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Um comovido adeus ao padre Lancelote

por Pedro Correia, em 20.06.13

 

Nos meus anos de permanência em Macau, conheci diversas pessoas - oriundas das mais variadas paragens - cuja história dava um filme. Uma dessas pessoas verdadeiramente inconfundíveis era o padre Lancelote Rodrigues. Filho de um português, nascera há 89 anos em Malaca, onde uma comunidade de lusodescendentes ainda se orgulha de honrar o nosso idioma e as nossas tradições, mais de 300 anos após o fim da soberania portuguesa naquele que é hoje um pequeno estado da Federação Malaia.

Lancelote rumou nos anos 40 de Malaca a Macau, onde estudou no seminário de São José, naquela época um centro de formação por excelência na Cidade do Nome de Deus e que durante gerações foi um pólo difusor da cultura portuguesa no Oriente. Tornou-se sacerdote mas nunca ninguém o viu encerrado na sacristia: sociável e folgazão, protagonista de várias tertúlias macaenses, cidadão de corpo inteiro, ajudava os pobres seguindo os preceitos evangélicos e foi um bom samaritano para todos os refugiados que durante mais de três décadas demandaram o território que Portugal administrou no sul da China até Dezembro de 1999.

Muitos dos que trocaram Xangai por Macau no início da década de 50, deixando todos os seus bens naquela cidade após a tomada do poder por Mao Tsé-tung, lhe devem um gesto solidário enquanto capelão. O mesmo sucederia no final dos anos 70, quando cerca de 30 mil boat people fugidos do Vietname demandaram a costa macaense, tendo sido acolhidos em Ka-Hó, na ilha de Coloane, e confiados à tutela atenta e amiga deste padre poliglota, que auxiliava o próximo sem fazer proselitismo religioso, intercalando o português, o inglês e o chinês nas suas frases com a facilidade característica dos verdadeiros poliglotas.

Há pessoas que têm o dom de espalhar alegria em seu redor: pensei nisso muitas vezes ao escutar a gargalhada bem sonora do padre Lancelote, contagiante como poucas. Ou ao ouvi-lo cantar, com o seu vozeirão bem afinado, acompanhado à guitarra, em longos serões de divertido convívio no Clube Militar, na pousada de Coloane ou num dos típicos restaurantes chineses da Rua da Felicidade.

Soube hoje que este homem bom faleceu segunda-feira, após internamento no hospital Kiang Wu. Deixou seguramente Macau mais triste. E Portugal, com esta morte, perdeu um dos melhores embaixadores de que há memória em terras do Oriente.

 

Foto: jornal Ponto Final

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10 comentários

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De Pedro Correia a 21.06.2013 às 09:13

Foi uma pessoa que me marcou. Como tantas outras que conheci em Macau.

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