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Na morte de Peter O'Toole

por Pedro Correia, em 16.12.13

 

LAWRENCE DA ARÁBIA: DO SOL ÀS SOMBRAS

 

«O deserto é um oceano onde remo algum se enterra.»

Alcorão

 

Há filmes que facilmente se associam a outros. E há filmes que não se parecem com nenhum outro. É este o caso do deslumbrante Lawrence da Arábia, que David Lean rodou durante mais de um ano em quatro países (Reino Unido, Espanha, Marrocos e Jordânia), por vezes sob um sol inclemente, quase insuportável, que chegou a originar queimaduras na pele de alguns actores.

Nenhum filme é confundível com este porque a personagem central aqui é o deserto e a magia que dele emana vai-nos guiando de cena em cena ao som da hipnótica partitura de Maurice Jarre. Desde o plano-sequência - um dos mais famosos da história do cinema - que começa na chama do fósforo nos dedos de Lawrence e se prolonga pelo sol que começa a elevar-se, como bola em chamas, iluminando a vastidão das areias arábicas em alegoria à primeira aurora do mundo.

T. E. Lawrence, já então conhecido por Lawrence da Arábia, explicará mais adiante a Bentley, o jornalista americano que ali fora em busca de um herói para as manchetes do seu jornal, por que motivo o deserto tanto o atraía. "Por ser limpo", foi a definição, sucinta e exacta. Esse deserto limpo é o que vemos na primeira parte do filme - aquela em que Lawrence, filho bastardo, ignorado pelo pai e decepcionado com a família de substituição que procurou encontrar nas burocráticas fileiras militares, abraça enfim como se fosse sangue do seu sangue. As jornadas de sol a sol no Sinai e na Península Arábica são um banho lustral para este europeu sem raízes que se sente filho do deserto e irmão das tribos beduínas.

É um filme de 216 minutos - para ser visto em cinema e não em televisão - sem mulheres onde imperam os códigos masculinos e longos momentos de silêncio apenas entrecortados de diálogos lacónicos e sulcados de entrelinhas num cenário em que um poço de água valia mais do que uma vida humana. Em plena I Guerra Mundial, quando britânicos e turcos se confrontavam pelo domínio do Médio Oriente e o nacionalismo árabe emergia enfim de um sono de 900 anos, pelo impensável braço de um inglês pálido e louro que trocara a farda de caqui pelas vestes de beduíno: "Aquele para quem nada está escrito pode escolher a sua tribo."

 

David Lean designou para protagonista o actor perfeito: Peter O'Toole tem aqui o seu primeiro papel de relevo no cinema - e também o seu melhor papel de sempre. Como se tivesse nascido para interpretar Lawrence em cada palavra, em cada silêncio, em cada gesto, em cada olhar. A Academia de Hollywood, que em 1963 viria a inundar este filme de estatuetas, foi incapaz de reconhecer o talento ímpar desta interpretação, preferindo conceder o Óscar ao desempenho esforçado mas mediano de Gregory Peck em Na Sombra e no Silêncio, politicamente mais correcto mas artisticamente incomparável a Lawrence da Arábia, o filme que Steven Spielberg viu ainda adolescente e o impressionou ao ponto de nesse mesmo dia ter jurado tornar-se cineasta.

"Nada está escrito", como se repete ao longo do filme. A escolha de O'Toole resultou de um golpe do acaso, após as recusas de Marlon Brando (que preferiu filmar A Revolta na Bounty nas ilhas do Pacífico) e Albert Finney: nenhum destes astros já então consagrados no cinema teria certamente a capacidade revelada pelo desconhecido O'Toole de se entregar de forma tão credível, convincente e quase demencial a este desempenho, como se fosse o último da sua vida.

Da excelente galeria de secundários há que destacar Omar Sharif (num papel que também o tornou célebre e o projectaria para protagonista de Doutor Jivago, o filme seguinte de Lean), Anthony Quinn, Alec Guinness e Claude Rains, o inesquecível capitão Renault de Casablanca que funciona aqui como um traço subliminar a unir duas obras-primas do cinema.

 

Este é um fascinante filme sobre poder, guerra e solidão. Mas é sobretudo um filme sobre a relação umbilical entre o homem e a natureza. Um filme onde, à medida que as imagem progridem - em movimentos de câmara que evoluem sempre da esquerda para a direita, ditados pelo perfeccionismo do realizador britânico -, as sombras vão ganhando terreno ao sol.

Sucedem-se as batalhas, cada vez mais violentas, cada vez mais sangrentas: a conquista de Ácaba aos turcos, o massacre de Tafas, a dilacerante queda de Damasco sem ser alcançada a unidade política entre os árabes que Lawrence sonhou. De permeio acontece a sua captura pelos turcos, que o sujeitam a sevícias que não vemos mas imaginamos.

"Só beduínos e deuses conseguem divertir-se no deserto", avisara-o a tempo Rains (no papel de Dryden, político entre militares no quartel-general do Cairo, filmado na bem reconhecível Praça de Espanha em Sevilha). Lawrence não lhe dá ouvidos: nada está escrito, ele quer cumprir aquilo por que anseia nas rotas da nação árabe. Superando-se a si próprio com a mesma tenacidade que o levara a tentar expurgar indizíveis dramas íntimos ao prestar-se a inúmeras provas que envolviam dor física. "Neste país, o homem que proporciona vitórias nas batalhas é mais valorizado do que qualquer outro", diz o Rei Faiçal ao jornalista americano.

