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Claro, conciso e compreensível

por Pedro Correia, em 22.11.13

 

Tantas teorias já li até hoje sobre jornalismo. E nenhuma delas consegue deslustrar a mais clássica de todas: o jornalista deve escrever de forma clara, concisa e compreensível sobre acontecimentos a que assistiu ou que foram presenciados por testemunhas idóneas. Tudo o resto são variações a esta regra de bronze da profissão que tem sido exemplarmente aplicada por várias gerações de jornalistas.

Lembrei-me disto há dias, ao saber da morte de Tom Wicker, o enviado especial do New York Times a Dallas para cobrir a visita que o presidente John Kennedy ali fez a 22 de Novembro de 1963. Previa-se um serviço de rotina: multidão entusiástica nas ruas e palavras inspiradoras do inquilino da Casa Branca, que já pensava na campanha para a reeleição. Mas um jornalista nunca deve encarar nenhum serviço como rotina: a qualquer momento, em qualquer lugar, a História irrompe em letras de ouro ou letras de sangue. Compete-lhe estar no seu posto, como escritor do primeiro rascunho das enciclopédias e dos compêndios do futuro. Tão perto quanto possível do acontecimento, como ensinou Robert Capa, o mais célebre fotojornalista de todos os tempos. "Se a fotografia não ficou boa foi porque não estavas suficientemente próximo", sublinhava.

Tom Wicker estava no lugar certo, a bordo de um autocarro que integrava a caravana presidencial, quando dois dos três tiros disparados pela carabina de Lee Oswald mataram Kennedy, por volta das 12.30 desse fatídico dia. E o despacho que pouco depois enviou para o New York Times, a partir de uma cabina telefónica do aeroporto de Dallas, destacou-se como uma pequena obra-prima de rigor e concisão.

 

Eis as primeiras linhas:

"O Presidente Kennedy foi hoje alvejado e assassinado por um homicida. Morreu devido a uma lesão no cérebro causada pela bala de uma espingarda contra ele disparada enquanto percorria o centro de Dallas em caravana automóvel. O vice-presidente Lyndon Baines Johnson, que seguia no terceiro carro atrás de Kennedy, foi investido como 36º Presidente dos EUA 99 minutos após a morte do antecessor."

 

Nada de floreados, nada de torrente emocional, nenhuma concessão ao sentimentalismo. O jornalista encheu o seu relato de informação -- os substantivos não cediam espaço aos adjectivos nesta prosa clara e tensa, como o disparo de uma objectiva fotográfica. Isto apesar de naquele dia Wicker não ter visto partir apenas o presidente: perdeu também alguém que lhe era muito próximo e com quem conviveu diariamente durante três anos -- primeiro como repórter da campanha democrata de 1960, depois como correspondente credenciado na Casa Branca.

Esta peça jornalística viria a ser estudada em cursos da especialidade, contribuindo para a fama de um repórter que tinha como ambição máxima continuar a escrever notícias. E assim foi até se aposentar, em 1991. Faleceu agora, aos 85 anos. Com a convicção, há muito reforçada, de ter sido observador em primeira mão de um momento irrepetível -- e de se ter mostrado à altura dele enquanto cronista do imediato. Jornalismo é isto.

 

Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 22 de Dezembro de 2011

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6 comentários

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De Pedro Correia a 24.11.2013 às 17:10

Pois, mas jornalismo não é isso. Se fosse, qualquer pé de microfone seria jornalista.

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