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por Teresa Ribeiro, em 06.05.13

O caso do espanhol a quem foi retirada uma prótese do joelho por falta de pagamento permite-nos obter um plano aproximado do futuro do SNS. Como o sapo de momento não me deixa fazer o link, espreitem assim: www.publico.pt/mundo/noticia/hospital-espanhol-retira-protese-a-doente-por-falta-de-pagamento-1593472. E digam lá, ó amigos anti-estatistas, se vos parece bem.

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23 comentários

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De da Maia a 06.05.2013 às 16:31

Também é de perguntar onde anda a ética dos médicos que lhe retiraram a prótese?

Faz parte do juramento de Hipócrates:
"Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém."

Em que ruas da amargura andam as Ordens profissionais que consentem tais regressões civilizacionais?

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De Teresa Ribeiro a 06.05.2013 às 17:01

Muito bem observado, da Maia.
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De jpt a 06.05.2013 às 16:37

Hum .....
não. Aproveito isto para deixar memória familiar, relativa ao meu pai, estatista radical, marxista-leninista desde a adolescência nos tempos da Guerra de Espanha, daqueles de antes quebrar que torcer, dir-se-ia que "cunhalista" se não seguisse o mandamento de Cunhal de não haver "culto da personalidade" (sim, aquela ligação paradoxal dos velhos pc's com o seu líder). Com isto tudo total defensor da medicina gratuita, como é óbvio.
No ocaso da sua vida, com complicações respiratórias já graves, adoeceu e foi para o hospital. Voei para aí para o acompanhar. Encontrei-o no Pulido Valente, numa ala (nova, agradabilíssima) da pneumologia. Médicos excepcionais, enfermeiras fantásticas (e bonitas, resmungava-lhe eu, sempre a coligarmos ironias), tecnologia fantástica [limpeza total, a possível, de brônquios], medicamentação múltipla e abundante, comida de boa qualidade e aspecto. Quarto individual, novo e limpíssimo. Quase insonorizado. Plasma na parede, incomparável com a velha TV (sempre maldita) lá de casa. No final dos cerca de 10 dias recebeu alta. Fui pagar a conta. Eram cerca de 20 euros, ou 30, não mais. Voltei para perto dele, ele desconfiado, "quanto foi?" a prever rombo forte. Quando lho disse comentou o velho comunista: "não pode ser, isto assim não se aguenta, não pode ser ...".

Um ano depois voltou a ser internado. Lá fui eu aí. Esteve quinze dias no mesmo hospital, a mesma excelencia de tratamento, mas daquela vez num quarto colectivo (julgo que com 4 camas). No fim fui pagar a conta. Era grátis. Surpreendi-me. E disse-o, "então, o ano passado paguei". Que tinham mudado as regras, disseram-me. Voltei e anunciei-lhe o gracioso. Replicou o muito debilitado mas sempre radical estatista: "são loucos".
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De Teresa Ribeiro a 06.05.2013 às 16:58

O problema, quando discutimos estas coisas é que caímos sempre na tentação de ancorarmos em situações extremas para defender o nosso ponto de vista. Concordo com o desabafo do teu pai. Assim não dava. É preciso racionalizar meios, sim. Mas não descer aos infernos. Este caso do espanhol chocou-me. É desumano, imoral. E é para isto que estamos a caminhar, não tenho a menor dúvida.
Se o Estado não serve para nos valer em situações como esta então serve para quê? Para nos sugar até ao tutano a fim de pagar os desastres que resultaram da irresponsabilidade, incompetência e cobardia dos governantes que nos levaram até aqui?
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De jpt a 06.05.2013 às 17:34

