loiros de preferência) ou, se insistirmos que só portugueses devem ir para o Panteão, promover a deslocalização do edifício e do conceito para outro país, reservando nesse caso o acesso a portugueses na diáspora. É claro que também nos poderíamos deixar de histórias e, simplesmente, acabar com o Panteão.

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6 comentários

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De IMHO... a 13.01.2014 às 15:43

Hoje em dia, o circo do futebol não me atrai. Quando era jovem, vibrava com as proezas de Eusébio nos seus tempos áureos, e o clube com que nessa altura simpatizava, sem nenhum fanatismo, diga-se, nem era o Benfica. Sempre gostei de Eusébio e não lhe retiro nenhum mérito nem menorizo o apreço que mundialmente lhe é dedicado.

Não sei é se já terá ocorrido que o panteão (onde, certamente, não estarão sepultados os melhores da nossa história - regra com excepções, como todas) será o local indicado para romarias de pessoal entoando cânticos, levando cachecóis e bandeiras e adivinha-se o que mais...

Sem dúvida que os restos mortais de Eusébio ficariam melhor, como já tem sido alvitrado, no Estádio da Luz. E que venham muito muito longe esses tempos, mas um dia (em que eu com certeza já não terei de me preocupar com o assunto) colocar-se-á questão semelhante relativamente a, por exemplo, Carlos Lopes, Rosa Mota, Luis Figo, Cristiano Ronaldo... isto sem falar de Joaquim Agostinho, já desaparecido.
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De Vento a 13.01.2014 às 16:00

Mermão,

tá muito bem esgalhadito este texto. Mas ao lê-lo lembrei-me do sermão do nosso António aos peixes, os únicos que o entendiam e ouviam.
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De É um nunca mais acabar de a 13.01.2014 às 16:17

Olhe só políticos faltando:Américo Tomás,Salazar,Marcelo Caetano,Spínola,Costa Gomes,Palma Carlos,Salgado Zenha,Vasco Gonçalves,Álvaro Cunhal,Catarina Eufémia,acrescente por favor o panteão.E cultura? Estêvão Amarante,António Silva,Lopes Ribeiro e Ribeirinho,Mário Viegas,Raul Solnado,Vasco Morgado,Alves Redol,Manuel da Fonseca,Saraiva e Saraiva,Óscar Lopes,maestros,cantores,desenhadores,pintores,editores,Mourão e Palma-Ferreiras,acrescente s.f.f,vá acrescentando sempre,"os violinos",ciclistas,e mais poetas(dos bons e se forem dos tais),aumente a lista,não se acanhe.Eu e você,porque não?
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De am a 13.01.2014 às 16:45

Eu sou de opinião de que Panteão deve ser encerrado até que se edifique o Roubalhão.
Roubalhão, onde serão sepultados os maiores ladrões/vigaristas de Portugal, como por exemplo, Zé do Telhado, Alves Reis e o Isaltino... os únicos julgados em 552 anos.

Aguardemos mais 300 pelos próximos!
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De da Maia a 14.01.2014 às 10:18

Sendo mais radical, um R resolve tudo:
PanteRão!
Acabam-se as dúvidas.

De qualquer forma, acho mui valerosa a ideia, e o espaço amplo pode entrar no rol de vendas a chineses. Na linha avançada "faire futre" poderiam vir charters de chinesas chorosas e em troca remeter gestores torcionários.
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De Luis Goncalves a 15.01.2014 às 08:51

Sou contra a mistura de politica com futebol e finança.
Para quem nada percebe de bola como eu (nem sei o nome da maioria dos presidentes), realmente Amália e Eusébio eram o simbolo (na altura, com 14 anos, ouvia no hotel onde trabalhava americanos comentarem o "fada" e Eusibio" do destaque de Portugal em relação Espanha.
Nos tempos actuais, os milhões que os actuais recebem são mais do que suficiente prova de reconhecimento.
No site do Futebol Clube da Lixa está publicada a morada e o telefone do presidente Paulo. Da equipa apenas faz parte um estrangeiro e é um luso-suiço. Lá não se ouve mavovitche, Lesitche, Dedinho, etc, mas Lima, Coelho, Carvalho...

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