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Desculpa, Pátria minha…

por Gui Abreu de Lima, em 04.12.12

Há dois anos o patrão deixou de pagar os ordenados, depois simulou um esquema laboral a partir de casa, mas abandonou os empregados. Foram 7 meses e muitas horas na loja do cidadão até que a Autoridade para as Condições do Trabalho desencravasse a esmola de que agora vivo - o Subsídio de Desemprego.

Tenho 44 anos, trabalhei 24 com os devidos descontos de todas as partes, fui recibo verde por dois anos para ajudar a empresa, nunca pedi uma baixa e auferi de duas licenças de parto com um intervalo de 4 anos. Esqueci os 10 mil euros de ordenados em atraso e a indemnização por direito. A lei não me salvou das tropelias do patronato, os 1600 euros que trazia para casa todos os meses emagreceram para 1400 através de um layoff não oficializado, em 2009, e tudo se resolveu com 970 euros de um subsídio, que a partir de Janeiro será taxado em 6%, numa subtracção de quase 60 euros mensais.

As contas são cada vez mais simples: dos 970 euros, 500 vão para a renda de casa. O resto divide-se entre o Pingo Doce, a Epal, a EDP, a Repsol e a cantina da escola. A pensão de alimentos, quando a vejo, cobre as coisitas que os rapazes sabem que não posso dar - carregamentos de telefone, cordas de guitarra, uns cinemas, gomas e chocolates. Roupa, angario em segunda mão, até por questões ecológicas. Prejudiquei a mulher-a-dias, prescindi dela, pouco circulo de carro, e o meu luxo envergonhado é tabaco e mortalhas.

Tromba alegre, fumando, cá ando, num Estado de Direito que deixa todo o malandro à tona e me afoga em impostos, multas diversas, repescadas em remotos anos, sobre veículos que já nem circulam mas foram meus, mais uma scut de 4 euros que quis pagar em 2010 e não consegui porque o sistema é esquisito e a empresa das portagens não responde aos meus apelos de socorro, preferindo avolumar a conta em cada cobrança, tudo bem argumentado com o disposto em números e alíneas de artigos de Códigos jurídicos e decretos-lei de todas as idades, que não descuram a ameaça de justiça em tribunal.

Cá ando, sempre de tromba alegre, sim, calando a úlcera que agora não se dá com jejuns, esperando o jurito de trocos poupados aos bochechos, cujo um quarto da soma é retido pelo Estado, sempre sobre o mesmo dinheiro, coitado, já com raízes nos cofres do Banif, que esse Estado parece controlar e ansiar mais do que eu. Eu, contribuinte exemplar, sem baldas ao IRS, nem atrasos nas entregas à Segurança Social. Eu, fiel depositária durante 3 meses do dinheiro público, multiplicado sem tiros na Bolsa, seguras aplicações de um euro, euro e vinte… por trimestre, o IVA saldava-me duas bicas, vá.

2013, é um consolo. Não farei declaração de IRS. Nada me será devolvido, só cobrado. O IMI perfila-se e quem sabe os 10 anos de isenção tenham sido engano e a conta venha junta e atacada. O subsídio, é provável que acabe antes do prazo legal, que as regras mudam. A barraca, vou, pois, avisar o banco que se agarre a ela. Os rapazes, simpáticos e em boa idade, talvez aceitem nas tardes livres tocar na Baixa, para ajudar ao panquê. Trabalho, é uma miragem, até na mais velha profissão do mundo. E eu, querida Pátria, vou falir, mas é de pé e de tromba erguida.

