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IPO

por Ana Vidal, em 19.07.13

Olho as pessoas à minha volta e sinto-me em casa. Desta vez não é por mim que franqueio o portão, não há hesitação ou angústia que me tolham os passos. Mas será sempre por mim que voltarei. Uma estranha nostalgia faz-me correr a revalidar o cartão, expirado há anos, que comprova a pertença e me dá a ilusão de uma garantia de segurança. De salvação. Quem por cá passa ou mora algum tempo sabe do que falo: fica-se íntimo, solidário, cúmplice de uma espécie de partilha desesperada que nos une para o resto da vida, valha esse prazo o que valer. Já quase não há caras familiares mas todas as caras são demasiado familiares. É meu pai o velho rabugento que mede forças com a cadeira de rodas, zangado com o mundo. É minha irmã a mulher magra, ainda coquette, que olha furtivamente em volta e ajeita a peruca loira, na esperança de que passe por cabelo verdadeiro. É minha filha a menina de olhar triste que brinca à sombra de uma árvore, lenço de cores berrantes amarrado a cobrir a ausência dos caracóis sedosos. Também eu já caminhei sem destino por estas ruas, sufocando nas entranhas um medo irracional. O maior pesadelo não é a dor física, é o terror. Também a mim já pareceram hostis estes muros, inóspitos estes bancos de jardim. Já fui aquela mulher que vejo agora no bar, agarrada à chávena de café como ao último e supremo prazer a que tem direito. Já me aturdi com a vozearia dos lamentos nas salas de espera. Para calá-los já fui bobo da corte, com graças estafadas para exorcizar fantasmas e arrancar sorrisos a quem se sente no corredor da morte, transido pelo medo e pela dor.  Já deixei lágrimas, suspiros e sorrisos nestes corredores, primeiro sombrios, depois esperançosos, finalmente libertadores. O tempo é sábio, esbate as mágoas e deixa-nos só as boas memórias. Foi aqui que aprendi a ler nas entrelinhas, a interpretar olhares mais do que palavras, a fintar as trevas, a saber esperar. Foi aqui que encontrei a maior condensação de humanidade que alguma vez me foi dado conhecer. Foi aqui que me questionei sobre o sentido da vida, o sentido da morte, e foi aqui que olhei ambas de frente. Estas paredes puseram-me à prova e revelaram-me o melhor de mim. Como posso sentir por elas alguma coisa que não seja gratidão?

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46 comentários

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De Anónimo a 19.07.2013 às 20:53

Ó Aninha, eu logo vi que quando a mirei naquela fotografia tinha sido o Bom Deus a dar-me um vislumbre do paraíso. Num chore mais, num chore que eu estou aqui.
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De Ana Vidal a 19.07.2013 às 21:17

Não choro nada, Anoniminho. Pelo contrário: hoje fui ao IPO e soube-me bem, por muito estranho que isto possa parecer. :-)
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De Gui Abreu de Lima a 19.07.2013 às 23:18

Belo texto. Vivi 2 anos nessa rua, nunca dormi bem. E pirei-me da frente daquela morgue.
Ana, cuidado com este Anómino :)
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De Ana Vidal a 20.07.2013 às 20:47

Gui, eu sei que é difícil (senão impossível) fazer alguém entender as razões pelas quais tenho esta relação afectuosa com o IPO. Sobretudo alguém que nunca foi habitante daquele universo, felizmente a maioria das pessoas.
Quanto ao nosso anónimo, ó agridoce, não me parece muito ameaçador... :-)
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De Anónimo a 21.07.2013 às 11:48

Ó sua @gri, como se atreve a denegrir as minhas asinhas angelicais? Como é possível que um rapazito amargurado com a dor expressa pela minha Aninha seja submetido a tão violenta difamação!?
Aninha,
pois atão eu fecho os olhos a esta inesperada literatura que busca manchar o mê peitito já de si fragilizado, e paso como el Condor:

http://www.youtube.com/watch?v=pey29CLID3I

Aninha, obrigadinho por sua firme defesa em prol da restauração de minhas penas. E a partir de hoje fico de mal com a @gri.
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De Ana Vidal a 21.07.2013 às 12:26

Não fique, anoniminho, que isso é tarefa impossível.
E obrigada pelo voo do condor.
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De Gui Abreu de Lima a 22.07.2013 às 22:56

