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A prova de Crato e a longa marcha

por Rui Rocha, em 22.11.13

As principais reacções à divulgação do Guia da Prova para acesso a funções docentes tendem a ridicularizar o seu conteúdo e o reduzido grau de dificuldade que, pelos exemplos de questões apresentados, esta terá. Creio que quem assim faz apenas leu o texto mas não entendeu nem o contexto, nem o sub-texto. Vejamos. A realização da prova provoca uma enorme tensão entre os (candidatos a) professores e os seus representantes (se os têm), as instituições formadoras e o Ministério da Educação. Um cenário de contestação intensa colocaria Nuno Crato numa posição política muito delicada, obrigando-o eventualmente a recuar (com as consequências inerentes) ou a persistir com danos também evidentes. A apresentação pública de um modelo de prova facilitista esvazia uma boa parte do sentido da contestação. A coisa é tão fácil que mal se compreenderia na opinião pública que os professores se recusassem a responder: quem não sabe responder a isto não merece mesmo ser professor. E o receio de insucesso que muitos dos avaliados pudessem ter fica também adormecido, sendo provável que sintam menos resistência à participação. Uma prova fácil é, nas condições políticas actuais, a melhor garantia de que esta se realizará sem que surja uma contestação políticamente insuportável. E esse é o objectivo essencial de Crato nesta altura. O momento crítico do processo é o da realização da primeira prova. Se esta tiver lugar sem tensão significativa, a existência da prova deixará de ser contestada daí em diante. Mas, dirão alguns, sendo assim a prova não serve para nada. Errado. Ainda que tenha um baixíssimo grau de exigência, a prova deixará de fora um conjunto de candidatos que não têm um mínimo de condições para leccionar. E todos estaremos de acordo que isso será desde logo um benefício para o sistema de ensino. Mas há mais. O Guia publicado diz respeito apenas à prova de conhecimentos genéricos. Na verdade, não há uma prova, há duas. A segunda, destinada a avaliar conhecimentos específicos, realizar-se-á no final do primeiro trimestre do próximo ano. Ora, nada impede que a parte genérica da prova seja pouco exigente e que a parte específica tenha um grau de dificuldade mais elevado. Mas aí, o potencial de contestação estará esvaziado pela participação na primeira parte da prova. Mais, a(s) prova(s) terão periodicidade anual. Nada impede também que o grau de exigência vá aumentando de ano para ano. Quem ridiculariza esta primeira prova de Crato parece não entender o valor que uma longa marcha sempre tem para um antigo maoista.

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14 comentários

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De Luís Menezes Leitão a 22.11.2013 às 14:51

Ó Rui, o Grande Timoneiro deve estar a revolver-se no túmulo ao ver-te comparar a sua longa marcha, onde fez o seu exército percorrer 9.600 km, deixando para trás 28.000 homens, com esta prova facilista feita pelo Crato. Isto nem um passinho é, quanto mais uma marcha. Não vejo mérito nenhum em pedir a professores que façam exames que nem para alunos seriam adequados. Podes ver nisto uma estratégia brilhante. Eu que sou mais prosaico, vejo apenas uma esperteza saloia. E uma grande falta de respeito pelos professores.
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De Rui Rocha a 22.11.2013 às 15:09

Luís, eu não disse que era brilhante. Disse só que era uma estratégia. A única que nesta altura permitiria avançar o tal passinho, evitando deixar para trás o próprio ministro. Está mais próxima de esperteza saloia do que de outra coisa? É bem provável.
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De Luís Lavoura a 22.11.2013 às 15:19

Os antigos maoistas, todos eles, são os espécimes mais repugnantes da política portuguesa. Não me refiro, é claro, àqueles que ainda são maoistas, mas àqueles que se passaram para o PSD e compagnons de route.
Refiro-me, explicitamente, e para além do tema deste post, a Durão Barroso, Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes, Teresa de Sousa, e outros répteis análogos.
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De Equipa SAPO a 22.11.2013 às 16:04

Boa tarde,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Isabel Oliveira Dias - Portal SAPO
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De Alexandre a 22.11.2013 às 16:30

Esperemos pelos resultados, os professores vindos dos cursos superiores "independentes", que não sabem escrever (e a falar também não são muito melhores...), vão ter que mudar de vida. E muitos até são pessoas esforçadas no ofício.
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De Sofia a 23.11.2013 às 00:24

Quem for a favor dos exames aos professores, também terá de fazer exames, para ver se estão aptos a exercer a profissão ou de serem substituídos por outros melhor qualificados. Se se duvida dos professores, também temos o direito de duvidar de todos os outros cursos. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Haja humanismo, que anda tão por baixo neste país.
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De jo a 22.11.2013 às 16:36

