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No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 29.11.13

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 28 de Maio de 2012

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24 comentários

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De Carlos Faria a 29.11.2013 às 10:44

Tenho assumido publicamente e já o disse a superiores hierárquicos que me ofendem ao chamar de "colaborador", um termo muito mais próximo de colaboracionista de quem está de acordo com uma via superiormente dirigida.
Sou trabalhador ou funcionário e faço esse trabalho ou exerço essa função dando o meu melhor e quero ser pago por isso e é por necessidade desse salário que contratualizei esta nesse serviço.
Colaboro em festas de freguesia, coletividades e outras ações por opção minha com todo o gosto e, neste caso, chamem-me à vontade colaborador que até gosto.
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De Pedro Correia a 29.11.2013 às 22:07

Faz muito bem em pensar assim e em falar assim, Carlos. Inteiramente de acordo consigo. As palavras nunca são neutras, nunca são inocentes. Acolher todas, mesmo as mais intoleráveis, é uma espécie de colaboracionismo, uma capitulação inaceitável.
Repugna-me sobretudo esta tentativa persistente de silenciamento de palavras como trabalho e trabalhador. Como se representassem algo indigno.
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De Vento a 29.11.2013 às 11:07

Bem, Pedro,

os jargões e/ou eufemismos vão muito bem aplicados uma vez que se trata de uma empresa construtora. Significa isto que a construtora está a edificar, isto é, o que destroem é para edificar.
Claro está que o problema não está na empresa, são as estruturas da obra que estão danificadas. Mas, graças a Deus, temos o ministro da economia para tratar disto.

Ontem ouvi-o. Sim, ao soldadinho de chumbo. E fiquei muito impressionado com a entrevista. Fiquei a saber coisas deveras importantes:

1 - Ele não tem medo de Mário Soares. Eu andava aterrorizado só de pensar que eles no governo tivessem medo de Soares. Sim, porque o medo paralisa toda a actividade. Pronto, lá tive eu uma noite de sono maravilhosa;

2 - Também fiquei a saber que o ministro é um homem de grande abertura "piscológica" e muito crítico de si mesmo. Ele reconheceu que quando andava por aí falava muito e estava errado. Mas agora que chegou ao governo fala pouco e a economia começou a crescer. Certamente que acrescentou que isto não se deve a uma acção sua específica. Mas eu fiquei sem dúvidas que a economia cresceu por causa do seu silêncio. Sim, o silêncio, como segredo, é a arma do negócio;

3 - Também fiquei a saber que afinal a economia em Portugal está uma carreta devido ao facto das pessoas de sua geração querem ser directores de empresas e que as actuais gerações já pensam em ser empresários. Bom, fiquei só com uma dúvida: Afinal o que é que é melhor para a economia melhorar? Ser director ou empresário? Sim, em época de grandes mudanças e exigências ou mudam todos ou ficamos na mesma;

4 - Também descansei mais após saber que foram criados 120.000 postos de trabalho. Esperem lá, parte (que não foi quantificada) destes postos de trabalho deve-se ao facto de os jovens terem optado pela via do empreendedorismo. Sim isto é mesmo um descanso, porque o novo empresariado português vê nesta atitude a criação do seu posto de trabalho. Valha-nos esta mudança de mentalidade! Espero que os restantes desempregados e trabalhadores em geral optem por esta via, porque a única garantia para ter um posto de trabalho é ser empresário. Não se preocupem se daqui por dois anos tiverem de dar baixa da actividade. Isto é normal, o empreendedorismo também é feito de fracassos. Continuem a tentar. Não se esqueçam de um pormenor importante: não deixem de se aproximar dos governantes, é que em Portugal os governantes reajustam e refundam a economia, e quem não se aproxima deles afunda-se. Mais ainda, rapazes e "rapazitas", se estiverem interessados em adquirir alguma empresa nas mãos do estado aproveitem agora. Sim, pázinhos, se adquirirem agora ficam com a garantia que pagam o cão com o seu próprio pêlo:

5 - Também foi bom ouvir que o crescimento para o próximo ano vai dar uma grande discussão. Sim, porque vai ser discutido se o crescimento fica na casa de 0,4% ou de 0,8%. No caso dos empresários portugueses, com excepção para os da energia, eu recomendo que ajustem os vossos orçamentos para um variável entre a queda e o tombo. E se estiverem atentos procurem créditos fora de Portugal, é que o orçamento aprovado poderá gerar muitas incapacidades para solver empréstimos das famílias e algumas empresas à banca. E se a banca aumentar o crédito mal parado a economia, para se financiar, não sabe aonde vai parar.
Mas não se procupem, temos os nossos exportadores a cobrir tudo isto.

Finalmente, agora para os novos empreendedores, não vos esqueçais de um pormenor importante: quando abrirem as empresas estejam conscientes que elas se transformam em banca de colecta de impostos para o estado. Só estou a lembrar. Não vão vocês pensar que o que entrar em caixa (atenção ao crédito a clientes!!!) é tudo para a bochecha. Até pode ser, mas para as bochechas dos credores.
Beijinhos aqui do compadre!
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De Pedro Correia a 29.11.2013 às 22:31

O que tem vindo a suceder nestes dias nos estaleiros de Viana, uma empresa que anda há anos a ser condenada à morte aos poucos, é algo profundamente chocante e dramático. Tratando-se, como se trata, da maior entidade empregadora do distrito. O despedimento colectivo já anunciado afectará milhares de pessoas numa região que conheço muito bem e a que quero como se fosse minha.
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De am a 29.11.2013 às 16:46

Caro de Vento

Com calmaria, vamos corrigir um ponto do seu comentário:

-2 - "Ele não tem medo de Mário Soares. Eu andava aterrorizado só de pensar que ELES no governo tivessem medo de Soares."