"Tarefa impossível", Anoniminho (só para escrever, Jesus)... não denegri nada. "Fica de mal" o quê? Presumiu, subestimando-se, é o que foi. "Cuidado" dá para muita coisa... Mas deixo-lhe 4 beijos, a minha técnica para amuados que podem amuar :)
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De Anónimo a 26.07.2013 às 02:05

Ó minh@ doce,
só hoje pude vir aqui, pois andei pelos caminhos das agruras.
Quão feliz me fez. Tinha ficado tão doentinho. Tome lá, doce:

http://www.youtube.com/watch?v=-Sz0dsIWgug



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De Patrícia Reis a 19.07.2013 às 23:39

como eu te compreendo. Tens razão, a gratidão é o que é possível. Beijo
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De Ana Vidal a 20.07.2013 às 20:48

Beijo, Pat. Compreendes-me, eu sei.
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De Mammy a 20.07.2013 às 00:25

Partilho esse sentimento para com essas paredes, apesar de ainda não me ter conseguido afastar tanto da dor. Cada vez que cruzo esses muros revivo um pouco das angústias de outrora. "Será que vou voltar à mesma confrontação com a morte?" pergunto-me sempre que me vejo entre essas paredes. "Será que vou voltar a estar nesta sala de espera para mais umas sessões de quimio?". A dúvida continua tão perto...
Mas sinto igual a intimidade, solidariedade, familiaridade para as pessoas que por lá andam, de que fala. Quem por ali vive, nunca se vai embora!
Beijinhos fraternais! <3
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De Ana Vidal a 20.07.2013 às 20:53

Mammy, essa pergunta está sempre no ar. Sempre estará. Mas o simples regresso à incerteza (não a tem toda a gente, afinal?) já é a normalidade, e a normalidade é um verdadeiro luxo. Viva o dia a dia e procure não pensar muito nisso, é o único conselho que sei dar-lhe. Beijo solidário. :-)
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De JdB a 20.07.2013 às 11:24

Bom dia vizinha.
Já lá vão quase onze anos quando, numa conferência internacional de associações de pais de crianças com cancro, ouvi uma "sobrevivente" (as aspas revelam o menos agrado que tenho pela palavra, não pela condição) falar da sua experiência, do que a doença tinha feito por ela em termos de sentido para a vida, da relativização das coisas, etc. Era uma adolescente que falava intensamente sobre um período intenso. No fim, perante um óbvio incómodo de todos os pais que ali estavam, disse ingenuamente: "se pudesse voltava a trás e passava por tudo de novo".
Sou o que sou, e muito o devo a um período em que as visitas ao IPO eram dolorosamente regulares. Aqueles nove meses de 2001 moldaram-me um nova consciência, um novo olhar, uma outra atenção ao que me rodeia. Talvez me tenham moldado apenas um desafio de diferença, porque não posso presumir que tenha mudado.
Não sei se concordo com o seu texto, embora perceba o que está por trás. Não sei se gratidão é a palavra, porque não sei - nem ninguém saberá, felizmente - como se mencionaria esse período se o desfecho fosse negativo.
Alonguei-me, como sempre. Mas é o gosto de delitar de opinião...
Um beijo.
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De Ana Vidal a 20.07.2013 às 21:08

Querido vizinho, eu bem sei que para si nada disto faz muito sentido, e tem muita razão. Claro que eu também não sei como falaria do IPO se o desfecho tivesse sido outro, ou melhor, sei que nem discurso haveria. É fácil falar em reconciliação com aquela casa quando tudo corre bem, é demasiado fácil. Mas peço-lhe que entenda também esta gratidão como um reconhecimento pela forma insuperável como sempre fui tratada lá, não só tecnicamente como, sobretudo, em termos humanos.
Alongue-se por aqui sempre que lhe apetecer, é um gosto. Um beijo.
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De xico a 20.07.2013 às 12:16

Como eu compreendo essa "estranha nostalgia". Um tempo em que nada tinha importância excepto o jogo da bola de uns miúdos, ou as flores a desabrochar no jardim, ou o amor dos amigos que sentíamos à nossa volta. Um texto belíssimo que me fez chorar. Um abraço.
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De Ana Vidal a 20.07.2013 às 21:10

Outro para si, Xico, e desculpe se lhe lembrei coisas tristes.
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De Pedro Correia a 21.07.2013 às 07:05

Um dos textos mais tocantes de sempre no DELITO, Ana. Um beijinho.
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De Ana Vidal a 21.07.2013 às 12:26

Outro, Pedro. Obrigada.
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De Equipa SAPO a 21.07.2013 às 10:49

Boa tarde,

O seu post está em destaque no SAPO.pt .

