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Something tweed

por Ivone Mendes da Silva, em 05.08.12

(A silly season é o que é não adianta. Com a maioria dos leitores a banhos e uma preguiça que me faz perder algum decorum que não me fazia mal nenhum, repristino um texto em que volto às frioleiras de roupas, sapatos e afins. É o último, prometo.)



 

Quando estava, há pouco, a pendurar um casaco no armário, dei por mim a meditar sobre a predominância de casacos de tweed sobre outras peças de vestuário. É bem certo que será melhor meditar, - e então se for em francês! - sobre a guerra, o mal e fim da história, mas cada um medita sobre o que tem no armário. Dei-me conta de que os casacos de tweed me têm acompanhado sempre, tanto na solenidade de alguns momentos como na pressa das manhãs dos dias úteis. Eu gosto de me vestir para as ocasiões por mais insignificante que a ocasião seja. Quem diz vestir, diz calçar: se não estiver com uma pressa desmesurada, passo por casa para trocar de sapatos antes de uma ida inadiável ao supermercado. Andar de saltos agulha entre as promoções dos iogurtes e a prateleira dos detergentes revela, além de mau-gosto, falta de juízo. Por razões práticas, claro, pois quem já empurrou um carrinho de compras em cima de uns saltos a sério, ao fim de um dia, sabe do que falo.

Voltemos, então, ao tweed que hoje se me afigurou como um símbolo, ou, se calhar, um talismã a que me agarro volta não volta.

Isto dos símbolos em matéria de vestuário também é engraçado. Quando casei pela primeira vez, decidi que queria um vestido de noiva curto. Na altura, não tinha ainda  a minha D. Anita, a minha costureira que, há  quase 30 anos, cose tudo aquilo que eu visto. Já se sentou, pacientemente,  no sofá a meu lado a ver um Hitchcock e a tirar apontamentos sobre um casaco que eu queria e, com a minha incapacidade para desenhar, não conseguia reproduzir no papel; já costurou um longo vestido de baile em veludo vermelho que usei num dos bailes de finalistas dos meus alunos e que guardo religiosamente na esperança de o deixar de herança  a neta que saia a mim. Ora bem e recapitulando, não foi fácil encontrar o vestido de noiva que eu queria, mas lá o desencantei, de cambraia e rendas, um ar antigo, com uma saia que dançava à volta dos joelhos e um decote generoso. Eu tinha vinte e poucos anos e vivia a glória de me sentir um desafio. A minha mãe reprovou o decote e uma das minhas tias veio, pressurosa, com dois alfinetes-de-ama minúsculos, prender qualquer coisa nos ombros de modo a reduzir o espaço visível do meu colo. Durante a cerimónia, parece que o noivo, muito alto, continuava, apesar dos propósitos impeditivos da minha tia, a ter uma vista privilegiada sobre o referido colo. Eu, em quem subsiste, malgré moi, uma certa forma de pensamento mágico, cumpri o que a tradição determina: something old, something new, something borrowed, something blue. Usei umas luvas antigas, um pulseira emprestada, um lacinho azul de cetim, discretamente algures, e tudo o resto era novo.

O vestido foi-se desfazendo nas peças de teatro da escola do meu filho, para que as amiguinhas dele, acrescentados os devidos acessórios, fizessem de princesa, de fada, de senhora, e acabou, por ponderosas razões que não vêm agora ao caso, num caixote do lixo.

O casamento, esse acabou na Conservatória de um Registo Civil. Ora é aí que surge um dilema de vestuário: que deve vestir a requerente num divórcio, tanto mais que teria de ir dali directamente para  uma representação protocolar? Bem, pois foi um casaco de tweed sobre a pele, pérolas, saia e meias pretas. Quando lá cheguei, a atencioso advogado que representava o requerente elogiou-me o aprumo, mas disse que o acto não carecia de tais requisitos na indumentária. Expliquei que, saída dali, iria ouvir a oração de sapiência de uma abertura solene de aulas. Penso que estive bem vestida, tanto de um lado como de outro.

