Domingo, 3 de Maio de 2009
por Pedro Correia | 03.05.09

 

ELE VIU E TODOS NÓS VEMOS TAMBÉM

 

Faz hoje 201 anos, uma colina madrilena enchia-se do sangue de espanhóis que ousaram erguer-se contra o terror napoleónico. A resposta da tropa ocupante contra os protestos de rua foi brutal: duas centenas de insurgentes foram fuzilados nessa noite.

Na véspera, haviam partido os últimos membros da família real, expulsos pelo exército invasor: Napoleão enviara cem mil soldados para ocupar Espanha, pondo no trono o seu irmão José Bonaparte. O imperador francês aproveitara as divergências ocorridas na corte madrilena que haviam conduzido à abdicação de Carlos IV, a 23 de Março, e à subida ao trono do seu primogénito, Fernando VII, uma figura muito contestada (alguns historiadores consideram-no mesmo o pior soberano espanhol de todos os tempos). Repetia-se assim o ocorrido meses antes em Portugal. Com uma diferença digna de registo: a família real espanhola, ao contrário da portuguesa, não teve tempo de transferir o trono para as colónias americanas, que chegaram a ser encaradas como lugar de exílio.

Tal como tinham feito em território português, os franceses destacaram-se desde o início pelas atrocidades que iam espalhando à medida que avançavam no terreno. O orgulho espanhol ressentiu-se de imediato: estalou a revolta em Madrid, logo estrangulada à força de baionetas. Muitos dos envolvidos nesse levantamento foram executados, à laia de exemplo, para evitar novas insurreições. Em vão: nunca os espanhóis deixaram de se rebelar contra os franceses, que acabaram derrotados em 1813.

 

De esboço a quadro

 

Um pintor sexagenário, que vivia atormentado pela surdez mas mantinha o olhar arguto da juventude, testemunhou os acontecimentos da noite de 3 de Maio. Com o instinto inato dos grandes artistas, teve a percepção imediata de que as gerações posteriores deveriam poder testemunhar igualmente a repressão ali abatida sobre o seu povo. Fez um esboço rápido da macabra cena das execuções e guardou-o. Seis anos depois, em 1814, o esboço transformou-se em quadro - um dos mais impressionantes quadros de que há memória. O 3 de Maio de 1808 em Madrid: os fuzilamentos no Monte do Príncipe Pio.

Com esta tela hoje exposta no Museu do Prado, Francisco Goya y Lucientes (1746-1828) virava uma página decisiva na história da pintura, inaugurando uma etapa em que a arte se tornava grito de protesto, pondo os vencidos no lugar habitualmente reservado aos vencedores. Gerava-se um "fenómeno de socialização dos sentidos", como acentua o crítico de arte Manuel Tuñón de Lara. Antes dele, pontificavam as figuras mitológicas recuperadas do imaginário greco-romano ou os santos eleitos através dos séculos pela devoção católica. Depois dele, a grande personagem da pintura tornou-se o Homem. Assim mesmo, com agá maiúsculo.

É precisamente um homem que surge no centro deste quadro. De braços abertos, palmas das mãos expostas, peito entregue às balas que daí a instantes vão trespassá-lo. Não desvia o olhar: encara num último desafio o renque de fuzis que tem à sua frente. Há um feixe de luz a inundá-lo: é o único foco de claridade numa tela onde predominam os tons escuros, acentuando a dicotomia entre o peso da opressão e o impulso dos combatentes pela liberdade. Quem morre, recebe a bênção da luz; quem mata, permanece envolto num manto de trevas.

 

A luz e as trevas

 

Olhemos o quadro com um pouco mais de atenção: desconhecemos o nome da figura central. Mas a iconografia aqui representada é-nos familiar. Os braços abertos em forma de cruz e as chagas nas mãos funcionam como metáfora de Cristo mártir. Repare-se na fileira de soldados: nenhum deles tem rosto. Cumprem ordens superiores, de dedo no gatilho, tornando-se implacáveis máquinas de trucidar. Para reforçar a dicotomia, o homem que vai ser morto em primeiro lugar veste uma camisa branca.

No plano geométrico, outro contraste. Entre a verticalidade dos madrilenos e a horizontalidade das armas dos soldados que obedecem aos despóticos irmãos Bonaparte.

O homem no centro de todos os olhares, o quadro como expressão do seu tempo, o artista como assumido intérprete da consciência colectiva: este 3 de Maio de 1808 é uma das maiores peças de propaganda de que há memória. Contra o militarismo, contra a violência gratuita, contra o horror da guerra com o seu cortejo de mortos. Goya quer que nos tornemos testemunhas dos actos macabros que presenciou e transpôs para o seu esboço, hoje depositado no Museu da Sociedade Hispânica de Nova Iorque. Como sublinhou Pablo Serrano, com ele "a arte converte-se em grito de protesto, numa atitude ética e moral de inegável valor humano".

 

O mais verdadeiro

 

Poucos quadros terão sido tão inspiradores. Do francês Monet ao compatriota Picasso, diversos mestres da pintura prestaram tributo a Goya com telas claramente inspiradas nesta obra seminal (a própria Guernica segue uma linhagem inaugurada aqui). E até pintores contemporâneos, como o chinês Yue Minjun, continuam a fazer variações a este quadro feito por aquele a quem a Irmã Wendy Beckett - célebre pelo seu programa televisivo em que divulgou a arte de todos os tempos junto do grande público - chamou "o mais verdadeiro dos artistas".

