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Este fogo que arde

por Teresa Ribeiro, em 22.07.12

Se pudesses assistir mais uma vez às imagens dos incêndios que nos consomem no Verão, novamente te veria a sofrer, preso à televisão, a disparar frases incendiárias contra os que sempre responsabilizaste por estas catástrofes sazonais. Não era de pirómanos que falavas, mas de quem decidiu por razões políticas fazer tábua rasa de toda a organização que existia para o desenvolvimento e protecção do património florestal.

Eras insuspeito, quando defendias convictamente a preservação do antigo sistema instituído por Salazar, pois nunca apoiaste o regime. "O Botas, justiça lhe seja feita, dava muita importância à floresta", admitias.

Nunca foste tão feliz como quando andaste em Trás-os-Montes a orientar equipas de combate aos incêndios, constituídas pelos homens a quem davas formação. Homens que viviam na floresta e a conheciam como a palma da mão. Quando um incêndio deflagrava eram eles, os guardas florestais, que das suas torres de vigia davam o alarme.

Limpa de detritos e com acessos preparados para essas eventualidades, a floresta quando ardia não escapava como agora ao controlo dos homens porque era composta, na sua maioria, por uma multiplicidade de espécies de níveis de combustão diferentes, o que retardava o avanço das labaredas, explicavas-me tu, uma e outra vez, quando vias o país a arder pela televisão. Lideradas por técnicos com formação em silvicultura, que sabiam calcular a velocidade de propagação do fogo, as equipas de combate aos incêndios abriam valas e queimavam o terreno em zonas estratégicas para melhor o circunscrever, recordavas, revivendo algumas batalhas que ganhaste assim . 

Aprendi contigo desde pequena que os incêndios na floresta se combatem sobretudo com um profundo conhecimento da sua flora e uma boa rede de comunicações e postos de vigia, a tal que por razões políticas - e que fúteis são sempre as razões políticas - um dia se desmantelou.

Sabias que o aumento do número de extensões ardidas começou a crescer exponencialmente a partir de 1975, o ano em que todo aquele sistema por que te bateste até ao fim foi destruído? Se calhar sabias. Combativo como eras deves ter esfregado essas estatísticas na cara de muita gente, mas sem sucesso.

Há dias disseram-me que Portugal é o único país da Europa que não tem guardas-florestais. Também sabias disto, pai?     

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24 comentários

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De Rita Vasconcellos a 22.07.2012 às 22:31

cara Teresa
parece que hoje nos lembrámos especialmente dos nossos pais. O António Manuel Azevedo Gomes era um grande amigo do meu pai e a especialidade dele eram as Florestas, com várias publicações sobre o assunto.
Tenho a certeza que estão os 3, como nós, a falar nisso.

gostei muito do seu post
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De Teresa Ribeiro a 22.07.2012 às 22:35

E eu do seu comentário. Obrigada, Rita.
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De am a 22.07.2012 às 23:26

"também sabias disto, pai?": na Madeira um suspeito d de ser um dos causadores daquela tragédia, está solto com" apresentação diária na PSP" ...Rico castigo: depois de bater a pala ao policia, pode ir à "vidinha" com os bolsos cheios de fosforos!
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 00:35

Esse é um outro problema, que não é abordado neste post. Mas partilho a sua preocupação.
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De Pedro Correia a 22.07.2012 às 23:45

Excelente texto, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 00:36

Obrigada, Pedro.
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De Luís Lavoura a 23.07.2012 às 10:22

É um bocado disparatado dizer que em 1975 tudo começou a arder porque, de um ano para o outro, teria deixado de haver guardas florestais e porque, de um momento para o outro, as espécies de que a floresta é composta se teriam alterado. As árvores demoram muito tempo a crescer e, portanto, as espécies de que a floresta se compõe não se alteram drasticamente em poucos anos.
Eu diria que grande parte do Portugal florestal desse tempo (1975) era o resultado de florestações efetuadas no tempo de Salazar, nomeadamente florestações com pinheiro bravo, o qual arde muito bem. Eu diria que as florestações efetuadas no tempo do pai da Teresa tinham esse defeito - iriam inelutavelmente conduzir a grandes fogos florestais.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 12:41

Caro Lavoura, de facto não expliquei, mas penso que se depreende facilmente que o que contribuiu para o agravamento imediato da dimensão dos fogos foi o desmantelamento da rede de comunicação e vigia que existia. Com o tempo, a substituição sistemática da flora ardida por vastas extensões de eucaliptos fez o resto.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 12:42

Quis dizer "eucaliptais" e não eucaliptos.
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De Luís Lavoura a 23.07.2012 às 12:49

