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Anti-histamínicos académicos

por João Campos, em 01.12.12

Durante a semana que passou, assisti a algumas sessões da segunda edição do Colóquio Internacional "Mensageiros das Estrelas",  organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (Faculdade de Letras) e inteiramente dedicado à Ficção Científica e à Fantasia. Com todo o mérito que a iniciativa tem (e tem muito), o que mais me marcou neste "regresso" à universidade foi ver como, pelos vistos, nada mudou no ensino universitário português: a primeira sessão do colóquio a que assisti consistiu numa professora universitária que, durante uma hora, leu (em inglês) tudo o que tinha escrito em meia dúzia de folhas de papel, utilizando como suporte uma apresentação de Powerpoint repleta de autênticas paredes de texto. Para não falar na fraca preparação do tema: as referências dividiam-se entre as óbvias e as duvidosas, e em ambos os casos pouca novidade acrescentavam ao tema. Quem já o conhecia, pouco aprendeu; quem não o conhecia, não terá decerto ficado com vontade de o explorar. Em resumo: um horror, uma sessão mais soporífera que os medicamentos anti-histamínicos que habitualmente tomo. Em apenas uma hora, lembrei-me de tudo aquilo que abominava no Ensino Superior (e não só) português: aulas paradas, com professores a ler de forma desinteressada e monótona - quando não entediada - a matéria. Há excepções? Claro. Não parecem ser muitas, porém - entre os académicos portugueses (e talvez entre os portugueses em geral), os bons oradores são raros. 

 

Vejamos o contraste. O último dia do colóquio abriu com uma sessão plenária com Adam Roberts, académico e escritor britânico de ficção científica. Sem papéis para ler (sequer para se guiar), sem Powerpoint a ser projectado, sem se esconder atrás de uma secretária: durante uma hora numa manhã chuvosa de Sexta-feira, Adam Roberts falou - pasme-se, falou - para a audiência sobre o que é a ficção científica e sobre o humor no género. Fê-lo de forma descontraída, enquanto andava de um lado para o outro da sala, sempre a olhar para o público - dando exemplos, contando piadas, respondendo a questões. Fez alguns apontamentos - poucos e cirúrgicos - num quadro branco. Mostrou uma curta. Sempre com muito humor. E tudo isto, note-se, sem descurar o rigor académico da sua exposição.

 

Bem sei: o propósito do Ensino - básico, secundário, universitário - é ensinar, não entreter. Concordo. Há, porém, várias formas de o fazer. Há quem prefira, como Adam Roberts, cativar a audiência para a interessar no tema em discussão. E há quem, como a infeliz professora da primeira sessão a que assisti, prefira anestesiar a audiência. Julgo não ser necessário dizer qual das sessões foi mais proveitosa em termos de conhecimentos adquiridos.

 

(entretanto, e a quem interessar, escrevi aqui um artigo mais longo e detalhado sobre o colóquio)

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8 comentários

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De lucklucky a 02.12.2012 às 08:09

Isso é algo que sempre me fez confusão, pareceu-me que muitos professores não têm interesse.
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De João Campos a 02.12.2012 às 16:05

Isso também a mim me faz uma confusão tremenda.
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De CeC a 02.12.2012 às 12:33

Eu gosto de pensar que foi na Universidade que desenvolvi e melhorei a minha técnica de recostar a cabeça na mão, como se estivesse a ler algo sobre a secretária, e fechar os olhos - enquanto em jeito de embalar ia ouvindo uma voz monótona apresentando slides de powerpoint.
Bons velhos tempos... o único senão era passar a vida com os sonos trocados.

Quanto ao colóquio, parece-me deveras interessante; sempre me pareceu que se dava uma subvalorização ao género fantástico, do qual me admito fã. Guy Gavriel Kay, Terry Goodkind e Robert Jordan são alguns dos meus autores preferidos, como aliás tive oportunidade de o mencionar num post recente que escrevi sobre o género.
(Se o João não se importar, e em jeito de curiosidade, aqui fica o link: http://tinyurl.com/bmdx8bs)
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De João Campos a 02.12.2012 às 16:21

O colóquio foi interessante, de facto. Mas poderia ter sido muito melhor.

Há, de facto, uma subvalorização já antiga aos géneros do Fantástico. Nada de novo. Dos autores que menciona, apenas li um conto do Robert Jordan ("New Spring", que julgo ter sido expandido para romance mais tarde; é uma prequela a "The Eye of the World"), que estava incluído numa antologia de contos de fantasia editada pelo Robert Silverberg. Gostei, mas não o suficiente para me aventurar na série completa - pelo menos para já. Quanto ao seu (excelente) artigo, Tolkien e Martin são muito cá da casa. Mas no género de Fantasia, sugiro-lhe, se me permite (e caso não tenha lido ainda, claro), duas séries: "Earthsea", de Ursula K. Le Guin, e "His Dark Materials", de Philip Pullman. Ambas formidáveis.
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De CeC a 02.12.2012 às 16:59

Por acaso já li ambas as séries; a de Ursula K. Le Guin, então, será sempre uma bela memória. Aliás, há alguns anos tive oportunidade de ver uma adaptação japonesa da tetralogia. "Tales from Earthsea" (trailer: http://www.youtube.com/watch?v=JHbVU405XQ4)
Penso que é dos mesmos estúdios que fizeram o filme "Princess Mononoke".

2013 vai ser, sem dúvida alguma, um grande ano para o género. Sairá o último da série "The Wheel of Time", assim como a conclusão da triologia "The Kingkiller Chronicle", de Patrick Rorthfuss.
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De João Campos a 02.12.2012 às 19:25

Sim, a adaptação é dos mesmos estúdios, mas não do mesmo realizador: foi realizada pelo filho do lendário Hayao Miyazaki, Goro, que por ser filho de quem é tem ums sapatos muito grandes para calçar...

Mas ainda não vi a adaptação de "Earthsea". Aliás, tenho andado a adiar ver "Princess Mononoke", apesar de já ter visto dois filmes do Miyazaki ("Nausicaa" e "Howl's Moving Castle"), e ter gostado imenso de ambos.

De 2013 não sei, mas 2012 foi um excelente ano para o género em Portugal. Entre eventos, antologias e fanzines, houve imensa coisa a acontecer.
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De cenas underground a 02.12.2012 às 23:01

Os "professores" universitários, não são professores. São investigadores que têm de dar aulas. Foi essa a sensação com que fiquei da licenciatura, e do mestrado. Sinto que a maioria dos "professores" não gostam de dar aulas. Gostam do estatuto de ser professor universitário. O estatuto é fixe. Agora a parte de ter de dar aulas...
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De João Campos a 03.12.2012 às 04:09

Eu nem penso no mestrado. Faltam todos os recursos - incluindo a paciência.

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