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72 comentários

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De portuguesacoriano a 04.12.2012 às 12:46

Vamos formar o partido dos falidos?
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:16

Não me fale em partidos, senhor...
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De portuguesacoriano a 04.12.2012 às 13:47

Não vamos fazer disto o muro das lamentações, mas você, eu, e muitos outros estamos em maus lençóis. Depois de um divórcio, depois de adquirir uma casa velha(baratinha) com o plano de la morar enquanto a ia reparando ao meu ritmo, tive azar, veio tudo ao chão. Hoje esta quase pronta a morar, mas até agora já vou com 5 anos a pagar renda ao banco e renda do pequeno apartamento onde moro. À 2 anos veio o desemprego, nada de novo, tive de me virar sozinho, é ir vivendo no fio da navalha, já passei fome, e depois vivi com pão e manteiga durante algumas semanas, já estive sem gás para tomar um banho quente durante semanas. Devagar fui levantando a cabeça,(...) hoje trabalho sozinho e se não surgirem doenças, tudo farei para que o pouco que vou conseguindo não seja vão. Luto pela minha dignidade, pela minha filha e por tudo o resto que faz ou que venha a fazer parte parte no meu barco.
Louvo-lhe a sinceridade e honestidade. Força!
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:59

Obrigada portuguesaçoriano :) Já ganhei o dia. E sei que todas as manhãs é para vestir a armadura.
Um abraço grato, à sua!
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De Ana Vidal a 04.12.2012 às 12:52

O Estado português - a tua e a minha pátria - assemelha-se cada vez mais, assustadoramente, àquelas mães de raras espécies animais que matam e se alimentam dos próprios filhos. Pior do que isso, protege os desonestos e os que nada fazem para melhorar a produtividade do país, mas são suficientemente espertos e sem escrúpulos para se safarem por entre os pingos da chuva ácida que nos cai em cima todos os dias. A nossa pátria está um desconsolo, querida Gui. Não a reconheço, nem me reconheço nela.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:18

Desobediência civil e renúncia ao voto nas próximas eleições.
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De Ana Vidal a 04.12.2012 às 15:05

Não renuncio ao voto, mas vou votar em branco.
Apesar de saber que acabarão por ganhar os mesmos de sempre, os que nos levaram a esta ruína em que estamos. E apesar de saber que outros teriam feito provavelmente o mesmo, ou muito parecido. As máquinas partidárias tomaram conta do país e das nossas escolhas.
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De Ana Vidal a 04.12.2012 às 15:16

Mas atenção: como tu, não sou de desistir. Tento manter a sanidade mental para ir encontrando soluções, ou talvez "a" solução. Um beijo, miúda.
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De IO a 04.12.2012 às 15:19

<<<Se votarmos em branco ou considerado nulo os "partidos" ainda beneficiam do nosso voto! O que é bem injusro!
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De Ana Vidal a 04.12.2012 às 15:25

Talvez, IO, mas eu não quero demitir-me dessa responsabilidade. Nem abdicar desse direito.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 16:31

Quando falo em renunciar, seria só para mostrar o meu total desprezo por tal fantochada. meu e de todos nós - ninguém quer os partidos que temos - mas há que cumprir o hipócrita direito ao voto somado a um estranho dever cívico. civismo, para mim, hoje, é impedir que subam ao poder pessoas em quem não temos a mínima confiança e nos traem na primeira curva.
a nulos e brancos, estou eu farta de os despachar, e nem a cadeiras na AR, com o número de votantes pintado no tampo, têm direito. são votos inócuos.
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De Helena Sacadura Cabral a 04.12.2012 às 18:41

As máquinas partidárias, dizes bem. Essa fonte inesgotável de criaturas robotizadas, que perderam a consciência e a vergonha.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 19:09

Helena, desculpe aproveitar a ocasião, mas ainda agora passei na Buenos Aires, e o 1º do 28, é a sede da JSD. Bem engalanada :)
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De Helena Sacadura Cabral a 04.12.2012 às 20:24

Tem toda a razão. Eu referia-me ao 37, em frente, do lado esquerdo, esse palacete que foi a sede da maravilhosa social democracia e que, agora é, de facto, um centro de escritórios. E de onde saem umas criaturas arranjadinhas, como eu quando vou à minha costureira buscar os arranjos feitos nas farpelas a que este governo me obrigou. E também uns quilitos a mais que os governos anteriores permitiram. A esquerda caviar e católica sempre teve este efeito em mim: engordo!
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De Ana Vidal a 04.12.2012 às 19:51

