Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

Imagem de perfil

De João Campos a 12.06.2013 às 22:03

Heh, boa - da space opera para a história alternativa.

Pela descrição, diria que este "Fatherland" vem muito na linha de "The Man in the High Castle", do Philip K. Dick. Ainda não li esta tua sugestão, mas quando reler o do PKD - na altura não me convenceu de todo - talvez lhe dê uma oportunidade. O tema é vastíssimo, e permite algumas histórias bem interessantes.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 12.06.2013 às 22:35

Atendendo à excelente máquina publicitária nazi, aquilo que aconteceria provavelmente é que no final da Guerra, os alemães iriam descobrir os campos de holocausto americanos, ingleses, e soviéticos.

Todos os europeus ficariam escandalizados.
Perguntariam, como seria possível que os anglo-saxões tivessem sido capaz de tamanha barbaridade?

Porque, havendo um controlo de informação, consegue-se vender a história que se quiser, e os alemães nazis sabiam disso, muito bem.
Foi aliás isso que os levou ao poder.

Essa era a maneira mais inteligente de se livrarem do seu rasto de horror, e os alemães eram inteligentes.
Admira-me é haver sempre versões romanceadas mais simplistas.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D