Quando casei pela segunda vez, ainda pensei em tweed mas era Abril e o tempo começava a aquecer. Usei um discreto robe-manteu, azul, que combinava bem com o casaco muito Quartier Latin do noivoE, como há coisas que são o que são e não adianta, já que o vestido era azul e novo, usei uns brincos antigos e pensei que os cartões que tinha na carteira eram, no fundo, um empréstimo do banco e que cumpriam a requisito do something borrowed. Ah, e continuei a respeitar um conselho da minha avó: "Casem com homens bonitos porque compõem muito uma cerimónia de casamento."

O vestido não foi parar ao caixote do lixo. Além de poder ser usado em ocasiões diversas, as amigas do meu filho já não fazem teatro e, mesmo que o fizessem, nem sei bem que personagem conseguiriam ser dentro dele.

Quando me abeirei do segundo divórcio, entendi que não precisaria de me preocupar com a indumentária, pois nem a ocasião nem as circunstâncias estavam imbuídas de tanto pathos como as do primeiro acto mas, pelo sim pelo não, usei um casaco comprido de tweed e uma écharpe num encarnado profundo, um rosso veneziano, porque o requerente gosta de Tintoretto e eu achei que era um gesto simpático.

E uns brincos de pérolas porque, se muitas coisas mudam em mim, outras permanecem iguais.

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15 comentários

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De Carla Ferreira a 05.08.2012 às 16:52

Nem todos nadam na silly season. Porque não querem, porque não podem, ou simplesmente que porque não lhes apetece. E textos de armários e roupas são sempre bem vindos, aqui, na ronda dos dias, ou em ambos, onde for. Os seus trazem sempre um toque especial, quiçá como as roupas que veste nas ocasiões. E por isso sorrio, só podia.
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De Ivone Mendes da Silva a 05.08.2012 às 17:07

Obrigada, Carla. O que eu ando é muito preguiçosa :)
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De Patrícia Reis a 05.08.2012 às 22:33

Ivone, podes escrever mais sobre guarda-roupa e memórias, parabéns! E não precisa de ser na silly season:)
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De Ivone Mendes da Silva a 05.08.2012 às 22:37

Patrícia, tenho pena dos cavalheiros, sempre tão simpáticos comigo, enfastiados com estas conversas de saltos :)
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De fernando antolin a 06.08.2012 às 14:31

Perdão, uma mulher nuns saltos altos é, salvo raras excepções, uma visão que não deixa qualquer cavalheiro que se preze, indiferente !!
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De Ivone Mendes da Silva a 06.08.2012 às 16:06

Oh, meu caro Fernando, eu sei que não: a visão não deixará indiferente, mas ler assunto já poderá maçar.
Obrigada pelo seu comentário.
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De Maria a 05.08.2012 às 22:52

Também acho que seja um texto mais de memórias. Gostei de ler.
Também pus o meu vestido de noiva no caixote de lixo. Continuo casada pelos filhos, porque sou filha de pais divorciados e sei o que isso significou na vida de, pelo menos, quatro pessoas.
Também ainda não fui de férias.`
E nem sei se irei.
Adoro pérolas. ;)
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De Ivone Mendes da Silva a 05.08.2012 às 23:07

Obrigada pela sua leitura, Maria.
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De Menezes a 06.08.2012 às 15:12

As mulheres são de facto giras e a mulher urbana tem um encanto muito especial. No entanto sou homem, 53, casado, 3 filhos. E provinciano, vivo numa aldeia perto de uma cidade pequena.
É difícil de compreender o que motiva a mulher a despender tanto esforço para "dar um ar". Parece falso mas pode não ser. É ser mulher. São giras por isso.
A sedução está sempre presente!
Considero-me homem, não sei o que se passa com os outros. Mas posso garantir-lhe que a sedução não é a minha principal motivação. Já reparei que o homem (na sua ingenuidade) é mais seduzido que sedutor. Por vezes nem se apercebe.
A sua crónica fez-me ter este pensamento. Estranho.
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De Ivone Mendes da Silva a 06.08.2012 às 16:47

