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Tanto barulho para nada. Rui Rio arrisca-se a decepcionar uma vez mais aqueles que insistem em chamá-lo ao salão. Numa entrevista concedida em horário nobre à televisão pública, o ainda presidente da câmara do Porto voltou a aflorar o perigoso discurso antipartidos (como se não fosse membro de um, tendo sido aliás seu vice-presidente) com expressões de profundo nojo pela vida política (como se não desempenhasse há mais de duas décadas funções políticas).

Expressões como esta: "Sinto-me cada vez mais longe desta forma de fazer política." E esta: "Isto em que nós vivemos já nem sei bem se é uma democracia."

Palavras dignas de qualquer dos habituais intervenientes da Opinião Pública da SIC Notícias.

 

Seria de esperar algo um pouco mais profundo do ex-vice-presidente da JSD, ex-secretário-geral do PSD, ex-vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e ex-vice-presidente dos laranjinhas, que à beira de concluir 12 anos de mandato na Avenida dos Aliados fala como se não tivesse partido e recomenda - não recomendando - uma via alternativa. "Há um movimento do topo da sociedade portuense para a existência de uma candidatura independente, fora dos partidos", destacou, apontando em direcção de Rui Moreira sem no entanto ter o desassombro de anunciar que lhe destina o voto. A falta de clareza de alguns protagonistas é um dos principais problemas da nossa vida política, como há muito sustento. Incluindo aqueles que, como Rui Rio, tanto gostam de apregoar frontalidade.

De caminho, nesta entrevista, o autarca disparou contra Luís Filipe Menezes, indicado pelo PSD para concorrer à sua sucessão. Nada de admirar, dadas as públicas divergências que ambos mantêm há longos anos. Mas Rio - apresentado pela RTP como "um homem cuja palavra pode ser decisiva para o resultado final" - caiu num lapso: por duas vezes falou como se Menezes tivesse a eleição assegurada. A primeira quando disse isto: "Não posso apoiar, de forma nenhuma, quem vai fazer o contrário daquilo que estive a fazer." A segunda, aqui: "Tenho a obrigação ética de me demarcar muito claramente daquilo que eu sei que vai destruir tudo aquilo que foi feito [no Porto]." Tem a certeza de que Menezes vai fazer e vai destruir, doutor Rio? Essa forma verbal indicia que já dá por garantida a vitória do seu rival.

 

E da entrevista conclui-se o quê? Que Rio tenciona abandonar a política, ingressando na actividade privada, porque precisa de "ganhar um pouco mais pois os salários na política, ao contrário do que as pessoas pensam, são muito baixos".

Tem todo o direito de o fazer, como é óbvio. Mas afinal, com o actual autarca a dissolver-se em breve na nossa linha do horizonte, quem poderá protagonizar a regeneração por que tanto ansiamos na política portuguesa?

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10 comentários

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De Anónimo a 01.08.2013 às 20:17

Na realidade, Pedro, eu também o acompanho na rejeição pela forma como se faz política em Portugal. E esta forma é tão profunda que se nos sentarmos num café, numa biblioteca, num espaço público, no átrio de uma igreja, ou na casa de uma qualquer pessoa verificamos que afinal a forma como se faz política em Portugal é a política do dia-a-dia.
Se me permite agora eu paro, não vá eu começar a fazer essa política.
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De Pedro Correia a 02.08.2013 às 11:29

Mas é natural que pense e sinta dessa maneira precisamente por não ser político(a). Algo muito diferente é ouvirmos esse mesmo discurso da boca de alguém que há vinte e tal anos não faz mais nada senão política, que desempenhou as mais altas funções partidárias desde os tempos da 'jota' e fala afinal como se nunca se tivesse movido nesse mundo. Vir agora, no final do mandato autárquico, afirmar que já nem sabe bem se vivemos em democracia é algo que não compreendo.
A regeneração da política, de que alguns falam, deve começar no próprio discurso dos políticos - rejeitando desde logo a tese fácil de que estamos mal, em grande parte, devido ao funcionamento dos partidos. Não existe sistema democracia representativa sem partidos. E, tanto quanto sei, não existe regime menos mau do que a democracia representativa. As coisas são como são.
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De Anónimo a 03.08.2013 às 13:26