Lawrence sagrar-se-á vencedor aos olhos dos outros: Bentley encontrara o herói de que precisa para vender jornais. Mas sente-se derrotado, pois sabe que é incapaz de vencer os seus próprios traumas.

Não voltará a ser o mesmo. Nem nunca mais voltará a ver o deserto com os mesmos olhos. Chegara em busca de purificação, sai de lá mais conspurcado - não com sede de água, mas de sangue, clamando por uma vingança ancestral que o torna incapaz de se aquietar em lugar algum. Home é, sintomaticamente, a última palavra deste filme. O lar que Lawrence procura e jamais encontrará.

..................................................

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962). De David Lean. Com Peter O'Toole, Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins. José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy.

 

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 29 de Maio de 2013. Acrescentei a hiperligação para o obituário do New York Times.

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13 comentários

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De lucklucky a 16.12.2013 às 16:31

O bom, o mau e o vilão tem qq coisa que se aproxima , embora sem o deserto.
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De Pedro Correia a 16.12.2013 às 23:14

Espero poder escrever também sobre esse 'western'. Merece, sem dúvida.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 16.12.2013 às 18:43

Os que foram, como eu, adolescentes nos 60's, praticamente todas as semanas assistem ao desaparecimento de figuras que fizeram parte do nosso imaginário desses tempos, em que o cinema era um dos principais entreténs, para não dizer único, dos jovens dessa época.
Mas por muitos anos que viva, nunca se há-de apagar da minha memória a célebre cena que vi nos 70mm do Monumental: um árabe de olhos azuis vestido de branco, a correr como uma criança pelo deserto.
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De Pedro Correia a 16.12.2013 às 23:13

É uma cena fantástica: das mais inesquecíveis da história do cinema. E muito valorizada pela partitura de Maurice Jarre, igualmente inesquecível.
Para ver num ecrã tão grande quanto possível. E em sala escura, 'comme il faut'.
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De fernando antolin a 17.12.2013 às 18:34

Hear, hear, meu caro Alexandre Carvalho da Silveira.
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De Fernando Torres a 16.12.2013 às 20:28

Li o seu texto com a máxima atenção.
Mas, não querendo menorizar, nem a grandiosidade da obra cinematográfica, nem toda a mensagem que encerra, há dois filmes que me marcam: Cinema Paraíso e Casablanca.
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De Pedro Correia a 16.12.2013 às 23:10

Caro Fernando Torres: sobre 'Casablanca' também já escrevi aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1856198.html

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De José da Xã a 17.12.2013 às 10:24

Pedro,

O meu pai viu este filme, nos anos sessenta, em Luanda e creio ainda guardar o bilhete do cinema.
Durante demasiados anos adiei ver a película porque não passava no cinema. Mas como era uma das minhas enormes falhas e acabei por vê-lo em dvd. Perdeu força e impacto, mas é sem dúvida um dos grandes filmes dos anos sessenta. Com a morte de Peter O'Tool morreu Lawrence da Arábia!
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De Pedro Correia a 17.12.2013 às 11:36

Meu caro, este é daqueles filmes que tem mesmo de ser visto em cinema. Numa sala tão grande quanto possível. Não conseguiremos nunca absorvê-lo como ele merece se o virmos noutras condições. Felizmente foi possível revê-lo em cinema, em Lisboa e Gaia, na Primavera passada - com os dois principais actores, O'Toole e Omar Sharif, ainda vivos. E em cópia restaurada, como se tivesse sido estreado agora.
Steven Spielberg disse que sentiu uma vontade irreprimível de ser cineasta no dia em que viu 'Lawrence da Arábia' no cinema. Consigo entendê-lo muito bem.
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De Miguel a 17.12.2013 às 14:58

Quando a UCI trouxe o Lawrence da Arábia de novo às salas, fui vê-lo duas vezes, e ambas as vezes foram experiências magníficas, transcendentais! Só senti o mesmo quando fui ver o 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Fico muito triste pela morte de Peter O'Toole, um dos meus dilectos actores: a sua carreira não foi apenas o épico do David Lean, foi também The Stunt Man, Beckett, The Ruling Class e O Último Imperador, entre outros. Vendo bem, ele não teve uma grande carreira, o Lean e o Bertolucci foram de longe os maiores cineastas com quem trabalhou, e poucos filmes da sua filmografia são considerados obras-primas, mas ele certamente teve o dom de elevar a qualidade de qualquer filme apenas pela sua presença, em tudo o que fazia, ele era o centro! Nem o Richard Burton em Beckett conseguiu ofuscar a sua genialidade, eis um filme para quem quiser ver um duelo de titãs.
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De Pedro Correia a 17.12.2013 às 15:32

Tem toda a razão, Miguel. O'Toole entrou em poucos filmes muito bons. Mas nesses deixou uma impressão digital profunda. E esses serão lembrados para sempre.
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De lucklucky a 17.12.2013 às 17:15

Uma impressão analógica profunda.

P.S: sei o que quis dizer mas aproveitei para polemizar...
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De Pedro Correia a 18.12.2013 às 00:23

Gostei do trocadilho. O'Toole, que não era nada tolo, também gostaria.

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