Obrigada pela sua leitura, caro Menezes. Isto é temática complicada. David Mourão-Ferreira tem um texto pouco conhecido sobre a sedução diz, a dado passo " O verbo seduzir não é, necessariamente transitivo."
O mundo é de muitas cores e ainda bem, se uns preferem a simplicidade de um gestos simples, outros apenas se moverão ao som de uns miados de leoa. E isto creia-me não tem nada a ver com o binómio cidade/campo: a natureza humana é sempre a mesma quer os lençóis sejam de cetim, quer sejam de linho perfumados de alfazema.
Obrigada, mais uma vez.
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De Ana Vidal a 07.08.2012 às 16:40

Li este teu delicioso texto, primeiro com o prazer de sempre (que bem escreves tu, "melher"!) e depois com uma crescente sensação de déjà vu. Então não é que temos percursos parecidíssimos e eu não sabia?? Como tu, da primeira vez também casei com todos os matadores (afinal era só um e moía mais do que matava, mas só descobri isso anos depois). Não levei luvas, mas usei "um pulseira emprestada, um lacinho azul de cetim, discretamente algures, e tudo o resto era novo" (incluindo eu, que era até nova demais). Para esse divórcio vesti-me com capricho e a coisa até deu direito a largos sorrisos no tribunal, sobretudo do requerente, que estava muito bem disposto. A galhofa foi tanta que o juíz nos perguntou se tínhamos mesmo a certeza do que estávamos ali a fazer. Tínhamos. Para o segundo casamento, também eu fui de azul. Não foi exactamente um robe-manteau, mas um vestido que havia de dar mais tarde uma túnica com calças iguais, que eu já tinha idade para ter juízo e queria fazer render a toilette por muitos e bons (usei-a até deixar de caber nela, posso dizer que cumpriu a missão). Já no divórcio, a toilette descambou. A coisa foi tão rápida e tão informal (já foi na época em que o "não" se diz no cartório e já está) que me preocupei mais com o que ia fazer a seguir, ou seja... ir para a praia. Não me lembro se ouvi elogios do advogado da parte contrária, mas sei que nos fartámos de conversar e ficámos amigos até hoje. O meu não apareceu, por incrível que pareça. Foi uma das situações mais caricatas da minha vida, e uma das várias razões de queixa que tenho de advogados.

Seja como for, a verdade é que nos vestíamos por gosto e com gosto para as ocasiões, mesmo que fossem menos felizes. Parece que tudo mudou quando o tweed passou de moda e foi substituído pelo tweet... ;-)
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De Ana Vidal a 07.08.2012 às 16:52

Esqueci-me de dizer que o meu primeiro vestido de noiva (lindo, desenhado por mim, de seda e rendas antigas) teve um destino ainda mais trágico do que o teu: foi roubado da mala do carro da minha mãe, que o trazia da lavandaria logo na semana seguinte ao casamento. Eu devia ter visto nesse acontecimento alguma coisa de premonitório, pensando bem. Mas nessa época eu não via nada, a não ser o que queria ver. :-)
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De Ivone Mendes da Silva a 07.08.2012 às 21:21

Merci, Ana.

E tens razão, estes passaram a ser uns tempos de tweet em vez de tweed ... com muito menos piada, claro.
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De Ana Cláudia Vicente a 08.08.2012 às 00:17

Ter uma Dona Anita a esboçar à vista de um Hitchcock, Ivone...isto é o que eu chamo ser uma mulher de recursos!

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De Ivone Mendes da Silva a 08.08.2012 às 00:39

Olha, minha querida, é dos poucos que tenho :)

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