Não posso discutir o caso da notícia. Implica uma reflexão sobre hipotéticos défices de comunicação do SNS espanhol ou do próprio caso individual, e talvez excesso de zelo (posição de força reivindicativa?) do hospital em causa. Ou reflexões sobre uma operação que, está no jornal, implica consultas a especialistas estrangeiros e a "cirurgia complicada", implantação de prótese e custa 152 euros dos quais o paciente só pagará 30 euros, dado que o resto lhe é devolvido. E sobre algo que não é urgente, no sentido de vital. Não conheço o caso espanhol para me colocar a opinar sobre essas dimensões. Mas posso em relação ao teu comentário ripostar: o Estado paga tudo isso, o paciente adianta 152 euros e pagará apenas 30 e ainda de pode dizer que "o Estado não serve para nos [lhes] valer"?
Mas posso opinar sobre o fundo do postal. Fi-lo nesta espécie de parábola familiar. A diferença entre o "tendencial" gratuito e o total gratuito. E parece-me que o texto da notícia dá para isso, como se lhe quiser pagar. Quanto ao velho Hipócrates como vivo num país onde para se ter medicina algo ... confortável ou se paga ou se vai para melhor pagar mais ao país do lado, permito-me ter uma visão algo diversa: se um tipo não tem dinheiro nem seguro o médico não o atende. É essa a lógica da medicina privada (com várias matizes, desde articulações com os estados - que não aqui - a atenções prestadas, em determinados contextos, aos casos vitais). Em nada este caso choca com isso.

Para mim (e já agora também para o meu velho pai, que não pensava exactamente como eu) o que tem alguma "piada" é pensar como todo este furibundismo estatista no sector da saúde é uma força social de apoio dos "desastres" que referes, da apropriação dos recursos sociais pelos interesses das indústrias médicas e farmaceuticas (e de equipamentos). Em nome deste "pagar tudo" (novo e de melhor qualidade) quantos biliões (biliões portugueses, não brasileiros) foram "deslocalizados" (como agora se diz) para esses grandes grupos? E qual a percentagem desse manancial que se alocou (outro termo que esteva na moda) aos políticos defensores do pagar tudo sem olhar a meios, que são direitos humanos?

Os comentários vão longos. No fundo teria bastado dizer "deslike" ao postal. Mas assim fica mais sumarento.
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De Teresa Ribeiro a 07.05.2013 às 00:22

Só agora pude vir à caixa de comentários. Reparei que entretanto foram vários os comentadores a referir a inexactidão da notícia do Público. Ainda que a história tenha sido mal contada, mais pormenor menos pormenor, o que é relevante é que tenham sujeitado um paciente a uma segunda intervenção cirúrgica, numa zona delicada como o joelho, para lhe retirar uma prótese que não podia pagar. Creio que isto, que é o fundamental da história, não é desmentido por outras notícias sobre o mesmo assunto. E é este procedimento que choca e revela um economicismo relativo aos cuidados de saúde que considero inaceitável. Não defendo, Jpt, um SNS totalmente gratuito, porque sei que é irrealista e conduz às distorções e perversões que referiste. "Tendencialmente gratuito" é um conceito suficientemente justo. Trata-se ou devia tratar-se de um retorno. E um retorno merecido, uma vez que os contribuintes pagaram para tê-lo - algo que os críticos ferozes do actual sistema parecem esquecer. Haverá contrato mais próximo do ideal de civilização do que este?
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De xico a 06.05.2013 às 17:21

Só uma pergunta. Levaram o doente à força para a sala de operações para lhe tirarem a prótese ou foi a guarda civil buscá-lo a casa?
É que ele há histórias muito mal contadas...
Depois de ler a notícia estamos a falar de um valor total de 30 euros (ele pagava 152 e devoviam 132). Ele não tem para pagar. E a gente acredita. Mais do que isso custa um funeral e a malta do serviço quotiza-se com 1 ou 2 euros e arranja-se o dinheiro para o funeral. Cum raio. Se quotizarmos entre os que vão comentar aqui, nos jornais e no facebook, concerteza arranjam-se 30 euros pró moço. Mais do que isso gasta a malta agora na queima.
Já estou como o pai de um dos comentadores. Venda-se o plasma do quarto.
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De xeco a 06.05.2013 às 18:32

Em que tabuada 152-132 dá 30?!
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De xico a 07.05.2013 às 11:31

Foi só para ver se o xeco estava atento. Parabéns!
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De Teresa Ribeiro a 07.05.2013 às 00:27

Não sei se lá foi a guarda civil buscá-lo, mas acredita que o paciente se tenha sujeitado a uma segunda intervenção cirúrgica para trocar de prótese e colocar uma outra emprestada só porque lhe apeteceu?
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De xico a 07.05.2013 às 11:33

Não acredito em coisa nenhuma, por isso o meu comentário sobre um caso muito mal contado onde só se ouviram o paciente e a mãe.
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De am a 06.05.2013 às 17:29

Em Portugal esta tragédia seria/será impossível.

