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No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 28.05.12

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

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60 comentários

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De Luís Lavoura a 28.05.2012 às 17:52

Faz parte da cumplicidade entre o jornalista e as suas fontes. Se a empresa publica um comunicado a dizer que "rescindou" com os "colaboradores", o jornalista, para não ofender a fonte - que, ao fim e ao cabo, é uma grande e importante empresa -, repete os eufemismos utilizados por esta.
Ademais, o jornalista evita desta forma investigar o assunto. O "colaborador" não estaria necessariamente ligado à empresa por um contrato de trabalho, mas eventualmente apenas por um contrato de prestação de serviços. Ou seja, poderia ser um "recibo verde" e não um genuíno trabalhador do quadro da empresa. O jornalista, para evitar o trabalho de estar a investigar a natureza exata do contrato de "colaboração", limita-se a reproduzir o que a empresa comunicou.
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:31

Admito que isso suceda pelo motivo que indica na maior parte dos casos, o que não serve de atenuante mas de agravante pois essa prática nada tem de jornalismo: para tal efeito qualquer porta-voz empresarial serve.
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De Anónimo a 29.05.2012 às 17:28

Caro Pedro Correia, permita-me tratá-lo por caro apesar de não nos conhecermos. Na realidade o seu texto está excelentemente extruturado, assim como a ideia que procura passar. Mas há também uma leitura que deve ser feita através da excelente imagem que publica neste seu post. Na realidade, ao olhar para a foto do homem carregando a pedra para o topo da montanha, ocorreu-me de imediato o mito de Sísifo. Sísifo, filho de Éolo e fundador de Corinto, condenado pelos juízes dos infernos (talvez aqui se inclua a Merkel e tantos outros. O nosso Passos, aparentemente, quer ir mais longe) a empurrar um rochedo para o alto de uma colina, para dali o precipitar para o outro lado, mas esta (a pedra) voltava sempre a rolar pela mesma encosta até ao ponto de partida. Este mito tornou-se, em todas as literaturas, o símbolo de uma tarefa árdua, sempre renovada e jamais realizada. Tudo isto para dizer que a foto que publicou, para mim, é o mais belo texto que podia ser redigido.
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De Pedro Correia a 30.05.2012 às 01:18

Agradeço as suas palavras elogiosas, caro Anónimo. Não sei se costuma visitar este blogue. Mas, não sendo esse o caso, fica desde já convidado a visitá-lo regularmente.
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De Anónimo a 30.05.2012 às 10:17

Fico grato pelo seu convite, assim acontecerá. Apresento as minhas desculpas pelo erro no meu comentário. Onde está "extruturado" deve ler-se estruturado. Este erro deveu-se à proximidade da letra X e da letra S no teclado. Bem haja.
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De FMS a 29.05.2012 às 20:13

Naturalmente por ter medo der ser ele o próximo rescindido.

A principio foram os judeus, depois os polacos, a seguir o meu vizinho. Quando me tocaram à porta já não tinha ninguém em quem me apoiar.

A história quando se repete, é com a tragédia que nos bate à porta.
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De Pedro Correia a 30.05.2012 às 01:19

Admito que sim. Mas quem tem medo compra um cão. Não escreve em jornais nem faz jornalismo televisivo ou radiofónico.
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De l.rodrigues a 28.05.2012 às 17:58

Concordo em absoluto. As palavras contam. Este tipo de conjugação, por exemplo, ajuda a consolidar a ideia de que falar em luta de classes não faz sentido.

Afinal, um colaborador é um par, não um subordinado. E nesta lógica a relação empregador/colaborador é uma mera justaposição de interesses comuns entre duas entidades igualmente livres.

Chamar colaborador escamoteia a assimetria de poder que a relação patrão/trabalhador encerra, com que é no fundo o cerne da luta de classes.

Mas, agora pergunto, se os colaboradores dos jornais começam a usar uma linguagem que não agrada aos seus patrões, o que é que os espera?
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:34

As palavras contam, exactamente. E têm um significado muito preciso, como os jornalistas devem saber. Trabalhador é trabalhador, funcionário é funcionário, colaborador é colaborador. Cabe ao jornalismo competente aplicar a palavra mais rigorosa a cada situação, sem escamotear a realidade.
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De João a 28.05.2012 às 18:01

Concordo completamente Pedro. Só que essa denominação parece ter apenas um sentido. Já que ninguém anda à "procura de colaboração", quando muito de emprego...