E que esmagam implacavelmente os seus próprios membros, incluindo os melhores e os bem intencionados que depressa perdem as ilusões e dançam conforme a música, ou são cuspidos do sistema porque se tornam incómodos. A normalização nunca trouxe nada de bom.
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De Fernando Melro dos Santos a 04.12.2012 às 13:10

Gui,

a esperança está do nosso lado embora o tempo e a aritmética possam evidenciar o contrário. Quanto a eles, não lhes auguro nada de bom para 2013. É preciso não sucumbir à ilusão de um beco sem saída.

Um abraço.

fms

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/2346626.html
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:31

A esperança, se a houver, Fernando, deve morar fora da fronteira portuguesa. Aqui, ainda não vi uma medida pela reconstrução do País, nem vejo gente a lutar por isso. Vou acabar na mesma miséria em que meus pais se viram no regresso de Angola, em 1976. Lá, no mesmo chão, com as mesmas couves, mas a ver apodrecer o que eles levantaram em 30 anos. E eu ainda vi a lavoura, mas os meus rapazes, não distinguem um castanheiro de uma macieira. Só percebem de gigas, pautas musicais e dão uns toques na matemática.
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De Fernando Melro dos Santos a 04.12.2012 às 14:55

Olá Gui. Eu dou aulas de matemática. E tenho um rapaz com 15 anos, mais outro com 12 que veio por acréscimo. Vivo atónito com as vacuidades que o sistema lhes incute, e ainda mais com a bovinidade em que caíram os poucos de nós que ainda iam andando acesos. Mas desesperar? Entregar o jogo? Não.

Não vai haver qualquer reconstrução do país antes de testemunharmos a sua devastação. Quem lá está e minou esta terra tem de cair, primeiro, para dar lugar a uma forma nova de pensar e de fazer.

Porque é que até hoje, para os portugueses, os nórdicos e os americanos são extraterrestres de costumes alienígenas? Porque em Portugal nunca nos últimos anos se enfrentaram intempéries, invasões, pragas, a escassez; o paizinho esteve sempre lá. Olhar para cima e estender a mão serviu para tudo, a troco de qualquer coisa.

Mas quando isso acabar de vez, não serão os medíocres a ocupar o vazio, e sim os bons.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 16:54

Oxalá venham os bons e depressa. Mas estes rapazes, seus e meus, com as mesmíssimas idades, vão penar. Talvez tenham de deixar tudo o que iriam fazer para salvar o País e os filhos deles. Ou fazem-nos um manguito e vão-se para não mais voltar. Sim, que estes tipos não cresceram com o espírito de sacrifício que nos incutiram a nós. Reclamam, batem o pé, salvaguardam-se a si próprios e acho que têm toda a legitimidade de o fazer. Eu comia Planta porque a manteiga era para meu Pai. Os adultos eram bem mais importantes que a canalha. A canalha cresceu e quis democracia, pois. Quem exagerou, que aprenda a lição. Eu tenho a consciência tranquila porque nunca ambicionei nada, senão a minha independência, nem me aproveitei de ninguém, muito menos do Estado. E tudo aquilo que vi de asneira e lesa-Pátria, nunca calei. Os valores que me ensinaram transmiti-os sempre de bom grado. Ainda assim pago a factura. Venha ela :)
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De Bartolomeu a 04.12.2012 às 13:22