O que poderia/poderá acontecer é não lhe aplicarem a prótese.
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De Emanuel Lopes a 06.05.2013 às 17:47

"Um estado forte o suficiente para dar tudo, têm igualmente força para tudo tirar."
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De Tiro ao Alvo a 06.05.2013 às 18:13

A Teresa não percebeu que o título é mais do que especulativo, tolo mesmo. Não sabe a Teresa que o nosso Público agora deu-lhe para isso, para ser mais do que especulativo?
Informe-se melhor e corrija o tiro, pf.
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De Luís Lavoura a 06.05.2013 às 18:24

Houve uma deficiência de comunicação, mas acho, evidentemente, bem que certas intervenções sejam comparticipadas pelo doente. Aliás, isso mesmo se passa cá.
Ainda por cima, tratou-se de um problema causado por um acidente de montanhismo, ou seja, de algo cuja culpa é, em última instância, do próprio doente. Que raio têm os contribuintes que andar a pagar os tratamentos a pessoas que resolvem andar a divertir-se em atividades perigosas como o montanhismo? O indivíduo deveria ter feito um seguro de saúde antes de se ir meter na montanha.
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De Teresa Ribeiro a 07.05.2013 às 00:29

E o paciente também não é um contribuinte, Lavoura?
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De rmg a 06.05.2013 às 18:29


Não vejo o que é que este caso concreto , também extremo , tenha a ver com ser anti-estatista ou não .

Este caso teria a ver com bom senso , dos médicos e responsáveis do hospital mas também da família .

Se lemos os dois a mesma notícia , a família paga 1200€ por mês de empréstimos em que "se meteu" (seria interessante saber se foram obrigados) mas recusou-se a pagar os 30€ da prótese .
E se o hospital corresse o risco de "ír parar aos jornais" por 30€ ou eram muitíssimo burros ou a história está muitíssimo mal contada .

Pois se 80 pessoas se ofereceram para pagar uma prótese nova e eles até escolheram uma emprestada em 2ª mão ...

A partir daqui tirar ilações sobre o nosso futuro é prematuro .
Estou a passar por uma situação familiar "menos fácil" (no mínimo dos mínimos !) e só posso elogiar o sistema de saúde que temos mas não sou tão ingénuo que não saiba que o Pai de um comentador anterior viu muito bem "o filme" , são de facto "loucos" todos aqueles que nos cercam e acham ou tudo normal ou tudo anormal , dependendo do ponto de vista ocasional .

E nunca digo "ainda vamos tendo" porque num qualquer cantinho de uma folha A4 é fácil fazer umas contitas e perceber que ou se racionaliza isto tudo ou passa mesmo a "já não temos" , basta ver a proporção de idosos versus população activa (se tiver trabalho e portanto fizer descontos) que vamos ter daqui a 15 anos .

P.S. - Tive ainda o cuidado de ír espreitar os jornais espanhóis de que destaco a notícia do "El País" , que considero um meio de comunicação respeitável .

Diz assim a certa altura :

El jueves, una empleada de la ortopedia que proporcionó la prótesis al equipo médico se presentó en la habitación de Adrián para cobrarla. Como no podía pagarla, la trabajadora de la empresa de productos protésicos se la retiró. Sucedió en la misma habitación en la que estaba ingresado el paciente ante su mirada y la de su madre, que le acompañaba. Este lunes, Adrián acudió al hospital con una prótesis prestada para su rodilla “me la ha dejado un amigo y me la han ajustado”, explicaba a la salida del hospital.

Assim e segundo o "El País" o hospital não lhe tirou nada e ainda lhe pôs a emprestada .



