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Estrelas de cinema (13)

por Pedro Correia, em 30.10.12

 

FUCK YOU, MR. BOND

*

Vou directo ao assunto: detestei este filme do James Bond. Já tinha achado péssimo o anterior - uma espécie de Indiana Jones de série Z, sem nada que o distinguisse de um rasteiro filme de "acção" - mas este supera-o pela negativa, algo ainda mais de lamentar pois o realizador é um nome de prestígio, aliás já galardoado com o Óscar: Sam Mendes.

Bond sempre foi uma figura próxima do universo dos comics transposta para o cinema. Ou seja, algo que não deveríamos levar a sério. Mas no início havia ironia nas situações em que se encontrava o agente 007 e ele superava todos os embaraços muito mais pela astúcia do que pela força. Com Daniel Craig, passou a beber cervejola em vez de champanhe e martinis. Deixou de integrar a aristocracia da espionagem e transformou-se numa mera máquina de matar.

Adeus astúcia, olá força bruta. Quem aprecia arraiais de porrada para acompanhar baldes de pipocas e confunde o cinema com isto, deve gostar das descargas de "adrenalina" proporcionadas por tantos cadáveres trepassados a tiro, por tanto osso partido, por tanta labareda, tanta bomba, tanta pirotecnica visual.

Alguns de nós, os que crescemos a ver filmes do 007 e mantivemos através dos anos uma ligação afectiva a este imaginário por constituir um elo insuperável à nossa adolescência cinéfila, consideramos quase um sacrilégio ver o agente ao serviço de Sua Majestade convertido num clone de Steven Seagal ou do Van Damme. Sucede até o impensável neste Skyfall: Bond parece sempre mais interessado em jogar à pancada com homens do que em seduzir mulheres (as Bond girls estão aqui reduzidas à quota mínima). Ian Fleming, o criador do célebre agente secreto, deve ter dado saltos na tumba perante tamanha heresia.

 

E tudo isto, no fundo, serve para quê? Serve de veículo de propaganda da China.

Bond inicia as suas corridas alucinantes numa Istambul decrépita e termina-as numa Escócia que parece congelada no tempo - de passagem por Londres, mais cinzenta que nunca, sem sombra de glamour. Só Xangai brilha por contraste. Os breves minutos de imagens da capital económica chinesa com os seus arranha-céus ultramodernos exibidos neste filme como bilhetes postais funcionam como cartaz propagandístico ao nível planetário.

Mensagem subliminar: o sistema chinês funciona. Mesmo com capitalismo selvagem - ou por causa disso mesmo. Mesmo sem democracia nem direitos humanos - ou por causa disso mesmo. O Partido Comunista está no poder desde 1949 (há sessenta e três anos!) e nem é preciso mais nenhum, pois ele garante a aplicação do capitalismo melhor do que qualquer outro. Ali ninguém fala em "reformas estruturais" nem em "concertação social" nem em "estado-providência", de resto inexistente. O novo nome do "estado social", pelo menos na versão chinesa, é "crescimento económico" - e ei-lo ali, à vista de centenas de milhares de espectadores, naqueles postais nocturnos de Xangai a pretexto de uma longa-metragem com vasta audiência garantida.

Noutros tempos as películas de Bond costumavam publicitar carros ou relógios. Agora publicitam um sistema execrável. Vão de mal a pior.

 

 

Nota suplementar: Macau também figura neste Skyfall. É uma das cidades mais "cinematográficas" do mundo: posso garantir-vos pois vivi lá dez anos. Não admira, por isso, que já tenha sido alvo das atenções de tantos cineastas - incluindo Josef von Sternberg, Henry King e Orson Welles. Mas neste filme Macau resume-se a um imenso casino pós-moderno, com putas, assassinos a soldo e dragões-de-Komodo criados como rottweilers. E o vilão é um suposto português residente no Oriente que o espanhol Javier Bardem encarna numa boçal caricatura.

Motivos acrescidos para eu ter detestado este filme. Fuck you, Mr. Bond.

 

Skyfall. (2012). De Sam Mendes. Com Daniel Craig, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Judi Dench

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15 comentários

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De João Campos a 30.10.2012 às 18:03

Nunca fui apreciador de James Bond, admito - mas isso que falas da China pode ter uma explicação muito simples: a produção do filme pode ter contado com capitais chineses, que, diz-se em alguns recantos da Internet, incluem algumas contrapartidas.