Classificar como dramática, a situação que referes, já não constitui mínimamente alívio para as penas de quem está a vive-la, Gui.
No entanto, compete-nos como seres humanos, racionais e inteligentes, encontrar a solução adequada, ou o mais aproximada possível, para os problemas que nos surgem.
E, acima de tudo, manter, como dizes, a "tromba erguida". E não é somente por uma questão de orgulho, é, acima de tudo, para conseguir vislumbrar a solução, para além dos problemas.
Não é fácil, todos sabemos que não. E mais difícil se torna quando as alternativas passam a ser escassas ou inexistentes.
Por vezes, a solução passa por revolucionar por completo o rumo que a nossa vida está a tomar.
Não é uma garantia, mas a lei universal da causa e do efeito, nunca deixou de funcionar. Quero dizer com isto que, se deres um pontapé na mesa, o efeito imediato pode ser uma tremenda dor no pé, mas, essa dor, pode levar-te ao hospital e aí podes encontrar ao teu lado, um gajo que tem uma empresa e não encontra uma gaja para lhe fazer determinado trabalho. Por exemplo.
Outra solução que do meu ponto de vista permite ganhar tempo e com ele encontrar mais calamamente a solução para o problema fulcral, é negociar esses 500€ com a entidade bancária. Aí terás de ser determinada e objectiva, porque, por princípio, os gajos estão sempre na situação do usurário e olham-te sempre como sejas a gaja que gastou acima das possibilidades e portanto, vais ter de te esmifrar toda.
Podes ainda jogar ao "passa a outro e não ao mesmo".
Este jogo consiste em atirares com os princípios morais para as ortigas e anunciares a venda da casa por metade do preço, depois, ao primeiro papalvo que te passar o guito do sinal para as mãos, dás-lhe em troca o contrato de promessa de compra e venda, pegas no bagalhuço e dás de fuga. Na Lousã ha umas casinhas na serra, abandonadas, outras à venda por uma bagatela. Ali estás com os deuses, podes dedicar-te à produção de ervas aromáticas ou medicinais, à apicultura, etc, etc. Só não podes é dar a conhecer o teu paradeiro, aos tipos das finanças.
A opção da mais velha profissão... não te aconselho. esse recurso iria acrescentar problemas aqueles que já te moem a paciência e os proventos, talvez não sejam compensatórios.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:48

ahahah, Bartolomeu, que soluções :)
claro que tudo se resolve e a vida também se escreve direita por linhas tortas, sem esquecer que tenho mais sorte do que muitos, mas deslocalizar estas alminhas, agora mais crescidas e com os dias por aqui a lança-los em coisas interessantes, custa-me. de resto, estou serena e não tenho medo de nada. conto com a lucidez, sim, para nunca perder de vista a floresta inteira.
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De Ouvinte atento a 04.12.2012 às 13:34

Relato arrepiante, revoltante e cada vez mais comum...
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 13:55

Sempre pensei, Ouvinte, que a minha sorte era imensa, que talvez a não merecesse e que um dia tudo podia virar-se de pernas para o ar. Agora aguardo com expectativa o futuro. Não fosse a prole, seria mais engraçado :)
Obrigada!
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De Lara F. a 04.12.2012 às 14:25

Grande texto - grande texto -
De tromba erguida para tromba erguida, uma abraço de solidariedade.
Isto um dia vai....
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 14:31

Larinha, tão querida.
Um abraço e espero um dia contar no Delito como se mata sede num só copito. E convidá-los a todos para comer bifes de cabeça chata, que é um prato minhoto muito interessante :)
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De Zélia Parreira a 04.12.2012 às 14:34

Não sei o que dizer... cheguei a pensar que alguém me tinha roubado os pensamentos.

Sempre fui impetuosa, impulsiva. Estes últimos meses e anos têm-me ensinado mais sobre aguentar calada do que todas as lições de moral que já me deram na vida. Discussões e debates... fujo deles a sete pés, não tenho capacidade de me abstrair o suficiente. Desisto logo ao primeiro embate. Durante o dia, só penso naquele momento em que posso fechar a porta do quarto e deixar cair os ombros. Acordo com medo do que vai ser o novo dia, deito-me dividida entre o alívio de um dia sobrevivido e a angústia da noite, que traz tudo à nossa cabeça. Ter cara alegre é o trabalho mais cansativo que já fiz em toda a minha vida. E ainda por cima, mal pago :)

Sei o fraco consolo da "Coragem!" ou da "Força, vais conseguir ultrapassar isto!", por isso não os vou dizer. Quando conseguimos fazer o milagre da multiplicação e arranjar forma de comprar umas calças novas a uma filha que chora para não entrar na loja porque sabe a falta que esse dinheiro fica a fazer, essas palavras sabem a fel.

