Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Estranhos víveres

por Teresa Ribeiro, em 17.06.13

Os talos dos agriões, antes tenros e delgados, agora concorrem com os das nabiças, que por sua vez apresentam folhas tão largas e tão espessas que mais parecem as das couves, embora a sua configuração menos recortada e longilínea lembre a dos espinafres. As alfaces também mudaram de aspecto. Tornaram-se enormes e de folha grossa. Os morangos estão cada vez maiores e as maçãs, muito polidas, dobraram o volume. As nêsperas, as ameixas e os pêssegos  cresceram, mas à razão inversa do seu perfume e sabor. Fora do frigorífico não aguentam mais de dois dias. Algumas espécies de fruta desapareceram. Lembro-me que quando era miúda me deliciava com as pêras pérola e as carapinheiras, de sabor tão característico, hoje praticamente extintas.

O feijão verde alargou e já nem lembro em que época do ano chegava aos mercados quando apenas se consumia o que a terra dava em cada estação. As cebolas, por exemplo, já não são as mesmas. Apodrecem com manha. Por fora perfeitas e nas camadas interiores putrefactas. As batatas também  enganam. Muitas parecem sãs mas estão pôdres. Diz que é dos químicos. Até o pão já leva aditivos, por isso é que no dia seguinte se transforma numa borracha inodora.

Se os produtos da terra mudaram, dos alimentos de origem animal é melhor nem falar. Os ovos andam estranhos, demasiado quebradiços e com corantes a pintar as gemas. O peixe, contaminado pela poluição das águas, não se recomenda. O melhor é consumir o de plástico, alimentado a ração. A carne, já se sabe, provém de animais criados à pressão, sob stress tão intenso desde que nascem até que morrem que só podem sofrer de grandes perturbações. Alimentamo-nos pois de animais loucos, a que dão antibióticos para se aguentarem dentro dos padrões considerados próprios para consumo até ao dia do abate.

Ingeridos diariamente mesmo que em pequenas doses ao fim de umas décadas os químicos às vezes viram químio. Há cada vez mais informação sobre isto.

Chamam-lhes frescos no supermercado, para distingui-los dos produtos embalados. Frescos como a indústria que os pôs.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


6 comentários

Sem imagem de perfil

De José Catarino a 17.06.2013 às 15:58

Por tudo isto, nada como cultivar os alimentos possíveis. Com grandes vantagens adicionais, como a ocupação útil do corpo e da mente. Curiosidade: tenho uma pereira carapinheira, herança do meu pai. Coitada, nem sempre devidamente cuidada, teima em sobreviver e produzir. Mas, confesso, não aprecio muito essas pêras..
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 17.06.2013 às 16:35

Quem me dera ter possibilidades de cultivar os meus próprios alimentos, mas em varandas... não dá
Quanto às carapinheiras, ai se eu tivesse uma árvore dessas só para mim...
Imagem de perfil

De Perplexo a 17.06.2013 às 16:21

Como nasci em 1945, logo no arranque dos bayboomers, ainda me lembro de como era feita a cozinha da quinta, onde as criadas picavam couve e misturavam com milho e uma farinha para dar às galinhas. Os alguidares eram de barro, etc. (Não vou ficar aqui horas a desdobrar imagens de singeleza campestre...) O que queria dizer era. 1) os alimentos mudaram muito no sabor, cor e cheiro. 2) nós habituámo-nos.
Isso mesmo, o nosso organismo vai-se adaptando. Quando era miúdo bebia o leite tirado da vaca, ainda quente e cheio de nata. Aqui há poucos anos fui visitar uma quinta e deram-me leite "integral", já sem a nata, mas infinitamente mais próximo do natural do que aquelas caixas que bebemos agora. Pois fiquei uma semana doente.
É uma penanão ter sido possível conservar os alimentos de antigamente, para vermos as diferenças. Quer dizer, não podemos descongelar uma carne de 1750 para saber como era... Mas o vinho, por exemplo, mudou muito. Até o pão mudou em 20 ou 30 anos. Mas o nosso corpo adapta-se!
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 17.06.2013 às 16:45

O corpo adapta-se até que ponto? Não falo de produtos naturais (basta pensarmos nas diferenças de hábitos alimentares entre culturas para percebermos porque um russo tem mais tolerância à vodka ou um indiano suporta melhor o picante do que nós). Falo dos químicos: fertilizantes, pesticidas, conservantes, aromatizantes, antibióticos, etc que ingerimos todos os dias, sem excepção, em pequenas doses. Ao fim de décadas qual o reflexo destes hábitos, que nos são impostos, na nossa saúde? Há cada vez mais estudos a relacionar hábitos alimentares modernos com certos tipos de cancro.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 17.06.2013 às 19:07

Parabéns pelo excelente post.
Infelizmente, escreveu sabiamente aquilo que tantos de nós pensamos...
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 18.06.2013 às 12:59

"Sabiamente" é exagero seu, mas obrigada.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D