Acontece que (não sendo eu um especialista, nem de longe nem de perto) não estou de acordo consigo.
O que agravou a dimensão dos fogos foi que as florestas deixaram de ser limpas de matos e outra vegetação rasteira, como o eram no tempo do pai da Teresa.
Por mais vigiadas que as florestas sejam, desde que os matos lá estejam elas arderão sem parar mal haja um dia meteorologicamente apropriado.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 14:52

Lavoura, basta passar os olhos pelo DN de hoje para perceber o caos que reina no sector. www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2680912
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De José Navarro de Andrade a 23.07.2012 às 10:55

A realidade é sempre mais complexa do que a informação nos grita. Mais uma vez foi - agora por ti - demonstrado.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 12:31

Pois, disto não se fala. Primeiro foi silenciado, depois esquecido.
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De José da Xã a 23.07.2012 às 17:45

Teresa,
todos os anos por esta altura tremo. Tenho um pinhal pequeno com 10 hectares. Investi lá dinheiro para o limpar do mato e da rama velha. Todavia não está, ainda assim, imune a uma mão criminosa que lhe deite fogo. E depois? Depois é vender tudo ao desbarato. Em tempos coloquei publicanente uma questão: quem beneficia com os incêndios?
Saibam responder à pergunta e talvez tenham aí parte da solução.
Obrigado pelo seu testemunho.
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De Teresa Ribeiro a 23.07.2012 às 23:18

Sim, José da Xã, essa é outra questão, igualmente importante e que exige uma investigação séria. Já se fez? Ao menos já se tentou? Nunca constou semelhante coisa.
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De Vergueiro a 26.07.2012 às 11:11

Esta é a verdade. Desmantelou-se a vigia, que servia não só para uma detecção atempada, mas também para intimidar os incendiários. Sou do tempo em que na minha aldeia tinha de se pedir autorização ao Sr Guarda para ir à mata.
Mas os interesses dos empresários, como em tudo, sobrepôs-se. Vender ou alugar meios aéreos, tanques etc, dá maiores margens do que vender fardas e motoretas ao guarda florestal...
Diga-se também que esta recente alteração da lei, Assunção Cristas no seu melhor, também não vai ajudar nada a floresta e(e os custos que eu como contribuinte vou suportar no combate aos incêndios). Isto de "se a terra arder pode-se alterar o tipo de espécies" faz-me lembrar a lei das rendas só terminam se o edifício cair de podre... e depois temos o belo espectáculo dos edifícios a caírem de podre(que lindos, que charme!..) e a pegarem fogo nas nossas cidades.
Enfim. Fazem o que querem e ainda gozam de nós.
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De PRD a 27.07.2012 às 21:37

Cara Teresa, espero que não leve a mal, mas este seu post é tão forte e inspirador que vou reproduzi-lo na integra, com link e devida assinatura, no meu blog. Se tal facto a incomodar, please, avise-me e eu retiro!
Um abraço
Pedro Rolo Duarte
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De Teresa Ribeiro a 29.07.2012 às 01:29

Levar a mal? Só posso sentir-me lisonjeada, Pedro. Beijinho
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De Gonçalo Duarte Gomes a 28.07.2012 às 13:12

Cara Teresa,

Obrigado pelo que escreveu!
O problema que aponta é fundamental, e encana noutros, como, por exemplo, o desmantelamento dessa verdadeira instituição que foram os guarda-rios. Na loucura revolucionária, confundiram-se questões político-partidárias e ideológicas com estruturas fundamentais da organização funcional do País.
E o resultado está à vista. E faz falta quem aponte o dedo, neste regime d'o rei vai nú!
Permita-me que partilhe consigo algumas linhas que escrevi, também a propósito da calamidade que se abateu sobre o Algarve, particularmente sobre o concelho de São Brás de Alportel, onde resido, e que adoro:

http://www.sulinformacao.pt/2012/07/“fogo-amigo”/

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De Teresa Ribeiro a 29.07.2012 às 01:37

Obrigada, eu, pela partilha. Sinto-me sempre incomodada por ver sistematicamente arredadas da discussão sobre a defesa do património florestal e o combate aos incêndios estas questões e no entanto há técnicos que bem podiam chegar-se à frente e falar com autoridade no assunto.
Foi doloroso ver as imagens de São Brás de Alportel depois da terra ardida. Que desolação. E aqueles pobres animais, todos queimados? Que tristeza!
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De Anónimo a 28.07.2012 às 13:17

O que se viu nestas duas semanas foi um terror. Ver a dor de quem perdia as suas coisas, ver o país a arder, ver a entrega os bombeiros. Este texto é tocante.

A lei tem de ser revista.
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De Teresa Ribeiro a 29.07.2012 às 01:38

Mais do que leis, caro anónimo, é preciso mudar procedimentos.

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