Um abraço.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 17:05

Um abraço, Zélia. Sabia que falar destas coisas da minha vida era lembrar a de tantas outras pessoas. Aqui, por ora, ainda há para o que realmente interessa, mas há casas cheias de barrigas vazias. E muitas, Zélia.

Outra coisa difícil é ter pedir ajuda. Mais uma liçãozita à borla que a crise nos dá ...
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 04.12.2012 às 15:10

Gui o seu post é impressionante, e infelizmente é uma história igual à de milhões de portugueses.
A minha geração passou metade da vida à espera da Democracia, porque acreditámos que esse era o caminho para podermos almejar uma vida como a que os outros europeus tinham. Passados 38 anos, o que é que temos? apesar da liberdade, do progresso social, e da aparente melhoria da riqueza colectiva, vamos a passo muito acelerado a caminho dos indices de riqueza dos anos 60.
Afinal o sonho está a transformar-se em pesadelo, e a questão é, como é que vamos sair daqui.
Não vemos absolutamente ninguém a falar disso com seriedade em Portugal, nem à direita, nem à esquerda, e apesar das enormes dificuldades que tanta gente sente na sua vida quotidiana, a falta de uma estratégia nacional para o futuro, é o que mais me aflige.
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De Esteves a 04.12.2012 às 16:21

Já sei que vou meter água e ser sacrificado, mas não será um pouquito culpa vossa?

Quero dizer, vocês não fizeram obviamente coisitas nos bancos, está claro. O BPN e outros que tais é "outro assunto".

Mas refiro-me à construção da Democracia, aos três pilares. É trabalho vosso, se votaram neles e tiveram a experiência de crescerem "nos dois lados".

A construção da justiça, do poder executivo e legislativo, não é obra vossa?
Não é da minha geração, seguramente, que nasceu pós-1974, e cresceu a pensar que tinha direito a tudo (e ainda muito pior está a actual, a dos moranguitos, que chora aos 4 anos por psp's) e que não desconhece o que é a meritocracia (vide o modo injusto das entradas nas universidades públicas, que são flutuantes...).

É que foi (por exemplo) uma coisa correctíssima construir uma estrada norte-sul via litoral. Já é uma coisa criminosa construírem-se duas, quase lado-a-lado, deixando o interior sem nenhuma completa.

Não foi também a vossa geração que se endividou sobremaneira nos idos de 1990, a crédito, triplicou a frota automóvel, comprou segunda casa, e tem uma média de 2 telemóveis? Tem internet, tv cabo, microondas, 2 ou mais tv's, computadores, gás natural, e tudo e mais alguma coisa? É que nos anos 1960 ter uma televisão a preto e branco não era para todos (!).

Ou seja, não terá sido o facto da vossa geração ou a do vossos pais que não tiveram nada e quiseram ter tudo e dar tudo aos filhos que construiu em parte esta desgraça, no sentido em que o crescimento foi mal sustentado e não pensado a longo prazo? Não terão fechado os olhos a certas políticas e em simultâneo não fizeram poupanças?

Não crescemos rapidamente em quantidade de coisas e deixamos a qualidade do crescimento para trás?

Não me levem a mal, mas eu também conheço familiares mais velhos que estão a recibos verdes, e a coisa está à justa. Mas aqui entre nós, há 10 anos atrás estavam mais do que seguros em termos económicos e se tivessem pensado a longo prazo hoje, na idade da reforma, não precisariam seguramente de trabalhar.

Perderam a segurança que tinham por decisões puramente emocionais, ingenuamente, talvez a pensarem que o futuro estaria sempre garantido (em termos de emprego no mesmo nível)? E claro, poupança nenhuma, desde férias a brinquedos natalícios, a darem o que não tiveram. Não cuidaram que podia "a coisa" rebentar.