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De Teresa Ribeiro a 07.05.2013 às 00:37

Segundo a notícia o hospital sujeitou-o a nova intervenção para lhe colocar uma prótese emprestada, o que quer dizer que o caso ainda não vai ficar por aqui.
O paciente até na prática poderá pagar muito pouco, mas se não tiver a quantia exigida como entrada, o que fazer?
O nosso Sns por enquanto é muito razoável, sim. Mas se não houver mudança de políticas tornar-se-à "tendencialmente medíocre" por falta de meios.
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De rmg a 07.05.2013 às 02:54

Agradeço a sua resposta e o vir levantar duas questões importantes .

Este caso concreto não será o melhor para desenvolver a ideia pois , pelo que li do lado da imprensa espanhola em 4 ou 5 jornais , ele não está mas os pais estão no desemprego e entalados em dívidas e essas não sei como as arranjaram , hipotecas mensais daquele montante todos nós imaginamos que não serão só de um T2 nos arredores e um carrito modesto (mas não quero tirar conclusões apressadas).
A realidade é que alguns artistas conhecidos já apareceram a solidarizar-se com a "causa" , o que me parece manifestamente exagerado e sede de protagonismo (dos artistas e da família) , para além das dezenas de pessoas que se prontificaram a pagar a prótese .


As suas questões são no entanto muito pertinentes e muito bem colocadas para o caso geral .

Sendo a 1ª vez que se ouve falar num caso destes parece-me justo admitir que há ali uma "guerra" qualquer particular pois situações de pessoas que não podem pagar de imediato são às dezenas todos os dias nos hospitais de lá (como nos de cá) .
Tenho um irmão e vários amigos a viver e trabalhar em Espanha (o meu irmão há 6 anos) e conheço razoàvelmente como é que as coisas funcionam por lá , ninguém deixa de ser tratado por não ter dinheiro , tal como cá .

Quanto ao nosso SNS dou-lhe toda a razão em tudo o que diz .
Mas como sabe um número enorme de portugueses estão isentos de pagamentos por estarem em situação de insuficiência económica (permito-me mais um copy/paste abaixo) , o que é mais que justo dado o nível de rendimentos desses cerca de 4 milhões de pessoas .
E sendo essas pessoas na sua maioria idosos , portanto potencialmente mais "doentes" , os cuidados de que necessitam são habitualmente muitos e caros .
Por isso o esforço de racionalização é urgente para que não se torne "tendencialmente medíocre" como muito bem diz , o que só iría complicar a existência ainda mais aos efectivamente pobres e necessitados de apoio.
Mas isso também passa por alguma consciencialização de muitos outros de que o "tendencialmente gratuito" levará à decadência do sistema , o que aliàs já está a acontecer nos sítios mais improváveis há uns anos atrás (a Grã-Bretanha , por exemplo , onde tenho uma amiga médica a trabalhar num hospital) .

Eu vivo sem excessos mas também sem apertos e faz-me alguma confusão que muita gente que vou conhecendo e não vive pior que eu ache um "roubo" pagar 20€ por uma consulta de urgência num hospital uma vez por ano que seja .

Mais uma vez lhe agradeço o "espaço" concedido.

P.S. - O tal copy /paste .

"Consideram-se em situação de insuficiência económica, para efeitos de isenção de taxas moderadoras e de outros encargos de que dependa o acesso às prestações de saúde, os utentes que integrem agregado familiar cujo rendimento médio mensal seja igual ou inferior a 1,5 vezes o valor do indexante de apoios sociais (IAS), equivalente a 628,83 euros. "
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De rmg a 07.05.2013 às 03:15


Esqueci-me de dizer que ele não foi sujeito a qualquer 2ª intervenção cirúrgica dado que a tal prótese era externa e destinada a manter o gesso estável (esse sim a segurar a prótese interna) , uma espécie de calça com várias "amarrações" ao longo da perna .
Também é um facto que por 152€ e fácil de tirar por uma empregada da empresa que as vende não podia ser nada de muito complicado .
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 06.05.2013 às 19:00

É o Publico a informar o seu publicuzinho alvo: os que acreditam em tudo o que o Publico publica; e que normalmente ou é mentira, ou está mal contado, como é o caso.
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De Rufino Pino a 06.05.2013 às 20:21

Bem faz o Marocas que já não quer nada com o SNS e ficou cliente do Hospital da Luz.

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