Obrigada
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De Ana Vidal a 21.07.2013 às 12:27

Eu é que agradeço, Sapo.
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De pimentaeouro a 21.07.2013 às 18:46

Foi operado ao cancro da próstata prostatectomia radical) no Hospital Polido Valente em 2.005.
Faço um espécie de químio em comprimidos.
Tive que aprender a viver com a angustia na solidão, e segundo as estatísticas tenho mais dois anos de vida.
Como se trata de uma média posso morrer antes ou depois dos 10 anos. O acaso, o grande fazedor de vidas decidirá.
O seu texto é muito emocionante, gostei.
Cuimprimentos.
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De Ana Vidal a 21.07.2013 às 22:34

Esqueça as estatísticas e as médias e procure manter o ânimo, é o que posso dizer-lhe. Se há campo em que a evolução é rápida esse campo é a medicina, todos os dias se descobrem novos tratamentos e novas abordagens. Ainda sobre estatísticas posso contar-lhe um episódio passado comigo no IPO, logo nos primeiros dias: depois da chamada "consulta de grupo", um dos momentos mais assustadores de todo o processo, fiz várias perguntas ao médico (sou incapaz de ficar calada nestas situações, quis saber tudo) que me olhou de frente e foi sincero na resposta, dando-me os números estatísticos para o meu caso. Depois disse-me isto, que nunca mais esqueci: "também está na sua mão ficar no grupo que se salva ou no que não se salva. E esse papel é só seu, não há médico que possa fazê-lo por si. Faça a sua parte e deixe o resto connosco". Foi o que fiz e cá estou, contrariando as piores estatísticas. Até quando? Não sei, mas há alguém que o saiba com certeza, a não ser os suicidas? Boa sorte para si, e se o meu texto o ajudou fico muito contente. :-)
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De pimentaeouro a 23.07.2013 às 00:05

Agradeço as suas palavras de insentivo.
Quando fiz a terceira operação à prostata tinha 69 anos e o cirurgião informou que se tivesse mais um ano não fazia a operação e teria que recorrer à quimio . Fui operado no limite da resistência do corpo.
Sei que as estatísticas são ... estatísticas mas reportam-se a dados reais.
È a primeira vez que escrevo sobre este assunto: procuro que os fantasmas não saiam do armário.
Também sei que falar de fantasmas não chega, é preciso que alguém compreenda.
Voltando às estatísticas , não me preocupa a quantidade de anos que possa ter mas a qualidade desses anos. Quantidade e qualidade podem não cooperar e então a vida tem pouco sentido.
Cumprimentos.
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De Ana Vidal a 24.07.2013 às 01:38

Falar (ou escrever, se não tiver quem o ouça) é importante, não deixe de fazê-lo. Falar destas coisas abertamente retira-lhes uma parte do domínio que exercem sobre nós, como se de alguma forma as desvalorizasse. Sei que esse equilíbrio entre a quantidade e a qualidade de vida pode ser muito difícil, mas não se esqueça de que, por alguma razão, os nossos parâmetros e exigências se vão alterando com o tempo e com as circunstâncias. Enfim, não quero de forma nenhuma parecer doutoral num tema desta natureza nem tenho o direito de dar receitas a ninguém. A mim as coisas correram bem, pelo menos até agora, o que faz de mim uma felizarda. Desejo-lhe o melhor, isso sim. :-)
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De LM a 21.07.2013 às 19:34

Já passaram 25 anos, na altura acho que nem percebi bem o que se passou. Hoje ao olhar para trás não deixo de pensar em dois jovens pais, que estiveram sempre presentes, e eles sim com a consciência das regras do jogo.
Hoje sou mais velho do que eles eram à data. Tenho um mundo mais evoluído, com tecnologias, com comunicações, com transportes, com melhor emprego que o deles, com mais conhecimentos, com mais formação académica... Mas uma coisa eu não tenho... A coragem e determinação!
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De Ana Vidal a 21.07.2013 às 22:42

LM, claro que as teria se precisasse delas. É sempre assim, acredite.
Felizmente não faço ideia do que é ver um filho passar por isso, deve ser duríssimo. Ainda bem que tudo correu bem para si e para eles. :-)

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