Isto é uma reflexão, vale o que vale, não é uma acusação...

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De Esteves a 04.12.2012 às 16:26



Eu quis dizer "desconhece a meritocracia".
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 17:28

Sem dúvida, Esteves. Mas quem estava por cima e tinha obrigação de legislar, supervisionar e dar o melhor exemplo, esqueceu-se dessa responsabilidade e também entrou na mesma joga. Com a agravante de usar o dinheiro público. A dívida das famílias é delas. A do Estado é de todos, eis a diferença. A casa onde vivo comprei-a porque em 2000 ainda era mais barato do que alugar. Comprei contrariada, acredite. Nunca quis ter coisa alguma, mas aí senti-me impotente perante o sistema. Já tinha dois filhos e precisavam de um quarto, caramba!
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 05.12.2012 às 00:32

Caro Esteves, o meu comentário não serve para desculpabilizar ninguém; é mais a constatação da oportunidade perdida. Não para todos, é verdade, mas para o país como tal.
E sou dos que pensam que as gerações mais velhas têm delapidado o futuro dos seus filhos com uma indiferença que eu não imaginava possivel em Portugal. Mas a verdade é que quando durante décadas exigimos do estado aquilo que o estado só podia dar recorrendo à divida, porque não produziamos riqueza, estavamos todos a comprometer o vosso futuro.
Sabe meu caro, eu tenho seis filhos, provavelmente alguns da sua idade.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 17:10

Obrigada por todo o comentário, Alexandre, mas, especialmente, pelo último parágrafo. É aterrador olhar e não ver um único homem no Poder capaz de resgatar o respeito pela Nação e de abrir os olhos ao Povo.
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De Bartolomeu a 04.12.2012 às 16:00

Meus estimados amigos, também venho dos tempos em que, relativamente ao resto da Europa, Portugal registava um atraso de muitos anos. Tempos em que os meus pais sonhavam para mim e para os da minha geração, um futuro melhor, com mais oportunidades e consequentemente, maior abundância. Foi nessa perspectiva que cresci e que, também eu, idealizei a sociedade que esperei ver nascer, após a revolução de Abril. Quando fui pai pela primeira vez, apesar de o nosso país ainda não se achar perto em termos de condições de vida, dos outros países do nosso continente, pude contudo vislumbrar um futuro para os meus filhos que me transmitiu algum sentimento de segurança. As empresas cresciam, o acesso ao ensino superior melhorara, os ordenados possibilitavam a aquisição de bens de melhor qualidade e ainda, porporcionavam alguma capacidade de endividamento e consequentemente de se poder adquirir casa própria, carro, etc.
À quinze anos atrás, notei que as mentalidades empresariais começavam a mudar e que a nova geração, acompanhava essa mudança. Começaram as especializações, as formações "À pressão" e aquilo que quanto a mim, foi o primeiro motivo de desestabilização, social, económica, empresarial e até, familiar; a obrigatoriedade de cumprir objectivos previamente estabelecidos. Na altura, comentei com vários amigos empresários, a inviabilidade e o esgotamento desse processo. Todos foram unânimes na opinião de que estávamos a viver uma era em que a competitividade e a capacidade de superar o outro, eram a chave do sucesso e quem não estivesse apto a competir, ficaria irremediávelmente para trás e inevitávelmente socumbiria.
Na verdade, o fenómeno atingiu a generalidade do tecido empresarial e, quanto a mim, devido à "estratégia" da competitividade e dos novos objectivos sempre a cima dos anteriormente estabelecidos. Mas a banca seguiu a mesma tendência, de uma forma mais aguerrida até, e, com requintes de malvadez, levando as pessoas, entusiasmadas pela melhoria do nível de vida, a convencer-se que seria sempre a melhorar e que, com a facilidade do acesso ao crédito, poderiam adquirir tudo aquilo com que haviam sonhado.
Hoje, apesar de desagradáveis ao ouvido, as palavras de Isabel Jonet, fazem todo o sentido.
Mais ainda, porque ela lida no dia a dia com a realidade de pessoas que já passaram por um período de vida em que nada lhes faltava e que hoje se acham na situação de ter de recorrer ao banco alimentar, para poder fazer face à necessidade mais elementar e básica da vida; comer.
Na verdade, e do meu ponto de vista, só nos resta tomar consciência de que não ha outra alternativa que não seja economizar ao máximo, fazendo como as nossas avós, aprendendo a reaproveitar as coisas e a usar aquilo de que estritamente necessitamos.
À quinze anos, previ esta crise. Vendi a minha casa em Lisboa e comprei uma pequena quinta na periferia, fui aprendendo os processos agrículas e estruturando as coisas por forma a tornar-me auto-suficiente e a reduzir os meus gastos ao mínimo. continuo a trabalhar em Lisboa mas, tenho a grantia da subsistÊncia, desde que consiga subir para o tractor e conduzi-lo.
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De jojoratazana a 04.12.2012 às 16:35