De acordo com a União Europeia a maioria dos professores a quem se dirige a prova já deveriam estar nos quadros há muito tempo.
Já interiorizamos de tal maneira que os nossos governantes são mentirosos que quando eles inventam uma coisa destas, a única questão que se levanta é saber qual a mentira, não se há alguma utilidade nisto tudo.
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De Susana a 22.11.2013 às 17:12

Pois eu acho uma completa imbecilidade fazerem os professores que dão aulas há vários anos fazerem um exame de acesso à profissão. Ainda para mais em dia de reuniões de avaliação, às quais só se pode faltar com atestado médico... Isto só pode vir causar stress a quem tem de fazer a prova (e pagar a deslocação ao sítio onde ela se realiza, para além dos tais 20 euros) e a quem fica na escola a querer fazer a reunião de avaliação e tem de a adiar porque falta alguém ao Conselho de Turma.
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De Makiavel a 22.11.2013 às 18:08

Como sempre, a questão que se coloca é a da retroactividade da medida. Cabe na cabeça de alguém um professor, com 5, 10 anos e mais de profissão ir fazer uma prova de acesso?
Que se faça uma prova de avaliação para quem quer entrar na profissão, ainda aceito. Salvo erro, qualquer médico tem de fazer o exame da ordem para exercer, mesmo depois de ter feito 7 anos de curso, entre aulas, estágios e internatos.
Toda a gente sabe que a prova não serve para avaliar coisa nenhuma. É apenas um expediente para despedir professores.
Quanto às analogias com o passado político adolescente do ministro, isso é irrelevante. Os ex-maoistas citados por um comentador aqui, não me parece que estejam hoje na mesma linha política. Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes, só para citar dois, estão actualmente nos antípodas do discurso político. Acho que esse comentador tem algum problema mal resolvido com o maoismo português.
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De Maria a 22.11.2013 às 22:45

Se a prova como diz é facilitista, então isto não passa duma brincadeira de mau gosto com os professores que ainda por cima vão ter de pagar para a fazer. Nada, mesmo nada, justifica as referidas provas e se alguém as tem de fazer que sejam aqueles que vomitam as licenciaturas. Inspeccionem-se as universidades se têm dúvidas e fechem-nas se elas não merecerem crédito. Formar professores, fazendo-lhes crer que um dia estão aptos a leccionar, levando-os a gastar o seu tempo e dinheiro isso não. Se assim for então reinvente-se outro país, que este está muito doente.
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De Ghu a 23.11.2013 às 10:08

Não concluirá também, que deveria haver uma prova para políticos que, se aventuraram a gerir, tipo "1ª vez", os "Tugueses", fora dos partidos e bem antes de eleições ?
Para que servem as Escolas de Educação, muitas ditas Superiores?
Esta prova servirá para fazer "rankings", ou para provar o quê?
O autor deste blogue já ensinou alguma vez?
Se sim, qual o domínio de competências que transmitiu?
E quem foi ensinado, na sequencia do que interrogo anteriormente aprendeu?
Auto avaliou-se?
Não sou professor, mas um simples cidadão com a 4ª classe, que avalia avaliadores pelo que exprimem!
Daí o interesse no conteúdo deste blogue.
cmprmnts
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De Ana Luisa a 23.11.2013 às 10:09

O que é óbvio nesta estratégia do governo é mostrar que quem manda são eles e que os professores só têm que baixar a cabeça, pagar para dar aulas( como se muitos já n o fizessem), esquecer que gastaram dinheiro a tirar um curso para ensinar e provar aos Encarregados de Educação que a Escola Pública tem os dias contados...porque estas perturbações no sistema que leva os professores a indignarem-se , a protestar e a fazer greves é só para desviar as atenções da quantidade de dinheiro que tem ido para o privado ( já depois da Ministra Isabel Alçada ter efectuado decisões de acabar com essas regalias), dos anos consecutivos em que são efectivados um nº mínimos de professores no quadro, em que já foi provado que é na escola pública que se encontram os melhores professores, a situação altamente precária dos professores contratados e a redução drástica do governo nas disciplinas de apoio, área escola, formação Cívica e, especialmente, das disciplinas artísticas .Colocando milhares de professores, que já deviam de estar no quadro ou que não têm a mínima possibilidade de começar a carreira , completamente fora do sistema e para rematar ainda consegue extorquir dinheiro a esses otários. Realmente a estratégia desta prova é brilhante, só n vê quem n quer.

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