E amanhã, o que vamos ter são mais 300 desempregados (ou seja mais trezentos que foram despedidos do trabalho), nos, por enquanto, Centros de Emprego.
A não ser que passem à denominação yuppie de “Centros da Colaboração”, ou “Incolaboração”! Ou será “Descolaboração”....

Ai esta “yuppagem”, que está a precisar de uma vassourada...
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:39

Há um filme recente, intitulado 'Nas Nuvens', que descreve bem essa triste realidade dos nossos dias. Com o George Clooney no papel principal. É um filme sobre o mundo do trabalho e as dramáticas consequências do desemprego - algo raro na arte contemporânea, que parece fugir desse tema como o diabo da cruz. Curiosamente, no ano em que se celebra o 150º aniversário do lançamento d' «Os Miseráveis», de Victor Hugo.
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De da Maia a 28.05.2012 às 18:15

Muito bom.
Não digo excelente, porque não quero diminuir o elogio!
Também hoje em dia "excelente" tornou-se tão vulgar que um "muito bom" já lhe é superior.
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:40

Tem toda a razão quanto à banalização dos superlativos. Já escrevi aqui sobre isso e voltarei a escrever, pois o tema não se esgota. Num mundo em que tudo parece "genial" ou "excepcional".
Agradeço as suas palavras.
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De jj.amarante a 28.05.2012 às 18:27

Concordo com a defesa do texto claro. Por outro lado, sentindo-se o autor deste post como um Sísifo, chamo a atenção para a falta de exactidão da sua representação dessa personagem, não há homem que consiga empurrar um pedra daquele tamanho por uma ladeira com aquela inclinação, teria que antes acarretar muita areia para ter um plano inclinado abordável. Devemos ser exactos nos textos mas também nas imagens.
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:46

Sísifo aqui como símbolo do absurdo, na conotação que lhe deu Camus. Só isso.
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De am a 28.05.2012 às 18:40

Em linguagem vernácula dos "colaboradores":

Fomos para olho da rua!
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:41

Isso mesmo. Em português castiço, infelizmente tão arredado da nossa escrita actual.
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De João Carvalho a 28.05.2012 às 18:55

Muito bem, compadre.
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:42

Obrigado, compadre. Um abraço amigo.
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De José Navarro de Andrade a 28.05.2012 às 21:30

Nem mais Pedro: porra para os eufemismos!
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:43

A propósito de eufemismos, acabo de ouvir o Helder Postiga dizer este autêntico colar de pérolas, Zé: «O jogo contra a Macedónia não foi o mais bem sucedido da selecção.»
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De lucklucky a 28.05.2012 às 21:48

RP e ou preguiça em tudo. É mais fácil fazer copy paste das palavras que vêm no documento da empresa.

Aqui está mais um exemplo de asneira grossa no título que mais uma vez não liga com o texto.
Quando se fala voltar aos mercados" é o mercado da dívida e não foi de isso de que Cavaco falou, nem sequer usou "voltar" ou seja onde se esteve no passado :

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/cavaco-para-voltar-aos-mercados-portugal-tem-de-deixar-os-sofas-de-lisboa
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De Pedro Correia a 28.05.2012 às 23:48

É bom que sejamos exigentes, Lucky. A verdadeira cidadania começa precisamente com uma atitude de exigência.
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De MA a 29.05.2012 às 08:34

Gostei bastante deste seu artigo. Trata um tema actual, de forma simples, directa e bastante interessante. Tudo o que é necessário para um bom artigo. Curiosamente, este tema é transversal a todas as filosofias económicas e a todas as sociedades. Como simples exemplo, posso-lhe dizer que, quando morreu o Samora Machel , o governo moçambicano, que tinha uma "economia centralizada" copiada da URSS, fez publicar um PRE (Programa de Reabilitação Económica) que, pela primeira vez pós-independência, permitia a "desvinculação" de trabalhadores... Já agora e a talhe de foice, dir-lhe-ei que corria em Moçambique de então, o rumor de que o Samora Machel tinha "sido assassinado" exactamente para poderem implementar o tal PRE , com o qual ele não concordava. Ele morreu em finais de 1986 e o programa foi implementado no inicio de 1987. Talvez coincidência, não acha? Não poderia ser, uma vez que o PRE era "apoiado" pelo FMI e pelo Banco Mundial. Ou será que poderia...? Desculpe-me o devaneio. Estou a fugir ao tema. Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 30.05.2012 às 01:23

Está desculpado, naturalmente. As palavras são como as cerejas... Cumprimentos retribuídos com todo o gosto.

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