Meu caro, ele disse ELE... V. Excia. extrapolou a afirmação a todo o governo.(ELES)

Jornalisticamente incorreto.

Atenção, isto é só para lhe desejar um bom fim de semana.
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De Vento a 29.11.2013 às 21:57

Obrigado pela correcção.
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De beirão a 29.11.2013 às 19:09

Excelente texto. Límpido, transparente, pão-pão , queijo-queijo '. Não podia estar mais de acordo. Há por aí certos jornalistas que, com franqueza, são uma desgraça, uma desilusão...
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De Pedro Correia a 29.11.2013 às 21:55

Viva, Beirão. É um gosto vê-lo novamente por cá. Agradeço-lhe as palavras que dedica a este texto que entendi republicar visto que o tema (infelizmente) permanece muito actual. Ao contrário do que todos gostaríamos.
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De Panurgo a 29.11.2013 às 23:47

http://www.youtube.com/watch?v=vuEQixrBKCc
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De Carlos Azevedo a 30.11.2013 às 02:20

Subscrevo tudo.
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De Pedro Correia a 30.11.2013 às 12:37

Não tenho a menor dúvida, Carlos. Um abraço.
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De Patrícia Reis a 30.11.2013 às 10:10

Muito bom e exacta, basta fixar esta frase para ficar a pensar na vidinha: "o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual." Quando se tem carteira de jornalista há mais de duas décadas, que é o meu caso, é triste ver como o jornalismo desce de qualidade todos os dias. A verdade é esta. Dura, igualmente, mas verdade.
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De Pedro Correia a 30.11.2013 às 12:40

As sucessivas vagas de despedimentos colectivos vieram empobrecer, e de que maneira, a qualidade nas redacções, Patrícia. Por triste ironia, qualquer despedimento colectivo é notícia destacada nos jornais e nas televisões mas o despedimento colectivo de jornalistas nunca é. Como se os órgãos de informação varressem para debaixo do tapete o drama social do desemprego quando sucede no interior das próprias muralhas.
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De Rui a 30.11.2013 às 10:40

Pedro, como sabe é agora politicamente incorreto falar-se em "trabalhadores". Soa a sindicalismo, comunas, etc. Temos agora gestores, por um lado, e colaboradores, por outro, e somos todos partes iguais nos contratos, livremente estabelecidos. É lindo.
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De Pedro Correia a 30.11.2013 às 12:42

Poucos coisas me chocam tanto como a perversão ou tentativa de extinção das palavras que reflectem actos ou acções da maior nobreza, Rui. A palavra trabalho é uma delas. Acho lamentável esta cedência contínua do discurso jornalístico ao jargão tecnocrático.
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De Bruno Oliveira Santos a 30.11.2013 às 11:21

Excelente.
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De Pedro Correia a 30.11.2013 às 12:42

Obrigado, Bruno. Um abraço aí para essa valiosa Biblioteca.
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De lucklucky a 30.11.2013 às 18:32

Muito bem.

Não se pode esperar que o politicamente correcto no mundo empresarial não chegue aos jornalistas ávidos por criar um mundo novo.
As " responsabilidade sociais" das empresas "progressistas" com departamentos de comunicação que tudo controlam criam necessáriamente uma nova linguagem.

A partir do momento em que uma empresa se conforma às teses da esquerda e passa a ter "preocupações sociais" - incluí claro muito mecenato a ONG's e fundações de Esquerda - deixa magicamente de haver problemas sociais nessa empresa e os trabalhadores deixam de existir porque tal existência denota duas classes.
Como essas empresas se vêm a si próprias como "responsáveis socialmente" têm de se distinguir das normais empresas, para isso inventando uma nova liguagem para se definirem.

É a mesma razão porque a esquerda fala de problemas sociais em todos os países menos em países comunistas: Nunca se houve falar de "problemas sociais" em Cuba. É de esquerda logo como é obvio não existem
O caso mais curioso é o da China onde não existiam problemas sociais quando esta estava mergulhada na pobreza e quando mudou para um sistema não comunista e a riqueza cresceu várias vezes a Esquerda já começou a escrever sobre "problemas sociais" na China...

Nas empresas a mesma coisa.

Nenhuma campanha publicitária foi tão bem sucedida no Ocidente como o Comunismo, uma empresa que provocou milhões de mortos e ainda tem milhões de clientes.
Não é de admirar que mais tarde ou mais cedo outras empresas tenham descoberto o filão, os truques de linguagem do newspeak para a construção de uma narrativa.

George Orwell será sempre actual.
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De Pedro Correia a 01.12.2013 às 09:48

Acho muito bem que as empresas tenham responsabilidades sociais - sendo que a responsabilidade social máxima, não o esqueçamos, é a criação de emprego. Mas o discurso empresarial, através dos respectivos departamentos de comunicação, não tem de ser transplantado para o discurso jornalístico.
Estas são linhas paralelas que não devem cruzar-se.
Até porque, como bem diz, estamos perante meros "truques de linguagem". Cabe ao jornalista expurgar do seu relato noticioso estes truques em nome do rigor factual. Abdicar deste princípio é uma prática condenável a vários títulos.
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De Rui a 01.12.2013 às 23:11

Não percebi nada da opinião do luckyluki. A esquerda é que se manifesta dizendo que os patrões exploram os trabalhadores, negando essa treta propalada pelos liberais de que as os trabalhadores têm liberdade contratual. Isso são os do Blasfemias que dizem. Isso dos "colaboradores" é moda recente, amigo, sempre se falou em trabalhadores e patrões e essa é a linguagem não só da esquerda, como do mundo do trabalho e na imprensa.

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