Goya, de facto o mais verdadeiro de todos os artistas, era capaz de pintar um rei com a face banal de um homem comum. Outro dos seus grandes quadros, A Corte de Carlos IV, é disso um excelente exemplo. Com ele o pintor deixou de ser um ilustrador servil do perfil dos poderosos, deslumbrado com os lustres palacianos. Torna-se um crítico social, torna-se um homem do seu tempo.

 

Nesse quadro de 1799 detectava-se outra inovação: todos os membros da família real espanhola, com as suas feições rudes, parecem ter uma expressão submissa em relação a quem os pinta. E quem ocupa aqui a posição central é a rainha Maria Luísa, não o monarca - indivíduo inseguro e timorato, ao que rezam as crónicas.

O olhar implacável de Goya era assim: não se limitava a retratar a realidade - antecipava tendências. No fundo, A Corte de Carlos IV é já uma despedida da monarquia absoluta: vinha aí a Europa liberal.

"Eu vi" era o lema de Francisco Goya. Através dos olhos dele, todos passámos a poder ver também. Quem quer que contemple O 3 de Maio de 1808 em Madrid, sob os mais diversos ângulos, não pode deixar de sentir a mesma repulsa pela brutalidade cega aqui tão cruamente desenhada. Como permanente grito de revolta contra todos os actos de barbárie. Em qualquer tempo, em qualquer lugar.

 

(Clicar nos quadros para aumentar)




13 comentários:
De tric a 3 de Maio de 2009 às 11:20
O primeiro quadro, deveria se chamar "Liberdade, Igualdade, Fraternidade"...

Só de pensar que o NAZI Napoleão Bonaparte é ainda hoje VENERADO em França bem como pela irmandade Jacobinada-Judaica, grandes apoiantes das invasões francesas em terras ibericas. Os Judeus consideram mesmo, o NAZI Napoleão Bonaparte, como "O Grande Libertador"


De João Carvalho a 3 de Maio de 2009 às 11:23
... E tu puseste-nos a ver também, compadre. No dia exacto, entregas-nos um estupendo texto sobre um realista que recriou a pintura para fazer dela a arte de mostrar o que há para ver e perdurar - a arte como documento-testemunho, como bem dizes - ao invés de um trabalho submisso quando perante o poder.

Repito: um estupendo texto, no dia exacto em que a Espanha relembra os horrores por que passara Portugal nas invasões napoleónicas, às mãos da soldadesca que servia o sonho magalómano daquela França que parecia imparável.


De Pedro Correia a 3 de Maio de 2009 às 22:05
Obrigado, compadre. A minha ideia inicial era arrancar com uma série destinada a analisar grandes quadros de todos os tempos. Gostava muito, e até já tenho alguns pré-seleccionados, mas não sei se tenho tempo para esta empreitada. Entretanto avançou já este. Depois logo se vê.


De João Carvalho a 3 de Maio de 2009 às 22:10
A ideia é óptima.


De Ana Vidal a 3 de Maio de 2009 às 11:57
Grande, grande post, Pedro. O tema é e sempre será actual, porque a história repete-se, infelizmente, em actos de horror e brutalidade gratuita. É assim a natureza humana, apesar de toda a civilização que julgamos ter. E é preciso não deixar que se percam na memória as consequências trágicas desses actos. Parabéns.


De Pedro Correia a 3 de Maio de 2009 às 22:08
Obrigado, Ana. Não esqueço a emoção de ver os Goyas no Museu do Prado. Vale a pena ir lá só para ver Goyas: entramos num mundo de onde nunca chegamos verdadeiramente a sair depois de contemplarmos aquela sucessão de obras-primas que mudaram o modo do homem ocidental de ver o mundo. Outro quadro do Prado de que gosto imenso é 'As Meninas', de Velázquez - um dos mais imitados de todos os tempos. Se tiver tempo, um dia destes falarei dele aqui.


De Ana Vidal a 3 de Maio de 2009 às 22:13
O Prado é um dos museus mais completos e ricos que já visitei, em pintura. E não me refiro só aos pintores espanhóis, claro. Mas tens razão: os Goyas marcam indelevelmente quem os olhar com atenção e respeito.
Proponho mais uma série para o Delito: "Os quadros das nossas vidas", a exemplo dos filmes. Que tal?


De Pedro Correia a 3 de Maio de 2009 às 22:19
Ó Ana, a série dos filmes parece ter morrido ao quinto capítulo. Mais ninguém se chegou à frente...


De Ana Vidal a 3 de Maio de 2009 às 22:31
Um dia destes pego-lhe outra vez, quando tiver mais tempo. Gosto muito de falar sobre "os meus filmes". E tu também gostas, além de seres doutorado na matéria. :-)


De Pedro Correia a 3 de Maio de 2009 às 22:33
Acho óptimo. Eu não queria começar uma segunda volta sem outras pessoas escreverem, mas qualquer dia avanço também para outro filme.


De Fulano a 3 de Maio de 2009 às 18:13
Então !? Quem se opõem à ocupação de um país por outro não é terrorista?


De mike a 3 de Maio de 2009 às 18:25
Excelente! Fantástico post, Pedro. E por aqui me fico. Vou lê-lo outra vez, posso? Abraço.


De Pedro Correia a 3 de Maio de 2009 às 22:09
Obrigado, Mike. Espero todos os meses reservar um espaço aqui para falar de um grande quadro. Um dos que já consegui ver ao vivo.


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