Eu sei do que fala.
Mas acredite, que com luta e vontade, acabamos com este estado cleptocrata.
E existem outros caminhos que não estes, que nos dizem serem únicos.
Não podemos é ficar calados e parados.
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De portuguesacoriano a 04.12.2012 às 16:45

Permita-me: Uma sugestão, tem?
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De jojoratazana a 04.12.2012 às 17:07

Tenho muitas.
Primeiro transformar o país num estado de direito, em que todos os casos de corrupção sejam julgados.
Segundo com os ordenados miseráveis pagos à grande maioria de quem trabalha, salários de 500 euros só podem corresponder a seis horas de trabalho diário.
Assim como a proibição de horas extras em todos os sectores.
E muitas outras mais.
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De portuguesacoriano a 04.12.2012 às 18:07

Coisas interessantes, aplicar-lhas com sucesso é que seria boa obra.
Justiça a nível particular é um tema muito subjectivo, afinal, o ladrão acha que é justo roubar, o mentiroso - mentir, o artista - iludir, etc e etc .
A justiça é um estado de equilíbrio, como um bom negócio, onde as duas partes ganham com ele, coisa que no nosso país, funciona até certo nível, mas depois parece que há um outro nível, coisa mais "fina" só para gente V.I.P.
Pontas para pegar são tantas que devem ultrapassar os 10 milhões.
Pego nesta: O percurso dos nossos políticos; é sempre um crescimento ou evolução constante com ligação a: função publica, ou, a firmas de advogados, ou, a grupos privados que passam imagem de que competem num mercado livre mas que no fundo de livre não tem nada. Depois temos o poder local, definu-o em poucas palavras: uma bandalheira. Empresas municipais, txiiii!, nenhuma ou muitos poucas se justificam. Uma empresa pelo principio mais basico, deve ser auto-sustentavel. Mas não, não é preciso, as camaras vão se individando para amamentar uma parte de um sistema que não pode nunca funcionar bem, uma vez que à partida não precisam de competir ou sequer mostrar trabalho feito, levando a que não produzam rigorosamente nada e quando vendo-se obrigados a apresentar algo feito, ainda abrem concursos a privados para esse trabalho aparecer feito. Isto é valido não so para as camaras como para todo o sistema publico.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 22:16

Tudo normal, nas barbas de todos.
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De Gui Abreu de Lima a 04.12.2012 às 17:40

Pelos caminhos possíveis esbarra-se em várias obstáculos. Montar uma empresa é de loucos e a chance de vencer é quase nula. Ir para a agricultura, só com um fundo de maneio para uns três anos, que aquilo nem é poda para qualquer um, nem depende só da vontade - a natureza é que manda. E por aí fora, quanto à iniciativa privada concerne. Cada risco pode ser a morte do artista.
Acabar com o Estado "cleptocrata", só se for à estalada, mas agora isso parece mal e compete aos tribunais - que são o que a gente bem sabe. Quem fizer justiça por si próprio vai preso...

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