Pedro, dou-lhe parcialmente razão no comentário que faz. Todavia devemos compreender que a nossa educação, em todas as gerações, é fundamentalmente catoniana. Acresce a este atributo o sentido repressivo da mesma, pouco respeitadora e pouco respeitável. A nossa formação incide também sobre aspectos morais, muitas vezes uma falsa moralidade, que tem determinado o nosso falso proceder. Esta educação, de vínculo também religioso, faz-nos pensar que cada um, ou cada clã, é uma ilha de virtudes de onde deve surgir a Luz que reinará sobre todos os outros. Mas a história revela que esta é uma luz de conflitos, é uma espada de dois gumes que fere o outro e a nós mesmos. Neste sentido o problema reside na não descentralização do eu com vista a melhor acolher o outro eu.
Adicionalmente, ainda não comprendemos que a renúncia é o que nos permite o ganho. A renúncia consiste em morrer o velho para que cresça o novo (S. Francisco dizia: é quando morro que ganho a vida).
Assim sendo, não nos espantemos que os filhos paguem por erros de seus pais; e os filhos não pensem que são somente herdeiros do erro e isentos da culpa na propagação dos mesmos. Não, são tão culpados quanto os anteriores, porque cada homem também é responsável por sua própria história.
Temos de ter coragem para admitir que nossos pais erraram, por ignorãncia e transmissibilidade do erro, e que nós mesmos somos produtos desse erro: "meu pai, minha mãe e meus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus", disse Jesus. Ele não tinha nada contra os pais e os irmãos, mas contra o erro herdado e consentido. Mais ainda: "quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do reino", isto é, também não podemos estar a revolver no erro, mas, compreendodo-o, seguir em frente sem nos sujarmos mais com ele.
Para que isto ocorra é necessário pedirmos o Espírito de Verdade, aquele "Espírito que nos recordará tudo quanto nos foi dito e nos ensinará algo de novo", mas também esse mesmo Espírito que nos "ensinará sobre o que é o pecado".
O pecado (errar o alvo) não se combate com a moral, mas com o Conhecimento: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos Libertará".
Todos somos políticos.
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De Pedro Correia a 04.08.2013 às 16:02

Gostei muito desta sua reflexão, designadamente quando chama a atenção para o carácter essencialmente "catoniano" (de Catão) da nossa educação cívica. Carácter que já se evidenciava na obra-maior da nossa literatura, 'Os Lusíadas', com a aparição dessa figura a diversos títulos notável que é o Velho do Restelo.
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De Carlos Cunha a 01.08.2013 às 20:58

o rio não é super, mas é muito bom que ande por aí...
porque mesmo quando ele diz que quer ir ganhar a vida, é diferente e melhor que os outros da política...porque não vai ser o partido e o governo do partido que lhe vai dar o lugar de administrador ou um lugar de luxo na UE...vai para o privado em resultado do mérito do seu desempenho (político)...enquanto o menezes, por exemplo, se sair da política vai para administrador de qualquer coisa do estado, se o psd estiver no governo. se o psd não estiver no governo vai arranjar um lugar de compadrio no privado.
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De Pedro Correia a 02.08.2013 às 11:35

Ninguém lhe nega o direito a andar por aí. Ainda havemos de vê-lo também como comentador televisivo - é esse, aliás, o destino de grande parte dos políticos do PSD. Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes, Marques Mendes, Nuno Morais Sarmento, Fernando Seara, Luís Filipe Menezes, Pacheco Pereira, António Capucho, José Luís Arnaut, Paulo Rangel... Todos são ou já foram comentadores.
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De Carlos Cunha a 02.08.2013 às 20:27

e, não fosse do boavista, até poderia participar num desses painéis de políticos comentadores da bola, tipo seara & cia, mas até nisso o raio do homem está longe desta forma de fazer política...
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De Pedro Correia a 02.08.2013 às 20:56

Esse aspecto - não tenho a menor dúvida - só o favorece em relação a outros, que usam a todo o tempo o futebol como trampolim político.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 02.08.2013 às 10:36

A forma de fazer politica em Portugal, é a forma de fazer politica dos portugueses. Há abundante bibliografia sobre o assunto desde pelo menos há 160 anos.
Mas há politicos que apesar de terem funcionado, e muito bem como é o caso de Rio, dentro do sistema, gostam de se demarcar dele, e depois dizem tontarias como "já nem sei bem se vivemos numa democracia".
Politicos experientes como Rui Rio e Paulo Portas, por vezes, e vá lá saber-se porquê, tomam atitudes que comprometem quase irremediavelmente o seu futuro politico, como é o caso desta entrevista de Rio, e da demissão de Portas que atirou o CDS, não para a dimensão do partido do táxi, mas para o partido da lambreta do Mota Soares, que desconfio, será suficiente para transportar o próximo grupo parlamentar do CDS.
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De Pedro Correia a 02.08.2013 às 11:42

Há uma certa falta de clareza em políticos que se dizem claros, directos e desassombrados que me deixa sempre perplexo. Se um político como Rio entende ter qualidades superiores aos demais, na sua família partidária, por que motivo não se candidatou até hoje à liderança do PSD com a mesma ousadia que o levou há 12 anos a concorrer à presidência da câmara do Porto, quando ninguém - absolutamente ninguém - lhe vaticinava a vitória? Ocasiões não lhe faltaram, gente a empurrá-lo nessa direcção também não. Mas no último momento tem existido sempre um factor inibidor que o impede de dar esse passo. O discurso antipartidos e quase antipolítica funciona como sucedâneo dessa candidatura que tarda em concretizar-se. Tal como aqueles circunlóquios em torno da "candidatura independente" ao município portuense funcionam como 'ersatz' do apoio público e frontal que fica por conceder.

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