Corre o rumor que foi o caso de um filme muito recente e muito bom: "Looper", de Rian Johnson, com Bruce Willis, Joseph Gordon-Levitt e Emily Blunt, provavelmente melhor filme de ficção científica que vi no grande ecrã em muitos anos. É um filme independente que só foi possível devido a capitais chineses - e diz-se (rumores) que a contrapartida foi haver qualquer coisa chinesa no filme. O realizador foi esperto - introduziu uma personagem secundária chinesa que nunca diz uma única palavra (mas que funciona surpreendentemente bem) e, num rasgo de génio, escreveu um diálogo hilariante entre uma personagem que veio do futuro com outra do presente, em que a primeira tenta explicar à segunda, sem revelar grandes detalhes, por que motivo seria mais útil aprender chinês do que francês. Lá está, é tudo uma questão de criatividade.
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De Ana Cláudia Vicente a 31.10.2012 às 00:13

Olha, que coincidência, João, fui ver o 'Looper' sem expectativas e também gostei bastante. E fui porque o J.Gordon-Levitt é um daqueles actores que fareja um argumento como-deve-ser à distância, raramente faz um filme que não valha o bilhete.

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De João Campos a 31.10.2012 às 01:47

Eu fui ver "Looper" com muitas expectativas, e por uma vez este ano não saí defraudado da sala de cinema (já me bastaram as banhadas que foram "Prometheus" e "The Dark Knight Rises"). Também simpatizo com o Gordon-Levitt - Ainda te lembras dele na série "3º Calhau a Contar do Sol"? :)
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 19:16

O que eu ando a perder, João. Não vi nenhum desses.
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De Ana Cláudia Vicente a 31.10.2012 às 19:18

Lembro-me, pois (dele e do Lithgow, que fazia outro alienígena excelente) ainda com aquela vozita aguda e aquele penteado folha-de-alface, eh eh.
Chiça, assim se vê que já fomos mai'novos, pá!
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De ghj a 30.10.2012 às 18:43

A questão é de glamour, mas de um modo mais geral: na nossa época, possidoneca, o glamour foi-se.
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 01:19

Da Ursula Andress na Jamaica ao Javier Bardem em "Macau": meio século de decadência.
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De Nada de Admirar a 30.10.2012 às 18:55

Nos tempos que correm, o nivelamento é invariavelmente pelo nível da burgessice mais chapada.
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 01:17

Acredite: os melhores intérpretes, neste filme, são os dois dragões-de-Komodo.
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De Ana Vidal a 30.10.2012 às 23:26

Ainda não vi o filme mas calculei que seria mais ou menos assim, e tenho pena porque sou espectadora habitual dos filmes de James Bond. São puro entretenimento, ou deviam ser. Mas acresce a tudo o que dizes aqui que eu acho o Daniel Craig (mesmo sabendo que ele é inglês) o retrato acabado de um mafioso eslavo, portanto nos antípodas da personagem original de Fleming. Para mim, o pior Bond de todos. Parece que está a acabar o contrato dele como Bond. Fico muito contente, e espero que o próximo actor recupere o charme, a sofisticação e o humor que este nunca soube dar à personagem.
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 01:15

Este tipo nunca me enganou, Ana. Desde que o vi a beber cerveja pelo gargalo.
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De Ana Cláudia Vicente a 31.10.2012 às 00:17

Agora tenho de ir ver, Pedro; gosto do Craig enquanto Bond, gosto do Mendes, mas acredito que tudo possa correr mal. E diz que vilão tem sangue português. Isso não ajuda na escala da empatia, imagino.
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 01:14

Para vilão com sangue português já tinham o Mendes, Cláudia. Bem escusado terem chamado o Bardem.
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De André Fernandes Nobre a 31.10.2012 às 01:41

Salvaguardando o direito individual de cada um à sua opinião, eu acho que deve haver aqui algum equívoco.

Bond não é nem nunca foi uma espécie de Mcgyver, capaz de congeminar saídas de última hora das tramóias em que se via envolvido.

Aliás, se alguma coisa havia de astuciosa nas acções de Bond, ficavam a dever-se em exclusivo aos gadgets que o Q lhe entregava e nunca da capacidade do Bond em inventar artifícios.

Quanto à força bruta, quem, tendo visto os filmes da série, não se recorda de Oddjob ou Jaws, para citar dois dos mais brutos adversários de Bond.

E em cenários, que tal a venda da Rússia pós comunista em Goldeneye ou os milhentos cenários por onde Bond passou? Retira mesmo da meia dúzia de minutos em que a acção decorre em território chinês essa apologia do regime comunista ou da China enquanto dragão económico? Tem graça, eu não vi lá nada disso.

Ponderou o Pedro por acaso que poderão não ser os filmes que mudam, mas sim os olhos de quem os vê?
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 13:23

Tem razão: Bond nunca foi uma espécie de Mcgyver. Ainda bem para ele.
Pergunta-me se tudo depende dos olhos de quem vê. Volto a dar-lhe razão: é isso mesmo. Cada olhar é singular - e o nosso próprio olhar vai-se alterando conforme passa o tempo. Daí a piada de debatermos estas coisas.

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